EXPEDIÇÃO AO DESERTO: O NASCIMENTO DA FLORESTA
3 DIA III: PERTURBATIO ANIMI
É o início da noite do terceiro dia. Já deveríamos ter chegado a Pirâmide Dourada e meu plano não funcionou!
Pelo contrário, perdemos muito tempo parando porque a senhorita queria esperar por Alighieri a sombra das dunas enquanto se protegia do calor. Felizmente, enquanto o observava se aproximar, tive uma ideia melhor para solucionar nosso problema…
Embora estejamos atrasados, não posso dizer que foi uma perda total, já que vimos o reflexo do Sol ao longe, na direção contrária a do verdadeiro astro, certamente é uma indicação de que estamos bem perto de nosso destino – como se não bastasse tudo o que já aconteceu desde que iniciamos esta caminhada; começo a suspeitar que realmente há algo de sobrenatural nesse deserto esquecido por Deus – durante as últimas horas da caminhada de hoje, as areias sob nossos pés me pareceram mais quentes do que antes, quero dizer, sei que este deserto é escaldante e é realmente possível se queimar os pés quando os afundamos por muito tempo na areia, motivo pelo qual, devemos caminhar com certa velocidade, mas, eu ainda não havia me queimado de fato, o que veio a acontecer nesta tarde.Tenho certeza de que senti um súbito aumento da temperatura de um instante para o outro, assim como senti as solas de meus pés sendo cozidas dentro de minhas botas!
– Será que este aumento no calor tem alguma relação com o reflexo da pirâmide que vimos durante a tarde?
Tenho certeza de que sim, pra dizer a verdade, estive pensando muito sobre isso e confesso que…
…confesso que ascender uma fogueira é bem mais difícil do que parece, como aquele bronco conseguia fazer isso tão rápido?
Maldito Alighieri. Ele simplesmente desapareceu, precisei interromper meus registros do dia e acender o fogo para cozinharmos as batatas com nosso último gole de água. Perdi mais de uma hora combatendo contra aquela pederneira, mas, finalmente consegui e estou de volta ao meu diário, registrando estas palavras. Deixe-me ver, onde eu estava?
Acho melhor começar de novo!
Durante as primeiras horas do dia estivemos subindo por morros de areia fervente, subindo morros, e descendo morros, e queimando os pés… Enquanto andávamos, eu observava que Alighiere, a todo momento, apertava seus olhos em direção da senhorita Aura e sorria. Aquilo me incomodava muito, principalmente quando recordada as palavras anteriores do canalha:
– “Amanhã, não fique entre nós ou eu o matarei também; a deusa será minha!!!”
Elas reverberaram inúmeras vezes em minha mente, e, a cada repetição, me parecia que alguma força sobrenatural o fazia as ouvir também, pois, o homem ameaçava a dama com seu olhar cobiçoso em resposta as minhas lembranças, em seguida, me encarava de maneira sádica e desafiadora.
– Maldito seja, como ele conseguia saber o que eu estava pensando?
Mais ou menos na virada do dia, as dunas ficaram ainda maiores e nós tivemos de literalmente escalá-las – desta vez, queimando as pontas dos dedos no processo –Aproveitei a oportunidade e procurei aumentar a distância entre ele, e Aura e eu, visto que ele me pareceu ter muita dificuldade em escalar carregando uma mochila tão pesada nas costas como todo o nosso equipamento. Mas, infelizmente, Aura insistia para que não o deixássemos para trás – o que era minha intenção – tamanha era sua bondade.
O Sol pouco a pouco se tornava ainda mais insuportável, e não era minha imaginação, realmente estava ficando mais quente, tremendamente mais quente, até para um deserto;o vento parecia queimar nossos rostos enquanto passava. Devo ter começado a alucinar porque,por um instante, o tempo me pareceu escurecer, como se uma sombra escura se lançasse sobre todos nós com intenção de nos engolir; parecia viva, como se respirasse e seu hálito era quente como o fogo; eu teria desmaiado se Aura não tivesse chamado por mim e posto sua mão sobre meu ombro.
– Eu estou bem, senhorita, foi apenas o calor que causou uma ligeira tontura – falei, em resposta a sua preocupação e, ao mesmo tempo, percebendo que a senhorita não via a nuvem de pura umbra que havia passado sobre nós.
– Deve tomar mais cuidado, professor – respondeu ela – vamos descansar por mais alguns minutos, assim também damos tempo para Alighieri nos alcançar.
Sem dúvida alguma,Aura era uma pessoa de bom coração, tanto que precisei me esforçar para atendê-la em seus pedidos. Voltei meus olhos em direção a Alighieri, apenas para me espantar com o que veria: ele estava ajoelhado, enterrado até as coxas na arei escaldante, e sua posição era como se estivesse orando, bem no alto de uma duna com sua mochila jogada ao seu lado; continuei o observando perplexo e me concentrei para tentar ouvi-lo nos momentos de calmaria dos ventos. Ele estava chamando por uma deusa, e era muito estranho, ele realmente havia falado sobre isso no dia anterior, embora eu tenha pensado que se referia a senhorita Aura, achei que a estava comparando a uma deusa, talvez por sua beleza. Não era este caso, porque,se, de fato, Alighieri falava de Aura, então por que ele não lhe virava o rosto, por que, em vez disso, olhava suplicante em direção ao coração do deserto?
Preciso proteger a senhorita Aura deste pagão!
Tenho certeza de que o calor sobrenatural me ajudará, é uma providência divina em meu auxílio; esperarei até que estejamos ambos sobre a mesma duna, a mais alta que encontrarmos, então eu o jogarei da encosta que me parecer mais movediça possível. E vendo estas queimaduras em meus pés, mesmo estando protegido por um coturno resistente, tenho certeza de que eu não gostaria de afundar meu rosto nesta areia infernal, e é com isso que estou contando!
Espero que ela seja capaz de arrancar até a carne dos ossos de Alighieri!!!
Enquanto eu planejava a execução deste plano, a voz do clamor de Alighieri, amplificada pelas formas côncavas das dunas, pareceu evocar em mim as lembranças de minha primeira alucinação e novamente o ar se encheu do mesmo clamor agourento, mas era diferente dessa vez, claramente havia uma voz de mulher, era bela, porém fria e sem vida. A voz me pareceu responder ao chamado daquele que se ajoelhara no alto da duna.
Olhei desesperado para Aura, mas ela parecia não ouvir nada, na verdade, creio que também estava presa em sua própria fantasia, causada por uma insolação, sem dúvida, pois,subitamente seu olhar me pareceu como que,cheio de orgulho de si mesma ao ver que dois pretendentes a disputavam, era como se estivesse possuída quando falou:
– “Vi como tendes vos encarado, porventura, disputais por minha causa, magister?”
– É claro que não, senhorita, nada disso – tentei argumentar – apenas estou preocupado com o que ele possa lhe fazer, o sujeito é um mau-caráter, seria bom que nos perdêssemos dele o quanto antes…
– “Não necessitais acusá-lo; escutei-vos noite passada. De maneira alguma, me interessaria um homem tão carrancudo e marcado pelo Sol como ele. Quando lá chegarmos, sua utilidade acabará,por outro lado, é em vós que devo concentrar minha atenção…”
– Fico lisonjeado, senhorita, sei que vem da mais alta classe, e é por isso que tem estado confusa sob este Sol intenso, no entanto, o que ocorreu entre nós foi apenas um erro, um terrível erro…
Alighieri parou de rezar e a senhorita Aura de poucos instantes, sombria e austera, desapareceu, dando lugar a uma outra senhorita absolutamente transtornada e histérica:
– Como assim, c-como assim? De que está falando? … um erro? Como assim um erro?
– O que pensa que ocorreu entre nó…
Suas palavras se perderam sem serem pronunciadas até o fim enquanto ela apontava boquiaberta para o horizonte: era como houvessem dois sois no céu, um bem atrás de nós, indo em direção ao poente, mas, ainda irradiando um calor infernal, e outro brilhando com intensidade equivalente por trás das grandes dunas, certamente este era o reflexo da Pirâmide Dourada, finalmente, lá estava ela, a poucos momentos de caminhada de nós. Entretanto, não poderíamos caminhar noite a dentro e só o que pudemos fazer foi observar seu brilho desaparecer aos poucos. O único consolo foi sentir a queda de temperatura que o por de “dois sois” nos proporcionou!
Enquanto escrevi este relato, sentado em frente a fogueira que logrei ascender, procurei Alighiere na escuridão, mas foi em vão. Tomara que tenha caído de uma duna e quebrado o pescoço e, se isso não aconteceu, amanhã, eu farei acontecer!
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