Notas iniciais
Primeiro capitulo da minha nova fic. A fic é um pouco mais seria que a outra, e acho que está bem legal a história.

Espero que meus antigos leitores e novos gostem. Até mais ^^.

Meu nome é Satoko, tenho 16 anos e há 3 anos que moro em Paris. Antigamente eu morava em Okinawa, no Japão, junto de meu pai, pois minha mãe morreu quando eu ainda era muito pequena. Eu era muito feliz lá, tinha uma boa casa, muitos amigos, até mesmo um namorado, e tudo o que uma garota naquela idade podia querer. Porém, um dia meu pai recebeu uma proposta de seu chefe: "Nossa empresa quer expandir os negócios, por isso vamos criar uma segunda fábrica de calçados, na França. Se você for para lá, poderá se tornar o presidente da sede da França". Meu pai, sem pensar duas vezes, aceitou a oferta, e foi assim que cheguei à cidade Luz...


Naquela magnífica e maldita cidade foi onde tudo começou.


Ano de 2018 — Paris – França.


Em meio aos campos verdes e floridos eu corria, feliz e radiante. Era primavera afinal, eu tinha de aproveitar. Meu amor estava deveras feliz, sentia a felicidade emanando dele.

- Há há há! – Riu, enquanto mostrava seus belos dentes brancos. – Corra mais rápido!

Eu então acelerei o passo, queria me jogar em seus braços e apreciar seu calor.

- Te peguei! – Joguei-me em cima dele, nós dois então caímos no chão, e rolamos em meio a grama macia.

Ele olhava nos meus olhos, e eu olhava nos dele. Nossas caras de apaixonado entregavam nossos sentimentos:

- Você sabe que eu te amo, não é Satoko? – Ele falou, passando a mão levemente em meu rosto.

- Eu sei! – Sorri. – Eu também te amo, mais que tudo!

Comecei a aproximar meu rosto lentamente do dele, podia até sentir sua respiração, ela batia no meu rosto. Os lábios estavam quase se tocando, eu já podia até prever o seu doce beijo, quando...


– Satoko! Vamos, levante logo, o despertador já está tocando há minutos! — disse meu pai me empurrando.

– Ah? Quê?! — esfreguei os olhos, e olhei o relógio que marcava 7:35. — Já é tudo isso?! Tenho que estar na escola as 8:00! — Pulei da cama assustada.

– Eu sei. — ele disse, olhando o relógio de pulso — Anda logo que eu te levo na escola.

– Obrigada pai, você é meu herói.- falei rindo.

– Mas é só por hoje, não se acostume. Se apresse. — então meu pai saiu, fechando a porta atrás de si.

Eu levei a mão aos lábios, tinha sido apenas um sonho, infelizmente. Os lábios dele afinal não tocaram os meus, o seu doce beijo não havia me visitado. Fazer o que? É a vida, vamos seguir com ela.

Corri até o meu closet, peguei meu uniforme escolar, com aquele tom de cinza sem graça — saudades do seifuku do Japão — e o botei em cima da cama e já me livrando do meu pijama de bolinhas rosa, me dirigi para o banheiro. Me enfiei embaixo do chuveiro e o liguei na temperatura ideal. A água escorreu por todo o meu corpo, me deixando mais relaxada. Era tão quentinha... tão confortável... mas... eu não tinha muito tempo ali, logo meu pai estaria gritando lá embaixo e...

– Venha logo! — berrou ele, como o previsto

– Estou descendo! — mentira, eu ainda estava tentando me enfiar no uniforme escolar com o corpo úmido.

Peguei a minha bolsa sem tempo para conferir o material e desci as escadas penteando meu cabelo. Desci tão rápido que quase tropecei.

– 100 pontos! — falei, com os braços abertos como se tivesse acabado de fazer uma apresentação de ginástica artística, depois de me recompor da quase queda.

– Para de brincar e vamos. Não tenho tempo! — disse ele impaciente.

Nós dois fomos então para o carro, e que carro. Era um belo e caro, de mais de 80.000 euros. Que já era um valor absurdo, e com a crise que a França estava passando se tornava avassalador. O país estava numa crise econômica séria, 28% da população estava desempregada.

Greves tomavam as ruas, muitas pessoas nem ao menos possuíam um teto para morar. Era triste, mas era a realidade do País.

Logo depois do carro sair, no primeiro semáforo vermelho que pegamos, um Mendiant (Mendigo) veio até nós com sua boina estendida, era uma coisa bem previsível.

– O Monsieur não tem uma aumône (esmola) para me dar? Não como desde anteontem. — disse o senhor de idade já avançada, o rosto cadavérico de tão magro.

– Deixe-me em paz. — disse meu pai num tom de superioridade, fazendo um gesto com a mão para que o homem se afastasse.

Eu, no banco de trás, não conseguia ver meu pai sem que fosse pelo retrovisor, mas sabia que seus bolsos estavam estufando de tanto dinheiro. Fiquei revoltada, os olhos lacrimejantes do senhor me comoveram.

Tirei do meu bolso o dinheiro que ia usar para comprar os mangás da semana e mostrei para o mendiant, enquanto meu pai se concentrava no sinal fechado. O sinal abriu e antes que ele pisasse fundo no acelerador, joguei as moedas pela janela, para que o senhor as pegasse. O homem mexeu os lábios, num fraco "Merci" e então o carro partiu.

Poucos metros depois, virei a cabeça para trás, conseguindo ver o homem se agachar debilitadamente e pegar moeda por moeda. Fiquei feliz por ter ajudado alguém...

Mas o meu sentimento de “felicidade” durou milésimos e segundo.

Enquanto o homem recolhia as moedas, dois homens se aproximaram dele. Falaram alguma coisa a ele, e em seguida começaram a espancá-lo sem a menor piedade.

Eu engoli a seco e me aterrorizei com a cena, porém não pude fazer nada além de lamentar pelo homem, enquanto o carro se afastava.

Depois de alguns minutos, o carro parou em frente à construção radiante de minha escola, que era bem diferente das escolas públicas da França, que além de velhas, eram mal cuidadas e estavam prestes a despencar... Afinal, era uma escola de elite, particular, a melhor do país.

Eu desci do carro, me despedi de meu pai. Em seguida avancei escola adentro, querendo chegar o mais rápido possível na minha sala.

Com uma escola dessas, talvez eu não devesse reclamar de nada. e deveria me considerar uma garota muito sortuda... Mas a situação não era bem assim. Eu tinha do que reclamar.

– Ih! — estremeci ouvindo aquele tom de deboche irritante, vindo de trás de mim — Olha lá se não é a garota de olhos estranhos. Abre o olho japonesa. — em seguida, uma risadinha coletiva.

Olhei para trás pelo canto do olho. Ah, eram 3 garotas. Eu só sabia o nome da idiota do meio, Emmanuelle, que pareceu dar início ao esporte "zoe com a Satoko!"

"Esses olhos não são estranhos? Tão miúdos! Será que ela consegue enxergar algo?!"

"Tão pálida! E com esse cabelo preto escorrido já consegue ser uma boa Samara!"

"Ela fala tudo tão diferente! Não quero que chame meu nome de forma tão gozada! Aprenda a falar direito, Satoko!"

Todo mundo naquela escola me zoava, de diferentes formas, desde frases maldosas até a agressões físicas, diretas ou indiretas e eu não sabia o porquê. Aquilo era ijime... Não, o termo que ficou mais conhecido mundialmente era "bullying", não é mesmo?

– Ficou muda, Satoko? Além de enxergar mal, agora é surda? — debochou Emmanuelle e mais riso coletivo em seguida

– Fica quieta! — era o que eu queria dizer, mas nada saiu de minha boca.

– É melhor ela ter esse lindos olhos puxados do que ter essa sua pança enoooorme. Fecha a boca francesa!

E então senti uma mão sobre meu ombro. A garota branca, de cabelos loiros até os ombros e de boina vermelha atrás de mim, era minha única amiga em toda a França, ou como eu gostava de pensar, minha única salvação naquela escola. Seu nome era Pietra, ela era divertida e engraçada, sendo a única pessoa que me defendia naquela escola.

As três garotas olharam Pietra de cima a baixo ao mesmo tempo, com um olhar de desdém e se retiraram. Talvez estivessem procurando algum ponto fraco para usar contra ela, sem sucesso. Além das características citadas, Pietra era magra e tinha uma boa estatura, dentro do padrão de beleza e além disso, era bem confiante, segura de si mesma, coisas que faltavam em mim, que como boa japonesa, se constrange facilmente.

– Idiotas... — praguejou ela, ajeitando a boina sobre a cabeça, numa pose de durona — Não liga pra elas, Satoko! É tudo inveja.

– Obrigada, Pietra — murmurei, abraçando-a. Eu a admirava muito.

– Que nada. É para isso que servem as amigas, não é? — ela sorriu e retribuiu o abraço.


Nós duas fomos até a sala de aula, ela já estava bem cheia. Pietra foi para sua carteira e eu para a minha, que eram vizinhas, no meio da sala. Percebi que havia duas garotas olhando para mim, e ambas estavam rindo, cochichando.

"Seja mais confiante. É só inveja!" pensei comigo mesma e então sentei-me na minha cadeira, tentando manter uma postura casual.

Um "POF" fez a sala silenciar e todos olharam para mim. Lá estava eu, caída no chão ao sentar na cadeira. Daquela perspectiva, consegui ver que um dos pés da cadeira tinha sido arrancado. Não só as garotas, mas a sala inteira caiu na gargalhada.

Pietra veio até mim e me estendeu a mão:

– Não liga não — segurei em sua mão, me levantando — Um dia elas vão pagar pelo que fazem. — limpei a sujeira do uniforme com as mãos, e Pietra foi atrás de outra carteira para mim.

Durante o resto do dia de aula, suportei o que todo dia eu suportava. Xingamentos, gestos feios e o que mais viesse a mente daquelas garotas, mas graças a Deus eu tinha Pietra, sem ela eu não sei se conseguiria suportar tudo isso.

Eu só me perguntava em que dia todas elas pagariam por isso.


–x-x-x-x-


A aula acabou, e nos portões da escola me despedi de Pietra. Ela foi pra casa e eu fiquei ali esperando Françõis.

Françõis era um homem loiro, esbelto, mais velho que eu e que trabalha na empresa de meu pai e por isso este o permite me buscar. Ele está sempre arrumado, é inteligente e bem sucedido — o funcionário favorito de meu pai — e eu seria cega se dissesse que ele não era bonito.


Apesar de considerá-lo um amigo, Françõis já demonstrou que não deseja só minha amizade e sim algo mais acima disso, sempre dando investidas, as quais eu não permito. Ele pode ser um bom homem, mas... não sei se quero me relacionar com outra pessoa. Eu nunca me esqueci de Makoto, meu namorado do Japão, sonho em um dia estar ao seu lado novamente.

– Satoko! Tudo bem com você? Como foi a escola? – perguntou ele, enquanto eu me ajeitava no banco do carona e colocava o cinto de segurança.

– Foi como sempre, aquelas garotas não me deixam em paz.

– Você é bem forte por aguentar essas garotas todo santo dia. Gosto disso em você. — ele disse, ajeitando o retrovisor para checar a aparência dos seus dentes e de sua boca.

– Não sou forte. Pietra é quem me mantém de pé. — respondi, enrolando uma mecha do meu cabelo nos dedos, fingindo não ligar para o que ele dizia, a fim de acabar com uma cantada, antes mesmo que ela nascesse.


Françõis acertou a marcha do carro e abaixou o freio de mão.

– Você devia se manifestar mais... em tudo. — murmurou, deixando a mão que estava sobre o freio subir e tocar minha coxa.

– Obrigada pelo conselho. — sorri, fingindo inocência e ao mesmo tempo, afastando sua mão dali. — Vamos logo, estou com fome.

E dada a primeira investida falha, conversamos mais normalmente, e depois de 15 minutos, o carro já parava novamente, em frente aos portões de casa.

– Obrigada pela carona! Até amanhã, Françõis — dei um beijo em sua bochecha como agradecimento, uma forma de recompensá-lo por todas as suas tentativas frustradas do dia, e desci do carro.

– Que garota difícil...- ouvi ele falar.

Abri o portão e depois a porta de casa e para minha surpresa, tudo estava escuro. Cheguei à hipótese de uma queda de energia na região, mas as luzes dos vizinhos estavam acesas e havia um ponto de luz na mesa da cozinha, onde meu pai se encontrava, com pilhas de papéis ao seu redor.

– Pai? — chamei, mas ele continuou a examinar a folha em suas mãos com uma expressão de raiva. — Ei...

– Droga! — urrou ele, rasgando o papel e colocando as mãos na cabeça, como se sofresse de alguma dor. — Droga...!

– O que foi pai? Aconteceu alguma coisa?- perguntei me aproximando dele.

– Aconteceu tudo! — ele bateu na mesa e eu me encolhi automaticamente, assustada com sua reação — A merda da empresa está numa crise! Se continuar desse jeito, ela vai falir! Eu avisei aquele imbecil que não era boa ideia abrir uma fábrica num país podre como esse! Sou um burro mesmo!

Pude ver o desespero em seus olhos. Meu pai era louco por dinheiro, não conseguia se imaginar sem seu conforto e luxo, imagine cair em extrema pobreza. Com certeza, aquele era seu pior medo, o medo de não ter seu bolso cheio de euros, como em todas as manhãs.

Recomposta do susto, umedeci os lábios e tentei interagir com ele novamente:

– Não se preocupe. — coloquei uma das minhas mãos sobre seu ombro. — Tenho certeza de que o senhor vai conseguir sair dessa.

– "Sair dessa"? "Sair dessa", você diz? — ele se levantou, irado. — O que você entende disso?! Eu que sou o presidente. — gritou ele, me empurrando — Saia daqui!

– Mas... Pai... — insisti mais uma vez. Ele estava alterado.

– SAIA DAQUI! Saia! Eu preciso pensar!

Me levantei, sentindo as pernas trêmulas e corri para o meu quarto, trancando a porta atrás de mim, antes que as coisas ficassem piores.

– Minha empresa... Meus negócios... Meu dinheiro...! — foi o que ouvi do andar de baixo, num tom choroso. Era a primeira vez que eu via meu pai assim: zangado e, ao mesmo tempo, desesperado.

Peguei o controle remoto em cima do criado mudo e liguei a TV para tentar me distrair — e ignorar a voz de meu pai. Caiu no canal 7, em um jornal policial, o ancora estava dando a notícia de um assassinato:

– Foi encontrado hoje pela manhã, um corpo de um morador de rua boiando no Rio Sena. Joseph-Louis, de 67 anos era morador de rua há vários anos, e ficava pedindo esmolas pelo centro de Paris. — uma foto do homem que fora morto apareceu, fiquei chocada. O homem que foi morto era o mendiant que tinha me pedido dinheiro de manhã. — A polícia suspeita que o homem foi assassinado por dois rapazes e a autópsia mostra que, provavelmente, ele tenha sido espancado até a morte antes de ser jogado no rio... — desliguei a TV.

Me senti culpada pela morte do senhor. Ele morreu por minha culpa, se eu não tivesse dado o dinheiro ele não teria sido morto de forma tão cruel.

– Não. Eu não tenho culpa... eu não fiz nada...- murmurei a mim mesma, me enfiando debaixo dos cobertores para dormir, para que aquele dia acabasse logo.

Eu pensava, ou queria acreditar, que o dia seguinte seria melhor, que tudo estaria bem com a minha rotina de sempre e que esse dia seria apenas uma recordação ruim no futuro.

Mas... foi apenas o começo.