(está em mim)

Enquanto caminhavam de volta para o ônibus, a única coisa em que Lou conseguia pensar era que alguma coisa crescia dentro dela. Era uma espécie de fome febril que tornava seu corpo estranhamente enrijecido, movido apenas por um impulso, um impulso secreto e desconhecido que a fazia mover um pé após o outro, por mais que não entendesse como, tampouco por quê.

Quando tinha sete anos, sofreu um acidente no parquinho e ficou desmaiada por quase um minuto. Lembrava-se muito bem da sensação de estar afundando enquanto o mundo ao seu redor transformava-se em um borrão. Agora, revisitava o sentimento de deriva e de imprecisão que, no entanto, parecia muito mais forte.

À medida que caminhava, sua consciência se tornava mais turva e muitas coisas pipocavam em sua mente, lembranças que poderiam ou não ser reais. Recordava seu primeiro aniversário com riqueza de detalhes: o bolo de morango, a decoração com fotos da Barbie e de suas irmãs e os chapéus pontudos de que tanto gostou. Da mesma forma, conseguia visualizar cada pedacinho de seu primeiro dia de aula no jardim de infância, da saída meio desajeitada de sua mãe da sala da Sra. Albright e do lanche sob a sombra de um carvalho. Lembrava-se, ainda, do dia em que caíra da bicicleta e quebrara o braço direito, conseguia ouvir o mesmo baque surdo que ouviu naquele dia quando seu corpo de criança chocou-se contra o asfalto.

Essas e outras tantas lembranças sobrepunham-se umas sobre as outras e o turbilhão formado em sua mente a deixava sem qualquer percepção de tempo ou de espaço. Mesmo assim, a certeza continuava lá e o vazio em seu peito se apertava mais e mais.

(está em mim)

Via Luke e os meninos alguns passos à frente e ouviu quando um deles se voltou para ela e perguntou se tudo estava bem. Pela expressão no rosto dele, soube que o murmúrio que saiu de seus lábios era incompreensível e uma nova onda a afastou ainda mais da costa. Tentava se agarrar a um fiapo de luz, a qualquer coisa que a ajudasse a se manter ali, contudo, a ideia de se entregar ao vazio soava deliciosa, pois em algum canto de si, sabia que isso significaria descanso e tranquilidade.

Caminhar começava a doer. A dor começava a borbulhar como raiva. De repente, algo se rompeu completamente dentro dela e foi como prender a respiração por muito tempo.

“Lou, você está bem?”, Kieran voltou a perguntar, aflito.

Lou estava parada na estrada, os olhos vidrados em algum ponto no horizonte. O sangramento de seu nariz havia parado e a pele era uma massa roxa e disforme salpicada de sangue seco. Seus lábios também estavam inchados e o cabelo suado escorria pelo rosto em uma cascata rebelde. Ela abria e fechava a boca, como se estivesse prestes a falar alguma coisa e, então, se arrependesse.

“Sr. Cavanaugh”.

Luke voltou-se para Lou e a amparou durante o restante da caminhada. Estava cansado e começava a ficar irritado também. Imaginava que a garota estava em estado de choque e não tinha como culpá-la. Ele mesmo se esforçava para esquecer a expressão dos rostos que vira no porão e estranha sensação que acompanhou. Torceu para que o ônibus estivesse como novo quando chegassem, mas de longe percebeu que Miguel ainda não conseguira trocar o pneu.

O capô estava levantado e um fumaça rala saía do motor. Carter e Moon olhavam para baixo e discutiam sobre alguma coisa, enquanto os demais permaneciam à beira da estrada. Miguel ainda estava ajoelhado próximo à roda e aparentava dificuldade para retirá-la.

“Encontraram alguma coisa?”, Carter questionou assim que viu o grupo se aproximar. Kieran e os meninos relataram a expedição e Luke caminhou até um Miguel exasperado assim que ajudou Lou a se sentar. Com a voz muito baixa e controlada, perguntou:

“Problemas?”

Miguel olhou para o professor e balançou a cabeça.

“Eu já troquei pneus antes”, ele se levantou e limpou as mãos sobre a calça cáqui. “Verifiquei tudo antes de sairmos, inclusive os equipamentos. O macaco hidráulico não subiu como deveria e o desforcímetro parece gasto, por mais que não esteja. É como se alguma coisa não quisesse que nós saíssemos daqui”, Miguel riu, desanimado.

Luke sentiu-se arrepiar novamente, revisitado pelo mesmo calafrio que o envolveu dentro da cabana. Os corpos, o sangue e agora o ônibus. Não poderia ser um alinhamento macabro orquestrado por uma força sombria, ou poderia? Luke nunca fora um homem religioso, mas gostava de ter alguma coisa em que acreditar. Todas as noites, realizava uma prece rápida antes de dormir e tentava ler pelo menos um versículo da Bíblia por semana. Instintivamente, levou uma das mãos aos lábios e começou a sussurrar sem nem perceber.

(Pai nosso que estás no céu)

Do outro lado, Kieran tentava acalmar os ânimos dos colegas após o relato. Não pensara em omitir o fato de que haviam encontrado corpos mumificados e sangue seco, mas não queria causar qualquer tipo de pânico. Nico, por outro lado, tinha outra percepção acerca do acontecimento. Fez questão de contar tudo de forma minuciosa e, inclusive, levantar a hipótese de que o responsável por tamanha barbárie poderia muito bem ainda estar por ali.

(...seja feita a vossa vontade...)

Carter e Moon continuavam interessados no motor e não deram muita importância à conversa de Nico que, para eles, soava como conversa fiada. Carter falava alguma coisa sobre água e radiador e Moon argumentava que o motor de um ônibus era muito diferente do motor da minivan com a qual ele ia para escola quando Lou se aproximou com passos lentos e trôpegos.

Os grupos pareciam isolados agora e ela transitou entre eles como um fantasma, sem ser percebida. Miguel ainda lutava com suas ferramentas, Nico continuava falando com os colegas e Moon permanecia discutindo com Carter, ela apoiada sobre o compartimento do motor, as mãos tocando o metal quente do veículo, enquanto Luke concluía sua prece com uma urgência crescente.

(...mas livrai-nos do mal...)

Antes que o amém pudesse ser proferido, o primeiro grito rasgou a manhã.

Moon cambaleou pela estrada, o braço jorrando sangue por todos os lados, e alguns segundos se passaram antes que todos percebessem que já não havia dedos em sua mão.

Luke correu para ampará-la, mas interrompeu seus movimentos quando notou que Lou segurava o capô do ônibus com uma das mãos e uma chave de rodas com a outra. E a coisa mais desconcertante de todas era que ela sorria.

“Ela fechou a tampa, ela...ela”, Carter se arrastou para longe do ônibus, falando sem parar e explicando como tudo acontecera tão rápido: Lou se aproximara e fechara o capô com força, antes que Moon pudesse retirar a mão, e fizera tudo de forma deliberada. Não fora um acidente.

Lou arrastou os pés, que agora se movimentavam com mais dificuldade. Sua pele estava muito mais pálida e os olhos pareciam brilhar como dois vagalumes.

“Lou, por favor, solte essa chave”, Luke interveio, mas ela não pareceu ouvir. Continuou caminhando, sem olhar para nenhum deles em específico, ainda que seu olhar parecesse ferir a todos.

Ela levantou a chave e tentou atacá-lo, mas Luke deu um salto para trás no último instante.

“Lou, escute...”

Uma nova tentativa, dessa vez contra Carter, que ainda se recompunha, mas ele conseguiu desviar também.

Por fim, ela ergueu a cabeça e encarou os colegas. Luke inspirou profundamente com a certeza de que o que olhava para eles não era Lou, não mais. O sorriso ia de orelha a orelha e os olhos, Luke nunca esqueceria aqueles olhos. Ela abriu a boca e sua voz soou como um trovão em seus tímpanos.

“Todos vocês vão morrer esta tarde”, disse, e então tentou atacá-los novamente.

Os golpes da chave cortavam o ar com maestria impossível e Luke gritou para que todos entrassem no ônibus. Os alunos foram rápidos e logo estavam encolhidos no fundo do veículo, enquanto Luke, Kieran, Simon e Nico distraíam a coisa que um dia fora Lou e que agora era consumida por uma fúria fervorosa.

“Entrem!”, Miguel gritou. “Entrem e vamos fechar a porta!”

Os remanescentes desviaram de novos golpes e entraram no ônibus, seguidos por Miguel, mas antes que a porta fosse fechada, Lou cravou uma das pontas da chave em sua panturrilha e o arrastou para fora.

Os gritos do homem misturaram-se ao choro descontrolado que vinha dos fundos do ônibus. Luke ficou paralisado e, nesse meio tempo, Lou arrancou a chave da perna do homem e o golpeou a cabeça uma, duas, três vezes.

Quando ela ergueu o rosto novamente e seus olhos encontraram os do professor, ele recobrou a consciência a acionou a alavanca que cerrava as portas do ônibus.

E então, recomeçou a rezar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.