EQUILÍBRIO (o Grand Finale)
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu já fui pra faculdade um milhão de vezes, mas andar pela faixa de sua entrada é estranho. Claro, dado ao desastre do último dia de aula, é claro que continua estranho. Inclusive, saí literalmente carregada e direto pra emergência. É um dia que não tenho como apagar e nem sei se deveria. Tem coisas sobre esse dia também que continuam nebulosas e sigo sem saber se quero tê-las esclarecidas.
Mas encarar o prédio e a volta das aulas me dá a sensação de que não tive tempo o bastante para deixar isso para trás. No entanto, sigo em frente. Sigo com a Iara grudada em mim o tempo todo, como prometido, e com o pé bem melhor em termos de passada. Às vezes só alongo um pouco quando tô parada.
Estava cedo, porém, já havia anoitecido. Encontramos Daniela logo mais, sentada ao muro baixo ao pé da rampa. Ao nos ver, ela coloca as mãos na cintura sem sair do lugar, chateada.
— Já tava achando que vocês tinham se perdido! Faz horas que eu ligo, seus chatos!
— Pelo jeito, os telefones não estão funcionando de novo.
Brinco de forma boba, mas daí a Iara me aperta mais e eu me arrependo do modo com que falei. Porque não foi o nosso combinado. Isso porque na hora de descer do carro, ela voltou a me perguntar sobre o meu estado.
- Tá bem mesmo, Mi?
- Se eu fizer piada, tu vai me bater?
- Vou.
Entrelacei seu braço no meu outra vez, pra ficar junto de mim o tempo todo.
- Então vamos nos concentrar nas coisas boas. Tô bem, só meio incerta, porque não poderia imaginar o susto de vocês. Teria tranquilizado todo mundo antes se pudesse. Mas agora vamos entrar no prédio e cumprir nossa missão do dia. Hoje eu tô comprometida com as metas e a meta é te fazer ser oficialmente uma estudante de Administração. E claro, sair para comemorar.
Sávio, que rodeava o carro, aprovou.
- Concordo com a Lena. Vamos nos concentrar nessa meta.
Daniela logo nota o espírito de Iara – ou, melhor dizendo, a falta dele.
— O que é que a I tá com essa cara, hein? Cadê a animação, a ansiedade?
Antes que responda, esclareço só o bastante pra segurar a situação.
— É que tivemos umas situações meio doidas e complicadas hoje no trabalho. Explico depois. Vamos apenas focar na boa de hoje. Cadê o Bruno?
— Não aguentou esperar e foi no banheiro.
— Então bora bora se matricular!
Bato palmas para incentivar e dar mais ânimo a essa empreitada. Dani logo pula pro chão e cumprimenta o Sávio. Também puxo a Iara para todos subirmos a rampa. Vez que ela continua caladinha, instigo-a mostrando algumas coisas do local, sendo sua guia pelas dependências.
— Ali já é a recepção, onde o famoso Luciano trabalha.
Daniela acha graça dessa apresentação.
— Não sei mesmo como ele ainda trabalha aqui de tanto que ele continua trocando as bolas.
Acabo defendendo-o sem notar.
— Dizem que ele tem umas habilidades diferentes e no atendimento que ele se perde.
É inevitável jogar uns verdes de vez em quando entre a galera pra ver se alguém diz algo sobre os trabalhos escusos do Luciano. Até hoje ninguém acusou nada. Acho que nem o Max soube dessa, porém, não tenho como ter certeza.
De repente me dá até vontade de falar isso aos meus amigos, contudo, acho que pra essa é preciso cautela. Principalmente porque é um segredo de outra pessoa.
Daniela responde divertida, já abrindo a bolsa para pegar sua carteira de estudante.
— Só se for umas habilidades beeeeeeeeem escondidas.
Já o Sávio, ele faz uma sugestão mais generosa.
— Poderiam trocar ele de setor então.
Ao chegar nas catracas, atravesso primeiro para poder filmar a Iara passando pelo dispositivo, usando o seu cartão de entrada pela primeira vez. Só assim que ela abre um sorrisinho, o primeiro depois da tragédia do dia. E ri mais leve quando eu digo pra ela passar de novo. O guardinha ali até topa tirar uma foto nossa.
Passando a parte frontal do pátio, que damos de encontro com o Bruno.
— Até que enfim, seus tratantes!
— Boa noite pra ti também, bonitinho.
— Bonitinho não, bonitão. Saca só essa cabeleira!
Bruno penteia os cabelos com a mão, jogando a franja para cima, todo jeitoso.
Implico porque sim.
— Tá, bonitinho, bora logo.
— Melhor dar um tempo, porque ainda pouco fui na secretaria espiar e tem uma leva de gente se registrando.
Havia uns poucos alunos por ali, bem espalhados, alguns grupos se reencontrando como a gente. De modo geral, para os padrões do dia a dia das aulas, estava bem quieto e tranquilo. E já que tem um bocado de gente ocupando a vez, tenho uma ideia pra preencher nossa espera.
— Então vocês vigiam a porta que a gente tira umas fotos com a I.
Aponto para os meninos nessa incumbência e o Bruno provoca de volta.
— Tá vendo isso, Sávio? Fomos reduzidos a vigia. Nem nos chamam pra foto.
Meu amigo dá de ombros, risonho.
— Elas estando felizes, eu tô feliz.
Bruno agora implica com o outro.
— Aff, não acredito que vocês ainda tão na lua de mel.
Pra atazanar ele, a Iara dá um soquinho no seu ombro e passa por mim pra chegar no namorado e lhe dar um beijinho. Um beijo curto, mas carinhoso de derreter eu e a Daniela em fofura. Por fim, a Iara puxa o Sávio e vai nos empurrando pra ir para os arbustos do jardim pra tirar foto. Não deixa de convidar o outro também.
— Vem, Bruno!
Daquele ponto dava pra checar a porta da secretaria de vez em quando, então por um tempo, além das fotos, fomos apontando as salas por onde já passamos. Indicamos também outros locais, como a biblioteca, a sala da xérox, o almoxarifado, a sala dos professores, a sala da limpeza, a sala dos seguranças. Fabiano por acaso sai da secretaria para o almoxarifado e também apontamos ele como o diretor. Ela o conhecia só de vista mesmo.
Um tempinho depois Fabiano sai de novo e parece nos ver. Quando para no seu caminho e acena rapidamente, ele me parece ter uma expressão diferente. Tipo, pensativa. Como que com a cabeça longe, mas ao mesmo tempo atento a nós. Acho diferente porque ficou como se ele quisesse vir até onde a gente tava, porém ele é interrompido por uma ligação.
Com isso, comento como quem não quer nada.
— Acho que as ligações já voltaram ao normal, ó.
Mais alunos saem da secretaria e eu puxo logo a galera para ir para lá, o que é meio dificultoso, porque a Dani tava tirando outras mil fotos do casal e o Bruno ficava sacaneando, fazendo poses e caretas ao fundo pra zoar, e termino puxando a I daquele cenário para os outros logo acompanharem. Teríamos todo um semestre pra tirar fotos, já a vez de atendimento seria bem parca, senão passaríamos a noite ali e eu quero poder seguir com o plano.
Damos as honras à Iara, para ser a primeira do grupo a se matricular. Aliás, fazemos o maior auê enquanto ela assina as disciplinas com a dona Paloma, que entra na onda com palminhas e boas-vindas. Dali fazemos nossos registros e tanto Dani quanto Bruno fazem drama por ser o último período meu e do Sávio. Também porque teríamos menos disciplinas do que eles e, em tese, teríamos mais tempo livre – livre bem entre aspas, pois a monografia tá aí pra ocupar todos os nossos neurônios surtados.
Sem fazer meu velório antes do tempo e sendo a boa guia, aproveito pra mostrar a porta ao lado, onde fica o departamento de Djane. Glorinha não está em sua mesa, apenas a nova assistente de Fabiano, de quem a professora me falou outro dia. Vez que está ocupada, só indico a sala de Djane e mais a fundo a porta do diretor.
Na hora de liberar a ala para um novo grupo de alunos, Dani ainda tira mais uma foto da gente perambulando. Quando abaixa o celular, faz um pedido:
— Antes de a gente seguir o sensor da Iara, a gente pode ir lanchar? Tô a fim de um hamburguer hoje.
O sensor no caso era a nossa famosa brincadeira de dizer uma combinação de coordenadas – entre direita e esquerda – e ir parar num lugar aleatório para apenas estarmos juntos. Dessa vez, no entanto, iríamos de carro mesmo, porque voltar caminhando era sempre um arrependimento.
Sávio acena para o centro do pátio.
— Tem o da lanchonete.
Ficamos assim acertados. Ao pegarmos uma mesa, me afasto um instante pra ligar pro Vinícius, para saber por onde estava, se estaria perto. Já a Dani e o Bruno, eles vão para o balcão para fazer nosso pedido.
Logo que sento, os dois voltam pra mesa, grudados, e a Daniela não solta o namorado dela de imediato. Pelo contrário, inspira profundamente o perfume do Bruno direto do pescoço dele e de um jeito muito curioso. Meu amigo palhaço só movimenta as sobrancelhas, dando a entender coisas. Provoco do mesmo jeito que ele tava fazendo no início, falando do meu casal – ambos casais são meu casal, na verdade.
— Vocês nem esperam a gente terminar de comer pra se agarrarem, né?
— É que amo esse perfume dele, gente. Mas só eu posso sentir!
Levanto as mãos em rendição, porque, se pudesse, faria o mesmo com o Vinícius. O que me faz lembrar do presente de aniversário dele que fui esperta de pedir pela internet ainda no mês passado e chegou sexta-feira. Só falta embrulhar mesmo. Dessa vez fui além dos sentidos para surpreendê-lo.
Ao paralelo real, Iara também surpreende imitando a Dani, cheirando o pescoço do Sávio, mas, antes que a gente possa zoar mais um pouco, Fabiano se materializa por trás desses dois e a Iarinha fica toda sem graça.
— Boa noite, senhores e senhoritas.
Eu engulo uma risada pra cumprimentá-lo, educada, e os outros ecoam junto.
— Boa noite, Fabiano.
— É muito bom vê-los por aqui, meus jovens.
O diretor diz isso de um jeito, num sorrisinho maroto não lá muito típico dele.
— Tenho uma proposta pra vocês. Posso me sentar?
~;~
Fabiano fica na cadeira que seria do Vinícius se ele estivesse com a gente; no caso, do meu lado. A frente de nós estão os meus amigos, tão atônitos quanto eu de receber o diretor assim. Ele parece bem confortável de nos abordar.
Mas ao olhar bem pra Iara, Fabiano tenta reconhecê-la. Aperta os olhos e tudo.
Sávio a apresenta oficialmente.
— Essa é a Iara, ela vai iniciar os estudos dela aqui.
O diretor oferta a mão a minha amiga, que aceita acanhada.
— Seja muito bem-vinda, Iara. Não sei dizer ao certo, mas já te vi por aí, não?
— Acho que sim. Já andei por aqui algumas vezes e também no outro dia o senhor esteve na minha casa.
— Na sua casa?!
— É, eu moro com o meu avô, que é o sogro de Djane.
— Ah sim, sim. Acho que te vi de relance ao chegar lá. Espero que goste de nossa instituição. E é por conta disso também que vim pensando numa proposta aos seus amigos.
Acho que não só sou eu que prende a respiração nessa.
— Bom, meus queridos, faz um tempo que estou em busca de ideias para o começo das aulas e estou precisando de algo que seja integrador, sabem? O fim das aulas no ano passado causou um estardalhaço enorme e quero poder limpar essa imagem. Ademais, seria ótimo poder ajudar os novos alunos a se ambientarem. E ainda pouco, olhando vocês, tão unidos, me veio um clic.
Oh, oh, vem coisa aí!
— Estava aqui considerando algo como organizar um evento de boas-vindas. Mas não somente isso. Algo como uma aula inaugural, não sei ao certo. Eu sei que geralmente os formandos ou veteranos dos outros períodos organizam festas e às vezes trotes e quero algo dinâmico, não tão formal. Algo que mostre como somos uma instituição forte e parceira ao mesmo tempo. Então... Vocês acham que poderiam me ajudar nisso?
Olhando para frente, eu vagueio pelos rostos do meus amigos, sem ter o que dizer, assim como eles também.
— Seria algo de uns três dias apenas, com vocês articulando as atividades.
Daniela arrisca uma pergunta:
— Tipo uma monitoria?
— Semelhante, sim.
— Valendo crédito de monitoria?
— Posso conseguir isso pra vocês. Menos para a senhorita Iara ali, pois como ela é caloura, vai ter que participar como estudante caloura.
Daniela cochicha algo com o Bruno que quero poder ouvir e fico só na minha, sem ter ideia do que fazer perante o diretor bondoso demais, sentado conosco. Quando passo o olhar pelo Sávio, ele também tá meio receoso.
— Se ajuda na decisão de vocês, poderia ser uma apresentação no primeiro dia e nos outros dias, alguma dinâmica, com a programação totalmente feita por vocês. Podem usar os professores da casa, podem usar nossos equipamentos, propor atividades e até o tal dos trotes solidários. Fica bem a critério de vocês mesmo. Mas, claro, tudo precisa passar por mim pra aprovar. De qualquer forma, tudo é discutível.
Daniela arrisca mais uma vez, só que voltada pra mim:
— O que acha, Lena?
— Hãaa... eu já tenho bastante crédito. Acho que até já bati a cota.
Fabiano me olha um pouco descontente com essa.
— Entendo. Como seria algo só pra abertura, não iria atrapalhar muito. Mas, vocês que decidem. Posso tentar com outros alunos. Pensei em vocês porque, bom, já trabalhamos juntos outras vezes e confio em todos.
Daniela lança a pergunta pro nosso amigo da outra ponta:
— E tu, Sávio?
— Acho que a gente pode tentar articular algo. Quer dizer, fazer um evento especial. Valendo crédito, claro.
Nessa hora parece que a Iara e a Dani combinam de olhar pra mim e fazer uma carinha pidona. Checo o Bruno e ele dá de ombros. Logo ele, que sempre reclamava das atividades acadêmicas, bate o último prego nesse caixão. Ou melhor, o último alfinete à panfletagem.
— Poderia ser nosso último evento juntos.
Com essa, coloco os cotovelos à mesa e apoio a cabeça às mãos juntas. Viro apenas um pouquinho pro lado do diretor.
— Posso ter um tempinho pra pensar?
— Tudo bem. Mas vocês três topam, certo?
Daniela confirma, animada.
— Topo!
Bruno, por incrível que pareça, soa interessado.
— Tô dentro.
E o Sávio só dá um sorriso para a namorada, validando o convite.
Não acredito que esses pilantras vão me fazer topar isso.
~;~
— E agora já?
Daniela solta essa assim que abro a porta do carro. Vislumbro minha amiga e sua pressão psicológica e tento driblar.
— Já não basta a chantagem emocional do Bruno?
— Não. Mas agora já?
Ela insiste, com graça, bem palhaça. Desço do carro e replico no mesmo estilo.
— E eu lá tenho cara de Shrek?
Bruno, mais atrás, provoca junto.
— Talvez de Fiona.
— Se me perguntarem de novo, vocês vão ver o que é uma ogra!
Vinícius, que terminava de rodear o carro para nos encontrar, olha de mim pros outros, total perdido na conversa.
— Tá, e ninguém vai mesmo me contar do que vocês tão falando?
Ajustando minha bolsa transversal ao corpo, respondo o namorado.
— Fabiano fez um convite pra gente. Pra uma apresentação na primeira semana de aulas. Daí esses bonitinhos aceitaram e eu continuo pensando se sim, ou se não. Enquanto isso, estou sofrendo chantagens desses palhaços aí.
Iara, que aparece logo mais, já que o Sávio havia estacionado mais pro outro lado, interrompe nossa rodinha, porque também aponto pra ela.
— Desses palhaços vírgula, porque eu nem posso participar. Sou caloura, lembra?
A cara dela nem treme no cinismo. Cruzo os braços entregando todo mundo sim.
— É, mas fica me olhando e me instigando junto.
Sabida que ela é, minha amiga faz charme.
— Mas não era o meu dia? Tu que disse.
Antes que eu possa replicar de novo, Daniela solta:
— Eu só sei que já tive umas cinco ideias dentro do carro. A gente podia faze...
Nesse momento, Sávio tapa os ouvidos da namorada e até eu rio, mesmo que segurando o riso. Por consequência, Dani bate na própria boca. É, eles estão levando a sério mesmo essa história.
— Eita que esqueci que a Iara não pode saber!
Bruno também avalia.
— É, tem que ser surpresa. Mas se bem que é bom ter uma agente dupla no time.
— Enquanto vocês se viram pra formar um plano, vamos seguir com o que já temos. No caso, aproveitar a noite. Bora ver as barracas.
Demando e saio andando para a entrada oficial na pracinha.
O senso de direção de Iara que nos trouxe nessa noite. Como um rito de passagem, depois do lanche em grupo, giramos Iara lá na calçada da faculdade e fizemos com que dissesse umas coordenadas. Tudo anotado, partimos para a saga. O carro do Sávio guiou os outros dois motoras. Para não ter roubalheira, eu fiquei em ligação com a Iara, conferindo cada volta.
Viemos parar perto de um condomínio de prédios. Como era um local que não tinha nada, fomos seguindo mais um pouco e encontramos uma festinha de bairro. Algo organizado por uma igreja, acho, porque vejo algumas pessoas na escadaria também com uma bancada de artigos. Era semelhante a um parque de diversões, só que sem os ditos brinquedos. Tinha barraca de um tudo ali e estava bem movimentado.
Talvez uma quermesse? Mais pro fundo, tinha um forrózinho pé de serra animando o espaço.
— Ih, é um bazar!
Uma senhorinha na primeira barraca que passamos, de crochê, ouve esse comentário da Dani e explica:
— Estamos angariando fundos para a reforma da igreja. Tem um sorteio de um celular e outros prêmios. Aproveitem pra comprar uns bilhetes comigo!
— Quero. Tô me sentindo sortuda hoje.
Daniela se empolga nos bilhetes e leva a Iara junto. Só que como havia bastante gente pela barraca da senhorinha, elas ficaram sem espaço de preencher, para colocar no baú. Assim vamos atrás de uma mesa, passando pelos churrasquinhos, pipoqueiros e sorveteiros.
— Quem tem caneta?
Puxo duas da minha bolsa e Sávio puxa uma do seu bolso. Ele ajuda a preencher os bilhetes. Depois que o Vinícius chega com um churrasquinho e refri, acompanhado do Bruno, que foi atrás das pipocas.
— Caramba, vocês compraram quantos bilhetes?
— Ain, amor, é pra ajudar a igreja. Assim Deus me ajuda nesse semestre.
Recebo meu pacote de pipoca e cutuco o juízo da minha amiga.
— Acho que não é assim que funciona, Dani.
Sem levantar a cabeça e repetindo os dados pelos bilhetes, ela se mostra acima disso.
— Bom, eu gosto de ajudar as pessoas. Inclusive, tô colocando dois pra cada. Pra vocês verem o quão bondosa eu sou. Tô ajudando na sorte de vocês.
— É sério isso?
Espio mais ou menos a mesa, mas ela tá do outro lado, de modo que os papéis estão de cabeça pra baixo pra mim. De qualquer forma, Dani sai apontando com a caneta.
— Tá aqui os teus, os do Vini, do Bruno... Vou colocar os da Iara agora. Só coloquem o número do celular de vocês no final.
— Ualeu, Dami.
Esse é o Vinícius de boca cheia, comigo mandando mais farofa pra dentro. Vez que ele chegou mais tarde (atrasado sempre), perdeu nosso lanche na faculdade. Já nos encontrou bem na saída, na hora de fazer rodar a Iara.
— Eu tô com menos bilhetes, mas posso reservar um pra cada. Menos pra Lena, que eu ainda tô chateada com ela.
Só não jogo pipoca nessa pimentinha porque seria desperdício e porque não queria sujar praça pública.
— Olha só, Brasil. É assim que a pessoa se revela.
Tomando um gole do refri, o Brutus passa pro lado da irmã.
— Que tu fez?
— Só existi e fui guia dessa criatura. Tirei fotos, fiz vídeos, apresentei tudo pra ela e é assim que ela me retribui. Olha que Deus castiga!
Vinícius até que passa pro meu lado.
— É, acho que é assim que funciona, I.
— Mas ela judiou de mim!
— Eu? Quando? Onde?
— Hoje, na empresa.
Encaro essa ruivinha do outro lado da mesa e entendo o que ela tá fazendo. Ela quer me fazer contar e quer que eu conte para nossos amigos também, engenhosa toda. Ficamos nessa batalha de olhares a ponto de fazer a Daniela levantar a cabeça dos papéis.
— Ih, aí tem coisa.
— Eu posso confirmar que a Lena não judiou dela.
Obrigado, Sávio!
— E tu tava lá pra saber?
Bruno quase se engasga só engolindo as pipocas, rindo do drama da vez. Sávio come da sua e, muito do misterioso, endossa a situação.
— Pior que eu tava.
Daniela se empolga, encostando-se na cadeira.
— Eita que a fofoca é das boas! Contem logo!
— Ai, gente, eu não queria falar de tragédias hoje.
Bruno me sonda, divertido.
— Mas é tragédia das boas?
— Pior que...
— Meu pai tá... te ligando?
Meu celular tava no silencioso na mesa, assim só o Vinícius vê que tava em chamada, com o nome de Filipe na tela. Antes de sair da mesa, ainda enrolo.
— Viu só como as ligações já voltaram?!
Me afasto um pouco do movimento e das pessoas, indo para uma parte abaixo de uma árvore toda enfeitada.
— Oi, alô?
— Milena, eu acabei de saber do ocorrido de hoje à tarde. Tá tudo bem com você?
— Tá sim, não precisa se preocupar. Foi só um susto e o susto maior foi de quem tava esperando no pátio. A gente da equipe mesmo não viu nada. Foi bem depois que a gente saiu acho.
— Que bom saber que vocês já estavam longe. Fico mais aliviado.
— Agradeço a ligação. E, por favor, não conta pro seu Júlio. Depois eu solto essa pra ele, quando tudo tiver mais calmo. O mesmo pra Djane. Não quero deixá-los sobressaltados. Tá bom?
— Tudo bem, se assim me pede.
— Peço e reforço que eu mesma vou contar. Pro Murilo e pro Vini também. Eu já ia contar pro Vinícius, inclusive. Tamo com a galera pra comemorar o dia da matrícula da I. Tô com fotos e vídeos pro senhor.
Ela me entrega, eu entrego ela.
— Me passe assim que puder.
— Beleza. Aí o senhor mostra pro seu Júlio.
— Fico no aguardo então. Tenham uma boa noite.
— Até!
Retorno pra mesa e paro bem atrás do namorado, que dizia.
— Vocês não me enganam não, eu tenho certeza que meu pai tá no meio.
Sento à minha cadeira, pensando se o Vinícius tá falando do suspeito aniversário surpresa dele, que imaginava já o ter dobrado.
— No meio de quê?
Ainda preenchendo seus bilhetes, a Iara revira os olhos pro irmãozinha dela.
— Ele acha que nosso pai tá fazendo parte de uma “conspiração” pro aniversário dele.
— De novo isso?
Apontando a colher de plástico de forma acusatória pro meu lado, ele se mostra firme em sua convicção.
— A Lena pode não ser a cabeça esse ano, mas é bem capaz de ele ser e vocês aí de escudeiros dele.
— O que te faz pensar isso?
Eu arranco a colher dele e já ia tacar mais farofa, mas o namorado é esperto de desviar e costurar teorias.
— Primeiro o meu avô, que ficou muito tranquilo quando eu disse que ia ser na pizzaria, e agora o meu pai aí, te ligando uma hora dessas.
No final das contas, não foi preciso mexer no plano de níver. O Vini só se adiantou e reservou o espaço. Quando ele confirmou com o gerente, ele soube que havia espaço para um aniversariante e aí que as anteninhas dele se ligaram de novo. Eu disse que poderia ser de qualquer pessoa, porque não é só ele que faz aniversário nessa data e a pizzaria faz eventos diversos.
Bruno, mais sábio, joga na roda outro tipo de munição, mas para enganá-lo.
— Desse jeito a gente vai ter que bolar umas coisas às pressas que nem aquele aniversário da Flávia.
Vinícius cruza os braços ao peito, resoluto de ter descoberto.
— Então tem um plano!
A Iara imita ele na pose e imita o Bruno na jogada de fazer piada disso.
— Não tem, mas agora precisamos ter um ou vai pegar mal é pra gente aqui.
Muito da teatral, eu me junto a essa encenação e também cruzo os braços com falsa indignação. Só que eu uso a informação, a verdadeira informação, a que a Iara tava jogando na mesa pra eu falar, para justificar essa suposta falta.
— Eu não acredito que vocês vão me fazer contar essa.
Daniela até abre o olho de repente, mas vejo que a I segura ela.
— Teve realmente uma situação complicada na empresa hoje, tá? E o Filipe só soube agora, por isso ele me ligou.
Pelo menos vou matar dois coelhos num tiro só. Opa, cajadada.
O que a gente não faz para segurar um segredo secreto de aniversário, né?
— Tá, eu vou começar do começo, mas só pra vocês saberem de antemão, eu tô bem e eu não quero responder mais essa pergunta, tá bom? Porque o Murilo vai me perguntar umas mil vezes amanhã. Eu sei que soa maldade da minha parte, e eu sei que vocês se importam e se preocupam. E tô aqui dizendo que tá tudo ok. Eu nem saberia do rolê se não fosse todo mundo me esperando no pátio hoje.
Daniela se vira pros outros na mesa e a Iara se acusa.
— Eu não tô entendendo nada. Alguém tá entendendo?
— Isso foi uma indireta direta pra mim, porque eu tô toda hora perguntando pra ela.
— Ah, por isso que tu tava com aquela cara mais cedo, né? Mas foi sério assim?
Iara apenas assente e Bruno joga outra dúvida na roda.
— É algo relacionado à operação ou a facul...?!
— Não, não, apenas algo... Algo inesperado hoje. Algo difícil de lidar. Desculpa, Mi, eu não queria ficar no teu pé. É que realmente eu... Eu não sei o que teria feito se vocês tivessem se machucado.
Vinícius intervém nessa, sobrepondo-se à mesa, já que basicamente a discussão tava entre mim e sua irmã.
— Peraí, peraí, peraí... O que foi que rolou?
Faço com que ele se sente de novo em seu lugar e só dou partida na história.
— Tá, do começo, né? Hoje eu tive que fazer trabalho de campo. Pra quem não sabe, eu mudei de setor na empresa, tô na parte da logística e lidando com rotas e entregas. Estamos testando um novo sistema de rastreamento e o meu chefe, o Hugo, me pediu pra acompanhar as entregas dessa tarde. Até aí tudo bem, subi no caminhão de boa. Mas depois descobri que teríamos mais um componente no time, além dos dois entregadores no veículo comigo. E eu só soube de quem se tratava quando ele fechou a porta bem do meu lado... Era o Aguinaldo.
A arfada de susto vem principalmente da Dani, mas o Bruno replica de pronto pra tentar adivinhar o ocorrido e eu explano pra eles não ficarem achando o pior.
— Meu Deus, e vocês fizeram o quê? Se mataram lá dentro?
— Pelo contrário, a gente só ficou quieto, cada um no seu canto, no tanto que dava pra ficar longe um do outro naquele espaço apertado.
A Dani também demonstra sua dúvida.
— Mas a I falou qu...?
— Vou chegar lá. Vou chegar na parte do macacão também.
Bruno até faz uma cara de intrigado pra essa. Nem checo o Vinícius ao meu lado, porque eu não quero dizer alguma bobagem, como da outra vez, e depois dar muito errado. Quero só contar e aproveitar o resto da noite.
— Nós fizemos as entregas em alguns supermercados da região, e o tempo todo, no caminhão, eu me mantive atenta à atividade que o meu chefe me passou, até porque eu tinha que fazer anotações e isso envolvia uma observação mais apurada. E quando a gente descia nos depósitos, eu ficava com os entregadores e o Aguinaldo ia pra outro lado, porque agora ele tá como representante comercial.
Iara nessa parte acrescenta:
— Ele me disse que ia para a parte de relações públicas, mas eu pensei que era algo mais interno. Se eu soubesse que teria chance de vocês se encontrarem, Mi, eu teria...
— Tudo bem, I, mesmo. Porque essas coisas a gente não pode controlar. A gente trabalha na mesma empresa, assim como estuda na mesma faculdade e na mesma sala. É possível que às vezes calhe de toparmos ou termos que ser parte de um mesmo time. Não temos direito de escolha nessa. É chato, mas ok, é lidável, dá pra separar. Além disso, ele prometeu que manteria a distância, né? Eu tô fazendo isso também.
Nesse ponto, Vinícius envolve mais da minha mão que segurava e junta mais sua cadeira com a minha, porém, não diz nada. E eu continuo.
— Eu até considerei voltar com o Hugo, porque depois ele se encontrou com a gente em alguns supermercados, só que ele teve que resolver outras coisas e eu só segui com a situação. Mas aí teve o último supermercado, em que tivemos... alguns contratempos.
Bruno infere aí, aproximando mais de sua cadeira à mesa plástica.
— Que tipo de contratempos?
— Ah, era da parte do Aguinaldo mesmo. Eu acompanhei o descarregamento das mercadorias com os entregadores e a gente ficou um tempo esperando ele voltar, pro caminhão e tals. Só que ele não voltava. E aí um dos caras foi atrás dele e descobriu que tava tendo um problemão com um cliente, lá na entrada do supermercado, que tava tendo um maior barraco. Daí tanto o diretor quanto o gerente de lá tavam... tavam bem enrolados. O Aguinaldo precisava só de uma assinatura, mas com a confusão, ele teve que esperar. E a gente também, por consequência.
Iara então antecipa uma questão.
— Foi o mesmo cliente que...?
Ela faz o movimento de uma arma com a mão, ou coincide de ser um gesto parecido, de quem fala mexendo as mãos. De qualquer forma, os outros não pegam essa referência. Acho.
— Não sei dizer, porque... eu não vi. O que sei é que isso tava demorando muito. A gente falou com a Hortênsia, que acompanhava a gente pelo sistema de rastreamento, e ela disse que tava tudo bem esperar, porque deu pra colher as referências que precisávamos, no caso, quanto à rota, e era bom averiguar o movimento daquele horário... Enfim. Teve uma hora que eu tive que ir atrás, pra ver como é que tava a situação.
Acho que tô fazendo suspense sem ser intencional, pois a Dani questiona:
— Tava feio o negócio?
— Acho que já tinha acabado a confusão, porque até vi certo movimento, mas já bem mais disperso. Fui andando por lá e encontrei o Aguinaldo parado bem no entremeio das seções. Pelo que ele disse, tava esperando o gerente, que ficou de ir pegar o carimbo. E esse foi um dos poucos momentos que a gente teve que se falar, pra eu poder me informar das coisas. Apenas sendo profissional mesmo.
Tomo um gole do refri do Vinícius só pra injetar um pouco mais de açúcar no sistema e tirar a secura da pipoca. Os outros até tinham parado de beliscar, seus pacotes ainda recheados de pipoca, de tão atentos que estavam. Assim segui outra vez.
— Daí acabei esperando ali por perto, pra a gente voltar junto pro caminhão. Nisso, eu fui conversar com um repositor, por conta de produto vencido que encontrei numa prateleira e... foi aí que tivemos outro problema com clientes. No caso, tinha duas crianças brincando com um refrigerante quente, que estourou bem onde a gente tava.
Contraindo o rosto, tanto Sávio quanto Bruno fazem uma cara de quem sabe como é esse tipo de estrago. Mas é o Bruno que pergunta:
— Vocês se melaram, foi?
— Aí que tá. Nessa hora, eu tava de costas pra essas crianças, nem vi elas. Eu só senti alguém dar uma baita trombada em mim e colar em mim, costa a costa. O lance é que o líquido ia me pegar de cheio, mas... Mas o Aguinaldo se meteu bem na frente e o refri pegou nele. Pegou nele todo. Da cabeça aos pés.
A voz do Bruno ecoa quando diz:
— Ca-ram-ba!
— Daí a mãe dos guris apareceu logo depois e até fez eles pedirem desculpas. Saíram então com repositor, para poder acertar a questão do pagamento, né, e foi bem aí que o gerente apareceu pra assinar, finalmente. Por sorte, na hora do banho de refri, o Aguinaldo deixou a prancheta dele na outra prateleira, então isso não foi afetado. Mas como ele tava pingando, sem condições de ficar daquele jeito, o gerente foi procurar uma roupa pra ele e eu fui pro caminhão. Logo depois o Aguinaldo subiu pro lugar dele, ele de macacão de carregador, com as roupas numa sacola, e a gente voltou pra sede da empresa.
Dani nesse momento estranha:
— Peraí, se acabou tudo bem... Tipo, foi uma situação desconfortável e entendo isso, mas por que a I tava...?
Minha amiga vira pra Iara e ela nem pisca na hora de jogar a parada na mesa, serinha, olhando pra mim.
— Porque teve um tiroteio nesse supermercado.
Não apenas rolam arfadas de susto, mas de preocupação e aflição, a ponto de praticamente saltarem de suas cadeiras. Dani então, dá pulo pra se aproximar de mim, atravessando a mesa, e o Vinícius me toma o rosto, alarmado.
— Ai, meu Deus, Mi!
— Amor, por que não disse logo?
Seguro o Vini, os pulsos dele, para que os abaixe e se acalme. Faço um carinho em seu rosto e também correspondo à Dani, que me segura forte a outra mão. Para continuar, claro, recomeço mais branda.
— Eu quis que vocês tivessem a minha perspectiva do caso. A gente saiu de lá e nem soube do ocorrido até chegar na empresa. Então eu não vi nada, gente, nem tava perto, e mesmo dentro do supermercado, eu tava em outra ala. E preferi contar o todo pra vocês verem que eu tô bem. De verdade. Só tô um pouco chateada e nem é pela questão do Aguinaldo ali. É de ficar repetindo isso.
Dona Iara, no entanto, cruza os braços, outra vez indignada.
— Viram como ela tá judiando da minha preocupação?
Encaro minha amiga e, com os ombros baixos, sou sincera ao responder.
— Não tava, I. Sério, não tava. Eu só queria ver a tua matrícula e aproveitar a noite com os nossos amigos. E eu sei que toooodo mundo passou um aperto na empresa. Foi um susto grande e vocês sentiram mais do que eu. Eu ainda tô sem palavras. Porque... não tem muito o que dizer, não além de falar que eu tô bem. Eu tô, gente, é sério.
— Talvez ela não esteja acreditando nisso porque é ela que não tá bem.
Sávio dá um banho de sensatez na gente com um murmúrio bem baixo desses, mas que dá pra ouvir, vez que estamos todos bem próximos. O fato de sua namorada dar-lhe uma cotovelada – e ele virar o rosto pra não comentar mais nada – comprova que sua teoria está certa. Ou melhor, percepção certa.
Eu quem passo os braços pela mesa para alcançar a ela, que continua aborrecida.
— Ô, I... Desculpa se pareceu que desconsiderei o teu susto.
— Foi uma coisa b-bem difícil ficar sem resposta, sabia? Não saber se vocês... se vocês estavam lá... e n-não conseguir contato.
Ela passa a mão pelos olhos, nervosa.
— Eu sei que tu tá bem, e eu tô te vendo bem, mas foi uma sensação horrível aquela espera. E isso porque o Thiago nem queria me contar. Eu fui saber pela Clarinha, porque de repente tava uma galera correndo e indo esperar vocês no pátio!
Nessa hora, nem eu resisto. Levanto e vou pro lado da Iara, para abraçá-la. E abraço com ela sentada mesmo. Não para que deixasse seus sentimentos pra lá, como fiz antes, mas sim para que pudesse senti-los e então esvaziar.
— Deve ter sido terrível. Não saber e saber. E se fosse com qualquer um de vocês, eu teria passado pelo mesmo. E iria ficar junto pra fazer passar junto.
Nem mesmo perguntei a ela como foi que descobriram a história do tiroteio e não sei se é a hora de fazer isso. De qualquer forma, comprimo ela em mim, passando os braços para aninhar todo o seu corpo e só assim que minha amiga parece enfim expirar e expurgar tudo isso de si.
— Melhor?
Ela assente, quieta. Passo a mão em seu rosto lacrimado e ajeito seu cabelo.
— Como foi que vocês souberam? Tipo, do tiroteio?
Iara se deixa cair na sua cadeira e eu me agacho aos seus pés, cuidadosa.
— O zelador. Ele tava ouvindo a rádio, que noticiou o caso, e ele sabia o roteiro porque é amigo do Álvaro, que tava com vocês. Ele que avisou o Hugo e o Hugo passou para o restante das equipes. Pra tentarem contato.
— Não foi um bom dia para os telefones falharem.
Ela confirma, fungando, mais calma.
— Não foi mesmo. Eu só consegui falar com o Sávio porque foi por mensagem de rede social.
— Se quiser me bater, eu deixo. Só não nesse braço aqui, porque tomei furada nele.
Iara me olha com uma carinha engraçada – engraçada pra mim – de quem se pergunta de que raio eu tô falando.
— Tomei vacina, só isso. O Alfonso pediu por conta da Lia, o que é outra história. Mas tá permitido fazer gato e sapato de mim, tá?
Ela dá um sorrisinho sem muita vontade e encosta a cabeça na minha, bem mais leve. Termino dando um beijinho ao rosto dela, junto a mais carinhos.
Por fim, o Sávio se levanta e, por gestos, convida a todos para fazer o mesmo. Vamos nos pondo de pé um a um e a Iara é a última, pouco entendendo o que ele pretendia. Meu amigo então coloca um braço do ombro dela e um no da Dani, começando uma corrente do bem.
— Acho que só precisamos reforçar que estamos aqui uns pelos outros.
Assim, passamos os braços pelos ombros de quem está ao nosso lado e nos aproximamos, sobrepondo-nos à mesa, inspirando e expirando juntos.
Meio acanhada, revelo uma coisa que tinha em mente.
— Acho que eu só não quis falar de primeira, ou lidar com a situação, porque cansei de tragédias rondando a gente. Não queria baixo astral pra nossa noite.
Bruno também revela um de seus pensamentos, só que de maneira divertida.
— Acho que até já me acostumei com a tragédia? Não me levem a mal, é que acho que vou estranhar quando não tiver algum problema. Mas posso puxar o cabelo de alguma de vocês. Não o da Dani, claro.
O riso leve ganha o nosso círculo improvisado, que era tudo o que eu mais queria desde cedo. Acho que quis pular etapas e acabei fazendo tudo atropelado. Agora sim estamos bem, todos bem. Deito a cabeça no ombro do Vinícius, que bem me recebe e inclina a sua em mim. Estamos mais do que bem.
— Acho que é só minha maneira de dizer que enquanto estivermos juntos, tá de boas. Amo vocês, seus pilantras tratantes.
O contentamento ganha mais força com esse Oliveira, o que faz a gente se soltar, e, pra enfatizar meu amor por ele, eu jogo parte do restante da minha pipoca nele – no Bruno, que faz graça para capturar com a boca.
Vocês sempre dão um jeito de se resolver. Sempre.
Estava voltando pro meu lugar quando de repente surge um senhor de batina no espaço vago entre mim e o Bruno. Por um instante, penso se ele vem reclamar da pipoca que joguei e já fico no ponto pra indicar a culpa do meu amigo.
— Boa noite, meus jovens.
Acabamos respondendo todos juntos.
— Boa noite, seu padre.
— Me permitam dizer, vocês são muito unidos.
Daniela, mais risonha, comenta:
— O senhor é a segunda pessoa que fala isso só essa noite!
O padre, um homem magro que já devia ter uns setenta anos, de cabelos brancos, sorri de volta para nosso grupo.
— Desculpem se os interrompi. Estava ali do outro lado e observava vocês faz uns minutinhos. Imaginei que teria que falar umas palavras de paz para acalmar o espírito de alguns, mas ver vocês se levantando e se abraçando em conjunto... Foi muito bonito. Vim deixar minha benção e o meu muito obrigado por participarem da rifa.
Ele aponta para os bilhetes na mesa, que só não voavam porque a bolsa da Daniela tava fazendo peso e segurando todos.
— É pra poder ajudar outros jovens como vocês. Deus abençoe todos os seus feitos, todos aqueles que vêm do coração.
O senhorzinho faz um sinal de cruz e quase uma reverência a nós.
Já ia agradecer quando Daniela é mais rápida do que eu, levantando os braços em vitória.
— Uhu, agora tô assegurada pro semestre!
O padre se despede aos risos e eu assisto ele ir conversar com uma freira mais à frente, enquanto a turma fala sobre a rifa e essa benção. Essa paz, que enfim reina em meu peito, me faz tomar outra atitude.
De uma digna Oliveira.
— Ai, até um padre apareceu pra me convencer. Tá bom, vocês ganharam. Vou participar do evento inaugural.
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