EQUILÍBRIO (o Grand Finale)
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Vivi para assistir o Vinícius tranquilo e até satisfeito por Rejane estar por aí noite afora. Inclusive, todo melecado de leite condensado nas mãos, aos sorrisos soltos, enquanto encho a boca de bolo e de pedacinhos de morangos que roubei dele. Isso porque ele queria roubar o meu bolo. Não era sobre surrupiar coisas de mim que eu havia dado as liberdades de aniversariante a ele, mesmo se tratando do bolo do aniversário dele. Mas cedo, sirvo algumas garfadas, já que ganho pequenos beijos.
Faço drama e faço charme, claro. Brigo é quando me suja de propósito, bem na bochecha, ao tentar colocar a fruta melecada à minha boca. Só passo o garfo ao rosto pra tirar a primeira camada.
— Eu pego guardanapo pra ti e tu me suja, é isso, bonitinho?
— Voltei a ser bonitinho?
Como dessa vez o Vini está na cabeceira e eu ao seu lado, ele fica bem mais próximo, de modo que qualquer movimento nosso adentra o espaço um do outro. Fora que ele não deixa um minuto de me tocar, mesmo com o dedo mindinho, até mesmo para afastar mechas do meu cabelo ou só deslizar um carinho pelo meu rosto.
— Um bonitinho que recebe tchauzinhos, dizem.
— Tá com ciúmes, namorada?
Ele bem que adora me instigar com perguntas assim e eu adoro driblá-lo delas.
— De uma vizinha idosa que só te vê de relance por algumas noites? Que muito provável só vê o efeito que deixo em ti?
— Por isso que te melei. Pra ver mais desse efeito que tu faz em mim.
O descarado me beija a bochecha para capturar o restante do doce que me melou e, sem amarras, quase captura minha boca junto. Digo quase porque eu ainda detenho bolo nela e demonstro isso ao colocar o garfo à sua frente.
— Não foi pra isso que a gente deu uma pausa, foi?
— Não, mas quero que tenha um milhão de motivos para que não mais pense em sair daqui.
Parece que estamos reproduzindo a mesma cena anterior, só que ao invés do jantar, estamos agora na sobremesa.
— Estamos repetindo o filme agora, é? Reencenando?
Com os cotovelos sobre a mesa, ele estica um braço para fazer-me um carinho ao pulso, vez que continuo com as mãos ocupadas de garfo e guardanapo.
— Só quero que se sinta bem confortável, tanto pra ficar, quanto pra me contar coisas. Porque também quero te contar coisas. E que se sinta desejada, muito desejada aqui. E te provocar é um caminho que costuma te instigar. Tô errado?
— Pelo contrário, é muito sábio esse namorado. Muito paciente também.
Agraciado pelo que digo, ele enfim limpa as mãos e o rosto. Não gosta muito é do complemento meio vago que dou, por mais sincero que seja.
— Mas às vezes, ou muitas vezes, basta apenas um motivo pra me acender impulsos. É algo que tenho que observar mais, acho. Repensar um pouco mais sobre como acontece. Talvez conversar com a Cris sobre isso.
— E o de ainda pouco... continua aí?
— Não, já se foi. Acho que só sobrou um pouco de tristeza de isso ter abalado a nossa noite. Também pelo modo grotesco e despreparado com que soltei a história da Lia. Tipo, a minha vontade de te contar foi tão absurda que saiu tudo tão atropelado. Eu realmente... eu não...
Gesticulo bastante tentando explicar mais dessa sensação, fazendo o garfo se mover ao ar, e o Vini intervém abaixando a minha mão para a mesa, para que possa repousar com mais sossego.
— Eu que realmente não quero que fique preocupada com isso. Nem com como eu reagi. Não quero você preocupada com nada dessas coisas.
Esmoreço um tantinho à cadeira, afundando nela.
— É que são tantas dessas coisas. Acho que só tô um pouco chateada por ter deixado acumular, e muito, e de novo. Não sei mesmo como tu consegue ser tão generoso comigo.
Dessa vez meu Vini deita os braços à mesa, de maneira que suas mãos se encontram ao meio, numa posição mais reflexiva.
— Não sei é como tu sempre conseguiu ser tão generosa comigo e não contigo.
— A minha mãe também me lançou uma dessas. Que, naquela questão sobre onde passar a virada de ano, todo mundo tava pensando na minha experiência e eu tava pensando em como ia estragar a noite de todos.
— É algo que acontece com certa recorrência, né? Quando envolve trovões, no caso.
Com o último pequeno pedaço à boca, só cubro um pouco para poder falar.
— Uhum. Fato reconhecido e agora em trabalho com a Cris.
Vini se estica para encostar a cabeça na minha e afago-o com carinho também.
— E pode sempre conversar comigo.
— Posso. Mas acho que eu quero alguma direção ou uma perspectiva diferente antes de levar isso pra uma conversa mais longa.
— Conversa essa que temos o ano todo para desenvolver. Assim como a história com a Lia.
Ele se detém um instante, voltando para o seu lugar.
— Aliás, eu não... Não queria ter brigado daquele jeito. Em relação à parte com o Murilo ou com a minha irmã, tudo bem, até porque tu também ainda tava tentando entender da própria reação... Mas um teste, Lena, um teste eu não posso deixar passar.
Franzindo a boca, confirmo o que me diz.
— Sei que não. Porque não é mesmo pra deixar passar.
Entrevendo a mim e ao guardanapo que segue rodando em suas mãos, ele parece mais calmo e menos aborrecido de falar sobre isso, embora não menos afetado com essa questão sensível.
— O que me chateou foi ser deixado de lado com algo tão importante. E que dizia respeito a mim também.
— Eu sei. Quer dizer... Não era a minha intenção e ainda assim aconteceu.
Já tendo terminado o bolo, afasto o pratinho para estar mais em contato com ele, que aceita bem minha aproximação.
— A minha vontade de te contar isso foi enorme, mas pra essa história fazer sentido e não ser só uma ponta, como ocorreu com os outros, eu quis contar tudo desde o início. Só que, quando vi, já tinha se tornado uma história gigante... Tipo, tem aquela parte com o Murilo, ainda tem mais uma com a Iara, e depois com a Aline, daí o Murilo de novo, a minha mãe... Mas nunca foi um objetivo meu te esconder.
Unindo nossas mãos, ele as encara enquanto, afetuosamente, aperta a sua na minha, para depois beijar-me os nós dos dedos.
— Vejo que não – mesmo. E não vai ser tudo hoje e tudo bem. Teremos tempo. Eu só quero a gente junto e feliz. E quando digo que não quero você preocupada com... com esse tipo de decisão de vida... Eu não falo da boca pra fora não, tá?
Assinto, demonstrando que sei que ele não falaria isso de modo tão displicente.
— Digo porque não é algo também que eu tenha em mente no momento. E sinto muito que isso tem recaído sobre você. Talvez até o jeito com que eu falo tenha feito as pessoas pensarem isso e acabarem te falando isso.
— Fala de que jeito?
— Acho que começou com o teu irmão? De quando ele ficava me testando pra saber se nossa relação era séria mesmo. No caso, pra ver se havia algum tipo de compromisso ou não. Eu sei que eu falava que “queria tudo” contigo, o pacote completo. E eu sigo querendo esse tudo e o que puder aparecer nesse tudo. Viagens, aventuras, conquistas, superações e, sim, falo em dividir a vida.
Eu já vi e ouvi umas conversas deles assim, então não é lá uma surpresa. E pode ter surtido mesmo esse efeito de as pessoas acharem que vamos oficializar algo, no sentido de viver junto ou de haver um casamento.
Eu só não imaginei que ele seria levado tão a sério por conta disso.
— E se for pra tomar mais passos e algo mais sério em algum ponto, eu tô super dentro, mas nada pra agora, nada imediato, até porque não tenho pressa. Enquanto isso, eu penso em aniversários, em shows, em natais, viradas. Às vezes Barcelona, Valência, Viena ou Amsterdã... Mesmo sendo mais provável ficar no Brasil e só ir pra Brasília, Rio ou BH. Turismo arquitetônico ou de festivais... Matchbox, CPM, Imagine Dragons ou One Republic. O que vier, realmente.
Ouço tudo isso e meu coração não salta desesperado. Ele badala sim, e badala no ritmo gostosinho que amo de quando estou com o meu Vini, um batimento forte, porém de conforto, em paz. A minha loucura e a minha paz.
— Tu pensa nisso, de verdade?
Vini levanta as sobrancelhas, quase risonho.
— Acha que não?
Me recosto às nossas mãos juntas, de cotovelos apoiados à mesa, sem o olhar diretamente.
— Não sei dizer ao certo. Eu acho bonito quando tu fala que “quer tudo comigo”, mas levo no sentido de que estamos em sintonia, que queremos essa relação, que não é algo... leviano... ou fugaz. Não é passageiro. E a gente quer que dê certo. Não é isso?
Vinícius me encara por uns segundinhos.
— Eu vou fazer uma pergunta e quero que seja sincera, tá?
Assinto, dando-lhe a certeza de que seria honesta, embora as borboletas do estômago se revirem em expectativa, sem saber do que se trataria ou do que poderia se tratar por exato.
- Você quer um tudo comigo, Lena?
Inspiro um bom inspiro, de sorriso leve, para amainar a agitação interna, mesmo que ela não amaine em nada. De qualquer forma, quase sem piscar e sem desviar o olhar dele, afirmo.
— Sim.
De expressão iluminada, ele também parece tentar conter seu balanço interno. E, no que expiro devagar, já que ele pediu sinceridade minha, complemento.
— Mas também gostaria de saber o que seria esse tudo, o que está nesse tudo. Pra saber se é mesmo esse tudo que eu quero, se os nossos “tudo” batem.
Descruzando nossos dedos e envolvendo minhas mãos nas suas, Vini as segura com firmeza, também detendo essa confiança satisfeita no olhar.
— Nesse tudo está eu e você, juntos, no simples e no complexo. Pro que der e vier em nossas vidas.
Pelo modo com que fala, eu gosto. Quero esse simples, mesmo que às vezes seja complexo. Mas o importante é que ele me faz gostar e também querer esse simples. E como eu mesma há segundos, há uma complementação.
— E a palavra com C pode sim estar inclusa. Não pra agora e não com pressa. Mas pode acontecer. Eu não me oporia. Você se oporia?
Estamos falando de casamento e nem eu mesma acredito. Mas sigo fiel ao que sinto, ao que quero que saiba, e que preciso que saiba.
— O fato é que não sei se eu quero a palavra com C... ou se algum dia vou querê-la. Mas sei que quero a vida contigo. Eu quero a gente junto e feliz, como tu mesmo disse. Seja aqui na nossa cidade, seja em outro lugar do Brasil, ou em outro lugar do planeta. Tenho até a preferência de que seja aqui, embora não descarte viagens. Mas te querer é uma certeza que tenho em mim, isso eu posso garantir.
Ele fecha os olhos com um brilho em seu pequeno sorriso, desses que não é aberto, mas é meigo e bonito e que quero manter comigo e conosco por todos os nossos dias. Me solto de seu carinho para tocar justo esse sorriso satisfeito.
— No momento eu só quero o simples. Quero esse teu sorriso. Quero o teu abraço. Quero a gente junto. Quero esse presente. Tu é um presente pro meu presente. Tu me faz feliz e isso é muito pra mim. É tudo pra mim. Meu tudo, no momento, é isso.
O sorriso dele aumenta, mas então para de repente e se franze com cautela. Vinícius abre os olhos, porém, encara a mesa, para depois se voltar para mim quando faz uma pausa do que fala.
— E o teste? O que teria... se tivesse dado positivo?
Ele tá me perguntando o que acho que ele tá perguntando?
Me solto dele apenas voltar ao meu lugar ao assento, mas sem deixar de lhe encarar, estarrecida de ver essa dúvida e essa sua tensão quanto a isso. No que pisco, é total descrente dessa questão agora. Tipo, logo ele, com a história de vida dele, de me perguntar isso.
— Tu quer saber se eu iria querer tirar?! Porque eu não iria.
— Não, Lena... Não é isso!
Cruzo os braços, indignada.
— Eu sei que não sou nada dada a crianças, mas eu iria amar essa. Cuidar e acolher. Do meu jeito tosco e maluco, mas iria.
— O teu jeito não é tosco, amor. Olha, eu me expressei mal, porque minha pergunta não é nada sobre isso. Eu só quero saber como ficaria a tua perspectiva de... casamento... se tivesse dado positivo.
Vez que nada digo em primeira instância, ele preenche o vácuo que fica.
— Eu não fiz a pergunta direito, tá? Mas eu nunca acharia ou te perguntaria sobre tirar uma criança. Tipo, não era mesmo sobre isso, tá? Por favor, não pensa isso.
Sei que ele tá embolado e entendo por que está assim agitado, que foi uma interpretação livre e enganosa, distante da bem-intencionada dele. Desse modo, termino respondendo-o como ele queria, embora isso também não fique exatamente claro.
— Eu não sei.
— Não sabe o quê?
— Eu não sei se teria mudado de opinião... se tivesse dado positivo. Seria um contexto completamente diferente e que precisaria tomar decisões importantes, tudo muito de uma vez, muitas e muitas decisões. Talvez eu até me visse sem opção. Mas não quero ter algo assim, algo como um casamento, empurrado por outra situação. Se for pra fazer isso, é pra fazer desejando, não por força de... entende?
— Entendo. Entendo perfeitamente. E não te empurraria isso.
— Eu não sei mesmo se vou querer isso algum dia, Vini. Casamento. Filhos. Tendo a possibilidade de escolher não ter, eu prefiro não ter. Eu também não entendo exatamente a razão disso, só sei que é isso que tá aqui no meu peito no momento. E não entendo por que eu tenho que escolher isso agora.
— Não tem que escolher agora, não tem mesmo.
Tomo um fôlego meio tenso de qualquer jeito e acabo me levantando pra poder me movimentar, pois, de novo, me sinto um tanto presa. Meio de costas e meio sem o ver realmente, ando pelo pequeno espaço da mesa de jantar, como que dando a volta pela outra ponta do móvel.
— Olha, eu não sei mesmo de onde vem isso, de onde vem essa concepção minha sobre esses passos. Eu só... sinto comigo. Sei que tá na minha cabeça. E não é como se eu tivesse tido péssimos exemplos em casa, porque os meus pais e os meus avós estão juntos até hoje e são grandes referências pra mim. Também nunca me preocupei de haver qualquer separação ou divórcio entre eles. Sei que não é algo dessa criação deles.
— Não precisa se justificar, Lena.
Recosto-me na cabeceira antagônica à dele.
— Mas sinto que preciso, Vini. Porque toda vez que alguém vem com esse papo e eu digo que não quero ou que não tenho interesse nessas coisas, as pessoas me olham estranho. E se espantam até. Então acho que o máximo que eu posso dizer ou elaborar sobre essa ideia é que sinto que ainda não me encontrei nessa vida. Tipo, eu não sei o que quero dela.
— O que é completamente normal.
Sei que ele tá tentando apaziguar os ânimos, porém, uma vez que começo, deixo que o alvoroço encontre sua saída de mim, permitindo que os meus verdadeiros pensamentos saiam de vez.
— Eu tenho crescido assim nos últimos anos, Vini, só seguindo os caminhos que têm sido abertos, sem lá muito critério. Pra mim, casar ou ter filhos não é um desejo. Não é nem mesmo um sonho. Eu nem tenho sonhos assim. Até meus sonhos são pequenos, acho. Não penso em Barcelona ou BH, eu mal penso no hoje e no amanhã.
Pelo caos que me pega, até viro as costas, cruzando os braços de novo, mas então desfaço para apenas me abraçar, tomando meus próprios ombros às mãos.
— Pra esse semestre, penso apenas na minha monografia e na formatura, também sem grandes planos. Não sei nem o tema do meu TCC, o que dirá da minha especialização. Não sei se quero ter mestrado. Sabe? É nisso que penso. São dúvidas assim que tenho. E ter uma criança no meio disso tudo, que é outra palavra com C, eu não consigo nem imagin...
Sem mesmo perceber o Vinícius chegando, só sinto quando ele surge às minhas costas, recostando-se em mim e me abraçando devagar.
— Só respira comigo, amor.
Não pensando muito, atendo seu pedido e tomo um fôlego e solto junto a ele, que me beija de leve na lateral do pescoço e seu cuidado de fato me ajuda. Me oxigena e me reorienta.
— Me escuta só um momentinho, tá?
Assinto, sem dizer nada, mantendo apenas o exercício leve de respiração.
— Eu realmente não quero você preocupada com o que há de vir ou não, Milena. A questão do teste também me pegou, porque, né, é uma possibilidade. Mas se é pra te deixar desse jeito, eu prefiro n... Não quero colocar isso sobre você, tá? E não digo isso matando partes de mim ou me calando. Pelo contrário!
Seu calor e seu aconchego me amainam mais, o que me ajuda a ouvi-lo.
— O que eu queria te dizer esse tempo todo é que pro que você quiser, ou não quiser, eu tô dentro. Eu topo. Porque, antes de tudo, eu quero é você. Você comigo. Você sã e bem e com o sorriso que eu amo. Quero você dividindo seus pensamentos sim, mas respeitando os teus limites. Eu e você respeitando limites, assim como tu respeita os meus. E o nosso trato é de sempre conversar pra se entender. Não é?
Reclino minha cabeça à dele, que me beija dessa vez ao ombro, delicado.
— Quando tu me diz essas coisas, que divide os teus sentimentos e os teus pensamentos, eu quero você comigo também. E não é que eu não queira um futuro contigo, Vini; eu quero. Eu só não quero ser empurrada a algo em função de qualquer outra coisa ou pessoa.
— E eu tô aqui te dizendo que eu não faria isso contigo.
Abraço seu abraço em mim, ainda receosa.
— Mas... E se tu quiser essas coisas? Acha que poderia ter o “tudo” comigo e isso não envolver filhos? Ou casamento?
— Nesse momento, eu posso dizer que sim.
Encarando o reflexo dele em um dos enfeites de Djane na estante a minha frente, que está firme como a voz que me responde, não hesito em fazer outra pergunta-chave.
— E se isso mudar amanhã?
— Então teremos outra conversa, eu te perguntando se mudou pra você e te atualizando se mudar pra mim. Mas, por hora, nesse dia, nesse presente nosso, eu tô contigo. Não quero nada apressado ou forçado. Eu também não tinha pensado em filhos ou em casamento, mesmo que estivesse aberto a essas possibilidades. Tenho também a faculdade aí pra terminar e ver como estabelecer uma carreira. E não sei o tema do meu TCC e já é pro semestre que vem.
Dou um suspiro bem audível enquanto alongo o pescoço e depois o deixo cair.
— Acha que eu tô exagerando?
Vinícius solta um braço de mim apenas para afastar mais uma parte do meu cabelo entre nós e ele se encaixar mais ao meu pescoço.
— Não. Acho que as pessoas estão te colocando pra alvo sem necessidade. E se tá te incomodando nesse nível, é porque estão insistindo demais com isso.
Quase me desmantelo de alívio de ouvir isso dele.
— Além disso, tu bem sabe o que me deixa nervoso de verdade, perturbado até. É qualquer perspectiva de não estar contigo. E se não for pra ter você comigo, não vou querer nada dessas coisas. Eu tô falando sério.
Com essa, viro-me para ele e o abraço de fato. Abraço e descanso nele, envolvendo-o pelo pescoço.
— O pacote completo é você comigo, Lena, apenas isso. É a gente fazendo nossas escolhas juntos. É a gente discutindo nossas escolhas e decisões, destrinchando os motivos e preocupações, e aí achar novas soluções. Esse é o meu tudo agora. É o tudo que sei que podemos fazer juntos.
Firmo mais meus braços nele e, no escuro dos olhos fechados, me convenço disso, que estamos discutindo pela mesma página, apesar de estarmos partindo de bordas diferentes.
No que Vinícius me solta brevemente, é para demonstrar mais de seu posicionamento, embora tenha suas hesitações conforme encadeie fatos, os fatos que lhe desnorteiam sobre o futuro mais próximo.
— Olha, Lena, isso realmente não são decisões pra agora, porque eu sei que ainda vamos viver muita coisa juntos. E nada do que tu disse me pareceu sem sentido, porque comigo também é assim. Eu ainda me sinto filho, por exemplo. Eu ainda tô conhecendo os meus pais – todos os meus pais. Ainda não fui no túmulo da minha mãe e nem fui atrás do outro lado da minha família. Meu pai ainda me dá bonecos e carrinhos e ainda estamos reconstruindo essa relação diferente.
Escondida no seu pescoço, só mantenho o nível da respiração para não chorar com nada dessas coisas.
— E independente de tudo isso, se tivesse dado positivo... Eu totalmente embarcaria nisso contigo. Eu teria ficado feliz. O que não significa que fiquei triste, pois, sendo positivo ou negativo, os dois resultados são bons. São bons pra nós dois, disso tenho certeza. O que não quero é você se exigindo em nada dessas coisas.
Acarinhando-me os cabelos, Vinícius me puxa de si por um instante.
— E eu entendo que isso é exigido mais de ti do que de mim e pode deixar que vou falar isso para as pessoas. Que isso é decisão nossa. Que é da vontade nossa. Que o que for divulgável, a gente vai falar. Mas vai partir da gente. Tá bom?
É só tudo o que eu precisava ouvir nesse momento. Melhor, ter essa firmeza de concepção, estando os dois alinhados e sustentando essa postura. Não sei bem como conseguimos essa proeza diante do que é ou já foi a nossa relação, mas fico feliz por chegar nesse patamar. Fico feliz de ser assim ouvida e compreendida. De que não é e nem parece ser só uma loucura minha e que, na verdade, a loucura vem é de outros, pessoas externas ao nosso relacionamento.
Fico feliz também de ele estar assim disponível pra mim. Em sintonia, de fato.
— Tu não existe.
Capturando-me o queixo, Vini continua com o olhar fixo em mim, sincero.
— Existo. E tu existe. E isso sim vale muito.
— Obrig-gada.
Seus polegares alcançam meus olhos marejados de alívio e mais uma vez reforça aquela dinâmica que propôs, combinada àquela minha de fazer afirmações.
— Agora me diz que tu não vai mais se preocupar com nada dessas coisas. Na verdade, diz pra mim que, se acontecer de novo, tu vai me falar e a gente vai conversar.
Com mais segurança e equilíbrio, declaro isso a ele.
— Se vier qualquer papo desses, eu te aviso.
— Maravilha. Agora, afora o meu pai, vou precisar de nomes.
Ele puxa essa história enquanto me leva de volta às nossas cadeiras, mas tô tão envolvida nessa coisa toda, entre o repouso da preocupação e o amainar do estado de alerta, que não somo 1+1 com esse pedido extra.
— Pra...?
— Só pra ter uma conversinha, de colocar uns pingos nos Is.
Nesse caminho, tanto de plano de pensamento quanto de espaço da casa, me detenho um instante, incerta de como isso pode ser entendido pelos outros, assim, de repente, o que faz com que o Vini se volte também.
— Posso conversar com eles antes? Acho que precisam ouvir de mim primeiro.
— Tudo bem, posso só dar o reforço. Mas essas conversas vão acontecer, certo?
Aliviada de contar com esse apoio, assinto mais leve.
— Certo.
Com essa, Vinícius torna a me puxar para me guiar ao assento de antes. Como já me disse uma vez, ele iria me buscar até no fim do mundo e, nesse ponto, acho que ele tornou a me tirar do fundo dos fundos de mundo que só acontecia na minha cabeça.
Ao me oferecer a cadeira para eu me sentar, também abranda o climão com uma boa verdade para eu concordar.
— Viu só? Além de um bom amigo, eu também sei ser um ótimo namorado. E um parceiro incrível. Não é?
— Sim, isso posso atestar.
Mas antes que eu possa ir de encontro ao assento, meu Vini se coloca à frente, amparando-se ao alto da cadeira como quem barra o outro de passar, sendo mais incisivo.
— Olha, acho que vou precisar do registro formal disso. Selar bem aqui...
Ele mesmo coloca o dedo indicador à boca, quase como um pedido de silêncio, porém, sendo um ousado de sorriso maroto.
— E com vontade, pra documentar isso direito.
Sorrio brevemente e, sim, certifico-me disso que me pede.
~;~
Como mais cedo nesta noite, damos de encontro na porta de seu quarto, eu dessa vez vindo do banheiro, já de pijaminha ao estilo camiseta longa, e o Vinícius vindo do corredor. Depois de nosso papo mais sério e eu esmorecer um tantinho de cansaço pelo alvoroço emocional, optei por um banho, para sentir a água recuperando as minhas células e para reordenar o meu pensamento. Ultimamente tenho apostado em atividades mais relaxantes desse tipo para me resetar a cabeça. Enquanto isso, o namorado organizava a louça na cozinha para dona Djane não se assustar com formigas ou outros insetos quando chegasse em casa.
Com minha roupa anterior e outros itens à mão, adentro o quarto logo após ele abrir pra mim.
— Melhor?
Mais relaxada, dou um suspiro baixo de alívio.
— Parece que despachei cinco malas enormes de mim. E sei que se acontecer de uma mala ser preenchida de novo, não preciso esperar ela chegar no limite. Quero mesmo poder falar contigo de qualquer coisa... a qualquer tempo.
Enquanto me ensaboava, ponderava justo isso. Também o fato de que acabou rolando DR, mas era uma baita DR que vínhamos precisando há meses. Liberei um verdadeiro peso de expectativas e de receios confusos nesse papo mais longo.
Ajustando a temperatura do quarto no controle, meu Vini anui com um semblante bem mais satisfeito.
— Vamos colocar isso em prática. E outras coisas em prática.
Sorrio mais serena ao passo que pego minha bolsa de mão para guardar meus itens, agraciada por ele mudar o clima e fazer o clima acontecer, mesmo que não envolva diretamente uma entrada para sexo – muito embora seja sim o Vini sendo o seduzente que é sem perceber.
— Temos muitas coisas para colocar em prática esse ano. Encontrar nossos temas de TCC, por exemplo.
Para apoiar melhor a bolsa, vou para sua mesinha de estudos e ele fica ao lado alinhando algumas caixas, dos presentes da semana. Tenho certeza de que se Djane ouvisse essa conversa, ela ia reclamar que ainda não tá em tempo de discutir monografia e que me fez prometer não citar nada de TCC até o dia da primeira aula – que, no caso, já é semana que vem.
— Eu já tenho mais ou menos uma linha que quero seguir. Vou aproveitar esse semestre pra aprofundar.
— É um dos temas que tu vai apresentar no simpósio?
— Em parte sim. Por enquanto é mais introdutório.
— Nem parece que já tá bem aí, no final do mês.
Vinícius se distancia um pouco para guardar o que parece ser alguns manuais na gaveta de canto, colada com o guarda-roupa. Dali mesmo ele já começa o melodrama que gosto.
— Das coisas que às vezes me pego pensando, ou imaginando, é de te levar nessa viagem.
Faço uma carinha de quem não tem como atender esse pedido.
— Essa eu realmente não tenho como ir.
Vini vem pro meu lado todo cínico, dando de ombros até.
— Nem eu sei como eu vou. É capaz de o Namir ter que me arrastar, porque vai ser difícil ir sem você.
Amasso um lábio no outro para não rir desse atentado de amor que ele me lança e tento me concentrar em guardar a escova de dente. Mas quem diz que consigo, se esse bonitinho chega de manso com um abraço e uma reivindicação?
— Até o Heitor vai!
Quero replicar que o boy do Namir vai porque a agenda deles bateram, a nossa não, mas escolho tomar outra via nesse drama. Alcanço seu rosto colado ao meu e dou uma batidinha de incentivo.
— Acho que tu consegue. E dessa vez serei eu a te ligar de hora em hora.
— Com relatórios e tudo mais?
Dou um beijinho rápido na sua bochecha, para saber da firmeza desse trato.
— E tudo mais.
— Tu acha que tá me facilitando, mas tá quase me fazendo desistir só pra não sair de perto de ti.
De palhaça que sou, me solto na mesma hora.
— Negativo. Eu prometi pro Namir e pra Talia que tu vai, então tu tem que ir pra eu não sair de doida nessa história.
O safado me dá um beijo no rosto e diz que volta em breve pra rever esse plano. Imagino que tenha ido escovar os dentes para deitarmos, então volto para a bolsa, fecho e a deixo no pé da mesa, mas sem querer, no processo, derrubo no próprio móvel o que parece ser um porta-treco.
Na verdade, conforme vejo melhor, trata-se de um pote vermelho de tampa preta, meio escondido até. É um pote ao estilo copo, que eu acostumei ver de relance nas minhas visitas e às vezes me perguntava sobre como destoava na mesinha, já que o Vinícius é bem observador e gosta de ter suas coisas bem organizadas – inclusive em questão de cores.
Assim que pego o objeto, já sinto um peso bem significativo nele, de um copo cheio de alguma coisa, até que percebo uma pequena fenda ao topo, típico de um cofrinho simples. É quando viro o pote que me surpreendo um tanto, porque se trata de um cofrinho infantil e temático do Mickey. Acontece que o rosto do Mickey tá – ou sempre fica – virado pra parede, pois tenho certeza que nunca vi esse fucinho antes. Antes que eu pergunte o porquê disso, a cabeça do namorado paira perto de mim.
— Encontrou ouro?
— Tô um pouco na dúvida. Por que ele fica... pra parede?
Puxo o cofre para a beira da mesa, levando a ele que se aproxima mais.
— Hmmmm... Resposta longa ou resposta curta?
— Resposta média.
Ele dá de ombros, não lá afetado.
— O meu pai me deu.
Avaliando mais da figura estampada no pote, estranho.
— Pensei que tu já estivesse mais aberto aos presentes do Filipe.
— Não foi o Filipe.
— Hmmmm. Mas por que ele fica virado?
Sentando-se na sua cadeira de rodinhas mais atrás, Vinícius apoia o rosto de encontro à mão, o cotovelo no suporte, e encara o cofre, comedido.
— Muitas lembranças? É uma das coisas que ficou pra trás depois que fui morar no apartamento, mas, depois do acidente, quando eu voltei pra esse quarto, tava em uma das prateleiras. Voltei a usar, só que... Sei lá, ainda não consigo encarar o Mickey. Meu pai trouxe ele na última viagem que fez, que foi inclusive para fazer uns exames mais específicos, mas... eu só soube disso depois da morte dele.
Vou para o seu lado, para um carinho mais zeloso.
— Poxa.
— É, acabou marcando essa fase. Mas não é que eu evite coisas do Mickey, é só que... esse em especial...
— Entendo.
Atravesso seus fios de cabelo com os dedos e o Vini se aquieta por um minutinho. Depois volta a falar, já me abraçando o dorso, mesmo sentado, observando o pote de longe.
— O Mickey foi um dos meus personagens favoritos na infância e os meus pais me davam muita coisa com ele. De conjunto de pratos e copos até a roupa de cama. Mas depois que saí daqui, acho que sobrou só esse.
Quero perguntar onde estão essas fotos, porque também nunca as vi, porém, sinto que não é a hora pra isso. Ainda mais que, um pouco mais retido, meu Vini se detém a outro aspecto complicado dessa temporada longíqua.
— Eu até lembro de uma vez ter atirado a roupa de cama do Mickey lá na garagem; tava no meio de uma das grandes brigas com a minha mãe. Já não lembro por exato o que a gente tava discutindo, só sei que, num ato de raiva, tirei algumas coisas lá do armário de hóspedes e joguei bem no meio da garagem, isso com o carro dela estacionado. Fiz uma cena e tanto. Acho que foi algo no sentido de ela me tratar como criança, então garanti que estava agindo como uma.
Tive muitos dias assim com o Murilo quando eu tava no ensino médio e ele se passando de meu pai sem ser o meu pai, como se eu não soubesse das coisas. Fiz cenas, mas sem atirar coisas em outras partes da casa. Era mais de bater a porta, me trancar e dar um gelo por uns dias. Mesmo que depois arrumasse um jeito de me vingar, era sempre no sentido de atrapalhar ou provocar o meu irmão para baixar a crista dele.
— Parece ter sido bem feio, mas sei como é isso. O dia da revolta.
Vini deita a cabeça em minha cintura, apoiando-se mais em mim.
— Isso, o dia da revolta. Sei que nesse dia eu fui dormir na casa do Welligton e tentei ficar o máximo de tempo por lá. Passei o fim de semana com ele e acho que nossas mães estavam em comunicação. Quando voltei pra casa, dona Djane tinha me arrumado uma cama de casal pro meu quarto, dando a entender que eu devia ter cama de gente grande. Ela tava era tentando me agradar, pra me manter mais em casa. Nesse período, o Filipe já tinha voltado e a gente tava se aproximando, logo, a minha mãe não tava gostando.
— Hoje em dia esses tipos de movimentos fazem sentido, né?
— Acho que sim. Teve muitas noites que ela tentou entrar aqui ou sentar na minha cama pra saber do meu dia, ter algum papo sobre garotas, sei lá, mas não rolou. Nunca rolou. Até mesmo quando eu voltei a morar aqui, ela fez tentativas.
Djane às vezes me detalhava umas dessas investidas, mas não exatamente falava sobre os espaços dos quartos; imaginava que ela se mantinha distante pela própria situação. Acho que uma vez ela chegou a comentar sobre a porta do quarto dele, que por muito tempo ficou aberta, sem ninguém, e que, após o seu retorno, vivia fechada, o que ela tava aprendendo a ver de uma forma mais positiva, afinal, seu filho agora estava de volta. Mas, de geral, eles se encontravam mais na sala, durante o café da manhã, ou mesmo na varanda, entre saídas e chegadas.
— Uma das coisas que eu costumava dizer é que eu já tinha conversado com o meu pai, isso pra qualquer coisa que ela falava. Eu tocava na ferida de propósito, mesmo não deixando de ser verdade. No caso, o meu pai me falou mesmo sobre ser o homem da casa e como ser respeitoso com as mulheres. Só que acho que eu não via a minha mãe como uma mulher, era uma mãe que... uma pessoa que... A gente não se dava bem.
— Ela agora entra aqui? Para conversar?
— Pensando agora... não. Geralmente a gente conversa em qualquer outro canto da casa. Sala, cozinha, copa, garagem, varanda... Eu também não entrava no quarto dela faz anos. Entrei só naquele dia das trovoadas, que ela me impediu de sair. Eu já nem lembrava direito como era e demorei a entender que tinha mudado de cor. O guarda-roupa também foi trocado.
— Ela já te falou do processo de luto, algo assim?
— Não. Eu também não perguntei. Acho que sempre me concentrei no ódio que sentia, muitas vezes culpando a ela por não ter tido contato com o meu tio, que até então era uma porta diferente para o meu pai e... Não pensei na perda que foi pra ela.
Balançado pelas ideias, Vini também move a cadeira de maneira vacilante.
— Fora que tinha também o Filipe me contando as coisas de uma perspectiva bem distante, que eu não tinha como filtrar. Enquanto meu tio, ele era por vezes muito volátil nas opiniões. Uma hora dizia uma coisa, depois falava uma completamente diferente. É disso que eu falava que ele podia ser bem estranho. Mas hoje entendo que ele tava tentando se aproximar de mim e me agradar, só que isso foi confuso por muito tempo.
— Ele chegou a te dar algum presente do Mickey?
— Por incrível que pareça, não. Ou, pelo menos, não até agora. E eu sei que ele sabia dessa minha preferência. Até o meu avô já me deu uma mochila assim, quando menor. Minha mãe já deve ter doado tudo.
— Será? Pelo que me lembre, ela ainda guarda a tua manta de criança. Deve ter umas coisas no quarto dela.
Já que ele fica pensativo nessa, volto-me para o tempo presente.
— Tu já esvaziou o cofre depois que ele... o teu pai...?
— Já, já sim. De geral, demoro a encher porque quase já não pego em dinheiro.
— Tudo no cartão! Se bem que tem aquele compartimento no carro que...
— Só pra não dizer que não ando com moeda por aí.
Me desvencilho dele para pegar o pote do cofrinho e mostrar que está bem cheio.
— Hora de passar numa vendinha e trocar tudo. Ou prefere chegar ao ponto de transbordar?
O Vini, por outro lado, continua com o pensamento em outra parte.
— Acha mesmo que a minha mãe tem essas coisas guardadas?
— Acho provável.
— Mas por que ela não teria m...?
— Vai ver que espera tu tocar no assunto.
Meu Vini solta um leve suspiro, não triste e nem de todo frustrado. Acho que só está se dando conta de que há possibilidades de rever parte dessas coisas do passado.
Mas aí ele gira um pouco a cadeira de rodinhas, para o lado da porta, e entrega um fato importante ao apontar para o que está pendurado ali na parte de cima de sua parede.
— Achei que tivesse me sobrado só o cofre e o relógio.
Ele diz isso do modo mais singelo possível e eu quase salto de onde estou.
— Esse relógio? O relógio que eu vivo dizendo pra tu trocar? Esse que eu tô vendo que tá parado em 2h da manhã? Tu sabe alarmar mesmo tua namorada.
Dando de ombros, o safado ri! Mas é um riso que gosto.
— Só não queria afetar tua opinião.
De pronto, Vinícius se levanta para pegar o cofre de mim e colocar na sua mesinha, no mesmo lugar de antes, só que dessa vez virado para frente, sem fazer mais o Mickey encarar a parede. Já eu, volto o olhar para o seu relógio lá no alto do portal, não acreditando que ele me tapeou esse tempo todo sem falar desse detalhe crucial.
Quando dou por mim, Vini está às minhas costas, já passando os braços por meu dorso. Ao chegar no pé do meu ouvido, ousa ele me provocar.
— Fora que acho engraçado tu perdida no tempo comigo. Aliás, amo.
— Nesse ponto eu posso reconsiderar, porque também gosto.
— Só gosta?
— Amo.
Ele me arranca essa resposta amorosa e faz o quê? Me ataca de novo com suas cócegas, de modo que saio pulando pelo quarto para me afastar desse pilantra.
— Aí não vale! Já num basta tu ter me aprontado essa do relógio?
— E tu que me aprontou com uma barata falsa?
Faço uma careta fingida de chocada, de boca aberta e mão na cintura.
— Tu tá se vingando dessa tua namorada? Tu jura que quer fazer isso... comigo?
Muito do audacioso, Vinícius dá de ombros.
— A minha história pelo menos é verdadeira, é isso que eu posso dizer.
Admirada de verdade desse atrevimento, cruzo os braços e entro no jogo com o que me cabe, toda altiva e afrontosa.
— Tu sabe que eu posso fazer tu dormir laaaá na cama de hóspedes, não sabe?
— E tu, bonitinha, sabe que, se eu for dormir lá, tu vai junto.
Não querendo nem rir, mas já rindo e apertando os lábios pra segurar esse riso safado em mim, tento ao máximo disfarçar, virando o rosto para a porta.
— Pensando em como driblar esse namorado de novo?
— Pensando que já não posso quebrar esse relógio na tua cabeça, se o relógio em si já tá quebrado e é uma relíquia.
Ando pelo espaço de seu quarto, passando por ele e dando a volta para ir para a cama pelo outro lado. Cato meu celular no processo enquanto cogito ideias do que fazer com esse atrevido.
— Se eu tiver que ir pro hospital, é tu que vai me levar e não vai sair de perto de mim nenhum instante. Além disso, o nosso combinado é de não ir pro hospital tão cedo, então tem que cumprir com a tua promessa.
Com um inevitável bico, balanço a cabeça não acreditando que ele de fato virou o jogo e me deixou sem o que dizer. Logo eu, uma respondona de carteirinha. Então finjo que isso faz parte do plano e sento à beira da cama, do meu lado, como se ele nem existisse. Vinícius, claro, me imita logo após acender o abajur e desligar a luz do quarto, acomodando-se com aquele seu sorriso malandro gigante.
— Deixei alguém sem resposta, foi isso mesmo?
Sem dizer nada mais, sequer olhá-lo, me ajeito à cama, desfazendo o lençol.
— E o meu beijo de boa noite?
Cantarolo a música que ouvi nos corredores da empresa hoje:
— Can’t read my, can’t read my, no, you can’t read my poker face...
E ainda dou uma dançadinha de ombros, curtindo o verso na minha cabeça.
— Olha que desse jeito não me resta escolha se não atacar de novo.
Com o ritmo de “po-po-po-poker face” me guiando, balanço o dedo em negativa bem ao seu rosto.
— No, no, no, no, no, no, no, no.
— Eu posso mudar de ideia se tu mudar de ideia.
Geniosa, cerro o olhar e quebro o gelo com essa, virando o jogo pra mim com as próprias palavras dele, de mais cedo.
— Acho que posso dizer que... esse é o tipo de informação que salva um casal.
Para completar, o safado movimenta o pé só para fazer aquele barulhinho, para me agradar, e entrega seu pedido.
— Agora quero o meu beijo de boa noite.
— Eu não prometi nada, não assinei nada.
E assim me deito com as costas na cama, outra vez ignorando sua presença e suas ousadias. Ele, por outro lado, continua sentado ao meu lado, recostado ao espaldar da cama, me encarando todo engenhoso. Chega a cruzar os braços, fechando-se de mim.
— Então vai ficar sem o meu beijo também.
Com a cara mais límpida de todas, só viro para piscar um olho pra ele, em anuência, demonstrando que tô muito de boas com isso. Vini, no entanto, pergunta com movimentos faciais se é isso mesmo que eu quero. Dou de ombros enquanto me ajeito à cama, agora deitando de ladinho para o lado dele, aconchegando-me melhor.
— Fica aí como punição por todo o meu melodrama com o teu aniversário, mesmo com muita dor no coração e estando na mira da tua irmã, sob ameaça. Nem ri de ti e cumpri com o disfarce como me pediram.
É o Vini agora quem segura o riso, porém, quebrando o próprio cruzar de braços. Ele dribla essa camada extra de dramalhão ao mexer na minha franja, todo atencioso e periculoso em intenções.
— Se tem uma coisa que eu não quero... é te punir.
Nisso, ele faz que vai pegar uma parte do lençol pra si, mas eu puxo o tecido só pra mim, de riso malvado. Como não digo nadinha, Vinícius tenta passar o seu papo de novo, sabendo que tô aprontando gostoso com ele. E, como é cavalheiro demais, o bonito não passa do ponto, só joga indiretas diretas, agora dando de ombros também.
— Tudo bem, como eu disse antes, aceito tudo.
Sem réplica minha, ele desliza mais na cama, para poder se deitar, apenas divagando consigo mesmo.
— E se tu aguenta ficar sem o meu beijo, acho que eu posso aguentar também.
Inevitavelmente, solto um riso engasgado que lhe chama a atenção. Vini me encara por uns três segundinhos, só me avaliando nessa tramoia. Ele mesmo quem quebra sua postura, outra vez.
— Pra mostrar que sou muito do bonzinho, te dou um sem pedir nada em troca.
Já tinindo de cinismo, aponto para minha bochecha que está virada para cima.
— Quer que eu desligue o abajur?
Balanço a cabeça em negativa. Logo ele se estica pro meu lado, me segura o rosto de leve e se demora um tantinho em um beijo na minha bochecha. Ainda dança com seu nariz por meu rosto e me dá um beijo rápido, mais casto, à testa. É quando ele vai se afastar, que eu o alcanço e o beijo à boca. Capturo seu sorriso com os lábios num selinho provocativo e interminável, que ele de pronto aceita e embarca, mesmo que eu não aprofunde nem nada. Que ele tenta, ele tenta, e tenta mesmo, mas só lhe sobra sorrir e curtir o que estou lhe permitindo. E, como fez comigo, também deslizo o nariz por seu rosto ao final.
— Malandrinha nada, né?
— Malandrinha sempre.
Com essa declaração, avanço sobre ele num novo beijo, bem mais ousado. No que eu o empurro, para cair de costas à cama, ele nem tem tempo de gargalhar, já que eu o ocupo bem. Meus cabelos descidos ao seu rosto atrapalham só de início, pois Vinícius logo vai elevando o corpo para se emparelhar comigo. Uma vez que ele se senta ao colchão, para se apoiar melhor, me firmo aos meus joelhos, bem entre as suas pernas.
Quando o pulmão me pede algum ar e me descolo dele, encaro-lhe, mordendo os lábios jocosos justo para ele, que me toma novamente para si, puxando-me mais pela cintura, numa pegada que faz sua eletricidade correr loucamente por meu corpo. Acabo me soltando dele só para jogar a cabeça para trás e rir insana. O bonito aproveita esse movimento para me provocar, resvalando sua boca por meu pescoço, bem nos meus pontos sensíveis que ele bem conhece. Entre arfadas, ele diz, ou tenta dizer:
— Esse beijo... ainda... não acabou.
Antes que me arrebate de novo, eu que volto o rosto para si, para propostas mais decentes. Quer dizer, diretas.
— Ele só tá começando.
Antes que eu sequer pense, Vinícius faz uma manobra rápida de me derrubar ao colchão e ainda me cobre o pequeno gritinho que solto pelo golpe de surpresa. Dessa vez, eu, que estava mais do que doida para provocá-lo, eu quem aceito que me dobre. Para a sorte desse aniversariante, eu não vou revidar, só aproveitar.
Porque ele existe e eu existo. Na loucura e na paz, juntos, esse é o nosso pacote completo. Esse é o nosso jeito de sermos felizes.
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