Notas iniciais
PRE-CI-O-SI-DA-DE aqui posto com gosto vocês vão entender!

Tomando uma boa golfada de ar, e de ar puro sob o céu estrelado, seguro-me com força ao parapeito da varanda e só respiro. Não puxo ar demais e não solto demais, só permito esse vai e vem, então de olhos fechados, sentindo como entra e como sai, e vou afrouxando devagar o aperto das mãos até o ponto de poder só repousá-las sobre a superfície de madeira lisa onde me apoio.

Dá pra ouvir ao longe algum rockzinho leve tocando numa casa vizinha, algum programa de televisão indecifrável, umas risadas bem longínquas e o barulho suave das folhagens do pequeno jardim dos Garra. Isso sim me dá um senso de normalidade e de suavidade para retomar os pensamentos, principalmente os não malucos.

Pausa, às vezes só preciso de uma pausa.

Mas, num primeiro momento, só aprecio a brisa da noite, dispersando as minhas próprias formações mentais. Os exercícios semanais com a Cris têm me ajudado nesse sentido, de sossegar mais as correntes de pensamentos, deixar que passem, e me concentrar em serenidades do ambiente, no que está estável e firme.

Inclusive, uma de suas últimas propostas nesses experimentos era de eu me permitir permanecer “um minuto”, só mais um minuto, no lugar que me estremece as estruturas, independente de envolver trovões ou não. Só ficar e observar. Só me dizer: consegue ficar só mais um minuto? E depois complementar: fique e descubra novas possibilidades.

— Lena? Lena?

Ao ouvir o meu nome e saber que estou sendo procurada que volto aos poucos a mim mesma e à realidade.

— LE...?

— Aqui fora.

Sem me mexer, permaneço onde estou e como estou, só fitando os detalhes da casa e do local, embora esteja bem escuro do lado de cá, mas, pela luz que vem da porta e da janela da sala, consigo enxergar o carro na garagem bem ao lado, a pilastra de divisória, a própria madeira onde me seguro. Observando essas coisas sutis, me alicerço nessa busca de novas possibilidades para mim mesma. Quando ouço o Vinícius passar da porta para o espaço da varanda, resisto por um instante de virar para encará-lo.

— Lena?!

Branda, demonstro meu estado de quietude e de distanciamento.

— Só quis um ar fresco.

Porém, atrás de mim, o seu suspiro é bem audível.

— Você quer mesmo ir embora.

— Eu só q...

— Tudo bem, se é o que você quer, não devo ins... Eu te levo pra casa.

Moroso, Vini parece dar a volta para pegar o que imagino ser a chave do carro.

— Espera, não é...

Me viro e encontro-o tristonho. Mesmo com a baixa iluminação e ele de costas para a luz da sala, posso discernir bem seu semblante desalentado. Acho que o meu não estava muito diferente quando ele saiu para ir na cozinha há uns poucos minutinhos.

Assim estendo os braços e as mãos para ele, que aceita na cautela.

— Vem cá, fica juntinho de mim.

Conforme viro para o jardim novamente, puxo-o para que me envolva outra vez, agora com ele ficando às minhas costas e eu em contato com o parapeito. Abraço seu abraço em mim e colo meu corpo nele. Sinto sua resistência conforme fala.

— Insisti de novo, né?

— Insistiu o que era pra insistir, porque a questão é que eu devo ficar dessa vez.

— Se realmente quer ir embora, não tem problema.

— Eu não quero ir. Mas confesso que eu tive esse ímpeto. E vir aqui fora me ajudou a pensar, ou não pensar, sobre essa vontade de sair. Sobre como eu ainda faço coisas assim quando as coisas apertam. Quando sinto que errei demais. Como fujo de assuntos e fujo de conversas, mesmo não querendo fugir.

Penoso, o namorado deita a cabeça ao meu ombro e pescoço, firmando-se mais em mim.

— Eu não devia ter dito aquelas coisas.

Pra não entrar nessa seara, nem pergunto se fala da parte em que ele bradou suas mágoas ou da parte que confessou seus medos, principalmente de seu medo de mim e de como sigo fugindo dele. Sei é que eu que me arrependo de não ter falado coisas, tantas coisas.

— Só precisei de um ar diferente. Lá no quarto, eu fiquei meio embaralhada e amontoada, e aqui... aqui pude tomar um fôlego. Precisei mesmo me deslocar, mas... Mas não precisava sair.

— Desculpa, Lena.

Deslizo a mão para alcançar seu rosto e afago-o de leve.

— Acho que já batemos a cota de desculpas para uma noite. Ainda mais que sou eu quem tá em débito. Eu que omiti muita coisa e mais coisas do que deveria.

— Eu posso esperar o teu tempo.

Me mexo apenas para poder virar um pouco de mim para ele.

— Mas não quero que fique assim.

— Assim como?

— Assim, me dando respostas exasperadas por medo. Eu tô sentindo o teu medo. E pensando se tu tá te calando de novo, se eu tô te obrigando a te privar de novo... E isso tudo porque tu também sentiu o meu medo lá dentro. Medo de falar mais merdas, de tu me odiar, tu não me entender, tu perder a paciência comigo. Porque eu não falo as coisas quando deveria. Não por pura omissão, mas por...

— Tudo bem, amor, tudo bem.

Suspiro ao seu suspiro, de quem tá me vendo falar demais, mas não digo tudo isso sendo vaga ou só metralhando sem sentido. Eu quero que ele entenda o sentido e o que esse sentido me faz sentir. Mais branda, explico melhor.

— A questão é que não sei se dá pra ficar tudo bem assim, Vini. Ao mesmo tempo, eu quero fazer isso dissipar. Ficar e sentir esses impulsos irem embora. Ficar e sentir isso com você... até isso ir embora. E pra que aconteça de fato, acho que tenho mesmo que ficar. Ficar e falar sobre essas vontades... de fugir de ti.

— Tem certeza? Porque não precisa mesmo se tu n...

Toco no seu braço envolta de mim, porque dessa vez não quero mesmo uma saída ou uma saída fácil dessas.

— Às vezes, acho que só preciso respirar um novo ar, sabe? Um tempo sem mexer nas coisas que estão me embaralhando. E preciso de uma companhia que fale nada com nada comigo por esse tempo.

Meu irmão que deu essa ideia, que eu chamei de “o treinamento do Murilo” para ajudar as pessoas a lidarem comigo, mas ainda me surpreendo sobre como ela é efetiva.

— O Sávio foi esse amigo naquele dia, e o Bruno muitas vezes me foi também... Assim como a Dani e a I e o Murilo. Entende?

Vinícius anui com um leve balançar afirmativo.

— E se for pra fugir, mesmo que por um instante, que seja contigo, né? Que dessa vez seja contigo. Então, nesse minuto, eu só quero o que tu me disse lá dentro. Eu só quero o teu abraço, só existir no teu abraço e nada mais. Posso?

Vinícius quase se desmantela com esse pedido, sinto. Não sei se de alívio, ou se só está liberando a tensão. Sei que me enlaça de lado, beijando-me a testa, e só permanece e quase me deito nele novamente. Dessa vez não quis sentir o seu coração para não pensar coisas estapafúrdias sobre estar fazendo mal a ele de novo. É melhor abaixar os ânimos primeiro mesmo.

Ficamos de fato uns minutinhos em silêncio. Se três ou sete ou vinte e um minutos, não sei quantificar, mas me sinto melhor por permanecer. E declaro isso a ele, vez que ainda posso pressentir sua hesitação.

— Eu sei que eu fiz errado, Vini. Fiz errado e do modo errado não conversando contigo sobre todas essas coisas... Principalmente as que me remexe em desconfortos. Mas se eu tivesse saído porta afora mesmo, acho que teria piorado esse sentimento. E só de existir aqui contigo tá me valendo por mil... Por mil fôlegos, por mil terapias. Então acho que tu também é a minha loucura e a minha paz.

Seu corpo ao meu parece enfim suavizar, especialmente após Vinícius me beijar o rosto com mais segurança, menos acanhado, embora nada diga. Seguimos quietos por mais um tempinho e, quando achava que já estava molezinha de relaxada, de repente uma gargalhada de alguém andando na rua, conversando com outra pessoa, nos atinge junto também. É algo que felizmente quebra o climão.

— Deve ser uma das vizinhas idosas, ela gosta de caminhar geralmente à noite.

— Não é perigoso pra ela? Digo, pelo horário.

— Geralmente ela tá com a cuidadora e o cachorro dela. Não tá ouvindo um rosnado baixo e um barulhinho de coleira?

— Ah, agora ouvi. Achei que por aqui não tivesse cachorros, porque não lembro de ter ouvido latidos.

Com um leve carinho ao meu braço, ele continua em contato e apenas divaga, o olhar voltado para o portão de sua casa.

— Ele é um dos quietos, acho. Treinado mesmo. Acho que a dona dele deve ter alguma necessidade especial. Ela se mudou tem um tempinho. Não sei muita coisa, às vezes minha mãe que comenta algo. Mas a vejo bastante, geralmente nesse horário, quando tô voltando pra casa. Acho que posso dizer que ela é bem espirituosa. Não só por essas risadas na calada da noite, mas também porque... Ela sempre me dá um tchauzinho.

Vislumbrando o seu rosto, que permanece virado para a entrada da casa, sorrio com leveza por essa sua história.

— Como não te dar um tchauzinho, hein?

Lá fora, a senhorinha irrompe com uma nova gargalhada, dessas que arrasa um quarteirão, mesmo que bem mais longe da gente. Isso me faz me abrir mais também.

— Contagia, né?

— Acho que sim.

Com essa, Vinícius ri de leve e me enlaça mais, tornando a me colocar de frente a si e me comprimindo a ele.

— Te amo, Lena. E acho que consigo ser um amigo, além de um namorado. Um namorado e um parceiro... que também é amigo.

— Valeu.

Com mais entrega, consigo beijá-lo e apreciar seu aconchego, bem bem bem bem mais suavizada.

Só então que lembro do que o deixei fazendo quando escapuli da casa.

— O bolo e os morangos estão abertos na mesa?

— Estão cada um num pote.

— Ainda bem. Seria meio triste voltar e eles estarem cheios de formiga.

— Não precisa voltar se não quiser.

Ele tá sendo um lindo de me dar espaço, mesmo que depois de uma baita discussão, e eu quero também ser uma linda pra ele, agora trazendo-o para o universo das minhas loucuras que só mantive cerrado em pensamento.

— Morar no teu abraço é mesmo uma coisa boa demais, viu?

Mas Vini sabe, intui, que vem uma daquelas conversas.

— Não precisa ser hoje.

— Não precisa ser tudo hoje, mas quero começar hoje. Quando prometi uma grande noitada, não imaginava que as grandes DRs estariam no pacote; no entanto, a gente tava precisando, né? Quanto mais conversas pendentes ficam, mais temos espaço pra mágoas. E uma coisa que eu definitivamente não quero é te magoar, nem de modo inconsciente, nem de modo displicente.

Falo isso direto aos seus olhos preocupados e falo alastrando um carinho ao seu rosto. E acrescento um adendo master importante sem quebrar esse contato visual.

— Eu confio em ti e quero que sinta isso, Vini. Isso inclui as coisas importantes e as coisas mais idiotas do mundo. E, acredite, eu me senti uma idiota por muito tempo por não trazer essas histórias pra conversar contigo, algo que eu devia ter feito isso há muito muito muito tempo mesmo.

Vinícius devolve o carinho, mais amainado, levantando um ponto.

— Sem mais desculpas. Tu mesma disse isso.

— Tá. Então... Vamos sentar um pouquinho?

Pego-o pela mão para nos direcionar ao banco que fica próximo à porta da sala, ainda na varanda. Vini chega a tocar no interruptor ali do lado para ligar a luz do local, mas eu a desligo.

— Não é tu que diz que gosta de mim num escurinho?

Acho que ele sorri, acho.

Sentamos ao pequeno móvel acolchoado e logo estou colada novamente nele, embora esteja de um modo mais livre. Vinícius me abraça de lado, descansando sobre meu ombro e mantendo um carinho ao alto de meu braço. Apesar de toda a situação estranha que nos levou a isso, está bem confortável. É bom ver que é bem distante de todos os cenários tensos e ansiosos que imaginei durante os últimos meses, de como eu estaria ou de como ele ficaria. Bem distante até do climão que foi nossa discussão no quarto.

Sem todo aquele ar de cautela ou de preservação, prossigo mais confiosa de seguir com o que tenho que dividir com ele.

— Eu vou tentar encadear conforme eu lembrar, tá? Qualquer coisa que eu deixe passar, eu acrescento depois.

— Tudo bem.

— Então... acho que não tem como não começar pelo dia que mudou muitas percepções: o dia do nascimento da Lia.

— Parece que foi um grande... Errr... Desculpa, não quero interromper.

— Sem problema, até porque isso é um diálogo, não é pra ser um monólogo, tá?

Mais relaxado, Vini assente, entendendo que isso é uma troca. Pra todo caso, tomo mais um fôlego e mais uns segundos para me concentrar nisso.

— Tá, o dia do nascimento da Lia. Eu tava no trabalho quando o Murilo me ligou. Inclusive, a I tava na comigo na sala do Thiago, já nem sei o que a gente tava resolvendo, só sei que a criatura nos deu um baita susto. Porque ele tava para lá de emocionado, daquele jeito que tu viu, e eu demorei a entender do que se tratava.

— Teu irmão tava bem envolvido mesmo.

— Bote envolvido nisso. Ele me chamou pra ir na maternidade e por sorte eu consegui uma dispensa pra sair mais cedo. Iria de ônibus e a fadinha foi me acompanhar até o ponto. Até aí, tava tudo ok, a gente falava só do Murilo sendo um padrinho e um babão e um fofo e... Bem no saguão, já quase na saída, a gente topou com o pai de vocês.

— Então foi o meu pai q...?

— É, ele fez comentários. Tipo, ele viu a nossa animação e que a gente tava indo pra saída e foi nesse fuzuê que a gente contou a novidade, que a afilhada do Murilo tinha nascido e eu tava indo lá ir ver e tudo mais e... E aí veio o primeiro climão.

Coço a cabeça, outra vez desconcertada pelo que ouvi do sogrão.

— O que ele disse?

— Algo como “Que maravilha! Será que vou ser vovô pra breve também?”.

— Hmmm... Entendo. A sugestão, no caso.

— É, porque pra ele ser avô, seria, em tese, uma de nós duas. E olha que Filipe já fez um comentário assim uma vez, quando eu era novata na empresa e a sobrinha do Thiago, a menorzinha, apareceu lá no escritório. A Iara até que teve jeito de brincar com a menina e levar ela pra área de amamentação, mas naquela época ela não tava com o Sávio, então dessa vez bateu diferente. Bateu diferente pra nós duas, na verdade.

— Imagino que sim.

— Mas aí, pra nossa sorte, chamaram o Filipe e ficamos só eu e a I ali, uma olhando pra cara da outra, ou nem olhando, já que ficamos super sem graça. Eu mesma fingi que nem tinha acontecido e só segui meu caminho. Na minha cabeça, eu só tava indo visitar a família da Aline, encontrar o Murilo e conhecer a nova integrante.

— Então sem crises no ônibus?

Assinto nessa, com mais firmeza.

— Sem crises e sem surtos dentro do busão. Até porque o negócio só me pegou mesmo só lá na maternidade. Encontrei com o Murilo e fomos pro berçário. Aí sim eu conheci a Lia. Ele basicamente nos apresentou e foi me explicar a história do nome dela, de como queriam manter o paralelo Lis e Lia, que Aurélia também combinava com Aline, e foi depois, tipo, mais de mês, que fui saber do Alfonso. Porque elas chamam ele de Fonse, né? Pensei que era de Fonseca. Então demorei a saber que era de Alfonse. Quer dizer, Alfonso. Enfim. A gente tava no berçário e o Murilo tava me contando isso de letras e paralelos e tava naquele modo babão choroso dele que eu nem quis perguntar. Mas aí... Aí eu fiz um comentário infeliz.

— Tu?!

Vini fica tão surpreso que sua insinuação ecoa comigo.

— É, eu meio que abri o espaço do climão, sem querer. A gente já vinha falando sobre as expectativas dele, isso depois daquela confusão de achar que a Aline tava grávida e ele começar a se acostumar com a ideia de ter uma criança... Em outros momentos ele também já tinha me falado que tinha planos pra um futuro com ela, então falar sobre isso em relação a ele, Murilo, era algo comum. Daí o meu comentário infeliz foi algo nessa linha, puxando a referência das letras e do nome dele. Tipo “tu pensa em manter os Ms também?” e... ele disse que sim! E foi o adendo dele que me pegou no pulo!

Acarinhando-me uma das mãos ao colo, Vinícius infere nessa.

— Deixa eu adivinhar: ele também quis saber se tu manteria os Ms?

— Antes fosse! A criatura já tava com muita coisa arquitetada.

— Arquitetada como?

— Ele disse mais ou assim: “vou ter que falar com o Vini pra dizer que o M vem primeiro que o V”. Ou seja, além de nem combinar comigo, ele iria combinar contigo! E já tava indicando que seria mais de um!

Por incrível que pareça, Vini até ri nesse ponto. Não sei dizer se um riso nervoso, mas com certeza um que questiona a provocação do meu irmão.

— É, nessa o Murilo foi longe, beeem loooonge.

— Sim, tão longe que eu quase engasguei ali mesmo e os meus parafusos se soltaram todos. O que ficou bem na cara e aí a criatura disse que era brincadeira. Mas também me encheu de perguntas, se eu achava se seria menino ou menina, se eu tinha preferências, se eu pensava nessas coisas, e não, eu não pensava, e não tava nem próximo disso. Acabei foi me embolando toda.

— Ainda mais que o meu pai já tinha plantado a semente.

— Exatamente! Eu fiquei tão atrapalhada que tentei disfarçar e ficou ainda pior. Tipo, falei da maternidade, que foi aquela mesma da Alexandra e da Wanessa, e que eu tinha ido visitar elas no ano passado, agora retrasado, e deixei no ar a pergunta de quem eu visitaria nesse ano, e o Murilo queria sugerir que seria a minha vez. Daí que o negócio desandou de vez!

Estremeço de leve só pela lembrança de como me senti naquela conversa esquisita. Acho que o Vini não percebe, ou se percebe, pode pensar que é nervosismo meu de falar sobre isso. De qualquer forma, ele se atém ao que agora revelo.

— Isso porque ele pirava bastante só de pensar na Aline grávida, né? Mas como é que ele... que ele não tava pirando de pensar em ti grávida? Quer dizer, daquela vez que ele soube que... O vídeo dele foi parar no Youtube.

— Isso foi outro ponto que também me deixou assustada com ele daquele jeito. Tu viu, ele tava chorando tanto quanto o Alfonso, que acho que até a enfermeira ficou na dúvida sobre quem era o pai. Ao mesmo tempo, o Murilo tinha voltado faz pouco tempo daquela viagem e ele andava bastante afetado com as coisas, então essa parte entrou na conta. Daí, acho que ele tava tão emocionado com a Lia que a perspectiva de ter... errr... sobrinhos... também era... hã... bem-vinda. Tipo, ele não ia te matar, ou me matar; ele iria era ficar muito feliz também.

E isso ainda é muito surreal pra mim, que não fiz essa transição de ideias tão rápida quanto o meu mano.

— E ia me exigir o M na frente do V.

Esse ato de o Vini repetir a informação me parece ser só ele organizando as informações na sua cabeça de novo. Embora se mostre mais calmo e atento, também me parece surpreso. Eu que, por outro lado, ainda me agito com isso.

— Pra tu ver o quanto as coisas estavam insanas. Aí sim eu surtei e me atrapalhei, mesmo com a criatura falando que era zoeira. Porque eu não tava sabendo lidar com esse Murilo que tava a anos-luz no futuro e num futuro que eu não tinha nem concebido ainda. E foi bem por aí que tu apareceu e já chegou tirando fotos. Aliás, eu nunca dei conta de ir atrás dessas imagens porque eu não teria coragem de olhar a minha cara nelas. Mas tu sacou de primeira, assim que bateu o olho em mim, que eu tava alterada. Tava, na verdade, sendo muito, muitão, pra mim.

Vini traceja um carinho ao meu semblante, também relembrando do meu estado.

— É, tu tava diferente e não de um bom jeito. Tava tensa. E eu lembro que tu falou de cólicas. Era mentira?

— Até que não, porque elas me pegaram bem ali também, o que acho que contribuiu pro meu nervoso junto. Tipo, tinha esse Murilo diferente, falando essas coisas diferentes, e o meu sistema interno passando pelas mudanças dele. Mas me apropriei disso pra poder fugir de olhares e do próprio espaço. E, é... interagi pouco e fiquei mais na minha. Parece que quanto mais eu queria ir embora, mais eu ficava presa naquela maternidade e não tinha uma desculpa maior pra me tirar dali. Não sem chamar atenção.

Ao soltar meus ombros em confissão, Vini estala a língua e me afaga o rosto.

— Ô, amor.

Com certo bico embaraçado, confesso uma coisinha também.

— Até tu tava empolgado com a Lia. Isso me deixou num fuso maior ainda.

— Eu tava, sei lá, feliz pelo Murilo. Era engraçado como ele se derramava todo e a Aline junto e faziam brincadeiras e... enfim. Ele sabe contagiar as pessoas.

— É, eu via isso também, mas com toda essa insistência, ou ideias, eu nem consegui participar disso direito. Fora que cheguei de fato a me imaginar na maternidade, eu sendo a mãe, eu ali na cama, o Murilo sendo o tio palhaço e tu...

Vinícius se move rápido ao se virar pra mim, descrente.

— Sério?!

Eu, no entanto, levo as mãos ao rosto, mesmo que não me feche por completo, mas abaixo a cabeça porque ainda é estranho falar sobre isso.

— Vai parecer idiota, ou é mesmo uma coisa idiota, mas eu pensei isso e não me senti preparada. Não quis estar ali e nem estar numa situação dessas.

Sinto seu carinho, que mais uma vez me captura o queixo para me voltar a ele, que me observa caridoso. Eu só continuo.

— É que me pareceu muito e eu não queria... Eu não quis esse futuro. Eu não quis ser a próxima. Mesmo que isso faça as pessoas felizes, eu não me sentia nem um pouco propensa a isso. Nem um pouco desejosa. E ainda não sinto isso.

Vini me firma o queixo para poder focar nele.

— Não é uma coisa idiota. É algo normal. Eu também teria um susto, acho. E tô com você, porque também não estaria preparado pra algo assim. Não digo que não gostaria disso, mas também não é um plano próximo. Não é algo que eu tenha em mente mesmo.

Novamente, ele é um lindo de tentar me tranquilizar, porém, sigo tesa por como as pessoas jogam essa pra mim.

— É, mas pra mim colocam essa “expectativa” quase como algo a cumprir, não de vivenciar da maneira que eu queira. E o conflito disso me deixou tão agoniada que eu tive mesmo que sair do quarto e me enfiar num banheiro, pra me convencer de que era só um pensamento maluco, que não ia acontecer e que... É, eu fiquei mal.

Vini torna a me afagar o rosto, mesmo que eu insista em me colocar para baixo.

— E tu, sempre atencioso, perguntava de tempos em tempos o que havia comigo. Eu já nem conseguia mais esconder.

— Ô, Lena.

— Eu sei. Tipo, eu sei... Tudo foi mesmo uma brincadeira e nem digo que foi de mau gosto, foi até na boa intenção acho, mas isso me colocou frente a perspectivas que... que eu não tenho. Como se o futuro, esse exato futuro, estivesse bem próximo, como se já fosse uma realidade antes de qualquer decisão, e não era uma decisão minha... Não foi bom pra mim. Mesmo.

Vinícius me puxa para si, para que eu possa me deitar e me apoiar ao seu corpo.

— Ter uma imposição dessas não é bom pra ninguém.

Indignada, revelo mais um detalhe que me remexeu toda.

— E pra completar, o universo ainda me aprontou uma situação, que aposto que foi uma vingança pelo Murilo, por eu ter aprontado aquela do mp3 com ele!

O namorado desgruda a cabeça da minha para me lançar uma grande questão, que, embora possa parecer de zoeira, sei que é algo genuíno e interessado.

— O que foi que o universo te fez dessa vez?

— Eu sonhei que ouvia um choro de bebê, eu no antigo prédio de trabalho da criatura, e eu saía procurando, sabendo que era meu, e não achava a criança de jeito nenhum. E foi o Murilo, logo o Murilo, que me acordou dessa agonia, porque eu tava muito agitada e ele me ouviu, do corredor, resmungando. No caso, eu falando durante o sono e que era algo perturbador. Eu só achei que era mais um daqueles sonhos vívidos e, sei lá, nem processei muito.

Também mexido, meu Vini meneia a cabeça, meio chateado. Felizmente, não comigo. Ou não todo comigo.

— Poxa, Lena. Se tivesse me d... Eu tiraria toda essa preocupação de ti. Mesmo com sonhos e com alertas e... Caramba, o universo aprontou pesado dessa vez.

— É, foi tudo tão de repente, tudo muito doido e eu não tava sabendo mais responder às coisas ou às pessoas. E como muitos dos meus erros, me mantive calada.

— Não se martiriza assim não, tá? Não foi exatamente um erro. Tu tava processando, né? Eu posso entender isso.

— Mas mesmo no depois... eu também não falei. Eu só continuei guardando... e as pessoas notando e... me perguntando... ou não perguntando... Eu nem sabia como começar a falar sobre isso. Não conseguia dizer nem pra mim mesma, imagina pra ti. E foi aí que as pessoas foram me pegando nesse processo, descobrindo e... Teve quem me apertasse, quem me investigasse, quem... se desculpasse.

Penso no que a Iara me aprontou, na Aline me sondando sobre a Lia, e depois no Murilo se culpando por ter me atazanado os pensamentos.

— Agora me perdi. Explica isso.

Me descolo dele um instante.

— Posso fazer uma coisa antes?

— Pode, claro.

— Tu viu o meu celular?

— Hmmm, acho que ficou no quarto. Quer que eu pegue?

— Uhum.

Vinícius me dá um beijo carinhoso à testa e sai para buscar o aparelho. Assim que retorna, pergunto se está com o dele e ele demonstra que sim. Desta maneira, abro o aplicativo de mensagens e escrevo pra ele, enviando linha por linha sem o olhar diretamente. Mas sei que intui que estou transmitindo algo e logo o namorado se mexe para abrir a tela do chat no seu celular.

Vc tava certo, tem algo na minha mente e eu ainda não sei nomear bem

Tô mexida com o Murilo sendo diferente demais

Pra te falar a vdd, tá sendo uma experiência bem estranha

Me dá uns dias e volto a falar sobre isso ctg

Antes que eu possa me manifestar sobre o que acabei de fazer, ele responde:


Tudo bem, só me dizer qnd precisar conversar :)

— Teria sido tudo mais fácil, né?

— Não sei se tudo-tudo, mas acho que teria ajudado.

Levanto o celular entre nós.

— É assim que pensou... de a gente se comunicar?

— É, nesse sentido mesmo. Como um bat-sinal digital que nos coloca mais abertos sobre as loucuras de nossas cabeças.

Assinto, lembrando também de como eu tinha proposto isso a ele uma vez, mesmo que eu não soubesse como fazer, mesmo que parecesse a coisa mais difícil de se fazer naqueles tempos. E agora estamos alinhando melhor isso.

Mas não deixo de me perguntar como são essas ideias para ele. Quer dizer, o futuro também o deixa nervoso e embaralhado?

— Antes de falar sobre as outras pessoas, eu quero saber uma coisa.

— Pergunta.

— Tu já teve algum sonho nesse sentido? Eu e você... e coisas do futuro?

Vini inclina a cabeça, pensativo, detendo-se a isso.

— Algumas vezes, acho. Mas não exatamente com filhos ou numa cerimônia de casamento, por exemplo. Eu sonho muito com a gente no telhado. Até mesmo assistindo um show da Dani... do telhado.

Lembro mesmo de alguns que ele já comentou comigo. Até mesmo com o seu pai Gustavo.

— Teve um também que eu abria a planta da casa do meu avô lá no escritório dele, pra construir uma casa de piscina privativa, e tu me ajudava na parte do planejamento e da decoração. Dava a entender que era pra ser para a noite de núpcias, mas não ficava claro se era a nossa noite ou não... Parecia mais que eu tinha sido contratado.

Pelo modo com que vagueia o olhar, acho que está captando as imagens desse sonho de novo.

— E o que sentia quando acordava?

Uma linha de sorriso puxa os lábios dele num leve contentamento.

— Achava curioso e ficava tentando lembrar mais coisas. É bom sonhar com você. E como outros sonhos, me dava mais vontade de ver você. Até quando era pesadelo. Tive muitos pesadelos no final do ano, por, você sabe, ter tido aquelas... paranoias. O contexto era ruim, mas isso fazia eu tentar ficar mais próximo de ti. Mesmo com aquela ideia insana de ter que te deixar ir. Era confuso, mas eu ficava tentando me convencer de que era só um sonho, mesmo que aqueles “sinais” fossem “sinais”. Acho que sonhava acordado com isso também.

— Ah, eu lembro de uns sonhos assim... de quando sonhei acordada contigo.

Vini se empolga com essa parte.

— Sério? Quando? Ou, melhor, como era?

— Hãaaa... Foi principalmente naquele período que eu saí fugida pra casa dos meus pais, na temporada de fim de ano. Muitas vezes eu tava na loja, ou em outra loja, onde eu estivesse na verdade... E eu sonhava, imaginava, que tu aparecia e não falava nada, a gente só se abraçava e ficava ali. Nessa época, a gente não podia nem se falar direito pelo telefone que dava briga.

Meu Vini nem se detém ao contexto, só ao fato que o faz abrir um sorriso animado e satisfeito.

— Tu sonhava comigo.

Dessa vez, a minha encolhida de ombro é mais divertida do que constrangida.

— Sonhava, ué. Teve uma vez no supermercado, sei lá em que seção eu tava, que fiquei encostada no carrinho de compras e pensei naquelas cenas de filmes, de reencontro, sabe. De ter um grande abraço e um grande beijo. Não necessariamente com as pessoas ao redor aplaudindo, porque era pra ser um momento só nosso. E aí eu imaginava você tentando se desculpar, tentando se explicar, como vinha acontecendo, por toda aquela história de esconder o que o Murilo fez... e eu dizendo que a gente não devia mais falar sobre isso, que não era mais pra tocar nesse assunto. Eu imaginei muitas dessas coisas. Porque eu só queria você ali comigo. Mas eu também quis eliminar o Murilo e isso complicava tudo.

Na face do Vinícius, ele tá tão admirado com o que conto, com um sorriso tão enorme, que chega até a ser engraçado.

— Tu sonhava comigo e... Como é que eu nunca soube dessa preciosidade? Tipo, tu faz ideia do que é saber disso?!

Gargalho sabendo que não devia rir e isso me faz rir mais e ele me ataca com cócegas rápidas e provocativas.

— Tu sabe muito bem, bonitinha!

— Tá, eu ficava com vergonha. Era meio bobinho, né?

Ele me “conserta” nessa ideia, chamando-me a atenção ao encadear as sílabas com a mão, tal qual um maestro que guia sua orquestra. E que maestro contente é ele!

— Pre-cio-si-da-de. Ouro!

— Então vou entregar mais um ouro... um meio doido. Quando tu apareceu lá na boate, por um instante eu achei que eu tava vendo coisas, que minha imaginação tinha ido longe demais. Eu só tive a certeza que era tu ali porque quem te percebeu primeiro foi o Lucas e ele disse que tinha alguém me encarando. Tu, no caso. E quando a gente se aproximou, eu só queria te abraçar e não soltar e não falar nada, como que realizando o meu sonho interno, mas aí... não aconteceu. Acabou acontecendo outras coisas.

Contraio o rosto numa careta e meu Vini, acalorado, quase salta do assento.

— Caraca, e era só tudo o que eu queria! Até mesmo na enfermaria lá!

Aperto um lábio no outro por essa memória da enfermaria, mas ele me conta da perspectiva dele, que foi bem diferente da minha naqueles dias.

— Eu perdi as contas de quantas vezes fiquei imaginando tu chegando e... eu só querendo te ver, te beijar, te abraçar e não soltar. Fiquei ansioso mesmo, independente de como a gente tava, porque, pra mim, qualquer contato era um contato. Mas parecia que quanto mais eu me aproximava, ou tentava me aproximar, mais tu se afastava.

— Bom, eu tinha te acertado com um vaso, né? Isso também não me fez bem. A confusão toda desembocou em situações mais esdrúxulas ainda. E descobrir que o Murilo tinha feito fofoca de mim, e uma fofoca toda errada, cara, isso me deixou muuuuito inflamada. Eu só queria matar ele e tinha que me refrear o tempo todo.

Nossa, o quanto eu odiei o meu irmão naqueles dias, foi um negócio, assim, tremendo. E depois passei a odiar muito odiá-lo, porque o Murilo não tinha noção das coisas. Fiquei putaça como nunca antes.

— Teu irmão não colaborou muito, né?

Faço aspas com as mãos ao falar disso e de lembrar de tudo isso.

— Toda vez que ele “colaborava”, dava mais merda, isso sim. Foi bem difícil de lidar.

Nesse embalo, lembro de uma coisinha também e aproveito para frisá-la.

— Massss... eu não pensei em terminar contigo, não terminar-terminar. Por isso que quando tu me perguntou da outra vez, foi um negócio simplesmente inconcebível pra mim. Tipo, mesmo no auge da raiva, sem saber como as coisas seriam resolvidas, eu ainda te queria. E só quis reiniciar a nossa relação porque achei que poderíamos reconstruir de outra forma. De preferência, sem o Murilo pelo meio. O que eu mais queria era te ter de volta, só não tava era conseguindo lidar com o que tava entre nós — no caso, o Murilo e suas violências.

Num exaspero bem teatral, Vini exclama de dentes cerrados, o que me faz rir.

— Eu vou matar o Murilo! O cara só me botou numa baita roubada, isso sim.

— Isso com certeza.

Lembro que eu também meio que matei meu irmão ali, naquela situação doida e complexa, e não me senti nada bem com isso. Embora seja um fato triste, e seja mais do que águas passadas, tento usar essa memória e essa sua reação de um jeito mais útil e caloroso.

— Pode deixar que te lembro de matar a criatura quando ele aprontar de novo. Não se, mas quando acontecer algo de novo.

Porque sempre temos a possibilidade de coisas insanas acontecerem novamente, mesmo que estejamos mais abertos a conversar sobre elas.

Para meu contento, meu Vini segue em outra instância de seus sentimentos, vidrado e ainda bestificado com a sua descoberta de agora.

— Tu sonhava comigo. Eu ainda tô... Nem sei dizer.

— E se eu disser que a minha mãe me assistiu num desses meus paralelos? Lá no supermercado, inclusive. E ainda quis espalhar pro meu pai! Tive que enfiar minha cara numa almofada, porque os dois tavam de bullying comigo, dizendo que eu tava “suspirando” de saudades de ceeeeerto alguém. E, pra tu ver, até vovó, que também fez compras com a gente, resolveu alimentar a história.

O sorriso enorme do namorado consegue aumentar de um jeito maravilhado.

— Quando eu achava mesmo que não podia melhorar, tu consegue essa proeza.

Eu quem dessa vez alimento e explano a história, esclarecendo-a também.

— Foi bem aí a história de meus pais pedirem o dossiê completo, mas naquela época eu só queria te manter comigo, como um pequeno grande segredo... O que foi pura bobice minha. Depois acabei me arrependendo. Afinal, eles só queriam saber de ti, pra te conhecer melhor.

Deslizo a mão do seu rosto para seus cabelos, entrevendo-o para lá de empolgado.

— E o dossiê foi repassado depois?

— Muuuuuuuuuito depois, mas foi. No último Natal até. Meu pai ficou bem impressionado. Aliás, ele disse que agora deu a benção permanente. Daquela vez foi a provisória.

— É, ele me disse isso na rodoviária.

O namorado joga essa revelação todo vaidoso e eu quero mais dessa e de outra história em específico.

— Disse, é? E o que mais ele te disse... no teu aniversário?

O safado ri, sacana, usando isso para desviar do próprio tópico.

— Acho que tamo fugindo do assunto principal aqui, né? Tu e os teus receios. Que junta demais com os meus receios. E pontas de muitas histórias. Eu não quero te interromper, sério.

Cutuco ele ao ombro, bem sacana.

— Só te digo uma coisa: acho bom tu não ousar não me contar essa.

— A gente vê isso depois que t... Tenho uma ideia melhor.

Ele busca o celular ao lado e demonstra que devo pegar o meu também.

Assim que abro o aplicativo de mensagens, vejo que está digitando algo, que logo se apresenta no chat:

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Vinícius Garra 23h12

Quero muito te contar o que o teu pai me disse, mas não sei se ele quer que tu saiba. O que eu faço?

MLins 23h14

É algo que o deixaria envergonhado, constrangido? Meu pai

Vinícius Garra 23h14

Acho que não. Mas pareceu que ele gostaria de manter só entre nós

MLins 23h15

Tá bom, quando ele autorizar, tu me conta

SE ele autorizar

Vinícius Garra 23h16

Já podemos comer bolo com morangos?

Ele é mesmo apaixonado por morangos e Djane vive comprando umas porções pra mimar seu garoto. Já deu de fazê-lo esperar por essa sobremesa.

MLins 23h16

Já :)

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Mal escrevo e mal ele lê, Vinícius salta do banco para me tacar um beijão na bochecha e se levantar animado para ir pra mesa. Me puxa junto com ele também, mas me detenho ao ver o nome da sogrinha numa notificação rápida no celular.

— Vai indo na frente que eu só vou ver uma mensagem que chegou aqui.

Mas o Vini não vai, ele fica na porta de entrada me incitando a ir logo, então clico na mensagem para poder seguir com ele.

Djane Garra 23h16

Milena querida

Só passando pra avisar que volto pra casa só amanhã

Achei que gostaria de saber, então não me esperem ^.^

Abro a boca, chocada e risonha, e mais chocada por Djane ter aprendido a usar os sinais do teclado para demonstrar sentimentos. Mas antes que eu pense em ensinar pra ela onde estão os emojis, tem um malandro me puxando a atenção.

— E agora já?

— Já. Mas é outro já.

Ele nem precisa inclinar a cabeça para demonstrar que tem uma interrogação, até porque me saio com outro sinal. O nosso sinal. Dou uma batidinha na ponta do nariz.

— Mas já?!

— Não disse que era outro já? Tá, é na verdade uma coisa muito boa, e pra todos os envolvidos, mas eu sei que isso te pega às vezes. Talvez incomode.

No caso, o romance de Rejane. Aliás, estávamos mais “sociais” do que íntimos desde o jantar por saber que em algum momento Djane iria ou poderia chegar. Eu chutaria mais ou menos umas onze e meia ou meia-noite e meia, no entanto, já houve vezes em que ela apareceu mais cedo quando estávamos namorando e aí, para não ter nenhum momento constrangedor, mantínhamos a relação de maneira mais sociável. E agora ela acaba de confirmar que a casa tá liberada. O que é uma ótima notícia, mas isso também significa que a sogrinha vai passar a noite em outro lugar e esse lugar muito provavelmente é a casa de Renato, o que pode mexer com o Vini.

Bom, quero que os dois casais possam aproveitar a noite, por assim dizer.

— Tá, mas posso pegar ao menos o leite condensado pra amortecer?

Negaria eu isso? De jeito nenhum.

— Claro, é o aniversariante quem manda.

Do portal, Vini bate na parede para dar ênfase:

— Uma vez dito não pode desfazer!

— Acredite: dessa vez eu não vou querer desfazer.

Aceito a mão que me estende de novo e ele enfim me leva pela casa novamente, atravessando a sala para ir à mesa. No caminho, também mais leve de estar assim, rio comigo e penso que dessa vez eu sei muito bem onde amarrei o meu burro: no recanto mais amoroso e zeloso que já encontrei nesse mundo.

Aqui fico com gosto.

Notas finais
Achou que essa noite acabou? ACHOU ERRADO Altos e baixos e muita conversa da sacola de pendências! Trechinhos do próximo? "Vinícius me encara por uns segundinhos. - Eu vou fazer uma pergunta e quero que seja sincera, tá?" e "- Encontrou ouro? - Tô um pouco na dúvida." e "- Tu sabe que eu posso fazer tu dormir laaaá na cama de hóspedes, não sabe? - E tu, bonitinha, sabe que, se eu for dormir lá, tu vai junto." ‭❤ Eu sei que vocês também amam eles (◕‿◕)