Notas iniciais
ESSES DOIS ME COLOCARAM DOIDA sim ou mais do que com certeza? Mês passado eu até sonhei com a Milena escapando do Vini num shopping. Eu ajudava ela a despistar de um piso pro outro e depois a se manter num disfarce para fugir de POLICIAIS. Inclusive, acho que ela se escondia numa vila pequena bem intocada. Acordei bestinha da vida de como isso seria algo que eu escreveria. Nem digo que isso bate com certas ideias... Que não são pra agora PORQUE ESSES DOIS ainda vão manter vocês bem ocupados *imaginem um dos pinguins de Madagascar sumindo num buraco ao falar VOCÊS NÃO VIRAM E NÃO SABEM DE NADA* Boa leitura!

É um verdadeiro deleite ver o Vinícius cativado com as peripécias de níver que conto, bastidores que lhe transportam para um portal paralelo, ao qual ele leva com ele, com risadas gostosas e até ataques de cócegas por conta do rastro de mentirinhas que a gangue toda teve que inventar para ele. É, eu pago esse pato com gosto enquanto organizamos os seus presentes pela casa, principalmente no seu quarto.

Já passamos pela ideia da Iara, as invenções do avô deles no jardim, os planos dos Oliveiras no grupo de chat (mostrei até algumas das conversas), da nossa arte de escolher as músicas, quais ele pode desafiar a galera depois, como se arquitetaram pra convencer Djane e Filipe, que o Renato fez Djane treinar na casa dele pra passar despercebida, que os Oliveiras ficaram na pizzaria testando os recursos e ensaiando umas performances, que aqueles pilantras fizeram o vídeo umas cinco vezes e que quase entrou uns cortes de gravação com a Daniela rindo a danar do Bruno, que errava a fala toda vez... Nossa, tanta coisa. Até a história de que houve mesmo um papo do Bruno e do Sávio com o meu irmão todo jururu, isso num dos ensaios, que os meninos deram o maior suporte, que foi algo que o namorado tinha cogitado pro meu mano sem saber que já tinha rolado.

Apesar de amar ficar grudada no Vinícius e dividir umas temperaturas mais calorosas com ele, também amo só estar com ele e termos umas trocas singelas durante nossas conversas. Trocas como dividir histórias, rolar umas pegações gratuitas, e, claro, provocá-lo no máximo que puder. Nem sempre precisa render uma DR ou uma grande ou pequena revelação, mas é uma coisa boa, ótima mesmo, estarmos abertos às emoções e poder conversar sobre elas sem amarras. Ou só conversar sobre tudo que vier à nossa cabeça.

— Ah! E eu pedi pros Oliveiras não cantarem o famoso “com quem será” e barrar quem quer que fosse que ousasse fazer isso. E quando eu falo “pedi”, significa que eu ameacei abandonar o barco lá do evento da faculdade, pra, sabe, ser mais efetivo.

Assistia o Vini separar as camisas novas nos cabides e organizá-las no guarda-roupa e agora, ao cerrar os olhos pra mim de novo, assisto ele cogitar novas cócegas, de modo que me afasto um pouco para a sua mesinha de estudos, para o caso de precisar usar a caixa da luminária como escudo.

— Tu não fez isso.

— Fiz e faria de novo! Até porque já cantaram essa no ano passado e uma dessas vale por mil.

— Não vale não.

— Agora já foi. E não conte com uma próxima.

— E o que tem cantarem essa música?

Nem eu notei onde eu tava amarrando o meu burro ao mencionar essa história.

— Hãaa... É só que... Ela não é nada legal e... Eu não gosto dela, só isso.

Vinícius fecha a porta do guarda-roupa e se volta para mim com uma expressão meio inocente, meio curiosa demais, fazendo insinuações extras em sua feição. Pra todo caso, pego a caixa da luminária, já sem o embrulho de presente.

— Não gosta de quê? Ou... por quê?

— Não gosto muito da... coerção. Ou é coação a palavra?

Jogo essa divagação já que não consigo pensar direito no que tô falando. Uma parte do meu cérebro não quer mentir e a outra quer dizer a verdade, por assim dizer. O que parece ser igual, mas nem de todo é. Ou seja, conflitos contraditórios sobre um tema... complicado. Nem eu entendo a minha própria barreira de evitar esse assunto, já que nossas conversas melhoraram bastante no quesito de papos difíceis.

Pelo jeito, o Vini achou que eu tava brincando, porque agora suas sobrancelhas se levantam com ele percebendo que isso não é bem uma zoeira. Embaralhada, até me coço por onde alcanço pra tentar explicar.

— É só que... sei lá, eu fico desconfortável com ela. As pessoas de repente ficam tomando decisões... por mim... ou... me pressionando... a fazer coisas... como que definindo algo que... mesmo em tom de zoação... e torna a coisa mais... Não sei. Fala alguma coisa.

Digo isso porque de repente ele tá muito calado enquanto me observa.

Ou eu que tô falando demais, subitamente embananada demais.

— Acho que só tô me perguntando como a gente saiu de uns “eu te amo” pra um “não quero me casar com você”.

Paraliso tanto que quase solto a caixa aos meus pés.

— Eu não disse isso.

Vinícius vem pro meu lado e segura a caixa junto, mais ameno.

— Eu tô brincando, amor. Mas agora tu me deixou preocupado. Quer dizer... Isso te incomoda mesmo? Tipo, eu não diria que sou lá fã dessa música ou que ela faria alguma falta. Pra mim, tudo bem se tu não quer que cantem, eu só quero entender em que isso te incomoda.

Sem eu perceber muito, Vini remove a caixa dos meus braços e a coloca onde tava, na sua mesinha lateral. Não é que eu me sinta cercada por ele, até porque a questão de eu usar a luminária como proteção era por conta das possíveis cócegas, mas eu realmente não tava esperando ele perguntar sobre a música. E muito desse estado de atônita que sigo, de ficar sem palavras, também é por conta do “não quero me casar com você” que ele soltou, mesmo que de zoeira.

— Acho que... nem eu sei dizer propriamente?!

Pisco, bugada das ideias e Vini continua só me encarando, como que me incentivando a elaborar mais. Tomo um fôlego pra oxigenar e ver o que sai. Acabo mexendo na caixa do tablet dele ali pela mesinha, que tá aberta, e o manual tá com uma pontinha do lado de fora.

— As pessoas... hãaa... às vezes... muitas vezes... Elas me perguntam sobre isso. Sobre a minha vida e o que tô fazendo ou deixando de fazer. Como se a vida fosse só isso, sabe? Como se eu tivesse que cumprir um papel e eu não tivesse... errr... direitos de escolha. Ou direito de decisão.

Afastando um pouco do seu notebook, perto da caixa do tablet, Vini demonstra que está atento aos meus movimentos, bem perto, e focado ao que tô soltando. Muito tranquilo, ele costura os pedaços e conclui com outra pergunta:

— Fala de atender a expectativas?

— Isso, sim, expectativas!

Estalo os dedos, meio efusiva, por ele resumir a doidice de que tô falando, o que me dá certo norte para explicar melhor, principalmente sobre o que me povoa a cabeça quando acontecem esses papos. Mais envolvida nesses aspectos, até apoio o corpo numa perna só e me encosto na borda de sua mesa, já não tão paralisada e sim desgostosa de como essas coisas me chateiam.

— As pessoas – e falo de qualquer pessoa mesmo – me falam isso... isso da música. Só que é como uma cobrança, sabe, soa como uma cobrança. Se vou casar com xis pessoa, quando é que vou casar com essa pessoa... E não perguntam nem se eu... se eu quero... Não querem saber se eu pretendo outra coisa e parece que só existe essa opção. E isso acaba me enchendo a cabeça. Porque num minuto eu tô na paz, vivendo a minha vida, vivendo o que eu tenho pra viver, e aí vem alguém e...

Como bom ouvinte, o namorado completa a frase pra mim, com certa graça.

— E acaba com a tua felicidade?

Incomodada, levanto um pouco dos ombros sem sair do lugar e sem o olhar diretamente, apesar de estar um tanto voltada para ele. Tento só me concentrar no que tô falando, de como essas coisas me impacientam e não só afundar isso dentro de mim como em outras vezes.

— É, bem isso. Porque mela toda a minha experiência do momento ou a minha expectativa de vida. Isso sem falar que colocam como se eu não me bastasse e tivesse que assegurar a minha vida em outra pessoa. Daí parece que tenho que... que atender a esses outros antes de me atender, sabe? O que é chato... e bem inconveniente. Ainda mais se nada dessas coisas estão nos meus planos próximos.

Ainda sereno, Vini vem pro meu lado e se apoia na mesa do mesmo jeito que eu.

— Às vezes as pessoas só são umas chatas com esses papos, né?

Inspiro e deixo que o peso disso caia pelos ombros. Meio dispersa, termino só assentindo.

— São.

Gentil, ele bate o braço no meu, de leve.

— Eu tô sendo chato agora por perguntar?

Menos tesa, consigo abrir o jogo, mas não exatamente do jeito que eu esperava.

— Não. É só que tu me pegou desprevenida... Ou eu que me coloquei nessa situação sem perceber.

Um tanto confuso, Vini inclina um pouco a cabeça tentando entender o que agora soltei. Só que ele faz isso de um jeito fofo e curioso que mexe comigo.

— Significa que tu... quer fazer planos... sobre... conversar sobre isso? Sobre expectativas?

Aproveito o gancho dele para ser a mais sincera que consigo ao momento, mesmo acanhada e mesmo sabendo que não deveria estar assim.

— Significa que eu faço esse plano há muito tempo e... e eu nunca acho um momento certo ou bom para trazer na conversa.

Num tom divertido, Vini até tenta me animar e me incentivar.

— Agora me parece um bom momento para se falar. Ou quer pensar um pouco mais?

Acaba que o respeito dele ao meu espaço de ideias me desarma tanto que mordo os lábios e suspiro achando que tô sendo injusta com ele.

— Tu vai me fazer dizer, né?

— Só se você quiser, amor.

Ele me captura o queixo com carinho e isso vira algo determinante, que sinto que é melhor não pensar, só falar mesmo.

— Tá. Então... A palavra com C.

Vini, que estava com o rosto próximo, detém-se com um pequeno vinco se formando em seu semblante, que estranha essa expressão que eu disse, como se a gente não estivesse falando sobre isso exatamente agora. Seus olhos tremelicam e uma pergunta vem:

— Tem a ver com ciúmes?

— Ciúmes? Não. Por que teria a ver com... ciúmes?

Se num minuto quem tava acanhada era eu, agora é ele quem se mostra desconcertado, desviando o olhar. Até mesmo se solta da mesa e anda um pouco pelo espaço mais a frente, como que procurando as palavras pra explicar essa questão repentina e que não parece – pra mim – nada correlacionada.

— Vini?

Embora hesitante, ele se vira pra mim, de olhar baixo.

— É só que... eu meio que ouvi uma conversa da dona Helena com o Murilo. Foi no final do ano e eles... eles diziam para não falar “a palavra com C”.

A interrogação que fica na minha cara deve ser imensa, pois, atrapalhado, ele continua antes mesmo de eu sequer pensar em dizer um “quê?”.

— Eu também não entendi, mas imaginei que teria a ver com ciúmes, mesmo que não fizesse lá muito sentido. Quer dizer, eu tenho me esforçado pra não... e isso foi depois do Natal, que eu disse na roda de família que eu tinha umas... inseguranças.

Acompanho o que ele diz, apesar de também não estar entendendo como uma coisa conecta na outra.

— Enfim, pensei que eles tivessem preocupados com o meu ciúme, como se isso... como se fosse te prejudicar de alguma maneira. E que por isso não era pra falar disso perto de mim. Porque na hora que eles falaram, foi bem quando eu pude entrar no teu quarto, isso depois daquela tempestade monstra e que o Murilo te ajudou a amenizar a crise e... A tia Helena tava dizendo que era uma cena bonita e tal... e eu fiquei achando que...

Segurando a própria cabeça e de um jeito caótico, de quem tá perturbado com as próprias ideias, Vini fica tão atarantado que eu salto da mesa e vou ao seu encontro pra segurar-lhe as mãos e fazer com que tome um fôlego. Até porque ele disse que foi no período do pós-Natal, quando eu tava tendo as minhas crises, que rendeu também uns papos diferentes.

— Espera, eu acho que não era sobre ciúmes não.

— Mas ela tava falando da gente, Mi, de mim, que eu fazia bem pra ti, e aí o Murilo falou algo tipo “mas a senhora sabe, não sabe?” e depois disse que “não era pra falar a palavra com C”, que não podia falar essa palavra por conta de mim... Que outra palavra seria se não “ciúmes”?

De primeira instância, fico até sem o que responder.

— Eu... não sei. Quer dizer, eles não me falaram nada sobre isso, não que eu me lembre. Mas acho que... Acho que não era sobre ciúmes, Vini. Porque eu tive umas conversas um tanto singulares nesse período, e foi com os dois, e ciúmes não foi um tópico.

Só foi com o meu pai que eu discuti isso, mas acho que não é hora de trazer essa parte à tona. Ainda mais que, de respiração pesada, meu Vini se mostra preocupado.

— E pensando agora sobre aqueles dias, acho mesmo que eles não estavam falando de ti, não por exato. E digo isso porque eu tenho conversado... com a minha família... sobre... Sobre a outra palavra com C. Casamento.

Vinícius retém a cabeça outra vez, mais perdido, com uma expressão tão confusa que não precisa pronunciar um “por quê?” como ele demonstra querer fazer. E tento ir com o norte que me cabe, apesar do território que representa, pra lhe inserir nessa conversa. Seguro firme suas mãos nas minhas, descidas entre os nossos corpos, e me coloco bem ao centro de seus olhos. Mais ponderada, começo:

— As pessoas, Vini, quando olham pro nosso relacionamento... Elas acham que... falam que casar é um próximo passo. Só que falam no sentido de que a gente “deveria”, sabe, como se a gente não tivesse outro objetivo na vida. É isso que me incomoda. E eu tive que dizer que isso tava me incomodando... Dizer pra minha família. E em algum momento eu vou dizer isso pra tua família também.

Aturdido com essa última parte, ele é direto de perguntar, ainda que não complete a ideia de todo.

— Tem alguém da minha família que...?

Assinto, com certo embaraço.

— Às vezes acontece. Eu sei que falam de brincadeira, que não é nada sério, mas... e-eu... eu fico toda desconcertada. Porque isso é uma decisão imensa da qual eu não conseguiria brincar. Fora que não cabe na minha realidade do momento e eu não quero ninguém definindo o meu “se” ou o meu “quando” ou o... Eu apenas não quero isso. Então eu tava tendo umas conversas sérias... com os meus pais... com o Murilo... E com a Aline. E a Iara.

Os olhos dele vagam por uns segundos, enquanto processa as novas informações, e então piscam diante de mim, agitados e chateados.

— Mas... não tava conversando comigo.

Assumo, apesar de retraída. Ainda mais que, devagar, ele solta as mãos de mim.

Sem lá tanta coragem de encarar sua indignação, desvio o olhar para o quarto, as paredes, a porta, uns tênis ali perto, mas continuo a falar, mesmo engolindo a seco. Continuo porque ele merece isso de mim.

— É, eu não falei dessas coisas contigo. E eu sei que eu deveria e eles também me disseram pra fazer isso... Mas o assunto nunca parecia encaixar. Nunca mesmo.

Vinícius se afasta um pouco, dando-me as costas e eu lhe dou esse espaço e tempo para ouvir e processar como queira, agora tendo a minha versão chegando aos seus ouvidos. Não lhe tenho por mal por se distanciar e só sinto por deixá-lo triste assim.

Inquieta, me coço de leve pela lateral do rosto e do pescoço, porque, enquanto adentro mais o assunto, sinto que preciso fazer algo, me mexer, me esticar, me comprimir, sei lá.

— Com os outros sempre foi por conta de algo muito específico que acontecia e aí eu tinha que ir... na cara e na coragem... dizer que isso me deixava... errr... constrangida. Mas o tempo todo tava certo na minha cabeça de que uma hora eu ia falar sobre isso. Tipo, eu ia mesmo falar contigo... e falar ponto a ponto. Só que nesse meio tempo, ocorreu só com os outros.

Voltado para o guarda-roupa, ele sopra um fôlego e eu não sei descrever bem o seu estado. Quando fala, fala baixo, mas o ouço mesmo ao som do ar-condicionado ao fundo.

— Há quanto tempo isso tá rolando? Essas... tais conversas.

Permaneço onde tô e, pra não parecer que tô uma zona ou uma baderna de inquietações, junto as mãos frente ao corpo e sou direta.

— Uns meses. Uns... poucos meses.

Devagar, ele se vira de volta, quieto, embora não me olhe.

— Quantos meses cabem nesses poucos meses?

— Não mais do que dois.

Piscando devagar, Vini vagueia os olhos, talvez dimensionando esse tempo no contexto das nossas vidas.

— Então a conversa que eu ouvi da dona Helena... com o...

Eu também tento ligar os pontos disso que ele trouxe ao momento.

— Eu tive mesmo uma conversa bem significativa com ela e... eu já tinha tido umas com o Murilo antes. E ela deve ter comentado alguma coisa com ele, sei lá. Até porque, como tu disse, foi bem na hora que tu tava no quarto comigo, numa situação de pós-crise, o que deve ter mexido com eles, com a percepção deles sobre o teu cuidado comigo... Que disso eu lembro de eles terem falado. E tu também me falou disso.

Absorto em seus pensamentos, um novo vinco aparece em seu rosto e dessa vez ele me olha. Não sei dizer bem se está preocupado, mas, pelo modo com que sua boca está crispada, com certeza está desassossegado. Mas, sei lá, também parece que debate com ele mesmo. Ao cruzar os braços que, noto, fica mais sério.

— Teve alguma situação no Natal que eu não vi?

De todas as expectativas que me impuseram, acho que eu só havia mencionado a conversa com o meu pai no dito feriado de Natal, lá na casa do seu Júlio, e eu não falei todos os detalhes. De resto, só colocava todas as situações na “sacola de pendências” e eu me dizia que iria resolver em algum momento, que iria abrir o jogo. A questão é que não abri. E vendo-o desse jeito, me sinto como se tivesse comprado fiado no mercado e o dono da história estivesse me cobrando – com razão – os débitos todos, pois estourei o caderno de contabilidade dele.

E acho que estourei a paciência do Vini comigo.

— Teve uma com a minha mãe, só que foi depois que os meus familiares voltaram pro interior.

O fato de o Vini não falar nada, só continuar de expressão meio vaga e fechada, me deixa nervosa, pois de repente quero soltar tudo, colocar tudo às claras, porque não quero mesmo que ele ache que fiz isso de caso pensado ou que fiz na intenção de esconder. Ao mesmo tempo, esse tudo é tanto para se dizer duma vez só, que nem sei como liberar ou como começar. Porém, esse combo faz uma agonia enorme crescer em mim, que enfim desata meus impedimentos e eu falo, falo mais do que devia, falo completamente desajuizada, muito esfuziada e gesticulante, só “vomitando” muito do que foi essa situação com a minha mãe.

— Acontece que, por um acaso de vida, ela tava achando que tu tinha me pedido em casamento, ou pra morar junto, e até achou que eu t-tava escondendo uma gravidez, e ela tava brava comigo, muito brava. E na hora foi um mal-entendido enorme, isso só porque eu perguntei da relação dela com o meu pai. Daí ela começou a ligar uns pontos, que não tinham nada a ver, mas muito de repente começaram a ter a ver, e aí ela me fez surtar junto, me fazendo acreditar na possibilidade de eu estar grávida... sendo que eu não tava! Só que nesse meio tempo houve um teste... um teste de gravidez e... E confusão todinha foi por conta da Lia!

Paro para tomar mais um fôlego e ainda bem que paro, porque sinto, sei, que falei de mais, que confundi tudo, que meti os pés pelas mãos tentando explicar. Nem eu sei bem o que eu acabei de dizer nesse efeito metralhadora, só sei que eu disse coisas e não era assim que eu queria dizer, de verdade. Ainda mais de culpar uma criança.

Mais sério e mais confuso, Vinícius se aproxima.

— Tu fez um teste? E por conta da Lia no Natal?

Expiro um pouco o ar pra me situar e situá-lo nessa história toda. De qualquer maneira, me retraio e dou um passo pra trás porque sei que acabei entregando essa história do pior jeito possível e que o resultado não vai ser bom.

— N-não, eu f-falo da Lia... porque... porque esse embaralho todo... tudo isso começou quando... quando ela nasceu... e as coisas meio que foram escalando daí.

Vini me segura o braço, pra me puxar de volta do passo que dei. Estava aborrecido, claro.

— Lena, peraí. Tu fez um teste. Um teste de gravidez. E não me avisou.

Ele me solta quando resisto e dou aquele passo pra trás de novo, esquiva.

— Foi só um surto... pelo surto da minha mãe.

— Ainda assim, Lena. Poderia ter me falado. Não?

Não é como se ele estivesse gritando comigo ou me exigindo coisas fora da sua jurisdição de namorado (e de parceiro), mas tem alguma força em mim que tá me fazendo recuar em passos, mesmo que eu persista falante, soltante, aloprante, gaguejante.

— Como eu d-disse, eu vinha esperando... um momento... para falar sobre isso... Sobre tudo isso. Desde o nascimento da Lia.

— Mas, Lena, ao men...

Ele mesmo se interrompe, chateado. Sua face segue sem ser das melhores e, outra vez, me afasto mais um tanto e despejo tantas coisas mais, tentando, sei lá, encontrar as justificativas certas, ou só justificativas, para que não me odiasse. Nem mais o encaro porque sinto que não tô fazendo do jeito certo e tampouco consigo consertar.

— Foi naquele período que tu achou que eu ia terminar contigo. A minha família tinha acabado de ir embora. Os Oliveiras nem eram os Oliveiras ainda. E eu tava em recuperação da queda... e tinha muita coisa acontecendo. E nos outros meses... também.

Quando vejo os seus pés nas chinelas chegando perto dos meus, na rasteirinha, eu que me encontrava cabisbaixa e agitada demais, não sabia o quanto estava encolhida até ele vir e nivelar seu rosto ao meu. Vinícius segura na união de minhas mãos frente ao meu corpo.

— Desse jeito parece que eu tô te encurralando e eu não tô, Lena. Eu só quero entender. Quero entender como que tu fez um teste – e há semanas – e não me disse nada.

Sou sincera, mas acho que soa como se eu estivesse fazendo pouco caso disso.

— Tu tava no trabalho.

— Mas alguma hora eu saí do trabalho e... Caramba, Lena!

Pelo jeito decepcionado com que ele abaixa a cabeça e a balança em negação, fico mais apreensiva, porém, ao menos não metralheira. Sem nem mais saber o que dizer, falo a única coisa que poderia sair num fio de voz.

— Desculpa.

Pelo modo que ele expira, me retenho novamente, pois me parece um sinal de impaciência e eu não quero que fique com mais raiva. Não teria como eu sair um segundo pra pensar ou pra organizar minha cabeça sem deixar a dele tão mais bagunçada, então tento ao menos dizer isso.

— Desculpa. Eu realmente n... Eu não tô sabendo contar! E tá saindo mais embaralhado do que de fato é... e...

Ainda com suas mãos segurando o ponto de encontro das minhas, Vinícius puxa um pouco delas, mas no sentido de me chamar atenção, até mais brando. Como não o encaro, ele me sonda e me ronda, bem próximo, agora me segurando pelos ombros.

— Calma, que eu não tô te exigindo, tá? Eu só queria... Poxa, eu queria ter feito alguma coisa. Ter te ajudado, ter estado junto, ter ficado junto, independente do resultado. Eu nem consigo imaginar como que... como isso te... Tu passando por isso sozinha!

Meu fio de voz meio que refuta isso, não sendo lá muito racional, só querendo que tenha as respostas certas, só que, real e infelizmente, não tô me saindo bem nessa.

— Eu t-tava com a minha mãe.

— Poxa, Lena! Eu quero dizer que eu não tava lá. Eu, que também seria o responsável.

Fico tão mal que abaixo mais a cabeça, encostando o queixo à base do pescoço e repito meu pedido.

— Desculpa mesmo.

— Ao menos me olha.

Levanto o olhar pra ele, pouco o entrevendo, pois sua indignação parece maior. Por fim, só retribuo seu toque no encontro de nossas mãos e o deixo quieto consigo mesmo. Sei que se mexe, embora não saia do lugar.

Mas aí é a voz dele que sai num fio de voz – e, mais do que ressentida, é dolorida:

— Por que tu continua fazendo isso comigo?

Isso me faz elevar a cabeça de volta.

— C-como assim?

Dessa vez ele me contorna e se senta à beira da cama, que estava logo atrás de mim. Senta-se meio prostrado, segurando o próprio rosto. Assisto isso e simplesmente não entendo sua pergunta. Repito a minha.

— Como assim?

— Me dá um segundo.

Um tanto atônita, não sei o que responder, então acaba que dou mesmo uns segundos pra ele. Segundos e minutinhos que eu deveria ter pedido antes, pra começo de conversa, e isso faz minha cabeça querer espocar tudo de uma vez de novo, mas me seguro porque não quero mesmo que a coisa toda piore.

Fico de frente para ele, que tá com a cabeça um pouco distante. Vê-lo assim, desanimado, também me esmorece.

— Isso é muito pra ti?

De maneira reservada e centrada, Vini responde, de tom baixo.

— Tem muita informação sim, mas eu só tô tentando organizar isso na minha cabeça, isso tudo que eu não vi que tu tava passando.

Com isso vejo que, por alguma razão doida, eu me armei toda sem necessidade. Receber essa sua resposta, que é respeitosa e que mostra que estava pensando em mim, e que não tá mesmo brigando comigo, me quebra mais um tantinho. Pois entendo que dei uma piradinha de novo.

Por que continuo a fazer essas coisas? – bem isso que ele também perguntou.

Embaraçada, tento ao menos dizer que ele nem de todo não viu.

— Teve na verdade umas vezes que tu chegou a me perguntar o que tanto tava na minha cabeça, porque eu tava estranha e mais estranha do que de costume. Aquele papo de “a Iara sabe, mas o Murilo não sabe”. Só que aí o Murilo soube, porque ele ouviu uma conversa minha com a Aline, e aí eu t...

Vinícius vira a cabeça pra mim mais desanimado ainda.

— Então todo mundo tá sabendo, é isso?

— Não, Vini, não tá não!

Me jogo ao seu lado na cama e pego uma de suas mãos nas minhas e ele segue com a cabeça inclinada de quem tá bem atento a mim.

— Não tem isssso... d-d-de... de que todo mundo tá sabendo, n-ão, não tem mesmo! Porque... com cada um foi uma situação completamente diferente. É mais no sentido de... de... de que cada um tem um pedaço dessa história. Ninguém sabe o todo.

Isso, no entanto, não alivia em nada, vejo que não alivia mesmo, assim parto para o que devia ter feito desde o início de toda essa confusão.

— Tá, eu sei que tá confuso, então... errr... é melhor eu começar do começo, né, o dia que a Lia nasceu. Que eu fui...

Uma questão dele, no entanto, me interrompe dessa profusão de coisas.

— Por que ainda não confia em mim?

— Mas eu confio.

— Confia? Então por qu...?

Ele remove sua mão de mim, porém não sai do lugar. Alarmada demais com isso, tento reforçar essa verdade.

— Isso não é uma questão de confiança, Vini.

— E é o que então?

Abro a boca e demoro a articular a minha própria justificativa de tão chocada que sigo com essa sua pergunta.

— É só eu... eu tentando um encaixe... mesmo. E nunca encontrando.

Vinícius move o rosto para o outro lado, para a porta e fica quieto. Meio bufante até, apertando um lábio no outro, balançando a cabeça para o nada. Só o som do ar-condicionado predomina no quarto e eu sigo sem saber como consertar isso. Porque fiz merda e das grandes. De novo.

Vagando o olhar pelo quarto, penso em ir na cozinha, pra pegar uma água e pra arejar mais esse meu cérebro ruim. Vai que isso coloca minha razão no lugar?

Antes disso, contudo, pergunto:

— Tá muito chateado?

— Não sei.

— Quer um tempo pra pensar?

Quando nenhuma resposta vem, decido sair. Levanto devagar e, pra todo caso, anuncio que isso é apenas uma pausa.

— Eu vou só beber uma á...

— É que eu fico me perguntando...

Assim que ele começa, eu me viro, encontrando-o numa indignação que agora mais parece como decepção, de como joga isso no ar, embora ele encare o chão.

— Fico me perguntando por que tu ainda não confia em mim, Lena.

Não querendo parecer que tô na defensiva, e menos tão aloprada como minutos atrás, coloco mais firmeza na minha resposta, mais centrada e voltada totalmente a ele, mesmo que não mova seus olhos para mim.

— Eu confio, Vini.

Ele engole em seco e mexe a boca, descontente, como se eu estivesse tentando o driblar.

— Então por que todo mundo... todo mundo...?

— Não é todo mundo.

Vinícius me olha enviesado e se põe de pé, o semblante marcado por uma perplexidade.

— Por que todo mundo sabe das coisas que dizem respeito a mim... antes de mim? Por que eu não sou o primeiro?

Não é que esteja exaltado, está na verdade esbravejando suas mágoas, enfim as colocando pra fora. Ele explode, mas não as grita de fato, apenas joga as perguntas, as vomitando de uma vez, gesticulando nervoso.

— Por que que na nossa relação... e nas coisas relacionadas a nós dois... Por que eu não sou o primeiro saber? Por quê? É isso que eu não entendo!

Chego até a abrir a boca, mas nenhuma palavra sai. Porque são questões... pertinentes. E genuínas. E eu o magoei mesmo.

Diante da minha hesitação, ele anda pelo espaço de seu quarto, como se fosse para o guarda-roupa de novo, e parece meio perdido no próprio ambiente enquanto só libera o que lhe consome.

— Tu sabe, Lena, que eu passei... eu passo... Passo muito tempo me esforçando pra ser uma pessoa confiável. Pra que possa recorrer a mim. Que converse comigo.

Ele aponta para si mesmo conforme as referências, gesticulando como deveria ser essa troca de que fala. Num suspiro tenso, Vinícius para à frente da mesa de estudos e se volta para mim de novo.

— Mas agora... Agora tô achando que não é mesmo pra eu tentar uma coisa que não depende de mim. Sabe por quê?

Mordo a bochecha por dentro e não me atrevo a responder, pois entendi que é uma pergunta retórica.

— Porque a atitude final é sua. É você quem de decide contar. E ainda escolhe a quem contar.

Escancarando desse modo, fico mais sem jeito ainda.

— Desculpa. Eu vejo os teus esforços.

— E eu vejo os teus, Lena. Mas... essas coisas me magoam, sabe?

Quando ele leva a mão ao peito, ao coração, sinto mais o peso do que me diz.

— Eu não quero que quando tiver uma coisa importante, importante como um teste de gravidez, ou como uma discussão com alguém, ou como... sei lá. Eu não quero que busque outro antes de mim. Não é pra me deixar de fora.

É um pedido justo, justíssimo.

— Não vou mais, prometo.

Não sei se ele não parece me ouvir, ou se precisa vomitar mais coisas.

— E isso independentemente de como esteja a minha cabeça, independente do que eu estiver fazendo, de onde eu esteja, se em Marte, se em Plutão! Pode fazer isso da próxima vez? Pode tentar isso, por favor?

Marejada, apertando os lábios, assinto de pronto.

— Posso. Quer dizer, e-eu... eu também quero fazer isso, eu só... Desculpa.

Numa tomada de ar longa, ele mesmo se abranda.

— Eu não queria ter que dizer desse jeito, mas...

Como o Murilo com a Aline, precisei ter que ouvir desse jeito, justo desse jeito, exclamativo, pois das outras maneiras eu tava só deixando passar. Eu sabia o que tava fazendo e não tava me corrigindo.

— Eu sei. Desculpa. Eu entendo o que tu diz. E tem razão em pedir isso.

Eu não queria chorar, mas tem umas lagriminhas que teimam em descer. Comprimo elas comigo, piscando e levantando o rosto ao teto, mas o Vini aparece no meu campo de visão e me faz descer a cabeça para focar nele e no que diz.

— Eu te desculpo, Lena. Mas tem que me contar as coisas de verdade.

— E-eu sei.

Fico tão sentida com isso que desvio dele e caminho para o lado, me abraçando e divagando, pensando nisso que fiz e que fiz por tanto tempo... E que eu tentei mesmo encaixar. Ou seria apenas eu tentando me convencer de que houve tentativas?

Mas então lembro de uma coisa.

— Naquele dia que eu vim aqui, no final do ano, que tu achava que eu ia terminar... Eu vim decidida a falar sobre essas coisas. Sobre muitas coisas. Porque eu queria a gente na mesma página. Mas aí... tinha outras questões para lidar. Com a gente sempre tem. Comigo, na verdade, né? Mas eu não quero ficar mais na justificativa, não quero que ache que tô te enrolando.

Vinícius se aproxima das minhas costas e eu me distancio, mesmo que não haja lá tanto espaço, se quase dou de cara com a parede e com alguns dos tubos que ele usa na faculdade.

— Vem cá, Lena.

— Não sei se devo.

— Deve sim.

— Devo é pegar uma daquelas garrafas da tua pseudofesta e tacar na minha cabeça.

— Não diz isso. E nem mesmo por cima de mim te deixaria fazer uma coisa dessas.

Fungo, sentida.

— Tu tá sendo m-muito generoso pra algo qu...

— Eu também não falei coisas que deveria ter dito antes. Deveria ter dito como eu me sentia, o que me magoava. Mas só achei que era eu quem precisava de conserto.

Conserto. Fecho os olhos ao ouvir essa palavra e acho que ele nota.

— Pera, que eu não tô dizendo que é tu quem precisa de conserto. O que a gente precisa é do que tu mesma sempre fala: comunicação. Além disso, e agora vejo, não é bem que eu guardei esses sentimentos de ti... Acontece que eles também me passaram despercebidos. Tipo, essas questões sempre me rodam, isso é verdade, mas eu também não compreendia, não tinha clareza sobre eles. Então imagino que tenha sido assim pra ti também, não?

Pisco para a parede, pra conseguir manter a água dos olhos do lado de dentro. Não quero chorar neste dia e nem por isso.

— Acho que sim. As situações correndo e eu só...

Vinícius chega de mansinho e me envolve, de modo que me beija o ombro como quem levanta uma bandeira branca de paz.

— Me desculpa também.

— Tu precisou dizer, né? Tava no teu direito.

— É, mas isso não te faz uma pessoa ruim, então não pensa isso. Eu te entendo, tá? Entendo tuas razões.

— E eu entendo as tuas. E sinto muito por ter te magoado na maior gratuidade.

— Melhor na gratuidade do que na intencionalidade, né?

— Eu sei que tu tá tentando me fazer sentir melhor.

— Tenho o resto da noite... e do ano... pra fazer isso. E a gente só tá em janeiro. E eu sou o teu favorito, não sou?

Chateada, pego o seu gancho pra demonstrar isso.

— A tua favorita ainda te magoa e te frustra bastante.

— A minha favorita às vezes demora a processar as coisas, assim como esse seu favorito. Vamos respeitar isso. Vamos... vamos melhorar isso. Agora diz que eu sou o melhor namorado, porque eu sei que tu tá pensando isso.

Ele é, de fato. Ele briga comigo por magoá-lo, pede desculpas e ainda é carinhoso. Nem eu sei se eu faria o mesmo. A Aline com certeza não fez e nem o Murilo. Mas o Vini... O Vinícius é de outro jeito. Tem sido de outro jeito e isso desde que propus que a gente conversasse mais sobre nossas questões e tentasse de outras formas. Ele tem tentado. Eu? Não sei dizer tanto.

— Pior que eu tô.

— Aí tá a minha malandrinha.

Descanso no seu abraço, o rosto de encontro ao vão de seu pescoço, enquanto ele faz um carinho às minhas costas, às vezes aos meus cabelos.

— Fico feliz – mesmo – que esteve em teus planos me contar essa tal história, que imagino ser enorme e cheia de detalhes, porém, como eu disse, ser colocado de escanteio assim... Não digo que alimenta meus temores, porque hoje eu sei que muitas das minhas ideias erradas vêm de mim, e eu sei também que essa tua cabecinha vai pra outros lados, mas... Consegue ver? Não contar as coisas nos deixa em situações complicadas.

— Eu vejo. E sinto muito também. Isso inclusive acaba ficando tempo demais na minha cabeça.

— Eu entendo isso. Ao mesmo tempo... Preciso validar o que também sinto.

— Tem que validar mesmo.

— Eu também não faço isso como eu deveria. Eu sempre acho que tenho que me calar pra não piorar o teu lado.

Sua última sentença me pega desprevenida de novo. Me saio do seu aperto quase com brusquidão, de tão chocada que fico com o que disse.

— Como assim? Como é isso?

Tal eu no começo dessa confusão toda, vejo que ele se alarma por fazer essa revelação. Vez que fica sem ação, encarando-me, chamo sua atenção.

— Explica.

Ele fecha os olhos por um instante, em certa resistência, mas logo toma um fôlego para esclarecer isso.

— Acho que uma das últimas vezes foi quando... tu sofreu... aquela invasão. Tipo, eu fiquei muito impotente. Eu sei que já te disse isso, mas não cheguei a dizer... outras coisas... Pra te preservar. Achei que devia me calar.

Tendo as vistas na sua camiseta cinza e num pequeno bordado da marca, penso sobre aqueles dias confusos e como ele se comportou, sempre tão agitado, tão insistente, tão exasperado.

— E do qu... do que me preservou?

— Das minhas inseguranças. Dos meus pensamentos malucos e da minha imaginação que... Mesmo assim, eu passei do ponto e falei muitas besteiras.

Elevo os olhos para ele, de repente quieta por essa tal coisa que eu também não soube.

— Mas de quais besteiras tu me preservou? Seja sincero.

Contraindo o rosto de inúmeras maneiras enquanto reúne exemplos de sua própria loucura, Vini leva uns segundinhos para começar. E mesmo quando fala, retido em si, encolhe os ombros, inquieto e envergonhado, como estive há minutinhos. Às vezes gesticula, às vezes vagueia. Não é um discurso planejado. Ele também foi pego desprevenido.

— Te preservei... errr... das muitas coisas que eu pensei de ti e do Sávio, de quando vocês... hã... Que tu tinha se aberto pra ele e não pra mim. Que tinha saído, fugido com ele, e não comigo. Que eu tinha que esperar e ele não. Que ele simplesmente te levou, saíram na noite, e tu foi. Que foi bem parecido com aquela vez que tu correu de mim no Center e depois sumiu pro interior... Que tu não queria me ver. E mesmo assim eu fui atrás de ti e... E também não deu bom. Então eu não poderia vacilar com isso, ainda mais no estado que tu te encontrava.

É, pelo jeito isso também tem acontecido há meses. Não mais do que dois meses, mas tem se prolongado com ele e pesado nele. Que agora tenta se justificar, também como eu há pouco.

— Mas isso era só eu sendo um idiota, tendo pensamentos idiotas, porque o Sávio não teve nada a ver com isso... E sim, eu me senti deixado para trás. Ao mesmo tempo, eu não deveria sentir isso, nem mencionar isso. Tentei não demonstrar só pra não ser posto pra fora da tua casa. E eu sei q...

Pelo que conta e por aquela nossa situação que ficou pelo meio do caminho, abraço-me, encostando a cabeça num lado do corpo. Não por ele ter se calado, mas por sentir isso que fala. Que ele realmente se sente para trás quando... faço absurdos. Ele acha que outros... Ele acha que me perde.

— Hoje eu sei que quando tu fugiu com o Sávio, era o Sávio sendo um bom amigo. Só que eu queria ter sido essa pessoa pra ti naquele momento.

Vinícius dá um passo para se aproximar de mim de novo, sendo mais afirmativo quanto a isso. Cauteloso, porém, atencioso.

— Eu sempre quero ser essa pessoa pra ti, Lena. De só estar, de só existir, de só te abraçar... Mas, por alguma razão, tu também foge de mim. Então acho que fico... receoso... de te contar essas coisas. Me c-calo nessas coisas. Não deveria, mas é... é o que sinto.

— Do que mais me preservou?

Pergunto, porque, de fato, o Sávio foi só uma ponta daqueles dias.

Me segurando de leve pela cintura, num toque de carinho, ele cola sua testa à lateral de meu rosto já que não me movo e tampouco o removo.

— Naquele fim de semana que eu apareci na tua casa, que fui sem ser convidado... e tu pouco me correspondeu e depois se afastou... eu senti... Senti como se tivesse levado um golpe no estômago. Desses que deixa qualquer um paralisado sem saber reagir e só cair. E por um momento, eu quase caí no chão da cozinha ao te ver saindo, e saindo só porque eu tava ali.

Aperto os olhos por saber de seu sofrimento assim e não sou capaz de dizer um A sobre isso. Até porque intuo, conforme ele deita a cabeça na minha, que ainda não terminou.

— Só que eu não podia dizer nada, Mi. O teu bem-estar era prioridade naqueles dias. Eu não poderia dimensionar o que tu tava sentindo, mas... precisei abafar a minha dor em favor da tua. Porque a minha... A minha não era nada perto da tua. Era mais imaginária do que real.

Viro o rosto de imediato, sentindo-o todo estremecido junto de mim.

— Era tão válida quanto a minha, pode ter certeza. Sendo real ou irreal.

— Eu sei. E até quando tu disse pro Murilo, que tinha autorizado ele a me contar, por um minuto tão horrível eu acreditei que tu tinha dito pra ele me tirar dali, que era pra me expulsar da casa de vocês. E isso também doeu muito. Então eu tava o tempo todo tentando disfarçar, só pra não causar mais problemas.

— E por que não disse no depois? Quando a gente se resolveu?

— Eu não quis pensar sobre isso, eu só te queria de volta. Queria estar perto e nada mais importar. Então, eu entendo isso de nem sempre caber, de ter não espaço... na rotina... pra falar todas as coisas. Eu entendo o que é só querer um momento de paz.

Ao passo que inspiro, cansada de nossas tragédias, ele termina por me envolver, me aninha em seus braços, ainda que eu não retribua num primeiro instante.

— Entendo também que isso não é mais pra acontecer e a gente pode ver maneiras... Maneiras de fazer de outro jeito. Não era pra isso mesmo aquela ideia da nossa encenação?

— Sim. Porque eu não quero te magoar desse jeito e nem que tu te prive.

— É exatamente a minha sensação, Lena.

Devagarzinho, solto meus braços de mim e o envolvo de volta, quase me deitando nele, que me beija a bochecha de leve num toque demorado. Mas ainda há chateação em mim. Tristeza mesmo.

— Odeio te magoar.

Me acalentando, Vini segue com seu carinho às minhas costas, quase como se a gente estivesse numa dança silenciosa que só move da cintura pra cima.

— Ainda bem que odeia, porque se não seria uma relação complicada se isso envolvesse algum tipo de prazer.

— Não brinca com isso, tá?

Geralmente sou eu que faz as piadas bestas pra dispersar a vibração ruim e nem cara para fazer isso agora eu tenho.

— Não tô, te juro. Eu sei que é sério. E sei que naqueles dias confusos, sei que não foi tua intenção me magoar. Muitas das coisas fui eu mesmo que enfiei na minha cabeça. Isso sem falar que tu nem tava sendo tu mesma. Não tinha como exigir nada ali e eu passei do ponto. Passei do ponto e insisti.

Ele decerto insistiu, mas também assim ficou por querer fazer algo por mim e não só permanecer no estado de eu deixá-lo de mãos atadas. Eu vi que ele ficou pra trás e eu tava tão machucada que não pude aceitar nem o seu auxílio, nem a sua presença. E eu fugi, de fato. Não porque era ele sendo ele, é que eu fugi de todos. Eu que não me aguentava em mim, nem o olhar do outro, nem qualquer pedido sobre o que eu não conseguia nominar. Eu tava assim quebrada e não quis quebrar ninguém mais. Mesmo assim, quebrei.

— Se eu tivesse tido força em mim... eu...

— Eu que não te respeitei o tanto quanto eu deveria. E me calei sobre o que eu sentia. Eu errei, Milena.

Por fim, ecoo uma pergunta que não sei se existe resposta.

— Por que a gente ainda esconde sentimentos?

— Não sei, eu também queria saber. Talvez pela força das situações. Enfim, me desculpa também?

Ele se desvencilha de mim para poder me segurar o rosto, me encarar olho no olho e reafirmar uma reconciliação.

— Eu aceito as tuas. Todas as tuas, Lena.

Balanço a cabeça de leve, aceitando também.

— Desculpo.

Com esse acerto, nossos lábios se tocam e é um beijo leve e breve, meio desanimado até. Eu com certeza ainda tô bem balançada por tudo que acho que nem sei se dá pra aproveitar o resto da noite. Ao mesmo tempo, não o quero triste por isso. Entre a mágoa e a dor que ambos sentimos nesse alvoroço todo que nos engoliu, tá um desarranjo bem estranho dentro de mim sobre como equilibrar isso. Nesse instante, nem acho que é possível.

De mão bem firme ao meu pescoço, Vini desliza seu polegar da minha bochecha ao queixo e tenta me trazer de volta. Sonda-me mais caloroso, incentivando-me a embarcar numa nova abordagem.

— Olha, acho que sei até de um jeito pra fazer diferente. Tipo, quando tiver alguma coisa, qualquer coisa, negativa, positiva, ambígua, o que seja... Escreve pra mim. Só... escreve. Principalmente se tu não conseguir falar. Coloca em uma ou duas frases, diz o principal. Diz que quer falar comigo, que tem coisas pra contar. Diz se... se a minha irmã aprontou contigo e tu não gostou. Se brigou com o Murilo. Se caiu num trote. Se conseguiu escapar de um tiroteio.

Por ele, suavizo mais meu porte e assinto, porém, não me encontro bem.

— Eu também vou fazer isso, tá? É um lance de duas vias. Comunicação. E podemos até ter um código!

Apesar de serem boas ideias, me sinto um pouco cansada e sem lá muito ânimo. No entanto, de novo, como é um esforço dele, também tento contribuir nessa, sinalizando como era “o movimento chave” da sua festa.

— O código pras coisas do teu aniversário era segurar e puxar a orelha de leve... assim.

— Hmmmm... Mas como até o Murilo sabe dessa, é melhor que seja... hmmmm... tocar na ponta do próprio nariz. Assim.

Mais dinâmico e quase pensativo, Vini demonstra esse código.

— É, parece funcional.

— Vovô usa essa pra dar os ares de sabedoria dele, então é algo que os outros entenderiam de outra forma, sem perceber que é um código direto pra outra coisa. Agora... Por que ainda tá com essa carinha?

Até ele perguntar, eu não tava sabendo qualificar bem o que eu queria. Agora com a questão no ar, o sentimento-chave vem bem na ponta da língua.

— Acho que vou pra casa.

— Ah, não, Lena. Fica!

— Não sei, acho que não tem mais clima.

— A gente faz o clima acontecer. Do nosso jeito. Mas precisa ficar, tá? A noite é nossa. Quero você comigo.

Me saio com a primeira desculpa que me aparece em mente, vagando o olhar para qualquer canto, menos para ele, que tenta trazer minha atenção de volta.

— É, mas ainda tenho aquela reunião com a galera amanhã e ach...

— Eu prometi te levar. Fica. Tem morangos. Tem gelatina. Tem eu. Fica. Tem bolo.

Sem muita vontade, rio com essa última sem querer, visto que ele fala na maior inocência um meme de internet.

— Viu, só? Já temos um sorriso.

— Desculpa, Vini. Acho melhor eu ir mesmo.

— Tá bom. Só me diz o que tá na tua cabeça agora, o que te faz pensar que vai ser melhor lá do que aqui comigo.

— Não é que vai ser melhor ou pior... Acho que... Sei lá, só tô com receio de falar besteira de novo... ou não saber falar de novo ou... Não quero te magoar de novo. Não com algo sério de novo.

— Eu entendo isso. De verdade. E se tu quiser tempo... se preferir se planejar melhor... Se quiser, a gente conversa sobre a grande questão depois. Porque agora eu sei que tu vai me contar. E a gente vai discutir isso ponto a ponto. Mas quero muito que passe a noite aqui comigo. Não precisa ter DR de novo e a gente pode só fic...

Ele mesmo se detém no que falava, exasperado. Com um suspiro, afaga minha franja, me acarinha o rosto, me aperta a mão. Pisca lentamente.

— Eu só quero você, tá? Mimar você, beijar você, abraçar você... Estar com você. Fica, por favor.

Preciso de uns minutos, é o que penso. Depois dessa avalanche, e independente dessa sua súplica, só sinto que preciso, preciso, preciso; preciso de uma pausa. Não achei ser possível na hora da nossa discussão e ele mesmo pediu pra si.

Então dessa vez vou pedir pra mim.

— Vou precisar de uns minutinhos pra voltar em mim, tá bom?

— Sem problema nenhum. Deixa que vou pegar uma água pra ti e uns morangos também.

Assim que ele sai do quarto, enterro o rosto nas mãos, me apertando, impaciente comigo mesma. Até falar da reunião eu inventei de citar, como se isso fosse me liberar. Era uma desculpa esfarrapada e ele sabia e fez o que pôde para contornar. Ele é o melhor e eu juro que tô tentando não pensar que sou a pior, juro!

Mas não dá outra, pois tudo saiu tão pela culatra que solto as mãos da face e inspiro bagunçando os cabelos. Sinto o acúmulo de conversas e de pendências e eu em real débito com ele. Fico toda travada, o corpo travado. Tenso. Teso.

Para piorar, o frio do quarto me deixa mais gelada e confusa de como eu não só amarrei meu burro de mau jeito, como parece que ele está prestes a correr feito maluco. Ao fitar a porta do quarto que o Vinícius acabou de passar, com a promessa de logo voltar e logo... logo me segurar, eu sinto que tô prestes a correr.

Preciso sair daqui.

Arfando, e não de um bom jeito, passo pela porta e... atravesso a casa.


Notas finais
Não disse que eles me deram trabalho? Principalmente essa Lins Metralhadora Oliveira *socorr* Será que hoje temos combo? \o/ Trechos do próximo: "- Tu já teve algum sonho nesse sentido? Eu e você... e coisas do futuro? Vini inclina a cabeça, pensativo, detendo-se a isso. - Algumas vezes, acho." e "Como é que eu nunca soube dessa preciosidade? Tipo, tu faz ideia do que é saber disso?!" e "Dou uma batidinha na ponta do nariz. - Mas já?! - Não disse que era outro já? Tá, é na verdade uma coisa muito boa, e pra todos os envolvidos [...]" VEM AÍ!