Notas iniciais
E SE EU DISSER que tenho inúmeros capítulos escritos, mas a vida não tava era me deixando alinhar tudo, o que dirá de vir aqui, VOCÊS NÃO MATAM ESSA MENSAGEIRA QUE VOS ESCREVE? Mas essa espera FOI ESSENCIAL para trabalhar o ponto de variadas cenas e situações desse casalzão que não me deixou sossegar - principalmente quanto a questões sensíveis, essenciais e decisivas! Antes que eu invente de fazer vocês adivinharem de quem eu tô falando, LEIAM, LEIAM, LEIAM e ME AGRADEÇAM! Ah! Feliz 2026 :)))

O que você dá de aniversário para alguém que já tem muita coisa? Dá algo que ele goste muito ou que precise demais. Filipe deu um videogame famoso e Djane um tablet sofisticado para designers e arquitetos. Em outras situações já dei perfume e um DVD nostálgico. Coisas simples, sabe? Só que o cara já me deu um celular e adora me mimar com coisas caras e eu gostaria de fazer isso por ele. Alguma coisa fina, pra que ficasse admirado – bem mais por mim do que pelo objeto, claro. A questão nem é o preço, mas sim o que vale de verdade dentro da nossa relação. Até porque eu não apenas gosto de presentes diferenciados, eu gosto de significados. Se algo é útil, melhor ainda.

Fiquei um bom tempo nessa saga de escolher um presente decente pro Vinícius e, pra decidir, me demorei mais do que seu presente de Natal. Foi assim que fui parar numa página de eletrônicos, que é bem mais a cara dele. O namorado é cheio das aparelhagens, porém, uma em específico, ele não tem – ainda. Como isso foi nas primeiras semanas de dezembro, deu de eu pegar uma boa promo e parcelar com mais sossego. Demorou a chegar e desde então eu guardei bem escondido.

Agora tá aqui e ele disse que só abriria na minha presença. O que bateu com nosso encontro do dia – que, na verdade, é da noite. Uma noitada especial com a casa dele só para nós dois (combinei com Djane de antemão, para que chegasse beeeem tarde). Enquanto ele toma um banho, espero por nosso reencontro com empolgação.

Fazia um bom tempo que a gente não se curtia, não no sentido mais estreito da palavra. Tipo, muito tempo mesmo. Minha situação de fim de ano acabou tendo que colocar algo assim de lado. Às vezes a gente brincava, algo aqui e acolá, mas sempre havia alguém por perto ou... eu em crise ou em iminência de uma crise. Mas o carinho e chamego permaneciam, claro.

Passeio pela mesa de estudos da sala, onde se concentram seus presentes que ele tem aberto aos poucos. Teve camisetas (inclusive uma do CPM 22), mochila, carteira, óculos de sol e até luminária. Lembro que ele só não comprou um novo abajur pra mim porque eu expressivamente disse para não fazer isso. Porque me lembrava muito dele comigo e não o ter em minha cama aumentava minhas saudades dele. Tá, papo furado e romântico, coisas melosas e bregas que a gente diz às vezes. Mas não queria porque foi algo fásico mesmo, que era aliás algo do quarto de hóspedes da minha casa; eu gosto mesmo é do escurinho pra dormir, que me faz relaxar mais, principalmente em tempos de instabilidade temporal.

Como tá um grande silêncio pela casa, dá pra escutar quando o chuveiro é desligado. As minhas saudades dele são tantas que maquino a ideia de pegá-lo no pulo. Mas não, dou um tempo para ele se perfumar, que eu sei que ele gosta de colocar uma loção pós-banho e eu gosto de sentir seu cheirinho. No outro dia eu até imitei a Daniela grudada no pescoço do Bruno e o namorado ficou todo interessado. E malandrinho também, pois já que eu o barrava quando me perguntava do seu aniversário, ele passou a puxar assunto sobre o seu presente.

— Se é o nome desse perfume que tu quer, eu escrevo pra ti.

Sem largar daquele pescocinho, deslizei o nariz por sua pele conforme entregava informações de que ele não pudesse colher muito.

— Não, o teu presente desse ano é outro.

— Foi difícil achar?

— Foi. E demorou a chegar também.

— Não me diz que é um DVD do N’sync. Ou dos Backstreet Boys.

Eu sei que o Vini me provocava como o bom n’synquer que se criou comigo e com essa me soltei dele, toda enigmática pra entrar no carro, que ele ia me levar pra casa — foi depois daquele encontrão com a galera e o padre.

— Não digo e digo que vou listar esses pro próximo.

Antes de vir, eu também tomei um bom banho, coloquei um perfume bacana e me arrumei um pouco, afinal, não queria estar com roupa de trabalho. Também porque é bem melhor quando é algo que dá pra remover mais fácil.

No domingo, quando a gente se divertiu reencenando maneiras de “fazer certo”, eu quis avançar mais um pouquinho. As coisas estavam interessantes, contudo, pouco conclusivas. Além de haver gente na casa (e gente demais, sendo sua mãe e meu irmão) e ter uns papos importantes (como todo o lance de seu aniversário e alguns planos), não poderíamos ir até o final. Mas que estavam sendo boas preliminares, estavam. E agora temos a sonhada liberdade. Livres e desimpedidos.

É com essa perspectiva que sigo para o seu quarto, cativada por esse algo mais. Penso em brincar um pouco antes em enlaçá-lo a mim, mas quando damos de encontro bem em frente à sua porta, Vinícius surgindo de cabelos úmidos, já vestido de bermuda e passando a cabeça pela camisa, eu sinto que carecia dele sem essas roupas todas. Mas não ia chegar chegando assim, embora tivesse a completa certeza de que ele fosse topar rapidinho.

— Demorei?

— Um pouquinho.

Reclamo, de falsa chateação, só observando ele se movimentar pelo quarto. Fecho a porta, já que o ar-condicionado tá ligado e aproveito pra passar a chave. Mesmo que não tenha ninguém, isso já me anima, com vontade de atacar com tudo. Porém, como uma leoa que confere sua presa, assisto sua inocência por uns segundinhos.

Assim que Vinícius pega um pente, eu sou mais rápida e vou eu mesma escovar os seus cabelos com os meus dedos. Bagunço-o cada vez mais e o safado balança a cabeça como os cachorros fazem para se livrar da água. Daí chego com mais jeitinho, fazendo um carinho aos seus fios geladinhos e tanto ele quanto eu apreciamos a sensação. Meu Vini chega a fechar os olhos e o seu sorriso de deleite me é o suficiente para dar partida.

Antes que abra os olhos novamente, beijo-o delicada, sugando devagar seus lábios. Ele, que ainda ajustava a camisa ao corpo, retribui com graça. Mas quando vou para a barra de sua bermuda e toco-o ali, sentindo sua pele fria do banho e o princípio de sua roupa íntima, sei que entende o que eu quero.

— Namorada, namorada...

Entre pequenos beijos, ele me alerta, porque sabe que depois de animá-lo, é difícil desarmá-lo. Fazia isso, no entanto, para saber a minha real resposta, se era pra seguir em frente ou não. Era. É. Deve!

Só pelo anseio, até sinto um arrepio gostoso subir, eriçando os meus pelinhos todos. Porém, gosto de atiçar, provocativa. Inspiro o seu cheiro ao alto do pescoço e digo, roçando beijos lentamente na sua pele:

— Esse aniversariante... agora tem... objeções?

Para a cartada final, expiro o ar de maneira sensual bem colada à sua mandíbula, uma sonoridade de fôlego alterado que eu sei que o deixa alucinado. É como acendê-lo de vez. Quando sua mão se firma à minha nuca, sei que não há mesmo mais objeções. A respiração logo se liga à urgência e sua boca ganha a minha com fervor, bem carregado em vontade e em volúpia. Mesmo ao quarto gelado, isso nos esquenta de imediato.

E apesar de já estar envolvida nele e por ele, eu quero mais e como quero mais. Puxo-o a mim e, como estávamos perto da cama, nos guio para lá, andando de costas mesmo. Conectada a ele, não deixo que se separe de mim quando me sento à borda do colchão e logo me deito, outra vez puxando-o, pois amo quando o Vini fica por cima e amo quando está assim, voraz. Amo mais ainda ver e sentir como a minha respiração entrecortada o incita mais e mais, que, mesmo que me cale com sua boca, eu não resisto de vez e outra de expirar nele os meus breves fôlegos.

Afora essa troca de efeitos, tem os seus toques ágeis ao meu corpo, que passeiam por meu dorso, pelas minhas pernas, e que também me abraçam e alastram beijos exasperados. Sentir como seu corpo se contrai e como me busca, como vai descendo por mim, pele a pele, a língua deslizando até a base do meu pescoço e então como puxa o pingente do meu cordão com os dentes, eu simplesmente perco o ar e gosto disso. Gosto que me eletrize e me alucine junto. Esse prazer misturado à expectativa acaba me dominando de maneira que exalo mais e mais arfadas quentes.

Agarro seus cabelos quando sua boca ávida desce mais e planta um beijo longo bem no limite do meu vestido ao busto. Logo as roupas se mostram grandes empecilhos desse corpo a corpo e, no que ele se apoia nas pernas, para puxar sua camisa, eu me sento também para arrancar meu vestido pela cabeça. Bastam segundos para nos encontrarmos de novo e então tombar na sua cama. De sorrisos mais do que conectados, Vinícius avança sobre mim em novos beijos gananciosos, o calor já bem intenso entre nós.

Logo ele desce outra vez e, apesar de o fecho do sutiã estar bem à sua frente, Vini investe na região de outra maneira. Entrevendo a mim e ao meu peitoral, que sobe e desce agitado, Vinícius me planta mais um de seus beijos molhados bem no vão entre meus seios e depois me encara, pra ver o desejo tinindo na minha face, o que me faz puxá-lo de volta, como se não tivesse o bastante de sua boca em mim.

Mas não era só ela que me avivava. Das mãos que me massageavam as pernas, uma delas migra para o meio, à superfície do pouco tecido que ainda me cobria, e me pressiona, antecipando o contato. Seu polegar desliza pelo caminho da barra da calcinha, para abaixá-la apenas o suficiente, e ajudo-o movendo-me junto, para ele poder correr seus dedos por ali. Assim que me adentra e me segura, instiga-me com capricho, ao passo que eu quase desligo, arfando o seu nome, o seu diminuto nome.

Acaba que sua veemência me faz me enrijecer toda, que, elevando-me a ele e ao ápice, até aperto o lábio com os dentes e chego a paralisar e pulsar ao mesmo tempo, tomada por uma onda de prazer tão imensa, dessas que quase dá pra ver estrelinhas, sem entender como é possível isso quase me desfalecer por completo e eu ainda desejar novos níveis absurdos de clímax. É um lance tão enlouquecedor que, arquejante, vergo minhas costas para trás e contraio o corpo por todo, já bamba, mal conseguindo manter os olhos abertos, mal podendo pronunciar o seu nome e quase arrancando-lhe os cabelos, enquanto ele bombeia mais de si em mim, tão arfante quanto compenetrado ao meu pescoço.

De alguma forma, Vinícius se sai desse aperto e fica bem claro quando suas mãos me deixam, o que me dá tempo para pastar um pouco, recuperando a minha consciência, e tempo para ele sumir com o restante de suas roupas. Logo volto a mim para me livrar também das últimas peças que me cobriam. Enquanto ele rasga aquele pacotinho e veste sua proteção, já tombei ao colchão de volta, prontíssima para outra, à espera do que parece ser um século comigo já sentindo sua falta.

Mas então Vini se ajusta para se encaixar e eu o ajudo fincando uma das pernas ao seu quadril. Torno-o a puxá-lo e enquadrá-lo em mim, agora sentindo toda sua rigidez contraindo-se junto. Gemo baixo ao seu movimento lento e contínuo, e gemo mais quando me beija aos seios livres. Sigo arfando, puxando-lhe os fios e abrindo espaço para ele se mexer o quanto quiser, para que turbine aos dois o quanto quiser.

Quando suas costas vão se retesando, intensifico seu clímax cravando um pouco das unhas na sua pele, não para machucar como outras vezes, mas para saber que eu não estou satisfeita. Sussurro um não, ainda não, para que não pare e nem tente finalizar antes da hora. Instigo-o mais um pouco, apertando-lhe a nádega e ele se afunda mais um pouco em mim, alternando entre rápido e lento, ao ponto que eu quase perco o ar e a consciência de novo, outra vez vergada para trás, com a sua boca em meu pescoço.

Mas volto a incitá-lo com o quadril, tão apreciativa quanto, até que ele segura o som de seu ápice ao meu ombro. Também me contraio em movimentos involuntários e trêmulos, isso até o meu corpo ruir ao colchão, exausto, bambo e saciado, com aquele gosto de amar sentir em profundidade, ou de toda a profundidade do amor físico, sobrando apenas nossos fôlegos sôfregos e uns leves espasmos.

Ao início de letargia de nossos corpos, sinto seu beijo ao alto da minha barriga, seu sinal de encerramento. Ele se move saindo de minhas pernas e tomba para o lado. Mal pisco de cansaço, quieta para recobrar a consciência, então só ouço quando a borracha da camisinha recai sobre a sacola da lixeirinha ao pé da cama, e depois outro baque leve, após ele se limpar. A caixa de lenços umedecidos já fica em um lugar estratégico.

Com uns poucos movimentos ao colchão, em piscadelas lentas, me viro devagar, já à espera de nosso descanso. Nem vejo direito quando ele desliga a luz, só sei que foi uma boa ideia quando ele colocou um segundo interruptor perto da cama uns meses atrás, bem próximo do abajur também, que fica amarelando o quarto e logo o Vinícius está abrindo um lençol para nos cobrir. Com um afago aos meus cabelos e a adição de um selinho doce, ele se deita de barriga para cima. Me enrosco em seguida, passando um braço por sua cintura, nossos corpos quentes relaxando aos poucos.

Vez que deito minha cabeça ao seu ombro, ele me acarinha o rosto e me beija perto dos olhos, o cansaço já bem visível nele.

— Confortável?

— Uhum.

Termino por colocar uma perna por cima de uma sua, pois gosto de manter o contato, o entrelace, como um ninho de amor, minha marca antes de o sono me levar, ouvindo também seu pouco fôlego retomar a serenidade. O frio do ar-condicionado vai se alastrando por perto de nós, mas o calor nosso fica concentrado e torna o relaxamento mais aconchegante.

Em algum tempo, com o Vinícius ajustando o seu travesseiro, eu começo a rir de leve. Todo interessado, ele quer saber do que se trata.

— Do que essa namorada já tá rindo, hein?

— Algo bobo.

— Mas eu vou gostar?

O que me dá forças para respondê-lo é o próprio motivo do que me fez rir besta.

— É só que o teu pé estralou e eu gosto do barulhinho. E agora meu pé também faz isso. Não o tempo todo, mas às vezes sim.

Ouço a risada baixa do namorado, agraciado por essa história. Mas o que me responde, fala por alguns bocejos.

— Às vezes me diziam... que era... o osso... voltando pro lugar. Se é mesmo, não sei.

— Eu amo quando estrala.

Com isso, meu Vini mexe o pé só para eu poder ouvir o barulhinho outra vez e assim eu descanso sobre ele, sossegada.

~;~

A única coisa que verdadeiramente tira um casal da cama é a fome. Sabendo que hoje havia a torta de frango da dona Ana, foi rapidinho que também me levantei, catei minhas roupas e me aprontei. Se às vezes a gente se pegava pelo caminho, era outra história, ainda mais com o corpo já morno e mais descansado do nosso cochilinho. Mas a fome nos guiou e logo estávamos jantando e brincando e atiçando um ao outro.

Como quando pego um pouco de milho do seu prato e o Vinícius abre o seu teatro.

— Milena Lins Albuquerque! Tá roubando do prato desse aniversariante?

Mesmo já tendo passado a data do seu aniversário, permanecia chamando-o de “aniversariante”. Fazia isso de zoeira e de provocação porque, afinal, a semana ainda era dele, né. E ele tava se aproveitando bonito disso! Assim como eu também, claro, que não fico atrás quando começam a me desafiar o juízo.

— Por que que ninguém lembra do Camargo, hein, Vinícius Menezes Garra?

Genioso, ele vem com o garfo pro meu lado, bem como há pouco fiz.

— Posso pegar umas ervilhas então?

Puxo as minhas para mais perto e faço um carinha de inofensiva.

— Mas eu também gosto de ervilha.

— Gosta mais de ervilha ou do teu namorado?

Movo os olhos pela mesa fingindo pensar e ele desata a rir sozinho.

— Não sei por que eu ainda pergunto.

Bondosa que sou, junto umas e me estico para frente, para colocar no seu prato, que recebe com gosto. E sendo uma boa namorada, ainda acrescento:

— Sorte tua que te amo mais. Feliz agora?

Satisfeito, ele pega elas com o garfo e antes mesmo de colocar na boca, retruca:

— Contigo, feliz sempre.

— Vou cobrar essa quando tu tiver com raiva de mim.

— Logo eu, tendo raiva de ti?

— Não sei, amor, tem maluco pra tudo, tu sabe.

Com a mão na boca enquanto termina de mastigar, ele ri mais descarado e vaidoso.

— Pior que eu sei. E sei de um maluco por ti bem aqui na tua frente. Tão maluco que... vou te roubar pra mim hoje.

— Ué, e já não roubou não? Ou, melhor, eu que te roubei! Eu que marquei de vir.

— Quando eu acho que não dá pra te amar mais, tu me apronta algo novo.

— É da minha natureza, o que eu pos...?

Dou de ombros até perceber uma coisa nesse papo todo, o que me faz cerrar os olhos de repente, quase cruzar os braços e encarar esse namorado com ares de safadeza.

— Peraí...

Ele sorri e, como se deu outra garfada, cobre a boca, mas o seu riso continua enorme e galanteador.

— Hum.

— Tá achando que a minha surpresa de hoje é só... sexo?

Divertido, ele praticamente se engasga de risos bobos e... intencionados.

— Não é?!

Imodesta, demonstro que minha pretensão vai além, bem convencidinha.

— Embora seja muito relevante, apenas faz parte, mas não é o principal.

Interesseiro todo, Vinícius se aproxima mais para me alcançar, achegando sua cadeira, mesmo que haja limites na mesa de jantar e que a gente esteja de frente um pro outro.

— E qual é o principal, então?

Juntando um pouco da torta com o arroz e o salpicão, deixo que o garfo paire ao ar, sabendo que detinha toda a sua atenção.

— Bom, a casa só pra nós dois, sozinhos e desimped...

Imaginava estar toda intrigante até ouvir o que eu mesma tava dizendo, que parece que tô me referindo, de certa forma, a sexo de novo. Assim complemento:

— Para destrinchar as peripécias do teu aniversário e a gente se curtir. E tu finalmente abrir o meu presente! Tu não quer é abrir, é? Porque eu acho um dono pra ele rapidinho!

— Não seja por isso!

Mesmo sem terminar o seu prato, Vinícius se levanta num pulo, me beija num selinho rápido e vai para o montante de seus presentes do outro lado da sala para pegar o meu. Que ainda bem que ele sabe qual é, senão eu tacava a guarnição de arroz na cabeça dele. Sua sorte é que não quero terminar visitando-o num hospital de novo.

Ele volta para sua cadeira todo charmoso e se dá uma das últimas garfadas antes de abrir o pequeno embrulho. Com certo suspense, faz isso com a maior paciência. E quando puxa a caixinha que revela o smartwatch, me encara bestificado.

— Como... tu sabia?!

Até eu me surpreendo com essa reação, mas apenas dou de ombros.

— Não sabia, só arrisquei.

Com a caixinha em mãos, sem ir até o final, Vini continua pasmo ao encarar ela, as sobrancelhas ao alto. Depois ele ri, desacreditado da Silva Menezes Garra.

— Já tava aqui achando que tinha sido um daqueles teus lances com o universo, que te mostra as coisas sabe-se lá como... Porque eu ia comprar um desses por agora. Pra levar nas corridas.

— E olha que eu nem pensei nisso, porque quando fiz o pedido eu não sabia que tu corria. Mas sabia que tu curte uns eletrônicos e... Esse dá até pra colocar música e dá pra conectar no celular. E claro, tem o relógio digital e o cronômetro. Tem outras funções também.

Ele entreolha a mim e ao presente e demonstra que não sabe bem o que falar. Quer dizer, por como suas sobrancelhas descem de repente, formando um vinco ao rosto, ele não sabe ao certo é como se expressar sobre certo detalhe.

— Parece ter sido caro.

Eu nem queria rir!

— Desse jeito, parece é alguém que tu conhece. Aliás, tá andando demais comigo.

Brinco, mas falo sério. Com essa, Vinícius se levanta animado, vem pro meu lado e me puxa para si, aninhando-me nos seus braços.

— Já disse que te amo?

Inclinando o rosto, também faço o meu teatro porque sim.

— Se disse, acho que eu não ouvi.

Fitando-me firme, ainda embasbacado, revela enfim o que achou do presente.

— É perfeito, Lena. Eu amei.

— Amou mesmo?

Mesmo de pé, ele mexe o tornozelo, que faz aquele barulhinho engraçado, e, para meu derretimento pessoal, completa:

— Amo.

Quando me aperta em si e me beija em agradecimento, quero interromper só pra ver ele testando esse tal de relógio inteligente, mas digamos que o Vini me distrai bastante abraçando-me os lábios que até perco a linha de pensamento. O que nos solta é um pin de notificação do seu celular na mesa, que ele nem dá bola, porque segue pasmo.

— Ainda não acredito que tu comprou esse relógio pra mim. Logo esse relógio.

— Por quê? Eu também tenho dinheiros, tá? Que eu não vou ver por um bom tempo, mas isso é outra história.

É drama meu, porém, vejo que ele leva a sério e a sério demais, mas pisa em ovos em mencionar o caso do valor da compra justo porque me conhece.

— Ô, amor. Se foi caro assim, como eu tô achando que foi e muito, eu te passo metade. Sério. Foi loja física ou online? Crédito ou débito?

Juro que me esforço em não responder na maldade, porque, de novo, é presente para o aniversariante da semana. Assim tomo um fôlego pra falar sério também.

— Eu vou perguntar só uma vez e espero que seja sábia a tua resposta: tu já aceitou metade de mim sem eu ter que insistir?

Apesar de ser uma conversa pendente, é longa e, vez que temos muito para aproveitar, não quero me deter a isso no momento. Em reflexo, Vini também toma uns segundos pra elaborar o que dizer, incerto.

— Acho que o que eu não tô sabendo falar... Não é pelo preço, amor. Eu tô, tipo, surpreso, mas não é por isso. É porque tu me conhece a esse ponto. De saber que eu ia gostar desse relógio. Que eu tava a fim desse relógio, mesmo sem eu ter falado sobre ele. E sobre o pagamento... Só não queria que gastasse tanto nessa medida. Porque você pode precisar de um dinheiro pra emergência e... Até eu tava esperando uma promoção.

— Eu peguei uma muito boa, sabe? E foi antes do Natal. Comprei, aliás, logo que pedi o teu dvd. Foi metade do preço de lançamento.

Isso parece o aliviar enfim, que leva a cabeça para trás e então desce para ficar no meu nível. Também firma mais do seu aperto ao meu dorso ao passo que se demonstra acanhado pelo seu furo. Porque fica totalmente estampado no seu rosto.

— Acho que podemos dizer que... esse é o tipo de informação... que salva um casal.

Por muito pouco não gargalho com essa sua interpretação.

— Eu acho engraçado é logo tu me falar um negócio desses.

Mesmo encolhido em seus acanhamentos, Vini se sai com uma de suas declarações pra me agradecer e me agradar no processo.

— Obrigado mesmo mesmo, Lena. Quando eu acho mesmo que não tem como te amar mais do que te amo, tu me surpreende. Sempre.

Aperto meus braços ao alto de seu pescoço, trazendo-o a mim.

— É o que uma boa namorada faz, sabia?

Disfarçando o embaraço, ele foca em mim, contestando esse fato. A categoria desse fato, no caso.

— Isso com certeza já é do nível das extraordinárias.

Toda seduzente, aspiro o seu perfume e me faço de modesta.

— E eu sou extraordinária?

Mas ele quer brincar e atiçar de novo.

— Só é?! Além de mirabolante, claro. Que cantou as minhas músicas preferidas, sabe as minhas bandas preferidas, a minha cor favorita e...

Seu roçar quente aos lábios me dá as minhas eletricidades favoritas.

— E ainda acha que não é a minha favorita. Sabe o quanto eu fiquei preocupado com aquele papo de tu te considerar uma péssima namorada? Mesmo que houvesse a dúvida de que era pra me enganar?

Faço uma careta, da qual ele não acredita muito.

— É, me dava uma dorzinha no coração.

— Seeeeei, seeeei beeeem como é essa tua dorzinha no coração. Mas te amo tanto que aceito. Aceito tudo. Se não fosse mesmo a fome, nem te deixava sair do quarto, só pra continuar aquele beijaço que tu me deu no meio daquele palco. Então, dessa casa tu não sai, digo logo.

Como se eu não tivesse levado uma bolsa de mão para passar a noite e ele não tivesse ficado empolgado só de ver esse adereço ao me buscar em casa, solto-me do seu pescoço para colocar as mãos na cintura, rebelde.

— Tu não me tenta, que eu termino aqui e saio só pra ser do contra.

Ele ri, o safado. Ri e demonstra que seu aperto em mim tá bem firme. Ousa também me desafiar com seus olhos provocantes.

— Tu pode até tentar, bonitinha, conseguir é outra história. Acha mesmo que consegue me driblar aqui e agora?

Ultrajada por sua ousadia e com muita firmeza em todo o meu ser, afirmo:

— Acho!

— Então vai, me dribla, que eu quero ver.

E não é que o Vinícius me desafia de verdade? É aí que meu lado afrontoso cresce de vez, pronto pra liberar toda uma energia doida de ser. Aproveito que ele se mostra todo atento e alerta para pegá-lo no pulo sem que perceba. É, Brasil, o plano se desenha quase por completo na minha cabeça assim, de imediato, só pelo atrevimento dele. Pois também sei ser atrevida.

Por isso, para um primeiro passo na arte da distração, muito da confiante encaro-lhe com afinco e me estico para alcançar a mesa ali ao lado, sem, em nenhum momento, quebrar o contato visual. Assim que tateio a travessa do salpicão, passo uns dois dedos na superfície dela, bem onde detinha um pequeno melecado nas bordas, e volto a ele para passar ao seu rosto, bem pro lado de uma bochecha e um pouco em seus lábios. Sorridente da minha travessura, Vinícius contrai a face, ora fechando os olhos, ora me espiando, e passa a língua por parte dessa arte na boca. E faz isso sem me largar, achando-se o ardiloso.

Nem eu aguento e gargalho da seriedade da palhaçada dele. Mas também invisto numa seriedade palhaça minha, que ele logo antecipa do que se trata ao me ver chegando mais próximo de seu rosto. Inclusive avisa:

— Não vale me seduzir.

Não é o que tenho em mente, mas deixo que pense isso quando o beijo com calma e calidez, esquentando o contato. Ao contrário do que cogita, me colo mais nele e aprofundo essa troca. Ele hesita só de início, pois logo está todo entregue junto, apreciativo junto, perdendo o fôlego junto. E mesmo quando o ar fica escasso, ainda divido uns selinhos quentes com ele, alucinando-o um tantinho a mais e então, que sim, me preparo uma última vez para dar o meu golpe de mestre.

Arrasto a boca por sua mandíbula, pelo pescoço e me afasto apenas um momentinho para lhe encarar. Nessa hora que desvio o olhar brevemente para algo atrás de si, focada no fundo do rack da televisão, e dou o meu alarde, batendo em seu braço efusivamente:

— BARATA, BARATA, BARATA!

Vinícius se vira pra trás, sobressaltado.

— Onde, onde?

No que aponto para o canto de baixo do móvel, ele me solta pra averiguar.

— Ali, na quina! Na QUINA!

— Que parte? Eu não tô vendo.

Me agito, dando mais camadas à minha atuação, dando pra trás.

— Ela tá andando!

O namorado dá a volta no rack, examinando a área de olhos miúdos e sagazes, e eu volto pra mesa bem traquina, deixando-o em sua investigação. Ainda separo um pedacinho ademais da torta pra mim, vez que ele se demora em perceber que isso tudo foi um truque. Só que o raio da torta não corta direito, o que fica difícil de puxar sem um pedação da crosta vir junto e eu continuar rindo não ajuda.

Quando o Vini finalmente passa por mim, para ir pro seu lugar, de braços cruzados, vejo que os seus olhos agora estão miúdos pra mim, me observando pela sacanagem que acabei de aprontar.

— Olha... um dia desses vai ter uma barata de verdade e eu não vou acreditar.

Ainda cortando o raio da torta na frigideira à mesa, rebato, lembrando-lhe de fatos:

— Bom, no que me consta, tu disse que eu sou a tua favorita. E que sou muito da extraordinária. Que quando tu acha que não tem como me amar mais, tu se surpreende e descobre que dá, dá sim e muito.

Vinícius fica tão indignado com o meu discurso que até olha pro lado, segurando a risada, que bem percebo ele fazendo. Mas posso apostar que está desse jeito porque não tem como (e nem pode) negar tais circunstâncias. Por isso, para lhe chamar o interesse de volta, me movo para que os seus olhos se voltem pra mim e continuo a lista de dados. Até solto a frigideira um momento para poder levantar a mão em magnitude e fazer dignas aspas.

— Tu disse, e eu cito, “contigo, feliz sempre”. E ainda teve a audácia de me pedir pra te driblar na tua cara, como se eu já não tivesse feito isso na armação do teu aniversário. Mas como tu queria ver como eu sou esperta, eu te atendi.

Nada razoável eu, né?

Já que ele fica sem argumentos, arruma outro jeito de atentar o meu juízo. Quando finalmente o pedacinho da torta se solta do restante, Vinícius segura a frigideira, levantando-a ao ar.

— Pois vou levar isso pro meu quarto, que lá é mais fácil de te prender. 

Dessa vez, eu que cerro os olhos pra esse bonitinho. Porque mexer com comida enquanto eu tô comendo é coisa séria. Assim, colocando-me de pé, seguro também o outro lado do utensílio, que ela não vai a lugar nenhum.

— Mal te dou umas ervilhas e tu já se acha no direito de um cárcere privado, é?

— Um cárcere teria... gelatinas... e MORANGOS... e leite condensado... de sobremesa?

Ele pensa que falar pausadamente assim, com tais ofertas, vai me convencer.

— Em alguns lugares do mundo, eu acho que sim.

— Teria um namorado dedicado como eu?

— Olha, considerando algumas regiões da Ásia... Tem uma galera rica que faz umas coisas meio complicadas enquanto entregam uns luxos diferentões.

Vendo que eu tinha respostas malucas para as suas perguntinhas capciosas, ele para um momento, fecha os olhos, suspira risonho, e volta a me fitar, dessa vez com mais amorosidade e menos picuinha.

— O que tenho que fazer pra você parar de pensar em sair daqui?

Fazendo uma careta de que não tô falando nada demais, apesar de entregar o segredo de milhões que me desarma real, até dou de ombros.

— Essa é fácil. Só me dizer o quanto tá feliz.

O que era um sorriso engenhoso por nossa pequena rebelião, Vinícius suspira em alívio e sorri um sorriso simples muito querido por mim, todo desarmado e, sei lá, deslumbrado. Principalmente pelo fato de que a resposta – igualmente simples – que lhe peço significa TUDO pra mim.

Com isso, ele abaixa a torta à mesa enquanto se esforça em elaborar algo.

— Eu já não tenho palavras mesmo, Mi. Porque falar que eu tô feliz não parece fazer jus ao que eu tô sentindo até agora. Pelo que tu fez... e pelo que os outros fizeram. Minha família, nossos amigos... A gente andando às cegas. O que falaram no vídeo. Até as coisas que o teu pai me disse.

Me delicio pelo que ele vai elencando entre risos emocionados e pasmos e quero muito perguntar o que foi que o meu pai inventou de lhe dizer, mas prefiro deixar que fale o que vem do coração, ouvindo-o todo agraciado. Acho que os meus olhos cintilam conforme os dele, cheios de água e leveza e amor.

— E então os meus pais... Eles e o meu avô no palco. Tu me beijando do palco. O Silveira tocando teclado. Eu subindo com os meninos e mal sabendo segurar um microfone e depois tropeçando no fio da guitarra sem nem mais me importar... Sabe?

Assinto, rápido demais, também tomada pelo que ele consegue expressar. E quando funga por tudo isso latente em si, eu até lembro do Bruno na festa falando um “até que enfim umas lágrimas de felicidade” e o Sávio dizendo que “a gente teve que passar pelas lágrimas para chegar até aqui”. Foi bem na hora que o Silveira começava a tocar, o que foi um abalo quase geral, já que esse senhorzinho por pouco não teve um treco antes de subir ao palco, e no final ele conseguiu e a voz da Dani nos levou ao ápice das emoções. Eu chorei, o Vini chorou, muita gente chorou.

Mas vendo-o novamente tomado por esses sentimentos, luto para ficar firme à sua frente, vez que parece desabafar seus pensamentos.

— Foi uma noite... surreal. Até mesmo para os nossos padrões. Como um sonho, e dos bem doidos e memoráveis. Porque tem hora que eu não acredito mesmo que tudo aquilo aconteceu.

No que era maravilhamento, seu rosto se retrai num vinco perplexo, do tipo vacilante de não acreditar mesmo no que aprontamos todos.

— Que vocês fizeram tudo aquilo... pra mim. Que fosse significativo pra mim. Foi como uma prova de amor. Uma verdadeira prova de amor. Vocês me deram isso. E eu... eu realmente... eu não...

Até eu fico sem palavras. Ainda mais que ele não consegue articular o que queria acrescentar e então umas gotinhas transbordam de repente no seu rosto. Dou a volta na mesa para ficar à sua frente, mas antes que eu possa capturá-las, o Vini mesmo passa a mão aos olhos pra se livrar delas. Só que eu me atento ao modo que ele está, um tanto envergonhado, que nem é tanto pela emoção que deslizou de seus olhos. É algo que tá brotando agora.

Ao menear a cabeça de leve, baixando-a um pouco, ele ainda se mostra impressionado e comovido numa mesma medida.

— Eu nunca senti isso com tanta profundidade como agora, Lena. Acho até que nunca me senti assim.

Junto minhas mãos nas suas, balançando nossos braços de maneira serena e suave.

— Assim como?

Ele parece buscar as palavras, os olhos vagueadores.

— Amado... querido... pertencente.

Sorrio em alívio ao ouvir as palavras que eu havia lhe dito um tempinho atrás, quando surtou em paranoias. Que ele é importante, significativo e parte de muitos, que as pessoas não têm pretensões de lhe abandonar.

— Que eu tenho amigos de verdade. Irmãos, sabe? Com gente dizendo abertamente que quer seu meu amigo. Que gosta de me ter como amigo. Ou, como tu e o Murilo às vezes falam, de estar no lugar certo com as pessoas certas. Que superam até uns medos e vergonhas pra subir em um palco. É uma sensação... quase... quase inexplicável. Sou capaz até de devolver todos os presentes e só guardar essa sensação comigo, que seria o bastante.

Chorosa e divertida e pasma disso tudo vir à tona, ouso contestar isso:

— Ai de ti de devolver o meu!

Vini me acarinha o rosto, abrandecido de suas ideias.

— Não devolveria, porque também vai me lembrar disso tudo, me dizendo que foi real... que ainda é real. Que me dá uma paz e um sentimento caloroso ao mesmo tempo. E que preenche aqui dentro.

No que ele toca ao corpo, entre a barriga e o peito, eu jogo os meus braços nele e o pego pelo pescoço, tomando-o para mim, e ele me envolve pelo dorso, beijando-me o ombro. Um abraço de conforto.

— Eu não sei como mereço tanto, Lena, mas eu agradeço de verdade.

Apertando-o em mim, reafirmo essa verdade.

— Merece sim. Merece as melhores coisas, as melhores pessoas, as melhores escolhas. Merece tudo isso e um pouco mais. Merece até uma almofadada na cara! Já sei até com qual almofada atacar.

Meu Vini ri de maneira suave, porém gostosa, pela minha referência, o que o faz também me soltar e voltar a me encarar, sentindo a indireta direta.

— O código, né?

— Sim, o código. Agora diz que tu merece isso.

Cutuco ele ao alto do peitoral para que exercite essa afirmação, algo que ele mesmo inventou de fazer comigo em outras oportunidades e que foi assim valioso. Mas, sacana, ele fecha um olho pra desviar o assunto.

— Um tapa na cara?

— Diz, Vini.

Vendo que eu não desistiria disso, ele atende meu pedido. Não importa pra mim se ele tá acanhado, vagueando os olhos, ou mesmo enrolando, o que vale é ele dizer frase por frase, independente do tempo que leve.

— Eu... hmmmm.... eu mereço... mereço... errr... Eu mereço esse presente... um presente inesquecível... que foi a minha festa de aniversário.

— Ótimo. Continua.

— Eu... errrr... Mereço essas pessoas... seus esforços... os presentes... Eu mereço. Mereço todo o carinho.

Incentivo-o mais um pouco e meu coração quase salta de eu ser o centro da vez.

— Tá quase acabando.

— Eu te mereço. E mereço muito.

Beijo-o de leve com um selinho rápido quando arfa pelo esforço que fez, de articular isso tudo. Para abrandar a sensação, brinco um pouco, mas a sua resposta... não é que é séria e ou tão séria; revela-se na verdade um alívio diferente.

— Doeu?

— Por incrível que pareça... Acho que agora não dói mais.

— Como assim?

Vinícius se detém uns segundinhos.

— Lembra da noite do blackout?

— E tem como esquecer?

Com um ar incomodado, a cara que ele faz não é lá das boas e estranho isso.

— Lembra da pseudofesta que teve antes do blackout?

— Hmmm. Um tanto... sim.

Concentrado nas nossas mãos juntas, de cabeça baixa, ele explica:

— Naquele período... Eu tinha passado uns meses fora, por conta do acidente e do coma, e ninguém... ninguém nem tinha sentido a minha falta. Ninguém daquelas pessoas tinha sentido. Eu trabalhava com elas e elas passaram tempos sem me ver e não fez nem diferença.

Isso me pega como um campo minado, em que eu pisei e ativei uma bomba que eu nem sabia que estava ali. Quer dizer, eu não podia imaginar que... que isso ainda ressoasse nele. Aquela festa.

Vagueando o olhar pela mesa, com a mente naqueles dias, ele é tomado por esse sentimento de irrelevância e insignificância, que também mexe comigo. De como aquele monte de gente simplesmente o ignorou e o desrespeitou na sua própria casa.

— Ninguém ligou preocupado, ninguém buscou notícias. Nem ninguém da faculdade. Eu poderia ter morrido... e eu não teria feito falta. Talvez só para algumas poucas pessoas, como a Suzana ou o Wellington, mas... Mas se tivesse acontecido algo comigo, demoraria para eles saberem.

Quero abraçá-lo outra vez e fazê-lo esquecer dessa gente ignorante e desse raio de festa que foi a do seu retorno, fazê-lo apagar e se apegar só à parte boa, mas sei que não posso fazer isso. Porque é também uma daquelas coisas que não dá somente para eliminar. Assim, ouço-o mais uma vez, deixo que fale, que se expresse, e também não mais seguro as emoções em mim, deixo que desça, deixo que veja, é para esvaziar mesmo.

Atento a mim, Vinícius até captura uma das lágrimas que encontra caminho pelo meu rosto e depois a mistura com a dele, quando umas também escapolem e ele as interrompe, apesar de não deixar de colocar esses sentimentos todos pra fora.

— Mas lá na empresa... Aquelas pessoas me viram por mais de um ano até, senão mais, e a única pessoa que se importou minimamente comigo ali, naquela pseudofesta idiota, tinha me conhecido há poucos dias. Você.

Arfo em meio a um soluço, consternada por tudo isso que revela.

— Vini.

— É... eu sei. Apesar dos apesares, de você estar ali naquele meio, não é exatamente algo bom ou fácil de lembrar. E olha que eu já me sentia fora de órbita faz muito tempo, faz muitos anos até, mas aquilo ali... aquilo doeu.

Soltando uma das mãos minha da dele e levando-a ao meu rosto, seguro um soluço esganiçado, pois não quero interromper, quero é que possa chegar até o final, e logo, para que ele deixe isso ir embora. Porque eu vou estar aqui e a gente vai ser feliz.

— Eu tentei me convencer de que aquilo tudo era uma fachada mesmo e que eu não ligava... Mas eu ligava. Isso fez eu me sentir que um total zero à esquerda. Tinha casa, família, bens, emprego... Mas eu era descartável, esquecível... Daí ficamos sem luz, sem jogo, e eu sem importância.

— Não pra mim.

Consigo dizer isso em meio às emoções e repito.

— Pra mim foi até melhor eles terem ido embora. Mas sem importância, tu não ficou. Não pra mim.

Vinícius me abraça o rosto e me beija delicado. Também encosta a testa na minha.

— Eu sei que não, amor. Eu sei que não. Hoje eu sei. Mas naquele dia... nem a você eu tinha. Nossa história tava toda enrolada e eu tava procurando maneiras de desenrolar. E aquelas pessoas... elas não eram as minhas pessoas pelo jeito. Não eram mesmo. Nunca foram.

— E n-no... E no teu níver ano passado?

Ele toma um fôlego e se afasta só um pouco, colocando isso em perspectiva.

— Confesso que isso ainda me pegou um pouco. Ironicamente, tinha gente que eu “não gostava” na festa e que queria estar aqui comigo. No caso, a Iara e o meu pai. E por mais que a casa estivesse cheia, boa parte deles vieram porque você veio. Porque você era... é... você é assim significativa. E atrai pessoas.

Pisco os marejados olhos, pronta para refutar isso.

— Acho que não é bem assim, Vini.

E ele me acarinha o rosto, mais leve.

— Eu sei, um sentimento meio estapafúrdio... e ainda assim um sentimento, não é?

Com essa afirmação, entendo que ele fala dos seus pensamentos de antes, que já não são como os de agora, o que me alivia um tantão, apesar de querer contestar todos.

— Tá, vou ficar quieta.

— Tudo bem, Lena... Eu sei que eu não falo muito disso. E não imaginei que... alguém como a Iara... que no ano passado foi uma das pessoas que apenas tolerei na minha festa, que pudesse ter escolhido ser a cabeça desse ano. Sabe? Imaginei que ou a minha mãe ou o meu pai tomariam o posto, ou os dois, com aquela assessoria singular tua... Mas a Iara escolheu isso. Porque era o meu aniversário.

A emoção toma conta dele nesse momento e é bem no ponto extraordinário. Uma emoção sensacional que coloca as outras no chinelo, sobrepondo-as no estilo.

— O níver do irmãozinho dela.

Vinícius sorri um riso aberto e sincero, embora acanhado.

— Até acho bonitinho ela me chamar assim. Tipo, ela tá me sacaneando, mas tá fazendo isso de um jeito... hmmm...

— Fofo?

— É, algo assim. Porque acabo sentindo algo bom. E isso me faz sentir um irmão mesmo. Que quer cuidar e que quer pentelhar, tudo ao mesmo tempo. Algo que eu sempre quis e que não fosse só “postiço”, como com a Wanessa ou com o Wellington, que me deram esse papel quando a gente tava ainda na escola. Eu sempre quis irmãos assim, pra poder ter com quem contar, ter companhia, a gente se entender, essas coisas.

Passo a mão ao rosto, para remover as gotinhas que desceram pela pontada ruim.

— Disso tu já tinha me falado.

— Foi muito bom ver eles na festa e só sinto por já não poder vê-los com frequência. Mesmo morando na mesma rua, sendo vizinhos, a vida tem nos levado pra outros lados e caminhos. E ter eles de novo lá, mesmo que apenas por um tempo, me deu esse gostinho. E eu pude perceber que já não tinha mais aquela inveja chata... da relação deles... Porque agora eu tenho isso. Tenho você, a Iara, o Murilo... tenho muitas pessoas comigo. E elas me escolheram. Elas fizeram coisas por mim. Não encheram os balões com o próprio pulmão, mas fizeram um vídeo. E pegaram o microfone e subiram num palco. Entende?

Assinto, mais suavizada.

— Uhum.

— Quando a minha mãe falou, lá no vídeo, sobre eu ser “querido”... Isso foi o auge pra mim. Que ali eu percebi que era verdade. Agora é verdade.

Vini me acarinha os cabelos, então o rosto e torna a me trazer para si, passando os braços pelo meu corpo para um abraço firme. Termina de olhos brilhantes, instigados e impressionados, dignos de fim de jornada.

— Eu não tinha isso até pouco tempo atrás, Lena. E agora tenho. E tenho você comigo, o que torna tudo isso mais... mais sensacional ainda. Além disso, dessa vez eles não foram porque você foi. Eles foram porque era o meu aniversário, o meu dia, a minha surpresa. Foi importante assim.

Não resisto e beijo-o dividindo esses sentimentos todos. Também me grudo nele, sinto o seu coração emocionado e seu o corpo junto de mim e espalho pequenos beijos por seu ombro e mandíbula, como que para ajudar a colar seus pedacinhos no lugar.

Por fim, apenas respiro seu cheiro pela camisa, aninhando-me nele, levando todo um amor de mim para ele.

— Eu sinceramente não sei nem o que dizer. Tipo, fico feliz, claro, por você poder falar sobre isso, de me dar essa dimensão toda, mas também quero bater nessas pessoas que te fizeram se sentir assim. Quero tacar aquelas garrafas de cerveja na cabeça delas!

Meu Vini ri um riso meio sem graça, desses que quer deixar isso para trás também. Assim, foco no que importa.

— Mas, mais do que tudo, quero que sinta que o teu lugar existe. Que as tuas pessoas preferidas existem. E tu também significa isso pra elas. Pra mim, significa o meu lugar seguro e doido e que amo como nunca amei ninguém. Eu te amo e amo com profundidade. É a minha pessoa favorita. Contanto que não diga essa última parte nem pro meu irmão, nem pra tua irmã.

O seu riso quebrado de antes se alarga em saber que isso é nosso e que ele é único.

— Não digo, pode deixar. Até porque ainda não cheguei nesse nível com a Iara, mas um dia ainda chegaremos. E, claro, sem te entregar.

— Eu vou adorar ver tudo isso. E viver tudo isso.

— Teu camarote tá garantido. E vou garantir a melhor das melhores festas pra minha namorada, porque esse ano ela não vai me tapear! Nem bater a porta na minha cara. Vai ter festa sim e tenho dito!

Ele fala isso porque ano passado o meu níver pegou uma temporada insana de provas e trabalhos que eu mal respirei e mal sabia dizer o meu nome. Fiquei cansada até de existir. Lembro que passei o feriado da Semana Santa todinho com a cara nos livros e nos cadernos, com mamãe quase me denunciando ao Papa por eu não ter ido passar o feriado com ela, e mesmo depois, até fui pega estudando durante o expediente – e pega pelo sogrinho ainda por cima! Meu aniversário acabou sendo engolido. E não apenas o meu, pois até a Dani, que é a Dani, que faz aniversário em abril também, não tava disposta a comemorações, de tanto que o negócio foi exaustivo nesse período.

Por fim, eu disse que aceitava só bolo e abraços, que ninguém inventasse uma festa, que ou eu ia fechar a porta na cara da pessoa ou eu iria embora sem cerimônias, e as pessoas que convivem comigo sabem que sou de cumprir as coisas. Por isso que Djane foi levar o tal do notebook lá na faculdade e eu fiz ela ficar com o próprio presente. Bom, não por isso, mas ela tentou me driblar e ainda me ofereceu um presente caro demais, daí eu tive que me posicionar de novo.

Pra completar, teve trovões também, o que terminou de me deixar sem cérebro. Diante do meu estado, todos tiveram que entender que eu não tinha disposição nenhuma, nem pra algo grande, nem pra algo pequeno, nem pro mínimo. Só topei um almoço simples de domingo, na casa do seu Júlio mesmo, com banho de piscina e olhe lá. O que até valeu muito pra mim, mas o meu Vini, pelo jeito, quer algo mais.

Eu não deveria reclamar, né? Porque ele é um lindo e quer me fazer feliz.

Quer, aliás, aprontar gostoso comigo.

Além disso, em qualquer outro cenário, eu sou a pessoa que faz o contrário pelo outro. Então acho que esse ano tenho que pensar no meu dia... Ou permitir que alguém o faça. Como a Daniela mesmo disse no níver do Vini: às vezes as pessoas só querem te surpreender e tu tem que deixar, sua chata!

Acho que acabo ficando quieta demais considerando todas essas coisas. Não de um modo ruim, só mesmo maquinando o que dizer sobre essa questão de níver e festa. Para obter uma resposta minha, Vinícius aproxima o rosto, tocando seu nariz no meu.

— Pra quem gosta de aniversários e de armar grandes surpresas, é no mínimo curioso que tu não faz tanta questão de uma festa.

— Curiosamente, o Murilo também é assim.

— Também vamos ver o que podemos fazer pro níver do teu irmão. Ele merece. E tu merece. Vocês merecem. Então acho que é tua vez de repetir isso.

Vinícius joga essa, todo sagaz, e eu sorrio porque acho que devo mesmo. Devo aceitar peripécias de aniversários, devo aproveitar esse carinho, devo viver isso com mais... Permissividade. Sem me podar ou podar o outro. Porque eu, logo eu, mereço tudo isso.

Assim, pegando o embalo da proposta, tento colocar um pouco de firmeza ao exercitar esse processo de aceitação.

— É, eu mereço uma digna... festa... de aniversário. E mereço esse namorado lindo e dedicado que tem propostas... hmmmm... decentes.

Nem preciso dizer que a face do Vinícius se ilumina por conquistar esse feito de mim. E ainda emendo mais uma declaração pra acertar isso.

— Vamos colocar assim: vocês não me dizem nada e eu prometo ir.

Meu Vini, no entanto, parece duvidar, de repente de olhos cerrados, sem saber ao certo se tô falando sério. Porque acho que ainda tô com uma cara traquina.

— Garantido?

— Ga-ran-ti-do. Só não me tapem os olhos que eu me rebelo. Tu viu! Ou melhor, acompanhou a confusão toda.

— Pode deixar que vou frisar esse aviso pra dona Djane. Principalmente se ela já deu esse golpe e tu ainda enrolou ela com essa história. Estão quites as duas, né?

— Talvez.

Daí lembro que uma das razões de a sogrinha ter me deixado no escuro foi para me distrair do temporal que se formava naquela noite. Sei que choveu porque, quando saímos, o asfalto tava molhado e havia certas pocinhas.

— Ei, teve... trovões?

— Teve e foram bem leves. Foram inclusive ali pela hora dos parabéns. Os garçons que me disseram. Então acho que a pizzaria é um lugar seguro. 

— Pra esse nível de trovão.

— Vamos testar os outros níveis. E não precisa ser você. Posso averiguar isso com a galera.

É, eles podem fazer isso e acho que tá tudo bem pra mim. Não é como se fosse uma grande demanda ou exigisse tanto deles, mas, acima de tudo, tenho que deixar que façam gentilezas como essas. Até porque fazem parte da minha base confiável.

Expiro devagar, demonstrando uma maior tranquilidade sobre isso, de que estou aceitando isso. Contudo, a traquina que vive em mim não deixa esse gancho seu passar.

— Iria averiguar... pro meu aniversário?

Só que, claro, o Vini saca e me beija na ponta do nariz.

— Pro teu desempenho, malandrinha.

E eu embromo, claro, cruzando os braços.

— Melhor malandra do que trambiqueira... Aliás, acho que ninguém mais me chamou desse jeito. E até que prefiro assim? Tenho que manter certa aura se quero que não percebam de onde ou de quem veio o golpe.

Vinícius bem sabe que tô levando a conversa pra outros lados e dessa vez é ele quem me pega quando resgata uma questão sobre o seu aniversário.

— E ainda quer me convencer de uma tal dorzinha no coração, né?

Gargalho e por um segundo penso que não é pra rir, porque isso foi um lance sério. Porque pra mim foi.

— Porque tive, ué. E foi bem dose, tá, porque logo que eu me acostumo a dizer a verdade, as pessoas querem que eu minta. Aí me quebram!

Vini finge que acredita, com um sorrisinho de lado. Mas, como ele mesmo disse neste dia, ele aceita, aceita tudo. E me impressiona quando faz isso, apesar de me deixar na dúvida se está de brincadeira ou não.

— Tu se superou, Lena; se superou e muito.

— Num bom teatro?

— Num tudo.

Encaro seu rosto tão perto e também sinto essa verdade.

É, eu me superei. E acho que tô pronta – ou mais aberta – pra superar ideias que já não me cabem mais, que nem me representam mais. Tá mais do que na hora de fazer isso por mim. Sei que já tô dando passos nesse sentido e, com o meu Vini, quero manter essa disposição de tentar mais e mais. E quero que isso seja para nós dois.

— Então vou me superar mais uma vez, agora te contando todos os bastidores e todos babados que eu lembrar, todas as histórias doidas e válidas de contar, tudo pra que seja esse sentimento precioso que prevaleça aqui.

Toco-o no peito, ao coração, o que faz o Vini me beijar e selar isso com empolgação.

— Agora conta. Como começou, quem deu qual ideia, como arquitetaram, como me enrolaram, quem tá envolvido, tudo.

Quem diria que é ele quem pede os detalhes agora, né? E quem diria que eu entregaria todos eles com tamanho entusiasmo e paixão. É, eu ainda me impressiono muito com o que temos e acho que esse é um sentimento que eu quero viver para sempre.


Notas finais
DE NADA! Trechos do próximo? Que eu já revisei trocentas vezes e vou revisar de novo? "Nem eu notei onde eu tava amarrando o meu burro ao falar dessa história." e "- Acho que só tô me perguntando como a gente saiu de uns 'eu te amo' pra um 'não quero me casar com você'. Paraliso tanto que quase solto a caixa aos meus pés." E NÃO POSSO ENTREGAR MAIS NADA PORQUE COMPLICADO sério, esses dois me deram trabalho hahaha (mas é um trabalho que goxxxxto)