ENTRE SOMBRAS E CÓDIGOS

15 Capítulo 15 – Coração de Guerra


O hospital da unidade especial estava silencioso, exceto pelo som contínuo dos monitores cardíacos e pelo gotejar do soro.

Clary dormia, os cabelos soltos sobre o travesseiro, o braço enfaixado e o ombro coberto por curativos reforçados. Seu corpo, pequeno e frágil, contrastava com a força que todos aprenderam a respeitar.

Ao lado dela, sentado em uma poltrona, Alex não se moveu desde que ela foi internada. Não havia dormido. Mal havia comido.

O rosto sério agora parecia... cansado. E humano.

Nate e Billy observavam de longe, encostados no batente da porta.

— Aí está. O maior pesadelo dos criminosos. Agora parecendo um homem que perdeu o chão — murmurou Nate.

— Ele não perdeu. Ele só deixou o coração cair — respondeu Billy.

Arthur chegou com café, mas ninguém o pegou.

Alex segurava a mão de Clary com uma delicadeza que beirava o desespero.

No final da tarde, Joe entrou no quarto. Sem arrogância. Sem pose. Apenas um pai com expressão marcada pelo peso do que quase perdeu.

Alex se levantou, mas não soltou a mão de Clary.

— Vim ver a minha filha — disse Joe, com a voz baixa.

Alex assentiu, mas não disse nada.

Joe olhou para Clary por longos segundos, os olhos cheios de culpa e algo novo... orgulho.

Depois, se virou para Alex.

— Eu devo a você… mais do que posso dizer.

— Ela se salvou sozinha — respondeu Alex, com a voz rouca.

Joe balançou a cabeça.

— Ela sobreviveu porque você acreditou nela quando ninguém mais acreditava. Inclusive eu.

Houve uma pausa.

— Você abriu meus olhos. E se você permitir… eu quero começar a ser o pai que ela mereceu desde sempre.

Alex olhou para ele.

— Se ela quiser... você tem esse lugar.

Joe assentiu, emocionado, e saiu sem dizer mais nada.

Minutos depois, Clary gemeu baixinho e abriu os olhos.

Alex se aproximou de imediato.

— Ei… Ei, tô aqui. Fica calma.

Ela piscou devagar, o rosto ainda abatido, mas a primeira coisa que saiu da sua boca foi:

— Então… a armadilha funcionou, né?

Alex franziu o cenho.

— Você tá brincando comigo?

— Eu disse que o plano era bom.

Ele suspirou, aliviado e irritado ao mesmo tempo.

— Você tomou dois tiros!

— Mas pegamos o rato, né?

Alex passou a mão no rosto.

— Você me mata de susto, hacker. De verdade.

Ela sorriu.

— Vai admitir que metade dos nossos problemas foram resolvidos?

Ele se inclinou e encostou a testa na dela, com os olhos fechados.

— Sim. Mas a outra metade… é você sempre querendo resolver tudo com uma mão e uma granada.

— E você amando isso. — ela sussurrou, fraca, mas provocante.

Alex sorriu, aliviado.

— Te amo, Clary.

— Eu sei — ela respondeu, piscando devagar — Mas me lembra disso quando eu estiver reclamando da comida do hospital.

E então, pela primeira vez desde o tiro, Alex riu de verdade.

Ela estava de volta.

Inteira.

E mais forte do que nunca.

**

Clary estava sentada na cama do hospital, emburrada como uma criança contrariada. Um dos braços ainda enfaixado, mas os ferimentos já cicatrizavam bem. A mente, no entanto, fervia — não por causa da dor, mas por tédio absoluto.

— Isso é tortura. — resmungou, batucando os dedos sobre o lençol.

Do outro lado da sala, Alex organizava um pequeno arsenal com a concentração de um cirurgião. Ao menor movimento dela, os olhos dele levantavam.

— Não.

— Eu nem falei nada.

— Mas pensou. — respondeu ele, sem olhar.

— Só quero checar um relatório. Só abrir o e-mail. Me dá um notebook, um tablet, um pager dos anos 90, qualquer coisa!

— Você tá em recuperação. Ordens médicas.

— Você é pior que o hospital. — murmurou, cruzando os braços.

A porta se abriu.

Joe entrou, com duas sacolas na mão e uma expressão mais leve do que a habitual. Alex o olhou de relance.

— Vou buscar um café. — disse o ex-militar, saindo discretamente.

Clary arregalou os olhos, surpresa.

— Você conseguiu tirar o Alex da sala?

— Me agradeça depois.

Joe se aproximou e puxou uma cadeira. Tirou da sacola dois potes de sorvete — chocolate e pistache.

— Lembra dessa combinação?

Ela sorriu, relutante, mas pegou a colher.

— Era o que a gente comia quando eu tirava nota boa… antes.

— Antes de tudo quebrar — completou ele, com sinceridade. — Clary… eu não vim só trazer sorvete. Eu vim te pedir perdão.

Ela ficou em silêncio, olhos fixos no pote.

Joe continuou:

— Eu errei com você. Eu deixei a dor me transformar em alguém que nunca deveria ter sido. Eu te culpei… porque te amar me lembrava dela. E eu não sabia como lidar com isso. Mas a verdade é… que cada vez que eu te olhava, eu via a sua mãe. E isso doía. Muito.

Ele tirou algo do bolso interno da jaqueta e estendeu para ela.

Uma fotografia, antiga, dobrada nas bordas.

Uma mulher sorridente, olhos iguais aos de Clary, cabelos jogados no ombro, com a mesma expressão determinada e doce.

Clary a tocou como se fosse feita de cristal.

— Ela… ela é linda.

— Ela era tudo. E você é tudo o que ela deixaria de melhor. — Joe disse, com a voz embargada.

Clary respirou fundo, os olhos marejando.

— Eu só queria que você tivesse me visto antes. Quando eu mais precisei.

— Eu não tenho como voltar no tempo. Mas se você me permitir… eu quero ser presente daqui pra frente.

Ela olhou para ele por um longo tempo. Depois assentiu.

— Uma colherada de sorvete por cada tentativa.

Ele riu.

— Feito.

Mais tarde, quando Alex voltou, encontrou Clary deitada, dormindo com um pote de sorvete vazio no colo, e Joe sentado ao lado, olhando para ela com um carinho inédito.

— Você conseguiu domar a fera? — perguntou Alex, apontando pra Clary.

Joe sorriu, ainda olhando pra filha.

— Não. Mas pela primeira vez, ela me deixou estar do lado dela enquanto ela ruge.