ENTRE SOMBRAS E CÓDIGOS
14 Capítulo 14 – Reconhecer e Caçar
Joe estava sozinho na sala de observação da unidade, olhando para um monitor onde Clary digitava com sua precisão cirúrgica, ao lado de Alex.
Ela sorria. Estava à vontade.
Confiava naquele homem, e ele… claramente a amava.
Joe segurava uma caneca de café, os dedos tensos ao redor da cerâmica quente.
Por anos, havia enterrado tudo que sentia.
A dor, a raiva, a culpa.
Mas agora, vendo sua filha ali — forte, respeitada, brilhando mesmo nas sombras — uma parte dele começava a ceder.
“Ela não é mais a garotinha da tragédia. Ela virou uma mulher... e talvez eu tenha perdido todos os momentos que importavam.”
Ele suspirou, amargo.
E sabia: se quisesse se reaproximar, teria que engolir o orgulho que o consumiu por anos.
No centro de operações, Clary lia relatórios de movimentações internas. Algo nos registros não batia.
— Alex, tem um padrão aqui — disse ela, destacando três pontos no mapa. — Toda vez que uma missão de alto risco ocorre, essa sequência de acessos aparece nos logs. E sempre de dentro da nossa rede.
Arthur se aproximou, analisando os dados com os braços cruzados.
— Isso é coisa de rato infiltrado.
— Alguém tá passando info por debaixo da mesa. E o pior? — Nate acrescentou — Tá nos testando.
Alex olhou para Clary.
— Você consegue rastrear quem está abrindo esses acessos?
Ela sorriu de canto, os olhos brilhando.
— Já estou fazendo isso. Só preciso que vocês me deem 24 horas… e liberdade total nos sistemas.
Alex assentiu.
— Você tem. Faça o que for preciso.
—
Mais tarde, enquanto Clary trabalhava sozinha na sala escura, Joe apareceu na porta. Não entrou. Apenas encostou o ombro no batente.
— Eu… vi como você operou hoje. — ele começou.
Ela parou de digitar, mas não virou.
— E?
— E… eu tô começando a enxergar que talvez eu tenha te julgado pela dor que era minha.
— Talvez?
— Provavelmente.
Ela respirou fundo e finalmente olhou para ele.
— Eu não preciso que você me abrace. Nem que me chame de filha. Só quero que você veja o que eu sou. Não o que você perdeu.
Joe assentiu, a expressão cansada.
— Eu vejo.
Foi tudo o que ele disse… e foi o suficiente por agora.
Clary voltou a digitar.
Na tela, um IP piscava.
— Te achei, rato. — ela sussurrou.
— Isso é loucura — Alex rosnou, cruzando os braços com raiva contida.
Clary, sentada no canto da sala de estratégia, terminava de ajustar os comandos no tablet.
— É genial. — corrigiu, com um sorrisinho travesso. — O IP está rastreado, o canal falso de comunicação está armado e os códigos vazados levam direto pra armadilha. Só falta uma coisa.
— Você se colocar no meio dela — ele respondeu, a voz tensa.
Ela se aproximou, os passos lentos, sedutores. Estava com os cabelos presos num rabo de cavalo alto, vestida com o uniforme tático, mas de algum modo ainda mais bonita do que de costume.
— Você sabe que esse tipo de isca... só funciona se parecer real. E ninguém vai resistir a uma hacker distraída e vulnerável.
Alex apertou o maxilar.
— Eu não gosto disso. Nem um pouco.
— Não precisa gostar — disse ela, colocando os dedos sob o queixo dele e forçando-o a olhar em seus olhos. — Só precisa confiar em mim.
Alex respirou fundo.
— Você me faz perder o juízo.
— E você me faz sentir invencível.
Silêncio.
— Se qualquer coisa der errado… — ele começou.
— Eu sei. Você vira o inferno em pessoa — ela respondeu, selando seus lábios com um beijo rápido e suave.
—
A armadilha foi montada na ala de comunicação. Clary ficou sozinha, digitando em uma estação falsa, enquanto o restante da equipe monitorava por câmeras escondidas. O IP falso estava ativo, a brecha visível. E o rato… caiu.
Os passos soaram pesados atrás dela.
— Você está invadindo áreas que não deveria, Clary. — disse a voz.
Ela se virou devagar. Seu peito gelou.
Daniel.
Um dos seus irmãos.
— Sabia que tinha algo estranho nas suas movimentações — ela disse, levantando-se.
— Eu só queria provar que você nunca deveria estar aqui. Que você é só uma aberração com um teclado — ele respondeu, sorrindo com desprezo.
Ela ativou o comunicador.
— Daniel... você está preso por traição e vazamento de informações sigilosas.
Ele sorriu. Um sorriso sádico.
— Não tão rápido.
Antes que ela pudesse reagir, ele sacou a arma e atirou.
BANG.
O impacto a jogou contra a parede. O primeiro tiro atingiu seu ombro. O segundo, o braço.
Ela gritou, tombando no chão, o sangue escorrendo.
Foi então que o estrondo do segundo tiro ecoou —
BANG.
E Daniel caiu.
Atrás dele, de arma ainda em punho, estava Joe.
Respirando pesado. As mãos tremiam. Mas os olhos estavam decididos.
Ele correu até a filha.
— Clary!
Mas Alex já estava lá, se ajoelhando ao lado dela, pegando-a nos braços com urgência.
— Estou aqui. Fica comigo. Olha pra mim.
Ela tentou sorrir, mas o rosto estava pálido.
— Eu... te avisei que o plano era bom.
— Eu vou te levar de volta. Vai ficar tudo bem. — ele murmurava, pressionando o ferimento, sangue escorrendo pelos dedos.
Joe, ainda em choque, olhou para o filho caído e a filha ensanguentada.
— Eu... eu atirei no meu próprio filho.
Alex levantou os olhos, feroz.
— Não. Você salvou a sua filha.
E essa foi a primeira vez que Joe não hesitou em olhar para Clary e chamá-la exatamente como ela merecia ser chamada.
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