ENTRE SOMBRAS E CÓDIGOS
1 Capítulo 1 – Olhos Afiados
Clary manteve os olhos fixos na tela, os dedos dançando freneticamente sobre o teclado. Três servidores invadidos em menos de vinte minutos. Mas ela já tinha rastreado o invasor, redirecionado a conexão e plantado um vírus reverso para espionar o invasor de volta. Tudo isso enquanto a maioria ainda discutia “por onde começar”.
Ela removeu os óculos com calma e respirou fundo.
— IP rastreado. A localização está no relatório — disse em voz firme, entregando a prancheta a um agente mais velho.
O homem pegou, olhou rapidamente e não disse nada. Clary já estava acostumada.
— Fez sozinha? — perguntou uma voz atrás dela. Era um dos irmãos, Andrew, o mais velho dos três. Bonito, arrogante e com a mesma falta de alma do pai.
— Sim. — respondeu Clary, sem o encarar.
— Claro, né... — ele riu. — Você vive nisso. É a única forma de chamar atenção, não é?
Clary ignorou o comentário. Mais dois irmãos estavam no fundo da sala: Daniel e Rick. Eles a encaravam como se ela fosse um inseto que sobreviveu a uma pisada.
— Nada mal pra alguém que só está aqui por pena — murmurou Daniel.
Ela sentiu o estômago revirar, mas permaneceu firme. Se demonstrasse fraqueza, seria exatamente o que queriam.
Então a porta da sala se abriu.
O ambiente inteiro ficou em silêncio. Um homem alto entrou, de expressão fria e olhar de gelo. Usava roupas discretas, mas não havia nada discreto nele. Os olhos dele varreram a sala como se analisasse um campo de batalha.
Era ele. O novo integrante. Ou, como circulavam os sussurros, o monstro que sobreviveu à guerra. Alex.
O diretor da unidade, o capitão Joe, entrou logo atrás. O pai de Clary. Passou por ela sem olhar. Sem reconhecer. Nem como subordinada. Nem como filha.
— Este é Alex Hunter — anunciou Joe, como se ele carregasse dinamite na cintura. — Ele ficará um tempo com vocês, observando. Depois vamos decidir quem permanece na força especial.
Todos se endireitaram, tentando parecer importantes. Clary manteve a postura profissional, mesmo com o coração batendo acelerado. Alex a observou por um segundo a mais que os outros. Como se já tivesse notado algo.
— Vocês podem voltar ao trabalho. — Joe deu as costas, e como sempre, passou reto por Clary.
Alex ficou na sala, imóvel, os olhos fixos no mural tático. Ele não disse nada. Mas por alguma razão, Clary sentiu que ele estava prestando atenção. Não nos outros. Nela.
**
Era fim de tarde quando Alex se dirigiu para a sala de monitoramento. Seu andar era silencioso, mas sua presença era impossível de ignorar. O olhar direto, o silêncio pesado, o ar de ameaça latente que parecia segui-lo onde quer que fosse — tudo nele dizia que ele já vira coisas que a maioria ali nem imaginava.
Ele observava.
Não só câmeras. Pessoas.
Por dois dias, Alex ficou em silêncio. Caminhava entre os corredores, assistia às reuniões, passava por interrogatórios, relatórios táticos, simulações de campo. Nunca falava muito. Mas sempre estava lá. Como uma sombra de olhos atentos.
E em todas as salas que passava, havia sempre algo em comum:
Ela.
Clary.
Sentada à frente de um computador. Focada. Impecável. Sozinha.
Ele já tinha visto muitos talentos desperdiçados em ambientes corrompidos por hierarquias sujas. Mas Clary era diferente. Ela não apenas era subestimada — ela era apagada.
Ignorada.
Naquela manhã, Alex entrou discretamente na sala de inteligência. Ninguém notou sua presença. Estavam em reunião, e Clary apresentava um rastreio completo da operação de uma gangue que usava drones para transportar drogas por rotas não monitoradas. Ela detalhava com clareza o padrão de voo, os horários, a frequência, e sugeria um bloqueador adaptado que ela mesma codificara.
— Isso é só teoria — cortou Daniel, com um sorriso presunçoso. — Dúvido que funcione na prática.
— Eu testei ontem à noite. Funciona. — respondeu Clary, firme.
— Você deveria deixar isso pra gente, Clary — disse Andrew, cruzando os braços. — O pessoal de campo entende melhor a realidade.
Rick apenas riu. Aquela risada baixa, que diz mais do que mil palavras.
Alex permaneceu calado no canto. Mas seu olhar afiado não perdeu nada.
— Bom trabalho, Clary. — disse o chefe Joe, sem sequer encará-la. — Próximo assunto.
Alex viu quando os ombros dela encolheram milimetricamente. Uma reação contida de frustração. Ela não buscava elogios. Ela só queria ser vista.
E não era.
Depois da reunião, ele a seguiu silenciosamente até a sala dos servidores. Ela se sentou no canto, voltou ao trabalho. Não reclamou. Não chorou. Não fraquejou.
Mas Alex reconhecia aquele tipo de dor.
Era a dor dos que sangram por dentro e seguem em pé.
Ele entrou na sala e se aproximou devagar.
Clary percebeu. Seus olhos azuis levantaram por um instante. Depois voltaram para a tela.
— Você é rápida. — Alex disse, encostando-se na parede. Sua voz era grave, firme.
Ela não respondeu.
— Precisa ser. — completou ela, sem desviar os olhos.
Silêncio.
— Eles têm inveja. — ele disse por fim.
Clary virou o rosto, surpresa. Mas havia ironia em sua resposta:
— Eles têm um sobrenome. Eu só tenho um histórico.
Alex a encarou, como se estivesse decifrando algo. Havia firmeza ali. E um vazio profundo.
— Um histórico que vale mais do que o ego deles todo junto.
Clary o olhou diretamente pela primeira vez. Ele não sorria. Mas algo em seu olhar não era mais frio.
Era... respeito.
E talvez — só talvez — algo além disso.
Ele se virou para sair, mas antes de cruzar a porta, disse sem olhar pra trás:
— O bloqueador que você criou. Quero você comigo quando colocarmos em prática.
Ela piscou.
— Achei que só estava aqui pra observar.
Alex parou. Sua resposta veio baixa, mas carregada de intenção:
— Estou. E estou observando que tem gente aqui que precisa ser vista.
E então saiu, deixando Clary sozinha — com o coração batendo mais forte do que deveria.
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