ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
20 Capítulo 20 – O Retorno da Flor que Não Quebraram
Foram dias difíceis. Hana, com curativos nos braços e pequenos hematomas ainda visíveis, aprendeu a andar devagar outra vez. Cada passo era um lembrete da dor que passou — e da força que carregava agora.
Lucca a observava todas as manhãs com aquele olhar que dizia “não força demais”, mas ele sabia: Hana era como as joias que ela mesma desenhava — lapidada com dor, mas brilhando de forma única.
Naquela segunda-feira, ela acordou decidida. Vestiu um conjunto elegante, discreto e firme, como se usasse uma armadura invisível.
— Tem certeza que quer voltar hoje? — perguntou Lucca, segurando sua mão com delicadeza.
— Se eu não voltar hoje... nunca mais vou querer. — respondeu ela com um sorriso fraco, mas verdadeiro.
Lucca assentiu, e antes de saírem, depositou um beijo longo em sua testa.
Ao chegarem à empresa, a recepção parou.
Literamente.
Funcionários que antes a ignoravam levantaram os olhos, se endireitaram. Hana caminhava firme, mesmo com o frio na barriga. Harry apareceu com um buquê de flores e um sorriso sapeca.
— Senhorita Smith... estamos em débito com você. Mas já que cheguei antes do RH, espero que aceitem esse pedido de desculpas em forma de lírios.
Ela riu, baixinho, com os olhos marejando.
— Obrigada, Harry…
Ele se inclinou para sussurrar:
— Foi ideia minha... e um pouco da equipe. Ok, muita insistência minha, mas não conta pro Lucca que tô amolecendo, tá?
Enquanto caminhava pelos corredores, os olhares que antes eram julgadores agora eram de respeito. Uma funcionária da área de design, que antes se recusava até a compartilhar a impressora, se aproximou tímida:
— Hana... eu... sinto muito. Por tudo. A gente não sabia o quanto você era forte. Ou o quanto foi injusto o que fizemos.
Hana piscou, surpresa.
— Obrigada. De verdade.
Na sala de criação, outro colega trouxe café — do jeito que ela gostava. Um gesto simples, mas que pesava toneladas em significado.
Ao final do dia, Hana entrou na sala de Lucca e o encontrou encostado na mesa, com um envelope na mão.
— O que é isso? — ela perguntou, entrando devagar.
— O relatório de produtividade da equipe. — ele respondeu, mas quando ela pegou o papel, havia outra coisa junto: um desenho.
Um esboço feito à mão. Era ela.
Mas não machucada, não frágil. Era uma Hana em pé, com uma capa de lobo sobre os ombros, e olhos brilhando.
— Eu desenhei? — ela perguntou, confusa.
Lucca se aproximou.
— Não. Eu desenhei. Com a ajuda do Harry. E sim, o lobo sou eu. Sempre atrás de você.
Ela sorriu, emocionada, e se encostou no peito dele.
— Obrigada por não desistir de mim…
Lucca segurou o rosto dela e respondeu com firmeza:
— Você que nunca desistiu de você. Eu só estive aqui pra lembrar que você não estava sozinha.
~*~
Hana já estava em casa, de banho tomado, cabelo preso de qualquer jeito e usando uma das camisas de Lucca — que, claro, mais parecia um vestido. Ela andava descalça pela casa, sentindo-se pela primeira vez... inteira. Sem dor. Sem medo.
Lucca chegou pouco depois, tirando o paletó e jogando sobre a poltrona.
Ela o esperava na cozinha, mas foi ele quem chegou por trás, encostando o corpo ao dela e enlaçando sua cintura com firmeza.
— Você tá diferente... — murmurou no ouvido dela, voz grave, quente, como um trovão manso.
— Diferente como? — Hana perguntou, corando, mas sem se afastar.
— Mais minha. — ele sussurrou, antes de deslizar o nariz por seu pescoço. — E eu fiquei um mês inteiro vendo você deitada naquela cama... sem poder te tocar. Sem poder te amar do jeito que você merece.
O arrepio que percorreu a espinha de Hana foi instantâneo.
Ele a virou devagar, os olhos fixos nos dela.
— Hoje... eu vou reivindicar cada centímetro teu, Hana Smith. E não aceito protesto.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, Lucca a beijou. E não foi um beijo comum. Foi uma confissão, um desabafo, uma promessa crua e sem censura.
Hana sentiu as pernas fraquejarem, mas Lucca a segurou. A ergueu com facilidade, como se ela pesasse menos que o ar, e a levou até o quarto. A porta nem chegou a fechar por completo — ele estava com pressa, mas não de se apressar... e sim de aproveitar cada segundo perdido.
As mãos dele estavam em todos os lugares: no quadril dela, nas costas, na nuca, como se memorizasse tudo outra vez.
— Você ainda sente dor? — ele perguntou, ofegante, entre beijos no ombro dela.
— Só se você me deixar. — ela respondeu com um sorriso provocador, que foi suficiente pra ele perder qualquer vestígio de controle.
Ali, naquele quarto, Lucca a tomou como se o mundo fosse acabar.
Lento. Intenso. Selvagem e ao mesmo tempo devoto.
Ele sussurrava coisas no ouvido dela — segredos, possessividades, o quanto esperou por esse momento.
— Você é minha. Desde o dia que entrei naquela cafeteria e vi você com aquele uniforme ridículo... eu soube. E agora... agora eu vou provar isso até você esquecer que um dia existiu sem mim.
E Hana?
Ela não queria esquecer. Queria lembrar de cada toque, de cada vez que ele pronunciava o nome dela como se fosse um tesouro.
Naquela noite, não houve espaço para dor, medo ou lembranças ruins.
Só havia eles.
E cada parte dela — corpo, alma e coração — enfim, inteira e completamente, pertencente a ele.
~*~
A luz suave da manhã filtrava-se pelas cortinas do quarto de Lucca, dançando preguiçosamente sobre os lençóis bagunçados e os corpos entrelaçados. Hana acordou primeiro — ou melhor, tentou. Porque sair da cama quando tem um CEO musculoso e possessivo te prendendo pelos quadris como se fosse um travesseiro humano de luxo… não é fácil.
Ela tentou se mover.
— Onde pensa que vai, Senhorita Smith? — a voz de Lucca surgiu, ainda rouca de sono e deliciosa como café forte.
— Preparar o café. Alguém aqui teve muita energia ontem e vai precisar de reposição. — disse, com um sorrisinho atrevido.
Lucca ergueu a cabeça e arqueou a sobrancelha.
— Eu diria que quem precisava de energia era você. Mas tudo bem, vamos fingir que foi o contrário. — provocou, antes de roubar um selinho demorado e deixá-la sair, a contragosto.
Hana vestiu a camisa dele (de novo), prendeu os cabelos e foi para a cozinha.
Entre panquecas, frutas, café preto e risadas involuntárias, Hana cantarolava baixinho uma música de dorama enquanto colocava tudo à mesa.
Lucca apareceu minutos depois, de calça de moletom e cabelo bagunçado. Encostou-se à bancada e cruzou os braços, observando.
— Se eu soubesse que ganhar café caprichado vinha junto com você... tinha perdido o controle antes.
— Lucca! — ela riu, completamente vermelha.
Ele a puxou pela cintura e sussurrou:
— Não tô brincando. Ver você assim… em minha casa, na minha camisa, preparando café… é melhor do que qualquer contrato assinado.
Hana estava prestes a responder quando a campainha tocou.
— Você tá esperando alguém?
— Só se for Harry com algum drama novo…
Mas não era Harry.
Quando Lucca abriu a porta, deu de cara com uma senhorinha de cabelos grisalhos, vestido florido e um sorriso vitorioso nos lábios.
— Bom dia, CEO Palezo. Vim ver minha neta e trazer uma surpresinha. — disse Mya, a vovó mais maravilhosa desse mundo.
Lucca abriu passagem imediatamente, e Hana surgiu segundos depois, pulando no abraço da avó.
— Você tá com cara de quem dormiu bem… — sussurrou Mya, e Hana quis cavar um buraco e se esconder.
Lucca tentou disfarçar o riso.
A vovó então abriu a bolsa como quem tira um tesouro escondido e entregou um álbum rosa, cheio de adesivos e recortes.
— Isso aqui é pra você, Lucca. A Hana não gosta que eu mostre, mas você merece ver a criatura arteira que ela era.
E começaram as histórias.
Hana tentando escalar a geladeira pra pegar chocolate.
Hana com o rosto todo lambuzado de tinta, dizendo que queria “pintar a alma da parede”.
Hana fugindo da escola porque queria virar ninja.
Lucca ria. Ria como nunca.
E cada riso vinha seguido de um olhar para Hana — um olhar apaixonado, como quem vê a peça final de um quebra-cabeça se encaixando.
— Ela é um furacão desde sempre… — disse ele, acariciando o cabelo dela.
— E agora é seu furacão. — completou Mya, piscando com cumplicidade.
E naquela manhã, entre risadas, panquecas e fotos com orelhas de coelho coladas com durex, Lucca soube que amava Hana.
Não pela mulher incrível que ela era agora. Mas por tudo o que ela foi, tudo que sobreviveu… e tudo o que ainda seria ao lado dele
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