ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
25 Capítulo 25 – A Rosa Que Não Se Dobra
Tudo estava escuro quando Hana acordou.
Seus pulsos doíam, presos por correntes baratas, e o gosto metálico de sangue ainda escorria pelo canto da boca.
Ela tentou se mover, mas o corpo respondeu com uma pontada ardente.
Alguém havia batido nela. Várias vezes.
E ali, na penumbra do que parecia um galpão antigo, Clarice surgiu como um vulto do passado.
Vestida de preto, o cabelo perfeitamente arrumado, os saltos ecoando no concreto como marteladas no coração de Hana.
— Que decadente, não é? — ela disse, abaixando-se diante de Hana. — A noiva perfeita. A queridinha. A nova senhora Palezo... presa como um rato.
Hana ergueu os olhos. Estavam inchados.
— Você… é patética. — sussurrou, com voz rouca.
TAPA.
O som ecoou com gosto.
— Não ouse falar comigo desse jeito! — Clarice gritou, se levantando furiosa. — Você tirou tudo de mim! A mídia, a empresa, ele! Eu era a escolhida!
— Você… era um pesadelo. — Hana cuspiu sangue no chão. — Lucca me ama… e você… você é só um eco do que ele enterrou.
Clarice travou o maxilar.
— Sabe o que é engraçado? Mesmo agora, toda machucada, você ainda acha que ele vai vir. Você se acha especial… mas ele não vai chegar a tempo. E eu? Eu vou fazer você implorar para que ele te esqueça.
Nesse momento, um dos capangas entrou e deu mais um chute no abdômen de Hana, que soltou um gemido abafado de dor.
— Mais um pouco e ela desmaia de novo.
— Não importa. — Clarice respondeu, fria. — Eu quero que ela se quebre. Quero que ela suplique. Quero ver o olhar de quem perdeu tudo.
Mas Hana, mesmo tremendo, mesmo sangrando… sorriu.
— Você quer ver o olhar de quem perdeu tudo? Então olha no espelho.
Clarice ergueu a mão para bater novamente, mas nesse momento… Um barulho metálico.
Correria. Gritos lá fora.
Um dos homens gritou — “Temos um problema!” — antes de um estrondo de metal e tiros ecoarem.
Hana fechou os olhos. O coração acelerado.
Ela conhecia aquela fúria.
Lucca.
E então, como se seu corpo tivesse reconhecido a presença antes dos olhos… a porta foi arrebentada com uma força monstruosa.
— HANA! — a voz dele, desesperada, desumana.
Clarice tentou fugir, mas foi interceptada por Harry, que surgiu como um fantasma com cara de quem não estava para piadas.
Lucca caiu de joelhos ao lado dela.
— Meu amor… meu amor… — a voz dele quebrou. — Olha pra mim… eu tô aqui. Eu tô aqui, Hana…
Ela abriu os olhos com dificuldade e murmurou:
— Demorou… eu achei que ia me apaixonar por outro sequestrador…
Lucca soltou um riso cheio de lágrimas.
— Você é impossível.
— E você… é meu herói…
E então, finalmente, nos braços dele, Hana desmaiou em paz.
Porque sabia que agora… ninguém mais a tocaria.
~*~
O hospital estava silencioso.
Silêncio de madrugada pesada, de chão encerado e luz fria.
Lucca estava sentado ao lado da cama de Hana, com os olhos fixos no monitor cardíaco.
Cada batida era um lembrete: ela ainda está aqui.
Ela ainda é minha.
Harry encostado na parede, com os braços cruzados e o olhar duro.
Tinha sangue na camisa. Não dele.
De quem ousou tocar na mulher do melhor amigo.
— Ela vai ficar bem. — disse Harry, baixinho.
Lucca não respondeu de imediato. Seus dedos seguravam a mão de Hana como se fossem as últimas cordas que o prendiam à sanidade.
— Eles quebraram o rosto dela. — murmurou Lucca, os olhos vermelhos de fúria. — Mas eu vou quebrar os ossos de todo mundo que permitiu isso. Um por um. Começando por Clarice.
— Ela já tá sendo escoltada pra cela mais gelada da delegacia. — disse Harry, com um sorriso sombrio. — E os outros? O inferno ainda tá em construção, mas eu tô ajudando.
A porta se abriu suavemente, e o médico entrou com expressão tensa.
— Senhor Palezo. Precisamos conversar. Assim que sua noiva acordar... gostaria que ambos estivessem presentes.
Lucca se ergueu de imediato.
— Ela tá bem?
— Estável. Mas há… um assunto importante a ser discutido.
— Sobre o quê? — a voz dele veio firme, incisiva.
O médico hesitou. Olhou para Hana, depois para Lucca.
— Prefiro explicar com calma. Quando ambos estiverem em condições de entender a extensão do que foi encontrado.
Lucca estreitou os olhos.
— Encontrado?
— Sim. Não tem relação direta com os ferimentos… mas é algo que precisa ser abordado com cuidado.
E, com isso, o médico se retirou, deixando o ar mais pesado do que antes.
Lucca encarou Harry.
— O que ele quis dizer com isso?
— Aparentemente, que seu dia vai melhorar ou piorar. Não tem meio termo. — disse Harry, com um levantar de sobrancelha. — Mas, olha… do jeito que você olha pra ela, qualquer notícia vira motivo pra levantar um castelo, né?
Lucca olhou para Hana.
Mesmo machucada, inchada, cheia de roxos…
Ela continuava sendo a mulher mais linda que ele já viu.
Ele se inclinou devagar, roçando os lábios em sua testa com a delicadeza de quem toca porcelana rara.
— Você é tudo pra mim. — sussurrou. — E eu juro… ninguém nunca mais vai conseguir te tocar.
Hana se mexeu levemente, soltando um murmúrio fraco, e Lucca sentiu o peito desabar de alívio.
Sim, ela voltaria.
E ele estaria ali, todos os dias, pronto para protegê-la — com as mãos, com o nome, com a própria vida.
Mas agora… havia um novo mistério.
~*~
A claridade do quarto era suave, o sol nascendo preguiçoso do lado de fora.
Lucca ainda estava na mesma posição: sentado, de mãos entrelaçadas à dela.
Um guerreiro de terno amarrotado e olhos cansados.
Mas um guerreiro. Foi quando ele sentiu.
Um leve aperto.
— Hana? — ele se endireitou, a voz tomada por urgência e esperança.
Ela abriu os olhos devagar, piscando como se estivesse saindo de um sonho estranho.
E então viu o rosto dele.
— Lucca… você tá parecendo um panda depois de três noites sem dormir. — sussurrou, com a voz rouca. — Harry passou isso pra você, foi?
Lucca soltou uma risada engasgada, alívio invadindo cada célula do seu corpo.
— Você tá viva… e ainda tá fazendo piada. Ótimo. É oficial: você passou tempo demais com aquele desgraçado do Harry.
— Acho que tô melhor que você. Tá com o cabelo todo bagunçado. Virou mendigo elegante agora?
Ele a olhou com os olhos brilhando e abaixou a cabeça, encostando a testa na mão dela.
— Nunca mais me faça passar por isso. Nunca mais.
A porta se abriu e o médico entrou, observando a cena com um pequeno sorriso contido.
— Vejo que temos bom humor por aqui. Isso é excelente. A senhorita nos deu um belo susto.
Lucca se virou na hora.
— Fale. Como ela está?
— Fisicamente… terá alguns hematomas e dores. Mas nada permanente. Ainda assim, repouso é necessário. — o médico começou, profissional. — Agora… há algo que vocês precisam saber.
Hana franziu o cenho. Lucca se armou por dentro.
O médico respirou fundo e, num tom mais leve, quase afetuoso, completou:
— Mesmo com a brutalidade… o bebê está bem.
Silêncio. O mundo pareceu congelar.
— Bebê? — Hana perguntou, quase num sussurro.
— Sim. Descobrimos no exame de imagem, e os batimentos estavam lá, firmes. — ele sorriu. — Será necessário repouso, apenas por precaução. Mas o bebê está forte. Muito forte.
Hana arregalou os olhos, a mão indo instintivamente à barriga.
Lucca… travou.
— Ela tá grávida? — a voz saiu mais baixa do que ele pretendia.
O CEO. O homem mais poderoso do ramo.
Reduzido a um fio de voz e emoção crua.
— Sim, senhor Palezo. Parabéns.
Hana piscou, ainda em choque.
Lucca levantou devagar, inclinando-se sobre ela, pegando sua mão com carinho.
— Você… me deu tudo. E agora... me deu ainda mais.
— Eu… eu não fazia ideia. — ela balbuciou, com lágrimas nos olhos.
— E mesmo assim, você protegeu esse bebê. Sobreviveu por ele. E por mim. — ele encostou os lábios na testa dela. — Agora é minha vez. Eu vou proteger vocês dois.
Harry apareceu sorrateiro na porta, e ao ver a cena, colocou a mão no peito e fingiu chorar:
— Eu sabia… o CEO caiu. Caiu feio. Chorando no pé da cama da esposa com voz de comédia romântica.
— Cai fora, Harry. — resmungou Lucca, sem conter um sorriso.
Hana riu baixinho e murmurou:
— Acho que a gente precisa começar a aprender sobre fraldas…
— E sobre como o pai vai expulsar qualquer pretendente aos gritos, mesmo com 3 anos de idade. — Lucca completou.
E ali, no meio de hematomas e cicatrizes, nasceu algo novo.
Uma nova esperança. Uma nova família.
E o amor deles?
Mais forte.
Mais invencível.
Mais deles do que nunca.
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