ENTRE DIAMANTES E DESTINOS
12 Capítulo 12 – Tijolos Que Desmoronam
A luz da cozinha estava suave. A comida já havia sido servida, e Hana, como sempre, surpreendeu Lucca com um prato que aquecia mais que muitos jantares caríssimos que ele já teve na vida.
Eles comeram em silêncio. Um silêncio bom. Desses que falam mais do que palavras vazias.
Depois, Hana recolheu os pratos e colocou tudo na pia. Quando voltou, encontrou Lucca parado na sala, segurando uma taça de vinho, mas com o olhar perdido em algum ponto distante da parede.
— Está tudo bem? — ela perguntou com a voz baixa, mas firme.
Ele demorou para responder, como se estivesse decidindo se devia abrir a porta que manteve trancada por anos.
— Senta comigo, Hana.
Ela obedeceu, sentando no sofá com cuidado, como se o momento exigisse delicadeza.
Lucca se virou pra ela. Seus olhos, sempre intensos, estavam mais escuros. Não por raiva. Por lembrança.
— Eu conheci minha ex-noiva em um evento de negócios... ela era a filha de um investidor. Linda, inteligente, carismática. Sabia como encantar uma sala inteira — ele começou, com a voz baixa. — Mas também sabia esconder muito bem o veneno que carregava.
Hana ouviu em silêncio, o coração apertado.
— Ela... se envolveu com meu melhor amigo da época. Eu achava que era coisa da minha cabeça. Pequenos sinais, conversas cortadas quando eu entrava no ambiente, mensagens vagas. Mas eu não quis ver. Eu estava... apaixonado. Ou achava que estava.
Ele deu um sorriso sem graça, com amargura.
— No dia do nosso casamento, pouco antes de subir ao altar... eu a peguei nos bastidores. Com ele. — A voz falhou por um segundo. — Estavam rindo. Rindo de mim. Dizendo que tinham vencido, que eu era só mais um idiota com dinheiro e ego inflado.
Hana levou a mão até o braço dele, instintivamente.
Lucca olhou para a mão dela... e depois para os olhos.
— Eu jurei que nunca mais deixaria ninguém chegar perto. Que não daria a chance de alguém me desmontar daquele jeito de novo. Eu virei... isso — ele disse, com ironia, abrindo os braços. — Frio, calculista. Um CEO temido e respeitado.
Hana apertou levemente o braço dele. Ela não disse nada. Só ficou ali. Presente.
— Mas você... — ele disse, inclinando-se um pouco, com a voz mais rouca. — Você chegou com seus desenhos tímidos, seus sorrisos pequenos, sua coragem quieta. E cada vez que me enfrentou, que me defendeu, que me fez rir... você tirou um tijolo do muro.
Ele parou por um segundo, o olhar agora mergulhado no dela.
— Eu não sei como você faz isso, mas... está me reconstruindo. Mesmo sem saber.
Hana sentiu as lágrimas ameaçando cair, mas engoliu a emoção com um sorriso pequeno.
— Talvez... porque eu também estou me reconstruindo. E talvez... a gente esteja fazendo isso juntos.
Foi então que o silêncio voltou. Mas não era mais vazio. Era eletrizante. Quente. Emaranhado de sentimentos não ditos.
Lucca se aproximou, devagar.
— Posso...? — ele perguntou, com uma delicadeza que ninguém imaginaria vindo dele.
Hana apenas assentiu.
O beijo aconteceu como um suspiro contido por tempo demais. Foi lento, cheio de cuidado, mas ao mesmo tempo intenso, como se cada emoção guardada viesse à tona naquele instante.
Foi mais do que um beijo.
Foi uma promessa muda: você não está mais sozinho.
~*~
O sol ainda nem tinha nascido completamente quando Hana abriu os olhos. Ela estava deitada no sofá enorme da sala de Lucca, coberta por uma manta que com certeza ele tinha colocado nela.
Estava tudo em silêncio, até que o som dos passos firmes dele ecoaram pela madeira. Ele entrou na sala, já de terno impecável, e parou ao vê-la acordando.
— Dormiu aqui de novo? — ele perguntou, arqueando a sobrancelha.
— Era pra ser só cinco minutinhos... — ela disse, se sentando devagar e ajeitando os cabelos.
Lucca se aproximou e, sem pedir licença, se ajoelhou diante dela e começou a arrumar uma mecha que insistia em cair no rosto da mesma.
— Você é um perigo andando com esse cabelo bagunçado e esse moletom.
Hana sorriu, sentindo o coração acelerar. Ele era mesmo assim agora — direto, intenso, mas cuidadoso.
Na cozinha, ela preparou o café como vinha fazendo todos os dias. Lucca apareceu e, como de costume, passou por trás dela, encostando as mãos na cintura da jovem antes de depositar um beijo leve em sua nuca.
— Vai me matar de susto assim — ela resmungou, mas seu sorriso a denunciava.
— Não. Vou te matar de beijo... aos poucos. — Ele sussurrou e saiu com a caneca nas mãos, como se não tivesse acabado de fazer o coração dela querer explodir.
Na empresa, tudo era mais contido.
Quer dizer... mais ou menos. Harry não ajudava.
— Dormiram no mesmo teto de novo? — ele cochichou para Hana, ao cruzar com ela no corredor.
— E se sim? — ela rebateu, fingindo estar ocupada com as planilhas.
— E se sim... — ele sorriu — então minha aposta com o motorista está de pé.
Hana corou.
Na sala de Lucca, o ambiente era diferente. Frio para os outros. Mas Hana já enxergava os pequenos detalhes: o café do jeitinho que ela gostava deixado ao lado de sua mesa, um lembrete escrito à mão entre os papéis. O gelo ainda estava lá, mas agora rachado em vários pontos.
No final do expediente, enquanto Hana revisava alguns catálogos, Lucca se aproximou com um tablet na mão.
— Preciso que você esteja pronta para o evento de lançamento na sexta.
— Evento?
— Sim. Vai ser um desfile com nossas novas peças, para investidores, imprensa e clientes VIP. — Ele falou como se fosse óbvio.
— Ah… entendi. Quer que eu trabalhe nos bastidores?
Lucca ergueu uma sobrancelha.
— Hana… sua criação é o destaque principal. O colar que você desenhou. Será o encerramento da noite.
Ela congelou por alguns segundos.
— O-oi? Meu desenho? Mas… tem tantas criações melhores… de pessoas com mais experiência…
— Nenhuma com o seu coração. — Ele respondeu, como se fosse um fato incontestável. — E quando aquela peça surgir no palco… todo mundo vai saber o nome por trás dela.
Hana engoliu em seco.
— Isso é sério?
— Extremamente. — Ele se virou, pronto pra sair. — E você vai precisar de um vestido à altura da joia.
Ele parou na porta e olhou por cima do ombro, com aquele sorrisinho que só Hana sabia decifrar.
— Ah… e não inventa de chegar sozinha dessa vez.
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