ENTRE CICATRIZES E RECOMEÇOS

5 CAPÍTULO 5 — O SABOR DA LIBERDADE



Algumas pessoas nos ensinam a ter medo de nossas próprias escolhas. Outras, sem perceber, nos ajudam a lembrar que ainda somos capazes de fazê-las.

Segunda-feira — 14h35

Apartamento dos Cullen — Nova York

Sarah Swan estava sentada à mesa da cozinha havia quase uma hora, cercada por anotações, receitas e fotografias de antigos eventos gastronômicos.

À sua frente, o notebook exibia o portfólio profissional que construíra ao longo dos últimos anos. Havia imagens de jantares sofisticados, recepções empresariais, festivais gastronômicos e pratos que exigiram semanas de desenvolvimento até alcançarem o resultado desejado. Em algumas fotografias, aparecia sorridente, usando o uniforme branco de chef, os cabelos negros presos num coque e uma expressão de absoluta concentração.

Era estranho observar aquela mulher.

Sarah reconhecia o próprio rosto, mas tinha dificuldade para lembrar como se sentira na época.

Antes de Alec, cozinhar era a coisa que mais amava no mundo. Não apenas preparar alimentos, mas criar experiências, descobrir combinações inesperadas e observar a expressão das pessoas quando experimentavam alguma coisa verdadeiramente especial.

Depois, aos poucos, tudo se transformara.

Alec começara elogiando seu talento. Dizia que ela era brilhante, que merecia alcançar lugares ainda maiores e que ele poderia ajudá-la a conquistar oportunidades extraordinárias. Sarah acreditara nele. Quando percebeu, já não conseguia aceitar um trabalho sem que ele opinasse sobre o contrato, os clientes ou os horários.

Nos últimos meses, chegara a recusar propostas importantes porque Alec considerava inadequado que sua noiva passasse tanto tempo longe de casa.

A lembrança provocou uma pontada de tristeza.

Ela fechou uma das fotografias.

— Está trabalhando ou planejando dominar o mercado gastronômico de Nova York?

Sarah ergueu os olhos.

Bella estava parada na entrada da cozinha, segurando duas xícaras de café.

— Ainda não decidi. Talvez comece dominando esta cozinha. Depois penso no restante da cidade.

A irmã sorriu e colocou uma das xícaras diante dela.

— Edward me disse que você passou a manhã inteira reorganizando seu portfólio.

— Estou tentando descobrir o que ainda tenho. Alguns clientes continuam vinculados à empresa que Alec me ajudou a abrir, outros contratos estão no meu nome pessoal e existem projetos que simplesmente abandonei porque ele não gostava das pessoas envolvidas.

Bella sentou-se.

— Você pretende retomar algum deles?

Sarah permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Quero. Mas também quero fazer coisas novas. Não quero passar o resto da vida tentando recuperar exatamente o que tinha antes. Acho que preciso descobrir quem sou agora.

Bella sorriu.

— Gosto dessa ideia.

Sarah tomou um gole de café.

— Edward comentou com você alguma coisa sobre o projeto da Black Automotivos?

— Apenas que estão estudando a possibilidade de contratar uma consultoria gastronômica para eventos corporativos. Pelo que entendi, ainda estão definindo o que precisam.

Sarah assentiu.

— Gostaria de conhecer o projeto. Não quero que ninguém me contrate por pena, Bella. Se apresentar uma proposta, quero que seja porque meu trabalho é bom.

— Conhecendo Jacob, ele provavelmente pensa da mesma maneira.

Sarah sorriu discretamente.

— Ele parece bastante sério quando o assunto é trabalho.

Bella soltou uma risada.

— Bastante. Edward diz que Jacob consegue transformar até uma conversa sobre férias numa reunião de planejamento estratégico.

— Curioso. No jantar, ele pareceu muito diferente quando estava com Seth.

— Jacob muda completamente quando está com o filho.

Sarah ficou pensativa.

— Percebi. Ele tem uma paciência impressionante com aquele menino. Mesmo quando Seth resolveu anunciar para todos que o pai não sabe fazer panquecas.

Bella gargalhou.

— Pobre Jacob. Aposto que Paul e Emmett nunca mais vão deixá-lo esquecer essa história.

— Eu também não deixaria.

As duas riram.

Então Bella observou a irmã com mais atenção.

— Sarah, posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Você gostou de conversar com Jacob?

Sarah pareceu surpresa.

— Gostei. Por quê?

Bella deu de ombros.

— Por nada. Apenas percebi que vocês ficaram algum tempo conversando no jardim.

Sarah baixou os olhos para a xícara.

— Foi uma conversa agradável. Ele me contou algumas histórias sobre Seth e sobre suas experiências desastrosas na cozinha. Também falou um pouco de Leah.

Bella suavizou a expressão.

— Isso não é muito comum. Jacob raramente fala dela com pessoas que acabou de conhecer.

— Eu não perguntei detalhes. Apenas disse que sentia muito.

Sarah ficou em silêncio por um instante.

— Sabe o que achei interessante? Ele não tentou descobrir por que eu estava nervosa. Quando saiu para o jardim e percebeu que havia me assustado, simplesmente perguntou se eu queria ficar sozinha. Não insistiu em saber o que tinha acontecido.

Bella observou a irmã.

— E isso fez diferença?

Sarah assentiu lentamente.

— Muita. Alec sempre dizia que, se eu não quisesse conversar sobre alguma coisa, era porque estava escondendo algo dele. Jacob simplesmente respeitou meu silêncio.

Bella segurou a mão da irmã.

— Você merece conviver com pessoas que respeitem seus limites, Sarah. Isso não deveria ser uma exceção.

Sarah sorriu, embora seus olhos estivessem ligeiramente úmidos.

— Eu sei. Estou tentando aprender isso novamente.

Terça-feira — 9h12

Black Automotivos

— Quero deixar claro que sou completamente contra essa reunião.

Paul Lahote fez a declaração enquanto se acomodava numa das cadeiras da sala de conferências.

Jacob ergueu os olhos do notebook.

— Paul, você ainda nem sabe qual é o assunto.

— Exatamente. Esse é o problema. Fui convocado para uma reunião às nove da manhã, recebi uma pasta com vinte e sete páginas e ninguém teve a consideração de oferecer um café decente.

Emmett, sentado ao lado de Edward, ergueu uma sobrancelha.

— Você acabou de tomar três xícaras.

— Aquilo não era café. Era uma tentativa de envenenamento patrocinada pelo departamento administrativo.

Jacob suspirou.

— Podemos começar?

Edward abriu a pasta.

— Como sabem, estamos estudando a ampliação do setor de eventos e hospitalidade. A empresa pretende receber clientes internacionais, realizar apresentações de novos modelos e organizar encontros com investidores. Até agora, terceirizamos praticamente todos esses serviços, mas os resultados têm sido inconsistentes.

Emmett assentiu.

— Principalmente a comida. No último evento, serviram uma coisa que chamaram de risoto, mas tenho quase certeza de que era cimento com cogumelos.

Paul apontou para ele.

— Finalmente alguém está abordando o verdadeiro problema da empresa!

Jacob ignorou os comentários.

— Precisamos de uma estrutura profissional. Não necessariamente um restaurante interno, mas uma consultoria capaz de desenvolver cardápios, selecionar fornecedores, supervisionar a execução dos eventos e estabelecer padrões de qualidade.

Edward colocou alguns documentos sobre a mesa.

— O setor responsável preparou uma descrição preliminar do projeto. Podemos abrir uma seleção de propostas e avaliar profissionais com experiência compatível.

Emmett cruzou os braços.

— Sarah seria perfeita.

Jacob olhou para ele.

— Talvez seja. Mas precisamos avaliar o trabalho dela com os mesmos critérios aplicados aos demais interessados.

— Jacob, você conhece o currículo da Sarah? Ela já trabalhou com eventos muito maiores do que os nossos.

— Então não terá dificuldade em apresentar uma boa proposta.

Emmett observou o amigo por alguns segundos.

Depois sorriu.

— Sabe de uma coisa? Gosto disso.

Jacob franziu a testa.

— Disso o quê?

— De você não querer contratá-la apenas porque é nossa amiga. Sarah odiaria receber um emprego por pena. Ela sempre foi extremamente orgulhosa do próprio trabalho.

Edward assentiu.

— Concordo. E acho que participar de um processo profissional normal pode ser importante para ela.

Paul ergueu a mão.

— Tenho uma pergunta fundamental.

Jacob fechou os olhos.

— Naturalmente.

— Quem vai experimentar a comida?

Emmett endireitou-se imediatamente.

— Eu me ofereço.

— Eu perguntei primeiro!

— Mas eu tenho mais experiência gastronômica!

Paul soltou uma gargalhada.

— Emmett, comer grandes quantidades não significa ter experiência gastronômica.

— E colocar pimenta-caiena no molho barbecue não significa ser chef!

Jacob bateu levemente a caneta sobre a mesa.

— Senhores!

Os dois se calaram.

Por aproximadamente três segundos.

Então Paul inclinou-se para Emmett.

— Ainda acho que deveríamos formar uma comissão de degustação.

Emmett assentiu solenemente.

— Uma comissão independente.

Edward começou a rir.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Estou administrando uma empresa ou um jardim de infância?

— Depende — respondeu Paul. — No jardim de infância, pelo menos servem lanche.

Terça-feira — 11h48

Apartamento dos Cullen

Sarah estava terminando uma ligação profissional quando Edward entrou na cozinha.

Ele carregava uma pasta e parecia satisfeito.

— Tenho algumas informações sobre o projeto da Black Automotivos.

Sarah desligou o notebook.

— Já?

— A empresa definiu os requisitos preliminares. O departamento responsável vai solicitar propostas de consultorias e profissionais especializados. Pensei que você talvez quisesse examinar o material.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Você está me convidando para participar da seleção?

— Estou informando que existe uma oportunidade compatível com sua experiência. A decisão de participar é sua, e a avaliação será feita pelos critérios profissionais estabelecidos pela empresa.

Ela sorriu.

— Parece justo.

Edward entregou a pasta.

Sarah começou a examinar o conteúdo.

À medida que avançava pelas páginas, sua expressão se transformava.

Havia especificações sobre eventos de lançamento, recepções para investidores, serviços de hospitalidade e desenvolvimento de experiências gastronômicas associadas à identidade da marca.

Ela leu tudo com atenção.

Depois voltou à primeira página.

— Edward, isso é muito mais interessante do que imaginei.

Ele sorriu.

— Por quê?

— Porque vocês não estão procurando apenas alguém que prepare comida. Querem criar uma experiência que combine com a imagem da empresa. Existe uma diferença enorme entre contratar um buffet e desenvolver um conceito gastronômico para uma marca.

Edward assentiu.

— Exatamente.

Sarah começou a falar mais depressa.

— Por exemplo, num lançamento de um modelo esportivo, poderíamos trabalhar com uma apresentação mais contemporânea, pratos pequenos, serviço dinâmico e combinações ousadas. Já num jantar com investidores internacionais, o ideal seria uma experiência mais sofisticada, com menu cuidadosamente estruturado e atenção às restrições alimentares dos convidados.

Edward observou-a com um sorriso.

Era a primeira vez, desde que Sarah chegara ao apartamento, que a via falar sobre trabalho com tanta empolgação.

— Parece que você já começou a desenvolver algumas ideias.

Sarah parou.

Olhou para os documentos.

Depois começou a rir.

— Meu Deus, comecei mesmo.

Edward sorriu.

— Então talvez valha a pena preparar uma proposta.

Ela assentiu.

— Quero fazer isso. Mas preciso estabelecer uma condição.

— Qual?

— Quero que minha proposta seja analisada sem qualquer interferência sua, de Emmett ou de Bella. Se não for boa o suficiente, prefiro que me digam. Não quero ser escolhida por amizade.

Edward pareceu satisfeito.

— Combinado.

Sarah respirou profundamente.

— Então vou trabalhar.

Ele se levantou.

— Sarah?

— Sim?

— É bom ver você assim novamente.

Ela ergueu os olhos.

— Assim como?

Edward sorriu.

— Fazendo planos.

Quarta-feira — 16h20

Residência Black

Jacob estava terminando uma chamada de trabalho quando Seth entrou na sala carregando uma caixa de lápis de cor.

O menino esperou pacientemente até o pai desligar.

Depois colocou uma folha sobre a mesa.

— Papai, terminei!

Jacob olhou para o desenho.

Era uma nova versão do dinossauro verde diante de uma pilha de panquecas. Dessa vez, havia também duas figuras humanas.

Uma mulher de cabelos negros compridos e um menino pequeno.

Jacob sorriu.

— Ficou muito bonito, campeão. Quem são essas pessoas?

Seth apontou.

— Eu e a Sarah.

— Entendi. E onde estou eu?

O menino observou o desenho.

Depois respondeu com absoluta naturalidade:

— Você está na cozinha tentando não queimar as panquecas.

Jacob começou a rir.

— Então fui excluído da fotografia porque estou ocupado trabalhando?

— É.

— Muito obrigado pela consideração.

Seth sorriu.

Depois ficou sério.

— Papai, a gente nunca mais vai ver a Sarah?

Jacob observou o filho.

— Claro que podemos encontrá-la novamente. Ela é amiga do tio Edward e da tia Bella.

— Mas quando?

— Não sei, campeão. Precisamos combinar alguma coisa.

Seth pareceu satisfeito com a possibilidade.

Então perguntou:

— Você acha que ela gosta de mim?

Jacob sentiu o coração apertar.

Ajoelhou-se diante do menino.

— Seth, por que está perguntando isso?

O filho deu de ombros.

— Porque eu gosto dela.

Jacob sorriu com ternura.

— Acho que Sarah gostou muito de você. Ela conversou com você, brincou e até aceitou participar do videogame. Mas sabe de uma coisa? Você não precisa se preocupar tanto em fazer as pessoas gostarem de você. Basta continuar sendo esse menino gentil, curioso e divertido que já é.

Seth pareceu refletir.

— Mesmo quando faço perguntas demais?

Jacob gargalhou.

— Principalmente quando faz perguntas demais. Embora eu precise admitir que algumas são bastante difíceis.

O menino abraçou o pai.

— Eu te amo.

Jacob o apertou contra o peito.

— Eu também te amo, campeão. Mais do que você consegue imaginar.

O telefone de Jacob vibrou sobre a mesa.

Era uma mensagem de Rachel.

Jake, estou pensando em organizar um almoço no domingo. Nada elaborado, só a família e alguns amigos. Bella comentou que Sarah está trabalhando muito e talvez fosse bom sair um pouco. Você e Seth podem vir?

Jacob olhou para o filho.

Depois respondeu:

Podemos. Mas, por favor, não deixe Paul assumir a cozinha.

A resposta veio imediatamente.

Isso nem precisa ser pedido.

Jacob sorriu.

Seth ergueu a cabeça.

— Quem era?

— Sua tia Rachel. Está pensando em organizar um almoço no domingo.

O menino abriu um sorriso.

— A Sarah vai?

— Talvez.

Seth levantou os braços.

— Então eu vou levar meu desenho!

Jacob gargalhou.

— Imaginei que diria isso.

Quinta-feira — 10h05

Uma cafeteria em Manhattan

Sarah chegou alguns minutos antes do horário combinado.

Escolhera uma cafeteria tranquila, com mesas próximas às janelas e uma pequena área externa.

Estava nervosa.

Não por causa do trabalho.

Mas porque seria a primeira vez, desde que deixara Alec, que encontraria uma amiga sem a presença de Bella ou Edward.

Rosalie chegou usando um casaco elegante e óculos escuros.

Quando avistou Sarah, abriu um sorriso enorme.

— Finalmente!

Sarah levantou-se.

As duas se abraçaram demoradamente.

— Senti sua falta, Rose.

Rosalie afastou-se apenas o suficiente para observar seu rosto.

— Eu também senti a sua. E, antes que diga qualquer coisa, não vou fazer perguntas desconfortáveis nem transformar nosso encontro numa sessão de interrogatório.

Sarah sorriu.

— Obrigada.

Sentaram-se.

Rosalie pediu um cappuccino.

Sarah escolheu um café com leite.

Durante alguns minutos, conversaram sobre assuntos banais.

O trabalho de Rosalie, as últimas loucuras de Emmett, os planos de Bella e Edward.

Então Rosalie apoiou os braços sobre a mesa.

— Sarah, posso dizer uma coisa?

— Claro.

— Você não precisa recuperar sua antiga vida exatamente como ela era. Às vezes, quando passamos por alguma coisa difícil, ficamos tão preocupadas em voltar a ser quem éramos que esquecemos que também podemos nos transformar.

Sarah ficou pensativa.

— Tenho medo de não conseguir.

— De quê?

— De voltar a confiar nas pessoas. De tomar decisões erradas. De conhecer alguém e não perceber os sinais novamente.

Rosalie observou a amiga com carinho.

— Confiança não precisa ser entregue inteira de uma vez. Você pode conhecer alguém aos poucos, observar atitudes, estabelecer limites e decidir quanto espaço aquela pessoa merece na sua vida. E, Sarah, não precisa pensar em relacionamentos agora. Pode simplesmente viver.

Sarah sorriu discretamente.

— Acho que é exatamente isso que quero fazer.

Rosalie tomou um gole de café.

Depois abriu um sorriso travesso.

— Excelente. Então vamos começar com uma pergunta absolutamente importante.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Qual?

— Você pretende continuar usando apenas as roupas que trouxe para a casa de Bella ou finalmente vai permitir que eu a leve às compras?

Sarah começou a rir.

— Rosalie!

— O quê? Estou tentando ajudar! Uma mulher precisa de roupas adequadas para conquistar o mundo.

— Eu tenho roupas!

— Tem três vestidos, duas calças e uma quantidade preocupante de camisetas emprestadas da Bella. Isso não é um guarda-roupa, Sarah. É um pedido de socorro.

Sarah gargalhou.

— Você continua impossível.

Rosalie sorriu.

— E você continua precisando de mim.

Quinta-feira — 13h40

Black Automotivos

Jacob estava examinando alguns relatórios quando Edward bateu à porta.

— Tem um minuto?

— Claro. Entre.

Edward sentou-se.

— Sarah decidiu participar da seleção para o projeto de eventos corporativos.

Jacob ergueu os olhos.

— Ótimo. Ela recebeu todas as informações?

— Recebeu. Está preparando uma proposta.

Jacob assentiu.

— Então vamos aguardar.

Edward observou o amigo.

— Ela parece bastante animada. Faz tempo que não a vejo tão envolvida com alguma coisa profissional.

Jacob sorriu discretamente.

— Fico feliz. Pelo que você contou, ela passou por momentos difíceis. Talvez trabalhar num projeto novo seja uma boa oportunidade para recuperar a confiança.

Edward assentiu.

— Espero que sim.

Jacob fechou o relatório.

— E como estão as outras questões?

O advogado compreendeu imediatamente.

— Estamos reunindo documentos e examinando algumas situações contratuais. Não posso entrar em detalhes, mas estamos tomando as providências necessárias.

Jacob assentiu.

— Se precisar de alguma coisa que esteja ao nosso alcance, avise.

Edward sorriu.

— Obrigado.

Antes de sair, acrescentou:

— Ah, Rachel está organizando um almoço no domingo. Bella comentou que talvez leve Sarah.

Jacob soltou uma pequena risada.

— Eu sei. Seth já está preparando um desenho especial.

Edward ergueu as sobrancelhas.

— Um desenho?

— Um dinossauro comendo panquecas. Pelo visto, minha reputação culinária se tornou um assunto de interesse público.

Edward começou a gargalhar.

— Jacob, preciso dizer que estou profundamente decepcionado. Um homem que administra uma empresa desse tamanho deveria ser capaz de preparar panquecas.

Jacob apontou para a porta.

— Saia da minha sala, Edward.

O amigo gargalhou.

— Com prazer.

Sexta-feira — 19h18

Apartamento dos Cullen

Sarah estava sentada à mesa de jantar, examinando a proposta profissional que havia preparado.

O documento estava quase pronto.

Havia desenvolvido três conceitos diferentes para os eventos da Black Automotivos, incluindo sugestões de cardápios, apresentações, fornecedores e estimativas de custos.

Era um trabalho cuidadoso.

Profissional.

Seu.

Bella aproximou-se com duas taças de suco.

— Ainda trabalhando?

Sarah sorriu.

— Estou terminando. Quero entregar a proposta na segunda-feira.

Bella observou as páginas.

— Está maravilhosa.

Sarah ergueu os olhos.

— Você nem leu.

— Não preciso. Conheço seu talento.

Sarah riu.

— Essa não é uma avaliação muito imparcial.

Bella sentou-se.

— Provavelmente não. Mas posso garantir que você está muito mais animada do que há uma semana.

Sarah ficou pensativa.

— É verdade.

Depois olhou para a irmã.

— Bella, posso contar uma coisa?

— Claro.

Sarah respirou profundamente.

— Hoje, enquanto preparava a proposta, percebi que passei quase quatro horas sem pensar em Alec. Quatro horas inteiras. Não fiquei imaginando o que ele diria, se aprovaria minhas ideias ou se acharia que eu estava perdendo tempo.

Bella sorriu.

— Isso é maravilhoso.

Sarah assentiu.

— Foi uma sensação estranha. Como se, durante algumas horas, eu tivesse voltado a ser dona da minha própria cabeça.

Bella segurou sua mão.

— Você está recuperando seu espaço, Sarah. E merece aproveitar cada pequena conquista.

Sarah sorriu.

O celular de Bella vibrou.

Era uma mensagem de Rachel.

O almoço de domingo está confirmado! Paul promete não cozinhar, Emmett promete não comer tudo antes da hora e Seth está contando os minutos. Espero vocês às 13h.

Bella começou a rir.

— Parece que temos um compromisso no domingo.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Rachel?

— Sim. Almoço na casa dela.

Sarah sorriu.

— Acho que gostaria de ir.

Bella observou a irmã com satisfação.

— Então vamos.

Sarah voltou a olhar para a proposta.

Pela primeira vez, não sentia que precisava escolher entre trabalhar e conviver com as pessoas que amava.

Talvez pudesse ter as duas coisas.

Talvez pudesse ter uma vida inteira.

Sábado — 22h26

Apartamento de Alec Volturi

Alec estava sentado diante do computador quando recebeu um e-mail de Martin Hayes.

O advogado informava que havia encaminhado uma comunicação formal ao representante jurídico de Sarah, solicitando esclarecimentos sobre os contratos empresariais.

Alec leu a mensagem.

Depois abriu uma pasta contendo documentos financeiros.

Seu olhar permaneceu fixo sobre uma das páginas.

Havia informações que ainda não entregara ao advogado.

Informações que preferia manter longe de qualquer análise detalhada.

Fechou o arquivo.

Levantou-se.

Caminhou até a janela.

Sarah continuava sem responder às suas mensagens pessoais.

Edward Cullen havia assumido as comunicações jurídicas.

E, aparentemente, ela começava a retomar compromissos profissionais.

Alec apertou os lábios.

Não gostava da direção que as coisas estavam tomando.

Durante muito tempo, bastava uma palavra mais dura para fazer Sarah recuar.

Agora ela parecia disposta a enfrentá-lo.

O que Alec ainda não compreendia era que a mulher que deixara seu apartamento naquela madrugada começava, lentamente, a descobrir que não precisava mais da autorização dele para existir.

Domingo — 11h36

Residência Black

— Papai, você acha que a Sarah vai gostar?

Jacob estava terminando de vestir uma camisa quando Seth apareceu segurando o desenho cuidadosamente colocado dentro de um envelope.

— Tenho certeza de que vai gostar, campeão.

O menino sorriu.

— Eu escrevi o nome dela sozinho.

Jacob pegou o envelope e examinou as letras.

— Ficou muito bonito. Estou orgulhoso de você.

Seth abraçou o pai.

— Papai?

— Sim?

— Hoje você pode sorrir bastante?

Jacob ficou imóvel por um instante.

Depois se agachou diante do filho.

— Por que está me pedindo isso?

Seth deu de ombros.

— Porque eu gosto quando você ri. Ontem você ficou sério o dia inteiro.

Jacob sentiu uma pontada no peito.

Havia trabalhado até tarde no sábado, preocupado com alguns problemas da empresa.

Não imaginara que Seth tivesse percebido.

— Desculpe, campeão. Às vezes fico pensando demais no trabalho.

O menino tocou seu rosto.

— Então hoje não pensa.

Jacob sorriu.

— Vou tentar.

Seth pareceu satisfeito.

Depois acrescentou:

— E, se a Sarah estiver lá, você pode conversar com ela. Ela faz você rir.

Jacob começou a gargalhar.

— Seth Black, estou começando a achar que você e seus tios estão organizando alguma coisa pelas minhas costas.

O menino abriu um sorriso inocente.

— Eu só quero panquecas.

Jacob o abraçou.

— Naturalmente. Sempre as panquecas.

Domingo — 12h48

Residência Lahote

Sarah desceu do carro de Edward segurando uma pequena caixa.

Bella olhou para ela.

— Você trouxe sobremesa?

Sarah sorriu.

— Trouxe. Rachel insistiu para que eu não preparasse nada, mas achei indelicado chegar de mãos vazias.

Edward ergueu as sobrancelhas.

— O que tem aí?

— Pequenas tortinhas de chocolate com frutas vermelhas.

Bella começou a rir.

— Emmett vai pedir você em casamento.

Sarah gargalhou.

— Rosalie provavelmente não aprovaria.

Quando chegaram à porta, ouviram uma voz infantil gritando do interior da casa:

— A SARAH CHEGOU?

Bella olhou para a irmã.

— Acho que alguém estava esperando por você.

Sarah sorriu.

A porta se abriu.

Seth apareceu correndo, seguido por Jacob.

— Sarah!

O menino parou diante dela, segurando o envelope com as duas mãos.

Sarah se agachou.

— Olá, campeão! Que bom ver você novamente.

Seth abriu um sorriso enorme.

— Eu fiz uma coisa para você!

Estendeu o envelope.

Sarah o recebeu com cuidado.

— Para mim?

O menino assentiu.

— Eu fiz sozinho. O papai só ajudou a colocar no envelope.

Ela abriu.

Retirou o desenho.

Observou o dinossauro verde, as panquecas e as duas figuras humanas.

Depois leu o próprio nome escrito em letras grandes.

Seu sorriso se transformou.

— Seth... ficou maravilhoso.

O menino parecia prestes a explodir de felicidade.

— Você gostou?

Sarah ergueu os olhos.

— Gostei muito. Acho que é um dos presentes mais bonitos que já recebi.

Seth abraçou seu pescoço.

Sarah correspondeu delicadamente ao abraço.

Jacob observou a cena com um sorriso.

Quando o menino se afastou, Sarah levantou-se.

— Jacob, seu filho é um artista.

Ele riu.

— Um artista bastante persistente. Passou a semana inteira aperfeiçoando esse desenho.

Sarah voltou a olhar para o papel.

— Vou guardar com muito carinho.

Seth segurou sua mão.

— Você pode colocar na geladeira!

Sarah sorriu.

— Acho que vou fazer melhor. Vou colocar numa moldura.

O menino arregalou os olhos.

— Uma moldura de verdade?

— De verdade.

Jacob começou a rir.

— Cuidado, Sarah. Você acabou de estabelecer um precedente. Agora ele vai começar a produzir uma exposição inteira para decorar sua casa.

Ela olhou para ele, divertida.

— Nesse caso, espero que o artista aceite pagamento em panquecas.

Seth levantou os braços.

— EU ACEITO!

A gargalhada de Jacob ecoou pela entrada.

Sarah também começou a rir.

Foi nesse momento que Emmett apareceu na porta da sala.

Observou os três.

Depois abriu um sorriso enorme.

— Muito bem! Vejo que cheguei exatamente a tempo de presenciar uma negociação comercial envolvendo arte, gastronomia e um pequeno empresário de cinco anos.

Paul surgiu logo atrás.

— E eu quero saber quem vai ficar responsável pelas panquecas. Porque, se depender de Jacob, vamos precisar chamar os bombeiros novamente.

Jacob fechou os olhos.

— Meu Deus, vocês nunca vão esquecer essa história?

Sarah ergueu o desenho.

— Receio que não, Jacob. Agora temos até uma representação artística do problema.

Todos começaram a rir.

E, enquanto Seth puxava Sarah para mostrar os novos brinquedos que ganhara, Jacob permaneceu por um instante observando os dois.

Não havia nada de extraordinário acontecendo.

Era apenas um domingo entre amigos.

Uma criança feliz.

Uma mulher sorrindo.

E uma casa cheia de pessoas queridas.

Mas, depois de dois anos vivendo com a sensação de que a felicidade pertencia a um tempo que não voltaria, Jacob começava a perceber que talvez ainda existissem momentos bons esperando por ele.

Não precisava compreendê-los.

Nem dar-lhes um nome.

Por enquanto, bastava vivê-los.