ENTRE CICATRIZES E RECOMEÇOS
1 CAPÍTULO 1 — A CASA DOS CULLEN
Algumas verdades permanecem enterradas por tanto tempo que, quando finalmente vêm à tona, são capazes de destruir tudo ao redor.
Nova York — 4h12 da madrugada
Bella Cullen sempre acreditara que conhecia a irmã melhor do que qualquer outra pessoa.
Durante a infância, Sarah fora seu porto seguro. Era ela quem verificava se havia monstros debaixo da cama, quem inventava histórias quando faltava energia elétrica e quem assumia a culpa pelas travessuras que as duas cometiam. Mesmo sendo apenas alguns anos mais velha, Sarah desenvolvera um instinto quase maternal em relação à irmã caçula.
E Bella jamais imaginara que chegaria o dia em que seria Sarah quem precisaria ser protegida.
Agora, sentada na beirada da cama do quarto de hóspedes, observava a mulher de vinte e quatro anos que dormia encolhida sob um cobertor. Sarah continuava bonita, apesar dos machucados. Os longos cabelos negros espalhavam-se sobre o travesseiro, contrastando com a palidez de seu rosto. Mas havia alguma coisa profundamente errada naquela imagem.
Sua irmã nunca dormira daquela maneira.
Sarah costumava ocupar toda a cama, espalhando braços e pernas, roubando cobertores e reclamando quando alguém tentava acordá-la antes das nove horas. Bella lembrava-se perfeitamente das manhãs em que precisava arrastá-la para fora do quarto, enquanto Sarah argumentava que nenhum ser humano civilizado deveria ser obrigado a funcionar antes de tomar café.
A mulher diante dela, entretanto, parecia tentar ocupar o menor espaço possível.
E, mesmo dormindo, mantinha as mãos fechadas junto ao peito.
— Bella?
Edward apareceu discretamente à porta.
A esposa ergueu o rosto.
— Ela acordou duas vezes desde que você foi deitar — murmurou. — Na primeira, perguntou se tínhamos trancado a porta. Na segunda, quis saber se as janelas tinham algum sistema de segurança.
Edward aproximou-se.
— E o que você respondeu?
— Que ninguém entraria aqui sem nossa autorização. Mas ela não pareceu acreditar.
Ele observou Sarah por alguns segundos.
— Você precisa descansar, amor. Eu fico com ela.
Bella negou com a cabeça.
— Não consigo. Passei meses imaginando o que tinha acontecido com minha irmã. Meses tentando entender por que ela deixou de atender minhas ligações, por que cancelava nossos encontros, por que parecia cada vez mais distante. E agora ela aparece na nossa porta, no meio da madrugada, com o rosto machucado, pedindo licença para dormir na casa onde sempre foi bem-vinda.
Sua voz começou a falhar.
— Edward, como eu não percebi?
O marido sentou-se ao seu lado.
— Bella, nós percebemos que alguma coisa estava errada. Você tentou conversar com ela inúmeras vezes. Eu também tentei. Emmett chegou a ir ao restaurante, lembra? Alec disse que Sarah estava viajando a trabalho.
— E nós acreditamos.
— Porque não tínhamos motivos para imaginar que ele estivesse mentindo daquela maneira.
Bella passou as mãos pelo rosto.
— Eu não gosto de lembrar da última conversa que tivemos. Fiquei tão irritada porque ela cancelou meu aniversário... Eu disse que ela estava permitindo que Alec destruísse nossa família. Disse que estava cansada de correr atrás de alguém que aparentemente não queria mais fazer parte da minha vida.
Edward segurou sua mão.
— Você estava magoada.
— E ela estava sofrendo.
Ele não tentou contradizê-la.
Conhecia a esposa suficientemente bem para compreender que, naquele momento, qualquer tentativa de minimizar sua culpa seria inútil.
— Então faça o que sempre fez quando Sarah precisou de você — respondeu. — Fique ao lado dela. Mas não transforme a dor da sua irmã numa punição contra você mesma. Ela precisa encontrar a Bella que conhece, não alguém consumida pela culpa.
Bella apoiou a cabeça no ombro dele.
— Você acha que Alec vai aparecer?
Edward olhou novamente para Sarah.
— Acho que um homem que passou tanto tempo tentando controlar a vida dela não vai aceitar facilmente que perdeu esse controle. Por isso precisamos agir com cuidado. Amanhã vamos conversar com Sarah sobre o que ela deseja fazer. Podemos ajudá-la a procurar atendimento médico, orientação jurídica e proteção. Mas não vamos tomar todas as decisões por ela.
— Eu quero aquele homem longe da minha irmã.
— Eu também. E vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que ela esteja segura.
Bella permaneceu abraçada ao marido por alguns instantes.
Nenhum dos dois percebeu que Sarah havia acordado.
Ela continuava de olhos fechados, ouvindo a conversa, enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo travesseiro.
Pela primeira vez em muito tempo, alguém estava preocupado com sua segurança.
Não com a reputação de Alec.
Não com a aparência de um casal perfeito.
Com ela.
E aquilo doía quase tanto quanto os machucados.
7h36 — Residência Black
— Seth Black, se você colocar esse dinossauro dentro da minha cafeteira mais uma vez, nós teremos um problema muito sério.
Jacob Black pronunciou a ameaça com toda a autoridade que um empresário de vinte e seis anos conseguia reunir enquanto usava uma camiseta velha, calças de moletom e uma meia de cada cor.
O menino de cinco anos, sentado sobre a bancada da cozinha, examinou o pai com evidente desconfiança.
— Você não pode brigar com o Rex.
— Não estou brigando com o Rex. Estou dizendo que dinossauros não devem tomar banho no café do papai.
— Ele não estava tomando banho. Estava procurando comida.
— Dentro da cafeteira?
— Ele é carnívoro, papai. Você não entende nada de dinossauros.
Jacob ergueu as sobrancelhas.
— Naturalmente. Tenho uma empresa com centenas de funcionários, consigo negociar contratos milionários, mas sou completamente incapaz de compreender as necessidades alimentares de um tiranossauro de pelúcia.
Seth sorriu.
— É por isso que você precisa de ajuda.
— Ah, preciso?
— Precisa de uma esposa.
Jacob quase derrubou a xícara.
— Como é que é?
Seth continuou, absolutamente tranquilo:
— O tio Paul disse que você precisa de uma mulher para colocar ordem nesta casa.
Jacob fechou os olhos.
Paul Lahote.
Naturalmente.
— E quando exatamente seu tio Paul disse essa barbaridade?
— Ontem. Quando a tia Rachel falou que você esqueceu de comprar leite. O tio Paul disse que você precisava arrumar uma mulher. A tia Rachel bateu nele com uma almofada.
Jacob soltou uma gargalhada involuntária.
— Aposto que bateu.
— Mas eu acho que ele tem razão.
O sorriso desapareceu um pouco do rosto de Jacob.
— Seth, meu filho, nós já conversamos sobre isso. Nossa família é muito boa do jeito que é. Temos você, eu, a tia Rachel, o tio Paul e todos os nossos amigos. Não precisamos de mais ninguém para sermos uma família de verdade.
Seth pareceu considerar cuidadosamente as palavras do pai.
— Eu sei que somos uma família. Mas você fica triste quando pensa na mamãe.
Jacob pousou a xícara.
Havia momentos em que a sinceridade de uma criança conseguia atravessar todas as defesas que um adulto passara anos construindo.
— Campeão, sentir saudade da sua mãe não significa que eu seja infeliz por ter você. Sua mãe foi uma pessoa muito importante na minha vida. Nós nos amávamos, e você nasceu desse amor. Algumas lembranças me deixam triste porque eu gostaria que ela ainda estivesse aqui. Mas isso não significa que você precise encontrar alguém para consertar minha tristeza.
Seth abaixou os olhos para o dinossauro.
— Eu também sinto saudade dela. Mas às vezes não lembro direito da voz.
Jacob sentiu o coração apertar.
Aproximou-se e colocou as mãos nos ombros pequenos do filho.
— Então hoje à noite vamos assistir aos vídeos dela. Tenho aquele em que sua mãe tentou fazer um bolo de chocolate e quase incendiou a cozinha. Você vai ouvir a voz dela, vai vê-la rindo e vai descobrir que, apesar de ser uma mulher maravilhosa, sua mãe era um verdadeiro desastre com receitas.
Seth arregalou os olhos.
— Pior que você?
— Muito pior. E isso, meu filho, é uma conquista impressionante.
O menino riu e se atirou nos braços do pai.
Jacob o abraçou com força.
Durante alguns segundos, permitiu-se fechar os olhos e respirar o cheiro infantil de xampu e sabonete.
Seth era seu mundo.
A razão pela qual levantava todas as manhãs.
Quando Leah morreu, Jacob acreditara que não sobreviveria à dor. Havia dias em que só conseguia sair da cama porque uma criança de três anos precisava de café da manhã, de banho, de histórias e de alguém que lhe explicasse por que a mamãe não voltaria.
Aos poucos, aprendera a continuar vivendo.
Mas continuar vivendo não era a mesma coisa que voltar a ser feliz.
O celular vibrou sobre a bancada.
Paul Lahote.
Jacob atendeu pelo viva-voz.
— Se você está ligando para perguntar por que ainda não cheguei à empresa, gostaria de lembrar que sou seu chefe.
A gargalhada do outro lado foi imediata.
— Bom dia para você também, raio de sol! Na verdade, estou ligando porque sua irmã quer saber se você comprou o leite.
— Diga à Rachel que comprei.
— Mentiroso. Ela acabou de perguntar se você quer que ela passe no mercado.
Seth se inclinou sobre o telefone.
— Tio Paul!
— Meu sobrinho favorito! Como está o homem mais inteligente da família Black?
— Eu falei para o papai que ele precisa de uma esposa!
Houve um silêncio.
Depois, Paul começou a rir tão alto que Jacob precisou afastar o aparelho.
— Ah, garoto! Eu sabia que estava criando um gênio!
— Paul — Jacob advertiu.
— O quê? Estou apenas incentivando o desenvolvimento social do meu afilhado.
— Você não é padrinho dele.
— Detalhes burocráticos. Seth, escute seu tio: seu pai precisa sair mais, conhecer pessoas e parar de viver como um monge que dirige carros esportivos.
— PAUL!
— Jacob, não grite. Você está assustando o menino.
Seth gargalhava.
Jacob balançou a cabeça, resignado.
— Vou desligar antes que você ensine mais alguma coisa absurda ao meu filho.
— Espere! Falando sério, Edward pediu que você chegasse um pouco mais tarde. Ele teve um problema familiar durante a madrugada e talvez não consiga participar da reunião das nove.
A expressão de Jacob mudou.
— Aconteceu alguma coisa com Bella?
— Pelo que entendi, não é com ela. É alguma coisa envolvendo a irmã. Sarah, não é esse o nome?
Jacob franziu a testa.
Conhecia Sarah Swan apenas de fotografias e comentários ocasionais. Quando começara a trabalhar com Edward e Emmett, ela já estava envolvida com Alec Volturi e raramente participava dos encontros entre os amigos.
— Sarah Swan? Pensei que ela estivesse morando fora.
— Eu também. Edward não explicou muita coisa, mas parecia preocupado. Disse que ligaria mais tarde.
Jacob assentiu.
— Tudo bem. Vamos deixar a reunião para depois. E Paul?
— Diga, meu querido presidente.
— Pare de ensinar meu filho a procurar uma esposa para mim.
Paul riu.
— Não posso prometer. O menino tem iniciativa própria.
A ligação terminou.
Jacob guardou o telefone e olhou para Seth.
— Muito bem, senhor casamenteiro. Vamos terminar o café e nos preparar para a escola.
Seth ergueu o dinossauro.
— O Rex também acha que você precisa de uma namorada.
Jacob suspirou.
— Estou começando a achar que sou minoria nesta casa.
9h18 — Apartamento dos Cullen
Sarah despertou com o cheiro de café recém-passado.
Por alguns segundos, não reconheceu o quarto.
As paredes claras, os móveis de madeira e a pequena estante repleta de livros pareciam estranhamente familiares. Então seus olhos encontraram uma fotografia sobre a cômoda.
Duas adolescentes sorriam para a câmera.
Bella tinha quinze anos e usava um vestido amarelo. Sarah, aos dezenove, abraçava a irmã por trás, fazendo careta.
A fotografia havia sido tirada no dia da formatura de Bella.
Sarah se lembrava daquela tarde.
Lembrava-se de ter prometido que estaria presente em todos os momentos importantes da vida da irmã.
Uma promessa que, nos últimos anos, acreditara ter quebrado.
Sentou-se devagar.
Seu corpo inteiro parecia dolorido.
Quando olhou o relógio, sentiu um sobressalto.
Nove e dezoito.
Alec costumava tomar café às oito.
Se ela não estivesse na cozinha antes dele, teria de ouvir uma longa explicação sobre irresponsabilidade, desorganização e falta de consideração.
Sarah levantou-se tão depressa que uma tontura a obrigou a segurar a beirada da cama.
Precisava preparar o café.
Precisava...
Parou.
Olhou novamente ao redor.
Não estava no apartamento de Alec.
Estava na casa de Bella.
A constatação veio acompanhada de um alívio tão intenso que suas pernas fraquejaram.
Sentou-se novamente e começou a chorar.
Não percebeu quando a porta se abriu.
— Sarah?
Bella entrou carregando uma bandeja.
Ao ver a irmã chorando, deixou-a sobre a escrivaninha e aproximou-se imediatamente.
— O que aconteceu? Você está sentindo alguma dor?
Sarah tentou enxugar o rosto.
— Eu acordei tarde.
Bella piscou, confusa.
— E daí?
— Eu... — Sarah respirou fundo. — Pensei que precisava preparar o café.
Bella permaneceu imóvel.
— Preparar o café para quem?
Sarah desviou os olhos.
— Para Alec.
O silêncio que se seguiu foi doloroso.
Bella sentou-se ao lado dela.
— Sarah, você não precisa preparar o café de ninguém nesta casa. Se quiser dormir até o meio-dia, pode dormir. Se quiser comer cereal no jantar ou tomar sorvete no café da manhã, também pode. Edward talvez faça algum comentário sobre hábitos alimentares questionáveis, mas eu prometo que sobrevivemos à opinião dele.
Sarah soltou uma risada fraca, misturada às lágrimas.
— Você continua péssima fazendo piadas.
— Aprendi com Emmett. Não tive bons professores.
A menção ao amigo fez Sarah baixar a cabeça.
— Ele deve me odiar.
Bella franziu a testa.
— Emmett? Sarah, aquele homem passou seis meses perguntando se você tinha sido sequestrada por extraterrestres porque não respondia às mensagens dele. Na última vez em que tentou ligar, disse que, se você não atendesse, iria aparecer no seu restaurante vestido de galinha.
Sarah riu novamente.
Dessa vez, com um pouco mais de sinceridade.
— Ele realmente faria isso.
— Sem a menor dúvida. Edward precisou convencê-lo de que seria uma péssima ideia.
Bella segurou delicadamente a mão da irmã.
— Sarah, precisamos conversar.
A jovem ficou imediatamente tensa.
Bella percebeu.
— Não estou zangada com você. Não vou fazer um interrogatório, e você não precisa me contar nada que ainda não consiga. Mas preciso saber como posso ajudar.
Sarah olhou para as próprias mãos.
Durante alguns instantes, pareceu procurar palavras que não conseguia encontrar.
— Sabe o que é mais difícil, Bella? Não é explicar o que ele fez. É explicar como eu permiti que tudo acontecesse.
— Você não permitiu que ele a machucasse.
— Eu sei que é isso que você vai dizer. Mas você não entende. Eu sempre fui independente. Comecei a trabalhar aos dezessete anos, paguei meus estudos, construí minha carreira. Aos vinte e quatro, tenho clientes importantes, contratos com restaurantes internacionais e uma reputação profissional que levei anos para conquistar. Como uma mulher capaz de administrar uma cozinha com trinta funcionários pode chegar ao ponto de sentir medo de comprar um vestido sem pedir autorização ao próprio noivo?
Bella não respondeu imediatamente.
Sarah continuou, agora com a voz embargada:
— No começo, Alec era maravilhoso. Ele me mandava flores, aparecia no restaurante quando eu trabalhava até tarde, dizia que nunca tinha conhecido uma mulher tão inteligente. Quando me pediu em casamento, fez um discurso lindo sobre construir uma família. Eu achei que tinha encontrado alguém que me admirava pelo que eu era.
Ela respirou fundo.
— Depois começaram os comentários. Minha roupa era muito chamativa. Meus colegas homens eram íntimos demais. Emmett era inconveniente. Edward não gostava dele. Você era possessiva comigo e não aceitava que eu tivesse uma vida própria.
Bella apertou os lábios.
— Ele dizia isso sobre mim?
— Constantemente. Mas nunca de uma maneira que parecesse uma acusação direta. Era sempre uma observação aparentemente inocente. Ele dizia que você precisava aprender a me dividir com outra pessoa. Que Edward interferia demais. Que Emmett fazia brincadeiras desrespeitosas. Quando percebi, estava inventando desculpas para não encontrar vocês, porque sabia que qualquer encontro terminaria numa discussão quando eu voltasse para casa.
Sarah fez uma pausa.
— E depois vieram as primeiras agressões.
Bella sentiu um frio percorrer sua espinha.
— Quando?
— Há pouco mais de um ano. Nós discutimos porque eu tinha aceitado participar de um evento gastronômico sem consultá-lo. Ele me segurou pelo braço com tanta força que deixou marcas. No dia seguinte, apareceu com flores e pediu desculpas. Disse que estava sob muita pressão, que tinha medo de me perder e que aquilo jamais aconteceria novamente.
Ela soltou uma risada amarga.
— Eu acreditei.
Bella segurou sua mão com mais força.
— Sarah...
— Depois aconteceu outra vez. E outra. Sempre havia uma explicação. Um problema no trabalho, uma provocação minha, um mal-entendido. E eu comecei a mudar meu comportamento para evitar as discussões. Parei de usar determinadas roupas, deixei de sair com amigos, comecei a avisá-lo de cada compromisso. Achava que, se fizesse tudo corretamente, ele voltaria a ser o homem por quem me apaixonei.
Sarah ergueu os olhos.
— Mas aquele homem nunca voltou, Bella. Acho que ele nem sequer existiu.
A irmã mais nova já chorava.
— Por que você não me contou?
Sarah demorou a responder.
— Porque eu tinha vergonha. Porque sabia exatamente o que você diria e não queria admitir que estava vivendo aquilo. E porque, depois de algum tempo, comecei a acreditar quando ele dizia que ninguém suportaria conviver comigo. Que eu era difícil, ingrata, emocionalmente instável. Ele repetiu essas coisas tantas vezes que passei a ouvi-las até quando estava sozinha.
Bella se aproximou e abraçou a irmã.
— Você é a mulher mais extraordinária que conheço, Sarah. Foi você quem me ensinou a não aceitar que ninguém decidisse meu valor. Você me ensinou a lutar pelos meus sonhos, a defender minhas opiniões e a nunca diminuir quem eu sou para agradar outra pessoa. Eu não vou permitir que as mentiras daquele homem sejam a única voz que você escuta agora.
Sarah chorou contra seu ombro.
— Eu tenho medo de que ele venha atrás de mim.
— Então vamos nos preparar para isso. Não vou fingir que basta trancar uma porta e tudo estará resolvido. Edward e eu vamos ajudar você a encontrar proteção, mas você também terá voz em cada decisão. Não quero que saia de uma relação em que alguém controlava sua vida para encontrar outra pessoa decidindo tudo por você, mesmo com boas intenções.
Sarah afastou-se lentamente.
— Você não está com raiva de mim?
Bella segurou seu rosto entre as mãos, tomando cuidado com os machucados.
— Estou com raiva de tudo o que fizeram com você. Estou triste pelo tempo que perdemos. Mas não estou com raiva da minha irmã por ter precisado de ajuda.
Sarah fechou os olhos.
E, pela primeira vez naquela manhã, conseguiu respirar sem sentir que precisava pedir permissão.
10h42 — Black Automotivos
Emmett Cullen entrou na sala de Jacob Black sem bater.
Isso, por si só, não era novidade.
A novidade era sua expressão.
O homem que normalmente transformava qualquer reunião empresarial num espetáculo de piadas parecia profundamente perturbado.
Jacob afastou os olhos do computador.
— O que aconteceu?
Emmett fechou a porta.
— Preciso conversar com você e Paul.
Jacob endireitou-se imediatamente.
— Algum problema com os contratos?
— Não. É pessoal.
Paul, que estava sentado diante de uma pilha de relatórios, ergueu a cabeça.
— Emmett, você está me assustando. Desde que nos conhecemos, nunca entrou numa sala sem fazer algum comentário idiota. Isso é praticamente um sinal de emergência.
Emmett não sorriu.
— Sarah apareceu na casa de Edward e Bella esta madrugada.
Jacob assentiu.
— Paul comentou que havia alguma coisa acontecendo com a família. Ela está bem?
Emmett passou a mão pelos cabelos.
— Não. E acho que não está bem há muito tempo.
Havia uma tensão evidente em sua voz.
— Edward me ligou há pouco. Disse que Sarah fugiu do noivo. Aquele desgraçado do Alec Volturi estava agredindo ela.
Paul deixou a caneta cair sobre a mesa.
— Você está falando sério?
— Gostaria muito de estar brincando.
Jacob ficou imóvel.
— Ela precisou de atendimento médico?
— Edward está tentando convencê-la a ser examinada. Ela chegou com o rosto machucado. Pelo que Bella conseguiu descobrir, as agressões já aconteciam há algum tempo.
Emmett apoiou as duas mãos sobre a mesa.
— Vocês não conhecem Sarah como eu conheço. Aquela garota era uma força da natureza. Quando tinha dezenove anos, discutiu com um chef francês famoso porque ele tratou mal uma funcionária. O homem era três vezes maior que ela, tinha quase quarenta anos de experiência e estava berrando no meio da cozinha. Sarah ficou diante dele e disse que talento não dava a ninguém o direito de humilhar os outros.
Paul ergueu as sobrancelhas.
— Corajosa.
— Corajosa, teimosa, inteligente e absolutamente incapaz de ficar calada diante de uma injustiça. Era assim que ela sempre foi. E agora descubro que passou meses sendo machucada dentro da própria casa, enquanto nós acreditávamos que estava ocupada demais para encontrar os amigos.
Jacob observou o sofrimento genuíno no rosto do sócio.
— Emmett, escute. Você não pode mudar o que aconteceu, mas pode ajudá-la daqui para frente. Só precisa tomar cuidado para não transformar essa ajuda em mais uma pressão sobre ela.
Emmett olhou para ele.
— Você não entende. Sarah é como uma irmã para mim.
— Justamente por isso ela precisa que você continue sendo alguém em quem possa confiar. Não alguém que decida o que ela deve sentir ou fazer.
Paul concordou.
— Jacob tem razão. E, conhecendo você, imagino que sua primeira reação tenha sido procurar o endereço desse sujeito para resolver o problema pessoalmente.
Emmett desviou os olhos.
Paul soltou um suspiro.
— Meu Deus. Você realmente pensou nisso.
— Pensei em coisas muito piores.
Jacob levantou-se.
— Então é bom que esteja aqui, conversando conosco, em vez de fazendo alguma estupidez que possa prejudicar Sarah. Edward é advogado, conhece os caminhos legais e pode ajudá-la a buscar orientação adequada. O mais importante agora é que ela esteja protegida e tenha liberdade para decidir os próximos passos.
Emmett assentiu, embora ainda parecesse contrariado.
— Vou passar na casa deles depois do almoço.
— Faça isso — respondeu Jacob. — E diga a Edward que, se precisarem de alguma coisa, podem contar comigo.
Emmett esboçou um sorriso.
— Obrigado, cara.
Paul inclinou-se na cadeira.
— E tente não aparecer com aquela sua expressão de quem está prestes a declarar guerra a um país inteiro. A garota já passou por coisa suficiente.
— Você está me pedindo para ser delicado?
— Estou pedindo para você não agir como um rinoceronte emocional.
Emmett finalmente riu.
— Rinoceronte emocional?
— Grande, barulhento e com tendência a destruir tudo quando fica nervoso.
Jacob balançou a cabeça.
Por alguns segundos, o ambiente pareceu recuperar sua normalidade.
Mas, quando Emmett deixou a sala, Jacob permaneceu pensativo.
Não conhecia Sarah Swan.
Não sabia quase nada sobre ela.
Ainda assim, a ideia de alguém transformar a própria casa num lugar de medo provocava nele uma indignação difícil de ignorar.
Olhou para a fotografia de Seth sobre a mesa.
Pensou em Leah.
Pensou na vida que perdera.
E sentiu uma tristeza antiga, familiar, instalar-se novamente em seu peito.
12h15 — Apartamento dos Cullen
Quando a campainha tocou, Sarah estava sentada no sofá, com uma xícara de chá entre as mãos.
Bella havia conseguido convencê-la a comer algumas torradas. Edward, por sua vez, conversara com ela sobre a importância de documentar os machucados e preservar as mensagens de Alec. Sarah concordara em procurar atendimento médico e receber orientação sobre medidas de proteção, embora a simples ideia de contar sua história a desconhecidos ainda a deixasse nervosa.
A campainha tocou novamente.
Sarah enrijeceu imediatamente.
Edward percebeu.
— Sarah, está tudo bem. Sou eu quem vai atender. Ninguém vai entrar aqui sem que você concorde.
Ela assentiu, constrangida com a própria reação.
Quando Edward abriu a porta, uma voz conhecida ecoou pelo apartamento.
— Muito bem, Cullen, espero sinceramente que você tenha uma excelente explicação para me fazer atravessar Manhattan antes do almoço. Eu estava prestes a comer um hambúrguer do tamanho da minha cabeça, e isso não é um sacrifício pequeno.
Sarah fechou os olhos.
Emmett.
Durante alguns segundos, considerou fugir para o quarto.
Não queria que ele a visse daquele jeito.
Não queria encontrar pena nos olhos do amigo.
Mas, antes que pudesse se levantar, Emmett apareceu na sala.
E parou.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
Sarah tentou falar primeiro.
— Antes que você comece a reclamar, gostaria de esclarecer que não tenho nenhuma intenção de pedir desculpas por ter ignorado suas mensagens. Algumas delas eram absolutamente ridículas.
Emmett permaneceu olhando para ela.
Sarah forçou um sorriso.
— Principalmente aquela em que você ameaçou colocar minha fotografia em caixas de leite, como se eu fosse uma pessoa desaparecida.
Ele atravessou a sala.
Por um instante, Sarah teve medo de que a abraçasse com força e machucasse suas costelas doloridas.
Mas Emmett parou diante dela.
Abaixou-se até ficar na altura de seus olhos.
— Posso te abraçar, pequena?
A pergunta desfez o pouco controle emocional que Sarah ainda possuía.
Ela assentiu.
Emmett a envolveu cuidadosamente nos braços.
Sarah começou a chorar.
— Eu senti tanto a sua falta — murmurou ele, com a voz embargada. — Você não faz ideia de quanto senti sua falta.
— Me desculpa, Emm...
— Não. Não quero que nossa primeira conversa depois de tantos meses seja você pedindo desculpas. Podemos discutir todas as suas mensagens ignoradas quando você estiver pronta. Posso até cobrar juros. Mas agora só quero que saiba que estou muito feliz por você estar aqui.
Sarah se agarrou à camisa dele.
— Eu achei que você estivesse com raiva.
Emmett afastou-se um pouco para olhar seu rosto.
— Sarah, eu já fiquei com raiva de você por comer a última fatia da minha pizza. Fiquei furioso quando você colocou pimenta no meu café. E nunca vou perdoar aquela ocasião em que disse à Rosalie que eu chorava assistindo a filmes românticos.
Ela soltou uma risada entre lágrimas.
— Mas você chora.
— Isso é uma informação confidencial e você violou nosso acordo de amizade.
Bella sorriu discretamente.
Emmett continuou, agora sério:
— Mas não existe nada que você pudesse fazer para deixar de ser importante para mim. Você é minha família, Sarah. Sempre foi.
Ela voltou a abraçá-lo.
E, naquele momento, alguma coisa dentro dela começou a mudar.
Não era uma cura.
Não era o fim do medo.
Mas era a lembrança de que sua vida havia sido muito maior do que Alec Volturi permitira que ela acreditasse.
14h08 — Um escritório em Manhattan
Alec Volturi observava o celular sobre a mesa.
Dezessete chamadas.
Nenhuma atendida.
Vinte e três mensagens.
Nenhuma resposta.
O apartamento estava vazio quando ele acordara.
Inicialmente, imaginara que Sarah tivesse saído para comprar alguma coisa. Depois, descobrira que suas roupas de trabalho continuavam no armário, mas os documentos pessoais haviam desaparecido.
Aquela informação o irritara profundamente.
Sarah não costumava contrariá-lo daquela maneira.
Não depois de tudo o que ele fizera para ensiná-la a compreender as consequências de suas atitudes.
O telefone tocou.
Alec atendeu imediatamente.
— Encontrou?
A voz masculina do outro lado respondeu:
— Senhor Volturi, conseguimos confirmar que ela entrou no edifício residencial de Edward Cullen durante a madrugada.
Alec permaneceu em silêncio.
Edward Cullen.
Naturalmente.
Aquele advogado arrogante que nunca fizera questão de esconder sua antipatia por ele.
— Ela continua lá?
— Pelo que conseguimos verificar, sim.
Alec recostou-se na cadeira.
— Entendo. Não faça mais nada por enquanto. Eu cuidarei disso.
Desligou.
Por alguns instantes, permaneceu olhando para a cidade através das janelas do escritório.
Então abriu a conversa com Sarah e digitou uma mensagem.
Meu amor, sei que tivemos uma noite difícil. Estou preocupado com você. Não precisamos envolver outras pessoas nos nossos problemas. Volte para casa e vamos conversar como adultos. Eu te amo.
Leu cuidadosamente.
Perfeito.
Calmo.
Afetuoso.
Exatamente o tipo de mensagem que poderia mostrar a qualquer pessoa que ele era um homem preocupado com a noiva.
Apertou enviar.
Depois, levantou-se e caminhou até a janela.
Lá embaixo, as pessoas atravessavam a rua apressadamente, alheias ao fato de que, no vigésimo andar daquele edifício, um homem tentava compreender como sua vida aparentemente perfeita havia saído do controle.
Alec não se considerava violento.
Considerava-se exigente.
Sarah era impulsiva, emotiva e, por vezes, incapaz de compreender que certas atitudes tinham consequências. Ele sempre lhe oferecera conforto, estabilidade e oportunidades. Em troca, esperava lealdade e respeito.
Não era pedir muito.
Pelo menos era assim que justificava suas atitudes.
Seu telefone vibrou.
Por um instante, acreditou que fosse Sarah.
Mas era apenas uma notificação de trabalho.
Alec apertou o aparelho com força.
— Você vai voltar — murmurou para a cidade. — Nem que eu precise lembrar a você tudo o que está colocando em risco.
E sorriu.
Não era um sorriso de felicidade.
Era o sorriso de alguém que já começava a elaborar um plano.
15h26 — Uma cafeteria próxima à Black Automotivos
Angela Web mexia distraidamente o café.
Era uma mulher bonita, de aparência delicada, cabelos escuros e olhos expressivos. Possuía uma maneira tranquila de falar, quase tímida, que fazia as pessoas se sentirem confortáveis em sua presença.
Aquela imagem lhe era muito conveniente.
Sobre a mesa, seu celular exibia uma fotografia publicada por Rachel Lahote.
Jacob e Seth apareciam juntos numa festa de aniversário. O menino estava sentado sobre os ombros do pai, enquanto Jacob sorria para a câmera.
Angela tocou a tela.
Ampliou a imagem.
Jacob estava bonito.
Mais bonito do que deveria ser permitido a um homem que passara os últimos dois anos praticamente ignorando qualquer possibilidade de relacionamento.
Ela suspirou.
Conhecia Jacob desde a adolescência.
Estivera presente em inúmeras comemorações da família Black. Conhecera Billy, o pai dele, acompanhara o crescimento da empresa e presenciara o nascimento de Seth.
Também conhecera Leah Clearwater.
Leah, com seu sorriso confiante, sua personalidade forte e aquela facilidade irritante de conquistar a atenção de Jacob sem fazer absolutamente nenhum esforço.
Angela apertou os dedos ao redor da xícara.
O celular vibrou.
Uma mensagem de Rachel.
Angie, vamos jantar aqui em casa no sábado. Jacob e Seth vêm também. Você consegue aparecer?
Angela sorriu imediatamente.
Claro! Estava morrendo de saudade de vocês. Posso levar a sobremesa.
A resposta veio acompanhada de um coração.
Angela deixou o telefone sobre a mesa.
Rachel era uma boa amiga.
Paul também gostava dela.
Seth a conhecia desde pequeno.
E Jacob...
Jacob precisava apenas compreender que algumas pessoas sempre estiveram ao seu lado.
Seu olhar voltou para a fotografia.
— Dois anos, Jacob — murmurou, tão baixo que ninguém poderia ouvi-la. — Já se passaram dois anos. Você precisa seguir em frente.
O garçom aproximou-se para perguntar se ela desejava mais alguma coisa.
Angela ergueu o rosto e ofereceu um sorriso gentil.
— Não, obrigada. Está tudo ótimo.
O rapaz se afastou.
Ela voltou a observar a fotografia.
Havia aprendido, ao longo dos anos, que paciência era uma virtude indispensável.
Algumas coisas simplesmente precisavam acontecer no momento certo.
E Angela estava convencida de que seu momento finalmente se aproximava.
20h43 — Apartamento dos Cullen
Sarah estava diante da janela quando Bella entrou no quarto.
A cidade brilhava sob o céu escuro.
Milhares de luzes iluminavam os prédios, e o trânsito seguia seu movimento habitual, indiferente à transformação que acontecia dentro daquele apartamento.
— Edward pediu comida italiana — anunciou Bella. — E Emmett está tentando convencê-lo de que precisamos pedir seis sobremesas diferentes porque você necessita de uma recuperação nutricional intensiva.
Sarah sorriu discretamente.
— Ele continua usando comida como solução para todos os problemas?
— Infelizmente. Rosalie diz que um dia vai precisar colocar um cadeado na geladeira.
Bella aproximou-se.
— Como você está?
Sarah demorou a responder.
— Assustada. Aliviada. Confusa. Acho que tudo ao mesmo tempo.
— Quer conversar?
Sarah olhou novamente para a cidade.
— Sabe o que me assusta mais? Não é apenas pensar no que Alec pode fazer. É perceber que não sei mais quem sou quando ele não está por perto. Passei tanto tempo tentando antecipar suas reações que esqueci como tomar decisões simples. Hoje fiquei quase dez minutos escolhendo uma roupa porque não conseguia parar de pensar se ele aprovaria.
Bella permaneceu em silêncio, permitindo que a irmã continuasse.
— Eu amava cozinhar, Bella. Lembra quando eu passava horas inventando receitas e obrigava você e Emmett a experimentar combinações absurdas?
— Como esquecer? Você quase nos matou com aquele risoto de chocolate.
Sarah riu.
— Era uma proposta experimental.
— Era uma ameaça à saúde pública.
As duas sorriram.
Depois Sarah ficou séria novamente.
— Faz meses que não crio nada por prazer. Trabalho, cumpro contratos, preparo cardápios, mas não sinto mais aquela alegria. Alec transformou até a coisa que eu mais amava numa obrigação. Ele dizia que eu precisava agradecer por ter uma carreira, porque muitas mulheres dariam tudo para viver confortavelmente sem trabalhar.
Bella segurou sua mão.
— Então talvez seja hora de você começar a recuperar essas coisas. Não todas de uma vez. Não porque alguém está exigindo. Mas porque elas continuam sendo suas.
Sarah olhou para a irmã.
— Você acha que um dia vou voltar a ser quem eu era?
Bella refletiu antes de responder.
— Acho que você não precisa voltar a ser exatamente aquela pessoa. Você viveu coisas que mudaram sua maneira de enxergar o mundo. Seria injusto exigir que simplesmente esquecesse tudo. Mas acredito que pode construir uma vida na qual essas experiências não decidam mais por você. E quero estar ao seu lado enquanto descobre como fazer isso.
Sarah abraçou a irmã.
— Eu te amo, Bella.
— Também te amo. E, só para esclarecer, você continua me devendo um jantar de aniversário.
Sarah riu contra seu ombro.
— Eu preparo o que você quiser.
— Menos risoto de chocolate.
— Você não tem espírito aventureiro.
— Tenho instinto de sobrevivência.
As duas começaram a rir.
Era um som pequeno, ainda frágil.
Mas era verdadeiro.
E fazia muito tempo que Sarah não ria daquela maneira.
23h17 — Residência Black
Jacob acabara de colocar Seth na cama.
O menino insistira em ouvir duas histórias, beber três copos de água e explicar detalhadamente por que os velociraptores seriam excelentes animais de estimação.
Finalmente adormecera.
Jacob apagou a luz do quarto e caminhou até o escritório.
Sobre a escrivaninha havia uma pequena caixa de madeira.
Ele a abriu.
Dentro estavam algumas fotografias de Leah, cartas antigas e a aliança que retirara do dedo seis meses antes.
Pegou uma fotografia.
Leah aparecia sorrindo, sentada sobre o capô de um carro, com os cabelos presos num rabo de cavalo.
A imagem havia sido tirada poucas semanas antes do acidente.
Jacob passou o polegar sobre o rosto dela.
— Hoje o Seth perguntou se eu precisava de uma esposa — murmurou, com um sorriso triste. — Você teria adorado essa conversa. Provavelmente teria incentivado o menino só para me ver desesperado.
Permaneceu em silêncio.
— Ele está crescendo, Leah. Cada dia fica mais parecido com você. É teimoso, inteligente e acha que sempre tem razão. Infelizmente, herdou de mim o talento para fazer bagunça.
Uma lágrima escorreu discretamente por seu rosto.
Jacob a enxugou.
— Às vezes fico pensando se estou fazendo tudo certo. Se estou conseguindo ser suficiente para ele. Você era tão boa com essas coisas...
Olhou para a fotografia por mais alguns instantes.
Depois a guardou cuidadosamente.
Não percebeu o celular vibrando sobre a mesa.
Era uma mensagem de Angela.
Oi, Jacob. Rachel me convidou para jantar no sábado. Faz tanto tempo que não conversamos! Espero que você esteja bem. Se precisar de qualquer coisa, sabe que pode contar comigo.
Jacob leu.
Respondeu com a cordialidade habitual.
Obrigado, Angela. Estamos bem. Nos vemos no sábado.
Deixou o aparelho de lado.
Não imaginava que aquela mensagem, aparentemente inocente, fazia parte de uma história muito maior do que ele poderia compreender.
23h51 — Apartamento dos Cullen
Sarah estava quase adormecendo quando seu celular iluminou a mesa de cabeceira.
Um número desconhecido.
Ela hesitou antes de abrir a mensagem.
Não havia texto.
Apenas uma fotografia.
Era uma imagem da entrada do edifício onde Bella e Edward moravam.
Tirada naquela noite.
Sarah sentiu o sangue gelar.
Alguns segundos depois, chegou outra mensagem.
Você realmente acredita que pode simplesmente desaparecer da minha vida?
O telefone escorregou de seus dedos.
Ela permaneceu imóvel, olhando para a tela iluminada.
Então uma terceira mensagem apareceu.
Precisamos conversar, Sarah. E seria uma pena se sua irmã acabasse envolvida em algo que não diz respeito a ela.
Sarah levou a mão à boca.
O medo que acreditara ter deixado para trás voltou com uma intensidade sufocante.
Mas, dessa vez, havia uma diferença.
Ela não estava sozinha.
Levantou-se, pegou o telefone e caminhou até a porta.
No corredor, ainda conseguia ouvir Edward e Bella conversando na sala.
Sarah respirou profundamente.
E, em vez de esconder o que estava acontecendo, foi procurá-los.
Pegou o telefone, levantou-se e caminhou até a porta.
Pela primeira vez, decidiu que não enfrentaria o medo sozinha.
Naquela noite, Sarah Swan ainda não sabia como reconstruiria sua vida.
Em outro ponto da cidade, Jacob Black adormecia depois de colocar o filho na cama, carregando a saudade de uma mulher que perdera havia dois anos.
Eles não se conheciam.
Não imaginavam que seus caminhos estavam prestes a se cruzar.
E, sobretudo, desconheciam que o passado ainda guardava segredos capazes de transformar profundamente o futuro de ambos.
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