Notas iniciais
Tédio

CAPÍTULO UM

Eloá


A chuva caia forte no estado do Rio de Janeiro, péssimo dia pra levantar da cama pensava Eloá, sua cara emburrada já dizia tudo, os dois cotovelos no balcão faziam um suporte onde suas mãos finas de dedos longos abraçavam o centro do seu queixo e seguiam ate as suas bochechas rosadas artificialmente sob efeito do pó que usava no rosto, volta e meia avançava o lábio inferior e por entre o espaço formado na boca pintada com um lindo batom rosa soprava para que o vento suspendesse os fios de cabelos da linda franja que cascateava em sua testa na mais perfeita demonstração do tédio que andava sua vida, vestia uma jaquetinha preta de couro sintético que não impedia muito bem a evasão do calor que seu corpo emanava, detestava o leve frio que fazia, costumava dizer para as amigas que era filha da preguiça e como um autentica preguiçosa preferia estar de baixo das cobertas na sua boa e velha cama nos dias em o que o clima se assemelhava ao de hoje, mas como Deus não concedeu a dádiva de nascer numa família rica da zona sul fluminense tinha de se contentar em acordar cedo e ir trabalhar na banca de flores do centro da cidade. A monotonia já era um atributo do serviço, pensava que não existiam aqueles homens românticos das novelas que chegavam para ver suas esposas com um lindo buque de rosas porque quase nunca vendia um, embora sempre montasse uns mostruários lindos, tinha de se contentar em ficar olhando os pingos de chuva que escorriam da telha e batiam no chão com tanta força que respingavam em suas pernas molhando a sapatilha estilo Moleca amarela que usava e combinava com o shortinho Jeans de uma cor bem clara que davam a ela um look de menina inocente.
— Eloá! Eloá! Eloaaaaaá!
O grito a despertou do transe em que se encontram seus apensamentos que a essa altura estavam em qualquer lugar do mundo, menos ali na tediosa tarde chuvosa, no tedioso emprego e na tediosa vida. Quem havia lhe chamado era Maria, funcionária da padaria que havia em frente a banca, era uma mulher de 40 anos, chamava atenção pelo sorriso largo, estava sempre sorrindo, devia ser muito feliz pois estava sempre alegre e fazendo brincadeiras, embora tivesse o dobro da minha idade via em mim uma amiga, usava um coque que prendia seus enormes cabelos castanhos e eram contidos por uma touca higiênica, afinal seu trabalho consistia em atender ao público e no manuseio de alimentos, o uniforme era lindo, creme e cheio de babados de renda com um avental fixo que lhe dava o charme que o estabelecimento exigia, vendia muitas guloseimas, doces e biscoitos eram comportados em grandes potes de vidro em cima de uma mesa onde os clientes se serviam em bandejas descartáveis e pesavam o que queriam levar, no balcão haviam algumas refresqueiras que remexiam não só os sucos mais também chocolates que eram os maus consumidos em dias frio como os de hoje, as mesas estavam cheias de clientes satisfeitos tomando café e conversa do sobre trabalho, casa, família, amores e todo tipo de fofoca que se pudesse imaginar.
— Oi Maria. Respondeu Eloá que agora olhava para aquela mulher que estava a porta da padaria e balançava um saquinho de papel em sua destra estendida que com toda certeza do mundo continha alguma coisa gostosa.
— Mini sonhos. Ela disse com grande entusiasmo.
— Hamm? Perguntou Eloá com um aceno de cabeça na direção dos muitos clientes que lá estavam.
— O de camisa azul e chapéu preto. Sem som e com a mão na boca para encobrir o que falava Eloá praticamente fazia leitura labial e percorria com os olhos fazendo uma varredura no salão ate encontrar o dito cujo de quem Maria se referia e com um balanço de cabeça fez um sinal disfarçado de negativa.
— Simmmmm! Agora quem fazia o sinal de positivo era Maria em meio ao seu sussurro e com um sorriso de cantinho de boca.
— Não e nãooooo — Aos risos respondeu baixinho para depois em um tom alto e meigo dizer – Agradeça e ele por mim.
Isso acontecia quase todos os dias, clientes e mais clientes sempre lhe pagavam o que comer, a sua beleza atraia seus olhares e como forma de cortejo sempre ofereciam, como não tinham a coragem de entregar pessoalmente recorriam a Maria que sempre se mostrava comunicativa e atenciosa com todos, e ela por sua vez queria de todas as maneiras lhe arrumar um namorado, dizia que meu tédio se resolvia com amor e muitas noites de sexo e eu sempre desconversava, mas as vezes também me pegava pensando se ela tinha realmente razão. Fazia um tempo que havia terminado o seu namoro, tinha sido aquele namoro de infância, o famoso primeiro tudo como se dizia, lembrou que era extremamente alucinada por aquele menino que sentava algumas cadeiras a frente na sala de aula, ele era lindo, tinha cabelos negros grandes e despojados e uma pele branca e suave, o nariz fino e a boca rosada combinavam com a meiguice digna de um Príncipe de contos de fadas, daqueles que chegam em cavalos brancos com espadas riste pra salvar a princesa no alto da torre, ele era lindo e ela apaixonada se jogava em cima, mas ele nunca falara nada, o que tinha de bonito e meigo tinha também de lerdo e foi ai que Marcos seu ex se deu bem, o oposto de tudo que Felipe era inclusive em malandragem, um pouco mais velho que ela com seus 14 anos e de uma classe acima tinha muita coragem pra conversar com as meninas e a pediu em namoro, fez o que Felipe não fazia e ela aceitou e com Marcos descobriu em cinco anos as primeiras coisas sobre relacionamento, sexo e que nem sempre se fica com quem se ama ou que o amor construído ou por imprint dura para sempre.
Depois de se esquivar de mais uma das tentativas frustradas de Maria de tentar lhe arrumar um novo amor, com único intuito de a fazer superar o fim do relacionamento com Marcos, os cabelos de sua franja voltaram subir com mais intensidade e ela percebeu que tudo continuava a mesma coisa, já imaginava que seria mais um dia qualquer, só imaginava, o destino reservara algo pra diferente pra sua vida e ela nem sequer estava pronta para o que iria vir.

Notas finais
Surpresa
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.