Dois enormes olhos de íris vermelhas fitavam malignamente o pequenino encolhido embaixo dos lençóis. O garotinho tremia abraçado em um grande cachorro de pelúcia marrom e de aparência puída, e soluços abafados podendo ser ouvidos através do travesseiro. Grandes lágrimas escorriam em silencioso pesar por seu rosto miúdo e infantil e o medo rasgava o coração do garotinho. E quanto medo... Abafava todos os outros sentidos, gelava seu sangue e anuviava a razão. O cão em seus pequenos braços emitiu então um usava brilho amarelado e as lágrimas foram substituídas por um sorriso choroso. Seu guardião finalmente acordara. Com um latido poderoso, ele se libertou do corpo terreno do boneco de pelúcia, trotando alegremente em volta da cama do pequeno e lambendo suas lágrimas salgadas com um carinho infinito.

O guardião estava pronto para enfrentar uma terrível batalha contra a escuridão que ameaçava seu protegido. Com o focinho erguido altivamente, o cachorro se lançou contra a escuridão de olhos vermelhos com os dentes a mostra e as garras estendidas. Um golpe poderoso com as patas atirou o monstro negro de lado, e uma mordida forte fez com que a escuridão disforme soltasse um urro de dor. Com um relampejar branco, as garras do inimigo cravaram-se no flanco do guardião dourado que ganiu em agonia. Pobre cão, sofria tanto para proteger aquele menino. O pobre menino indefeso que esperava com fervorosa fé por seu retorno. Aquele pensamento lhe deu forças, e a mordida apertou ainda mais a traqueia do monstro disforme. A mesma se partiu com um grande estalo. De língua de fora, ensanguentado, porém com um sorriso vitorioso, o guardião retirou-se para dentro de seu corpo eterno onde poderia descansar antes de proteger seu amigo adormecido mais uma vez. Uma fresta de luz tornou a escuridão do quarto menos densa, e o cachorro abriu um dos olhos espirituais para ver quem ameaçava seu pequeno dono. Mas... Não. Não era uma ameaça. Eram os pais do garotinho que o observam enquanto ele dormia. A eles não fora concedido o dom de ver aquela batalha sangrenta que se desenrolara no quarto do filho.

Afinal, eram apenas adultos.

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