E se fosse verdade?
10 A realidade é cruel.
Notas iniciais
Julie rapidamente estranhou a pergunta. Daniel a olhava preocupado.
– Por que? O que vai dizer a ela? – perguntou arqueando a sobrancelha.
– Hm, não sei, sabe de algum podre dela? – sorriu levemente.
Os dois então saíram do local, iam até a casa de Bia.
– O segundo nome dela é Ellen, mas ela dizia pra todo mundo que era Léiah, igual a princesa Léiah. – Julie contava já dentro do carro.
– Tá bom, mas o que mais? – Daniel perguntou, tinha um engarrafamento ali a frente, o que os obrigou a pararem por alguns minutos.
– Humm.. perai. – pausou pensativa. – ela é intolerante a lactose. – torceu os lábios.
– Olha, isso so vai dar certo, se eu puder dizer a ela, algo que so você saiba, algo muito pessoal. – Daniel dizia.
– Ah, ela beijou de língua o ex-namorado Tim Tim, pouco antes do casamento. – contou rapidamente se lembrando.
– Hm, isso vai dar certo. – Daniel afirmou sorrindo confiante. – muito bom! – finalizou ainda sorrindo.
– Ninguém sabe disso. – Julie garantiu.
– To começando a gostar dela. – Daniel disse rindo.
[..]
Ao chegar na casa de Bia, Daniel tocou a campainha. Julie aguardava ansiosa ao seu lado.
– Mas conta, como você a conheceu? – Bia perguntou, enquanto chamava Daniel para entrar. – Devem ter trabalhado juntos. Ela não tava saindo com ninguém. – Bia deduziu. Julie revirou os olhos com a ultima frase.
– Como gostam de lembrar disso. – Julie comentou chateada.
– Na verdade, é um pouco difícil de aceitar. – Daniel começou.
– Chá! – As filhas de Bia apareceram os interrompendo. Daniel fechou os olhos com força.
– Minhas sobrinhas! Eram para estar na escola. – Julie estranhou.
– Uma xicará de chá senhor? – Vanessa puxava Daniel pelo braço.
– Obrigado senhora. – Daniel dizia um pouco incomodado.
– Daniel, não faz isso na frente delas, vai assustá-las – Julie o repreendia se sentando juntos com o loiro e suas sobrinhas na mesa.
– Desculpe o que dizia mesmo? Como você a conheceu? – Bia perguntou.
– Mente, mente sobre tudo. – Julie orientou.
– Trabalhamos juntos. – Daniel disse rapidamente.
– Não! Não é pra se passar por médico. Inventa alguma coisa. – Julie o orientava.
A sobrinha mais nova de Julie, Lily, conseguia perceber a presença da tia ali.
– Eu não trabalhei com ela, trabalhamos juntos a minha doença. – Daniel tentava corrigir. – Fui paciente dela. – tentava afirmar com convicção.
– Lily, você tá me vendo? – Julie perguntou surpresa, a menina sorriu, e se levantou rapidamente.
– Eu tava doente, eu tive meningite. Meningite espiral. – Daniel contava.
– Ah, eu sinto muito. – Bia disse um pouco incrédula.
– Meningite espiral? Isso nem existe. – Julie revirou os olhos.
– Ah não, ta tudo bem, eu to bem melhor agora, a Juliana, ela acreditou em mim. – Bia sorriu se lembrando da irmã. – ela acreditou na minha recuperação, quando ninguém mais acreditava, e ai aconteceu. – Daniel continuava contando, Bia sorria balançando a cabeça emocionada ao se lembrar da irmã.
– Isso é coisa dela mesmo. – Bia afirmava agora com lágrimas nos olhos. – Mas por que ta me dizendo isso? – perguntou enxugando as lágrimas.
– É... Por que eu to sabendo da situação da Juliana, e... – se embolava um pouco.
Lily, voltou a mesa, agora com quatro biscoitos, botou um para sua irmã, um para Julie, um pra ela e outro para Daniel.
– Lily, você sabe que eu estou aqui não é?. – Julie estava surpresa.
– Algumas coisas acontecem, é... essas coisas estão bem acima do nosso entendimento. – Daniel voltou a falar. Bia apenas assentia estranhando cada vez mais o discurso.
– No fundo, eu so queria pedir. – Daniel levantou se aproximando de Bia. – na verdade, eu quero implorar, que dê mais um tempo pra ela, eu sei que ela vai superar tudo isso. Eu tenho certeza.
– É muito gentil dizer isso. – Bia começou. – Mas é tarde demais. – abaixou a cabeça, lagrimas grossas já escorriam pelo seu rosto.
– Bia! Bia, o que você fez? – Julie se levantou aflita.
– Daniel, não é? – o loiro assentiu. – sabe, é tarde demais por que eu já assinei aqueles papeis. – contou por fim.
– Bia, eu to aqui. – Julie suspirou tristemente.
– Vão desligar as maquinas amanhã, meio dia, enquanto as meninas estão na escola, sabe, esses três meses foram muito difíceis pra elas, pra toda a família. – Bia contava.
– Eu entendo. Mas acho que você se precipitou. – Daniel argumentou.
– Foi melhor assim, era o que a Juliana queria, eu passei a vida toda achando que eu sabia o que era melhor pra ela, o que ela devia usar, quem ela devia namorar, e esse era o ultimo pedido da Juliana, e pela primeira vez na minha vida, vou respeitar o desejo dela. — Bia contava e já via lagrimas por todo o seu rosto. Daniel também estava um pouco emocionado.
– Ahh.. Bia. – Julie soltou um longo suspiro.
– Eu sei, que isso pode parecer um pouco estranho. – Daniel começou.
– AH não..- Julie foi entendendo.
– A verdade é que a Juliana está bem aqui, conosco agora. – Daniel apontou para o espirito de Julie, e Bia logico, não a via. – Ela está bem ao seu lado, implorando pra você esperar.
– Bem ao meu lado? – Bia perguntou, o olhava com raiva.
– Bem ai. – Daniel afirmou.
– Daniel, pode parar. – Julie pediu.
– Não, deixa eu fazer assim. – Daniel olhando para Julie. – Eu não sei como, e nem porque, mas de algum modo, eu vejo o espirito da sua irmã. – disse olhando nos olhos de Bia. – Eu sei que é loucura, mas então, porque não deixamos ela falar tudo pra você, e eu repito direitinho.
– Você podia esperar so um segundo. – Bia pediu.
– Claro. – Bia assentiu em resposta.
– Acabou o chá, agora é hora da Galinha Pintadinha. – Bia disse para as suas filhas, as levou para o quarto, para assistir o desenho.
– Daniel, isso pode dar certo. – Julie comentou animada. – Mas vamos ter que levar ela direto pro hospital. E ela vai ter que rasgar aqueles papeis. – Julie comentava animada. Daniel repetia as suas palavras, confiante também.
Bia voltou para sala, não acreditou em uma so palavra de Daniel.
– Dá o fora daqui seu doido! – Bia gritava com a faca em punho. Daniel e Julie gritavam assustados.
– Sai sai! – Bia repetia.
– Eu não to inventando. Porque eu inventaria? – Daniel se defendia assustado.
– Bia, calma! Fica calma. – Julie pedia em vão.
– Fala do tim tim. – Julie orientou.
– Eu sei do tim tim. – Daniel afirmou apontando o dedo para Bia.
– O que? – Bia perguntou incrédula.
– Eu sei o que fez com ele no dia do seu casamento. Eu conto pra todo mundo. – Daniel ameaçou.
– Como você sabe disso?! Ninguém sabe disso! – Bia correu pra cima de Daniel com a faca, ele gritou e saiu correndo da casa.
Bia foi ao quarto, onde as suas filhas assistiam desenho.
– Tudo bem crianças? – Ela perguntou escondendo a faca com a mão atrás das costas.
– Mamãe, será que a Tia Juliana quer mais chá? – Lily perguntou.
– O que?! – Bia perguntou espantada.
[..]
Julie agora estava em uma praça perto da casa de sua irmã.
– Caramba, acho que a sua irmã não é muito espiritualizada. – Daniel comentou se aproximando.
– So ta sendo uma boa mãe, mantendo as filhas longe de um maluco. – Julie brincou. Tentou forçar um sorriso, mas não conseguiu. Os dois avistaram uma mulher e uma criança sentadas no gramado da praça.
– Acho que eu teria gostado de ser mãe. – Julie afirmou observando a cena, agora sim com um sorriso franco e sincero.
– Seria uma boa mãe. – Daniel afirmou.
– Obrigada. Eu nunca vou fazer. – se lamentava.
– Ah que isso Julie, isso não é o fim. – Daniel a consolava.
– Julie? – se virou, chateada com o apelido.
– Me desculpe, eu sei que não gosta de ser chamada assim. – se desculpou com um sorriso torto.
– Até que eu to me acostumando. – Julie disse.
– Eu vou até o hospital, eu vou falar com aquela sua amiga, a Fran.
– Não Daniel.
– Eu posso falar com aquele idiota..o tal de Nicolas.
– Não Daniel, vão internar você num hospício. Ninguém vai acreditar que eu ainda to aqui.
– Lily, a garotinha, a sua sobrinha, ela viu você. – Daniel dizia apontando para a casa de Bia.
– Ah claro, o meu futuro nas mãos de uma garotinha que tem mais sete amigos imaginários. – Julie comentou com ironia.
– Espera... tem mais alguém . – Daniel disse ao se lembrar de Jake.
– Quem? – Julie perguntou sem interesse.
– Vem comigo. – Daniel a chamou.
[..]
Foram a livraria.
– Jake? – Daniel o chamou.
– Oi.. opa opa, o espirito está com você não ta.? – Jake sentiu a presença de Julie. Daniel assentiu. – Não pode entrar com isso aqui não, ta pensando o que mano.
– Escuta aqui cara, você estava certo, ela está viva. – Daniel começou.
– Bacana. – Jake disse sorrindo.
– Ela está em coma, e a família vai desligar todos os aparelhos que a mantém viva. – continuou.
– Ai não é bacana. – Jake balançava a cabeça em negativa. – Escuta, cês tão se dando bem agora? – perguntou Jake.
Julie e Daniel trocaram olhares. Julie sorriu envergonhada.
– Nós nos acostumamos. – Daniel respondeu com um sorriso característico.
– Ahh, to vendo. Inclusive, eu to sentindo que ela tem fortes sentimentos por você mano. – Jake comentou sorrindo malicioso. Daniel não pôde evitar o sorriso que se formava no seu rosto.
– Mesmo? – Daniel perguntou sorrindo abobado.
– Não! Não tem nada. – Julie se pronunciou envergonhada.
– Uhh, uma áurea bem vermelha, tem alguém constrangido. – Jake percebeu o nervosismo de Julie.
– E não sou eu. Quer se concentrar. – disse entredentes para Daniel. – Pergunta se tem algum feitiço. – Julie pediu.
– Encanto. – Daniel repetia. – Qualquer coisa que faça ela voltar para o seu corpo. – disse o loiro por fim.
– Opa, perai. Cê ta fazendo a pergunta errada meu querido. – disse Jake fechando os olhos. – Bom, olha, eu tenho um dom, eu não pedi pra ter, mas eu tenho, eu posso sentir essas coisas, os espíritos, chame como quiser. – jake pausou. – Porque eles ficam aqui se quer saber disso, por causa dos assuntos não terminados.
– Então eu tenho o dom? – Daniel perguntou.
– Cara, por favor, você não tem mesmo. – Jake respondeu rindo. – Você é um ser vivo.
– Mas se eu não tenho, como é que eu posso vê – la e falar com ela, quando ninguém consegue? – Daniel questionou.
– Exato! Essa é a pergunta correta. – Jake afirmou.
[..]
– Mas do quê que ele tá falando? – Daniel se perguntava, ele e Julie já estavam de volta ao apartamento. – Eu sinto que está bem a nossa frente, eu so não consigo entender. – reclamava jogando o se casaco no sofá.
– Como se resolve um problema que parece insolúvel a primeira vista? – agora Julie questionava.
– Porque pra mim, nada mais é impossível. – Daniel afirmou se sentando no sofá. – Porque eu me mudei pro seu apartamento? Por que, porque so eu vejo você e ninguém mais vê, porque eu estava naquele restaurante quando o cara passou mal? Porque? Tudo parece estar interligado – se questionava foleando um catálogo telefônico .
– Tá fazendo o que? – Julie estranhou ele foleando o catálogo.
– Eu não sei, acho que eu to perdendo algum detalhe, so um instante. – pausou lendo. – Rosemere Preston vive aqui em São Paulo. – mencionou a autora que Jake lhe indicou quando procurava livros sobre espíritos. – Podemos ir falar com ela. Eu vou ligar. – propôs se levantando para pegar o telefone.
– Onde conseguiu isso? – Julie perguntou ao ver o retrato que estava no hospital, agora na mesinha. A foto era de Julie e Bia, Julie segurava o seu diploma de medica, as duas tomavam caipirinha. – Tava no hospital. — disse agora se sentando.
– É... eu... – pausou envergonhado. – Eu peguei. – afirmou. – Desculpe, eu... Queria ter uma foto sua. – admitiu. – Eu não sabia se iria te ver de novo. – justificou.
– Tudo bem. É muito gentil, eu adoro essa foto. – Julie disse com algumas lagrimas nos olhos.
– É. Eu também gostei dela. – Daniel afirmou sentando ao lado da morena. Esticou o braço para pegar o retrato.
– Eu tinha recebido o resultado da admissão em medicina. – Julie contava.
– Deve ter se saido bem. – Daniel deduziu virando o rosto para ela.
– Que nada. Eu levei bomba, as notas foram tão baixas, que eu não entraria nem em um curso por correspondência. – se lamentava.
– E isso é bom? – Daniel perguntou.
– Não. Eu sei que parece maluquice, mas eu quis voltar pra biblioteca e começar a estudar na hora, mas a Bia não deixou, a única coisa a fazer era queimar a minha nota, e tomar caipirinhas. Muitas caipirinhas. – Julie contava.
– Parece que a Bia tinha razão. – Daniel disse reparando nos grandes sorrisos nos rostos de ambas. Julie riu pelo nariz.
– Engraçado que na única vez que eu fracassei na minha vida, me diverti como nunca. – afirmou.
– Parece feliz mesmo. – Daniel concordou observando a foto.
– Eu tava feliz, mas o que fiz com o resto do meu tempo? – se lamentava com lagrimas nos olhos. – quando eu penso na minha vida, eu so me lembro do trabalho. Trabalho e trabalho, e de me esforçar, e pra quê? – já não segurava mais as lagrimas.
– Você ajuda pessoas. Salva vidas. – Daniel a consolava.
– É. Menos a minha, guardei a minha vida pra depois, so que eu não pensei que não haveria depois.
– Não. Não diz isso, ainda da tempo. – Daniel também já estava emocionado.
– Eu so não quero passar a minha ultima noite chorando. Ou, lutando contra o destino. – Julie disse enxugando as lágrimas.
– Eu quero fazer uma coisa. Com você. – afirmou sorrindo.
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