— Eu tô tão feliz — Alice me abraça quase subindo no meu colo depois de eu contar como sai da caçada.

— Sai! Você tá mais pesada — eu a empurro de cima de mim e me levanto da cama.

— Olha como ela tá pequenininha, Alice — Malcolm põe o braço envolta do meu pescoço e esfrega minha cabeça. Ele era da minha altura cinco anos atrás, agora era dez centímetros mais alto. Não vejo muita diferença.

— Me solta! Odeio quando você faz isso! — começo me debater e ele me solta.

— Ei, tá quase na hora do jantar. Vem! — Alice levanta agarrando meu pulso e me guiando pra fora do chalé.

***

O acampamento tinha mudado bastante, tirando o fato de todos os meus amigos estarem aparentemente cinco anos mais velhos que eu, havia muitos semideuses novos. Também tinha algo do lado da Casa Grande, tinha um formato oval e era feito de ferro e cheio de fios coloridos conduzindo vários tipos de energia.

Quiron tinha me visto no pavilhão e não se importou em correr e me abraçar bem no meio dele. Muitos amigos meus me cumprimentaram quando apareci.

Eu estava comendo na minha mesa com os meus irmãos, o pavilhão estava cheio, todas as mesas completamente lotadas, apenas as mesas de Zeus e Poseidon estavam vazias. Até Nico estava em sua mesa, ele parecia bem contente e não usava mais aquele casaco esquisito. Ele estava até mais bronzeado.

— Alice.

— Hm? — ela olha pra mim com a boca cheia de macarrão.

— O que era aquilo do lado da Casa Grande?

— O que? — pergunta depois de engolir tudo — Ah! Aquilo. É um portal — ela volta a comer.

— Oi? Portal? Pra quê? Pra onde? Como? Quem fez? Quando fez?

— Ei, ei, calma aí. Que tal depois daqui eu te levar até lá e explicar melhor? Quero comer agora.

Reviro os olhos e volto a comer.

***

— Pra começar... Como foi feito isso aqui? — eu aponto com a cabeça pro suposto portal.

— Bem... eu não sei muito bem. Mas funciona.

— Quem fez?

— Foi projetado e construído por um filho de Hefesto. Ele é novo por aqui, chegou faz uns três anos, o nome dele é Leo Valdez.

— Hmm... E onde vai dar?

— É pra isso que estamos aqui — ela aperta um botão vermelho na lateral da estrutura e o buraco no meio dela começa a faiscar, uma cortina meio transparente brilhante azulada aparece cobrindo todo o buraco.

— Não parece muito confiável — dou um passo para trás.

— Também pensei a mesma coisa quando ele terminou de construir, mas vai por mim, é bem seguro.

Ela passa pelo portal e some. Minha curiosidade é bem maior do que meu medo, fecho os olhos e vou atrás.

Eu não senti nada diferente, foi como passar por uma porta aberta. Abro os olhos e minha boca abre junto involuntariamente.

Nós estávamos num campo aberto, de um lado havia algumas casa quadradas e do outro um tipo de cidade, e um pouco mais afastado, alguns templos. Tudo isso era rodeado por um rio.

— Seja bem-vinda ao Acampamento Júpiter — Alice abre os braços mostrando tudo.

— O-o que? Acampamento? Como assim?

— As caçadoras são bem desinformadas, né? É uma história bem longa...

Nunca vi Ally falar tanto. Ela me explicou que além dos deuses gregos haviam os deuses romanos e, consequentemente, os filhos deles.

Ela me explicou a divisão das cortes e os pretores.

Enquanto ela falava, me guiava para as casas quadradas, que, discordo com ela, era onde os semideuses romanos ficavam.

— Eu vou te apresentar aos pretores. Sabe... no começo nós não nos demos muito bem com os romanos, mas depois de um tempo percebemos que era muito melhor nos unirmos do que termos um inimigo a mais.

Entramos em uma das casas, e vemos duas pessoas, um garoto e uma garota. Ele era loiro, tinha olhos azuis como o céu e uma pequena cicatriz na boca, vestia uma toga roxa. A garota tinha uma trança negra que descia pelo seu ombro direito e olhos castanhos, também vestia uma toga como a dele.

— Olá... Alice — o garoto acena.

— Foi um chute bem dado — Ally sorri.

— Errei?

— Não, meu nome é Alice mesmo.

— Quem é a sua amiga? — pergunta a garota. Ela tinha um ar superior e sério, isso me lembrava alguém...

— Essa é a minha irmã Annabeth.

— Prazer — o garoto aperta minha mão — Meu nome é Jason.

— Reyna — a garota aperta a minha mão logo depois.

— Isso aqui é incrível! E... e vocês têm uma cidade!? — eu estava maravilhada com o lugar.

— A cidade é apenas para garantir um bom futuro para nós. Sem precisar arriscar nossas vidas no mundo lá fora — fala Reyna.

— Isso é uma ideia interessante — penso como seria um futuro tranquilo por lá.

— Antes essa cidade era só para nós — continua Jason — mas agora, abrimos a opção para os gregos também virem para cá. E já iniciamos um aumento na cidade ano passado, vamos expandir para os lados e para cima.

— Isso é ótimo!

Passamos muito tempo conversando e a cada minuto eu tinha mais certeza de que queria viver lá. Sem ter que me preocupar com monstros querendo me atacar no dia a dia. Viver numa paz que nunca tinha experimentado.

— Está ficando tarde Annie, melhor voltarmos — diz Alice

— Mas eu...

— Vem, você tem que me obedecer, eu sou mais velha.

— Mas eu nasci seis meses antes de você!

Alice começa me guiar para fora da casa.

— Essas crianças... — ela fala negando para Jason e Reyna. Jason ri, mas Reyna apenas me lança um olhar simpático. Apesar da sua seriedade, acho que se tivéssemos mais oportunidade, viraríamos amigas.

Andamos de volta para o portal. Espero Alice ir primeiro.

— Tá esperando o quê? — ela pergunta.

— Você!

— Primeiro as mais velhas — ela sorri sarcástica e me empurra, eu sinto meu pé bater na parte de baixo do portal e eu tropeço para o Acampamento Meio-Sangue.

Antes de sentir o chão, sinto alguém bater em mim e ela cai junto comigo.

— Opa! — sinto mãos segurarem minha cintura — Você tá bem?

— Tô — falo encarando os olhos verde-mar. Ele fica surpreso em me ver.

— O-o que tá fazendo aqui? Eu te vi há algumas horas atrás do outro lado do oceano!

Vejo pelo canto do olho Alice sair de fininho assobiando depois de desligar o portal.

— Eu... — me levanto e ajudo Percy a levantar também — tinha que vir para o Acampamento.

— Saudades? — ele pergunta sorrindo.

— Também... mas tem um motivo maior.

Começamos a caminhar e ele espera eu continuar.

— Ártemis sofreu uma ameaça — ele me olha surpreso.

— Uma ameaça?

Eu sei, eu sei. Eu disse que não iria contar a ninguém para não causar problemas para Ártemis, mas... sei lá, era Percy. Voltamos a ser amigos, ainda tinha um clima meio estranho entre nós, mas éramos amigos agora. Mesmo depois de tudo, eu sentia que podia conversa com ele e, de alguma forma, confiar nele.

— É. Alguém a ameaçou para que ela me tirasse da caçada.

— Que tipo de amea... Espera — ele me faz parar de andar e olha para mim — Você não é mais caçadora?

— Não... — respondo meio desanimada e volto a andar. Ele tentou esconder, mas vi um pequeno sorriso no seu rosto antes dele me seguir.

— Mas, que tipo de ameaça é tão forte que pode ter feito você ser tirada da caçada?

— Não sei, Ártemis não disse, só falou que perderia todas suas caçadoras...

— Uma ou todas, ela seria meio bu... ela não estaria em si se enfrentasse a ameaça.

— Eu pensei o mesmo. Mesmo sendo uma deusa, sei que Ártemis não queria fazer isso comigo, eu era uma das suas melhores caçadoras... — chuto a grama enquanto ando.

— Nem é convencida... — ele olha para cima.

— Eu não sou! Só tô falando a verdade — dou um murro no seu ombro.

Ele ri e eu acabo rindo junto.

— Quem foi?

— Uma deusa.

Ele parece pensar um pouco. O que algo bem raro, só pra deixar registrado.

— Não tem muitas deusas por aí.

Eu começo a gargalhar e só paro quando minha barriga começa a doer. O que demorou um pouco.

Ele fica me olhando com cara de quem não entendeu.

— O que foi?

— É que... foi... uma informação muito relevante.

— Desculpa se eu falei o óbvio... de novo — ele fingi ficar triste e eu esfrego seu cabelo o deixando mais bagunçado

— Não fica triste, você é lerdo assim mesmo e ninguém pode fazer nada, nem seus poderes de deus — volto a rir.

— Isso não tem graça — ele me olha sério.

— Tem sim Cabeça de alga — continuo rindo.

— Para sabidinha — ele faz bico.

Eu paro de rir e ficou um tempo olhando pra ele sorrindo e ele faz o mesmo.

Eu tive saudades desses momentos. Só eu e meu melhor amigo, conversando e rindo.

Percebo que o seu olhar está na minha boca e ele umedece os lábios, eu coro.

— Er.. Eu tenho que ir pro meu chalé, já está quase na hora de dormir.

— Ok. A gente se vê amanhã — ele beija minha testa e vai embora.

Eu fico um tempo parada pensando. Porque sentimentos são coisas tão complicadas? Eu não conseguia entender eles direito. Queria que existisse um livro explicando cada um deles.

Suspiro.

Apesar de eu ter ficado meio envergonhada eu... eu queria beija-lo, queria sentir seus lábios nos meus novamente, mas não só um selinho como da primeira vez. Eu queria um beijo de verdade.

Balanço a cabeça afastando esses pensamentos da minha mente e vou para o meu chalé.

Notas finais
Será que a relação deles vai voltar ao normal depois de anos? Será que ainda terá uma reviravolta? Hoje (semana que vem) no Globo Repórter.