E se fosse diferente...?
12 Capítulo 11 parte 1
Notas iniciais
Acordei com mãozinhas me sacudindo. Abro os olhos e vejo olhinhos verdes sapecas me encarando. Puxo Lila pra cima de mim e começo a fazer cócegas nela.
— Não Anna! — ela começa a se debater. Lila era a única pessoa que eu deixava me chamar de Anna.
— Porque veio me acordar mocinha? — me sento na cama com ela no meu colo.
— Per me pediu para te chama, pá você i lá na paia — o jeito que ela falava chegava a ser cômico.
— Mas eu combinei com ele ontem que a gente ia se ver depois do almoço...
— Eu acabei de almoça — ela ri da minha cara de espanto.
— Oi?! — olho envolta no chalé e não tinha ninguém, olhei no relógio e eram quase uma hora da tarde.
— Você domiu demais — ela cantarola.
Fui no banheiro me arrumar. Tomei um banho rápido e vesti a primeira roupa que eu vi e sai nas pressas. Peguei na mão de Lila e sai do chalé.
Levei ela para o pavilhão apenas para me fazer companhia. Não tinha ninguém na mesa de Atena e só umas dez pessoas terminando seu almoço no resto do lugar.
Faz dois meses que a Lila chegou no Acampamento e ela não se importa mais com a mãe dela, de acordo com ela, porque ela tem a mim e a Percy.
Enquanto tomava meu brunch Lila estava sentada na minha frente sorrindo abertamente para mim. Acho que ela ainda esta rindo internamente por eu ter me atrasado. Eu sempre brincava com ela quando ela acordava tarde, a chamando de bela adormecida e de soneca. Acho que o jogo virou.
Acabo de comer e vou para a praia com Lila.
Eu já conseguia imaginar a risada de Percy quando souber que eu acordei agora...
— Você não pode continuar com isso por muito tempo e você sabe disso — escuto uma voz de longe. Estávamos chegando na praia.
— Eu sei pai, mas eu vou contar depois. Tudo tem seu tempo... — essa era a voz de Percy.
Passei pelas árvores que davam para a praia e vi ele e Poseidon conversando, eles pareciam não perceber nossa presença. Poseidon estava de braços cruzados e não parecia nem um pouco feliz com Percy. Nunca tinha visto os dois discutirem, minha imagem de Poseidon sempre foi do deus mais calmo e compreensivo, mesmo tendo suas explosões. Ser calmo e compreensivo não eram características fortes de um deus, mas eu conseguia vê-las em Poseidon.
— Eu não quero mais fazer parte dessa mentira, você precisa contar a Annabeth...
— Contar o que? — eu podia ter ficado calada e escutado a conversa, mas só por saber que falavam de mim, eu me senti na obrigação de participar.
— Annabeth... — Percy me olha surpreso coçando a nuca — Já chegou?
— Percy, me contar o que? — repito a pergunta ficando nervosa. Vejo pelo canto do olho Poseidon sumir em fumaça. Deuses fugindo de confusão, essa é nova!
— Olha Annabeth — ele anda até mim mostrando as palmas das mãos, como se quisesse acalmar um leão.
— Percy, para e me fala — eu sentia o sangue quente subir para minha cabeça.
— Tá bom, mas você precisa entender o meu lado, como uma filha da deusa da sabedoria faria.
Cruzo os braços e espero ele falar. Lila se agarra na minha perna.
Olho pra ela e ela parecia confusa, mas ao mesmo tempo parecia saber que uma discussão feia estaria por vir.
— Er... Eu... A Lila... Eu... — ele passa as mãos pelos cabelos tentando se acalmar — Poseidon não tem nada haver com ela, bem, não diretamente.
Fico em silêncio e espero ele continuar.
— A Lila é neta de Poseidon — ele engole seco e fica em silêncio.
Eu fico um tempo tentando raciocinar o que ele disse. Se ela era neta de Poseidon, ela era filha de um dos filhos do deus dos mares. Mas Percy era o único...
Percy tem uma filha... Percy tem uma filha! Uma filha de três anos! Uma filha com outra mulher!
Minha cabeça começa a gira e tenho a impressão que vou perder a consciência. Sabia que minha pressão tinha baixado, não sei como ainda estou de pé.
— Percy... Você? Como...? — eu tentava ver outro jeito de entender, talvez eu tenha escutado errado. Talvez não fosse bem assim...
— Annie, ela é minha filha — aquelas palavras foram como um tapa de realidade no meu rosto. O chão que eu tinha abaixo de mim foi arrancado e eu me sentia perdida.
— Pai? — Lila solta minha perna. Percy da um pequeno sorriso e Lila corre até ele e o abraça, fazendo Percy a pegar no colo. Ela abraça seu pescoço com forca.
Lila não parecia entender muito do que estava acontecendo, mas era visível a felicidade no seu rosto por saber que tem um pai.
— Não consigo acreditar que você escondeu isso de mim — sussurro — Desde quando você sabe disso?
— Desde que ela chegou...
Viro a cara pro lado, não conseguia olhar pra ele. Ele escondeu algo importante de mim. Escondeu de mim que tinha uma filha. Escondeu de mim que ficou com outra mulher...
— Annie — ele vem até mim com sua filha nos braços. Sua filha.
Dou um passo para trás.
— Você mentiu pra mim...
— Eu não menti Annie. Eu disse que ela tinha relação com Poseidon...
— Não vem com essa de "Annie" e você disse que não sabia a relação que ela tinha com o seu pai — minha voz começou a sair alterada.
Eu não conseguia olhar para Percy, então apenas olhei para Lila. Foi um erro.
Ela estava assustada com tudo aquilo e parecia prestes a chorar. Sua nova família estava se desfazendo.
— Eu fiquei com medo de te contar, de perder a sua confiança... — ele olhava para o chão. Se fosse minha mãe, diria que era um sinal de respeito enquanto falava, pra mim é apenas medo de assumir seu erro.
— Perder minha confiança? — eu comecei a gritar — Você mente para mim por dois meses e acha que vai ficar tudo bem? — minhas bochechas já estavam molhadas.
— Eu só não queria que isso acontecesse — nós dois estávamos gritando.
— Percy, você podia... — grito, mas sou interrompida por uma voz baixa.
— Não biguem, po favo — Lila chorava silenciosamente como eu, apenas deixava as lágrimas caírem — Vocês tão bigando po minha causa — ela esconde o rosto no ombro de Percy.
Eu chego perto dela e enxugo suas lágrimas com o dedão, como da primeira vez que nos vimos.
— Não bebê, não é culpa sua — olho para Percy — A culpa aqui é de outra pessoa.
— Lila, porque você não vai ver se o Leo tem alguma invenção nova para te mostrar? — Percy fala se abaixando e deixando Lila no chão.
— Mas eu não...
— Vai Lila, tá tudo bem — digo.
Não, não estava tudo bem e ela sabia disso. Mas ela pareceu querer acreditar nas minhas palavras e foi embora correndo.
— Eu ainda não acredito que você fez isso... — me volto para ele.
— Eu não tive culpa!
— Não teve culpa?! — volto a gritar — Você fez uma filha e diz que não tem culpa?! Então ela brotou do nada?
— Você tinha acabado de entrar pra caçada — ele grita também — Você sabe como eu sofri?
— Você sabe como eu sofri quando você virou deus? — grito de volta.
— Eu só tentei tirar você dá minha cabeça!
— Com outra mulher?! Eu tava certa quando disse que você era igual os outros deuses! — cruzo os braços e olho para o lado.
— Eu não era, ok? Eu só não suportava mais você na minha cabeça, eu sentia a culpa de deixar você ir embora pesar em mim, eu... Me perdoa, por favor — ele sussurra a última parte.
Ficamos em silêncio e ele veio pra perto de mim. Por instinto lhe dou um tapa forte que o faz virar a cara.
Ele olha pra mim surpresa e eu o olho com uma cara dura. O que me fez lembrar de Reyna, eu sabia que ela me lembrava alguém, esse alguém era eu.
Uma lágrima corre pelo meu olho direito se misturando com o rastro que as outras deixaram.
— Eu confiava em você Percy...
Ele põe uma mão no lugar do tapa no seu rosto.
— Annie, eu me arrependi do que fiz logo depois. Você não faz ideia de como eu me senti um lixo, mas agora eu preciso da sua ajuda — ele pega a minha mão — Aquela mulher abandonou a filha aqui e eu sei que se depender só de mim, essa garotinha está perdida. Preciso que você me ajude a cuidar dela, não faz isso por mim, mas por ela.
Seus olhos se enchem de lágrimas e, de alguma forma, isso fez com que mais lágrimas saíssem dos meus.
— Eu amo você Annabeth — ele sussurra olhando nos meus olhos.
— Eu... Eu preciso absorver tudo isso Percy. Eu... Eu não tô muito bem — solto a minha mão da dele e ando pra trás devagar. Ele abaixa a cabeça e minha visão embaça com tantas lágrimas. Corro para o meu chalé.
Ele não vem atrás de mim.
Abro a porta e vejo apenas uma pessoa lá dentro. Me jogo na minha cama e agarro meu travesseiro.
— Annabeth? — sinto Malcolm sentar do meu lado e por a mão no meu ombro — O que houve?
Eu solto o travesseiro e olho pra ele. Ele dá um meio sorriso e abre um dos seus braços. Agarro seu ombro e apoio minha cabeça nele.
Eu encharcava a manga da blusa dele, mas ele não ligava. Malcolm alisa meu cabelo sem falar nada.
Era disso que eu estava precisando. De alguém para me abraçar em silêncio para que eu pudesse apenas pensar.
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