E se for amor?
17 Capítulo 17
Capítulo XVII
Gemi e agarrei o travesseiro para colocá-lo em cima da minha cabeça. Eu estava deitado de bruços na cama e a maldita da janela estava aberta. Uma brisa gelada corria e eu enfiei as mãos embaixo das pernas na tentativa de me aquecer.
Soltei um resmungo quando o lençol foi puxado. Eu ia espernear, mas o Eduardo começou a beijar minhas coxas e foi subindo, parando para dar mordidinhas no meu bumbum, e continuou a trilha de beijos pelas minhas costas.
– Hora de acordar – ele sussurrou na minha orelha.
– Você acabou comigo. Tenho direito de dormir até mais tarde. Além disso, não tenho mais um chefe carrasco que me obriga a levantar às cinco da manhã porque às sete e meia em ponto o capuchino sagrado dele tem de estar em cima da mesa – tagarelei.
– A Lúcia não acerta o jeito que eu gosto do capuchino – Eduardo disse. Abri um olho e virei o rosto para observá-lo.
– E essa Lúcia é bonita?
Não sei por que o idiota do Eduardo abriu um sorrisão (tá, eu sei, mas vamos fingir que eu não entendi).
– Ela é casada e tem um casal de gêmeos. Eles estão com seis meses e ela com certeza ama muito a família para andar pensando em pular a cerca.
Soltei um “ah!” tentando não soar aliviado demais.
– Ciumento – o sorrisão do Eduardo se alargou ainda mais.
Fechei o olho e voltei a me enfiar embaixo do travesseiro ignorando solenemente o que ele disse.
– Eu trouxe o seu café. Deixe de ser preguiçoso e levante – ele disse após dar mais um beijo nas minhas costas. Eu sentei na cama de imediato e fiz careta com a dor que senti. – Você está bem? Eu te machuquei? – perguntou preocupado.
Olhei meio assombrado da bandeja para o Eduardo.
– Cadê o verdadeiro Eduardo?
– Como você é exagerado – ele girou os olhos. Pegou a bandeja e colocou à minha frente. – Aproveite o meu bom humor e não reclame.
– Eu não estou reclamando – peguei um morango e o mordi distraidamente. – Só que você nunca foi muito do tipo romântico. Se bem que... Fora a primeira vez, nós não dormimos juntos. Eu sempre ia embora logo depois da transa.
Percebi que o Eduardo estava com os olhos fixos na minha boca e não ouvia um terço do que eu dizia. Sorri e peguei outro morango. Mordi e passei a língua pelo lábio da forma mais sensual que eu consegui. Olhei discretamente para a calça dele e percebi que o volume começava a aumentar.
– Nem pense em pular em cima de mim. Você não vai me beijar enquanto eu não escovar os dentes. Esse negócio de beijo logo que se acorda só funciona em filmes mesmo e...
O desgraçado me puxou e tascou um beijão na minha boca. Quando ele se afastou tinha aquele sorrisinho irritante na boca.
– Isso foi... Nojento! – exclamei, revoltado.
– Drama, drama e mais drama – Eduardo disse após girar os olhos. – Você tem que parar de provocar se não quer que eu reaja.
Peguei uma banana e comecei a descascá-la. Eduardo gemeu quando eu dei a primeira mordida. Sorri de um jeito perverso.
– Não – Eduardo exclamou e acho que foi uma ordem para si próprio. – Nós temos que resolver outras coisas primeiro.
– Que coisas? – dei mais uma mordida na banana e o Eduardo ficou lá parado que nem um dois de paus. Era engraçado saber que eu conseguia arrancar aquela reação meio apatetada dele.
– O nosso voo de volta para o Brasil.
Larguei a banana e o fitei sem entender.
– Como assim? Você não pode ir decidindo esse tipo de coisa!
– Por isso eu disse que nós precisamos conversar, mas você não estava colaborando comendo essa banana como se ela fosse a coisa mais suculenta do mundo.
– Eu não vou voltar com você para o Brasil – falei em um tom sério.
– Como não? Eu achei que depois de ontem...
– Não posso largar todos os meus compromissos só porque você quer, Eduardo! Você tem essa mania irritante de ficar comandando todos os meus passos. Eu não sou mais teu empregado para que você diga o que eu posso ou não fazer e...
Eduardo colocou os dedos sobre os meus lábios me impedindo de continuar com o meu discurso inflamado.
– Eu não estou tentando comandar os seus passos, Fred – ele disse em um tom tão suave que toda a raiva que eu sentia começou a se esvair. – Apenas achei que você quisesse voltar para o Brasil comigo. Eu sinto sua falta e não queria ficar enfrentando essa ponte aérea São Paulo-Paris toda semana.
Senti meu rosto arder. Bem, mas eu tenho direito de me estressar, não é? Ele sempre falou comigo naquele tom de “faça o que eu digo e nem adianta discutir!”. Pensei que ele estivesse querendo me arrastar de volta para o Brasil sem qualquer consideração.
– Também sinto tua falta – murmurei e senti um arrepio quando o Eduardo segurou a minha mão e entrelaçou meus dedos aos dele – Mas não posso largar tudo aqui. Tenho um monte de desfiles e campanhas para fazer.
– Quanto tempo?
– Eu não sei – deixei os ombros cair. – Eu pensei que não fosse voltar tão cedo para o Brasil, então aceitei um monte de desfiles e campanhas.
– Tudo bem. Eu vou ficar na ponte aérea nesse tempo.
– Ah, eu sou um idiota! – exclamei enquanto empurrava os lençóis. Levantei e fiquei andando para lá e para cá (e senti os olhos do Eduardo fixos no meu bumbum, mas tratei de ignorar isso). – Eu falei um monte de coisas e você sendo todo compreensivo!
– Você sempre fala um monte de coisas, Frederico – Eduardo girou os olhos. – Se eu realmente me irritasse com essas coisas que você diz, nem teria vindo até aqui.
Eu ia retrucar, mas meu celular começou a tocar. Era o meu secretário. Eu o contratei porque cansei de ficar agendando e monitorando todos os meus compromissos. Agora eu posso pagar, então os outros que façam isso por mim!
– Diz, Pierre – falei ao atender.
– Sua sessão começa em uma hora...
– Sessão de quê mesmo?
– As fotos para a Lacoste. Os outros modelos já chegaram. Você vai adorar.
– Adorar o quê?
– Os modelos! São gêmeos. Você vai ficar no meio dos dois.
Senti o rosto arder e olhei para o Eduardo que estava com a mão na minha coxa complemente alheio à minha conversa.
– Tá. Daqui a pouco eu chego aí – encerrei a ligação. – Tenho um trabalho agora.
– Vou com você – Eduardo disse.
– Não! – exclamei exasperado.
– Por que não?
– É... Porque... Bem...
– Desembucha, Fred – Eduardo disse naquele tom sério que me fazia tremer da cabeça aos pés.
– Não vai surtar... Eu sei como você é ciumento... Eu já senti bem o seu ciúme... – mordi o lábio. – Vou tirar umas fotos.
– E qual o problema?
– Só de cueca e tênis... com dois modelos gêmeos me abraçando – a última parte foi sussurrada. O Eduardo ficou todo tenso e eu achei melhor sair de fininho.
Corri para o banheiro. Essa não era uma conversa para se ter pelado. Me enfiei embaixo do chuveiro e fiquei pelo menos uns 20 minutos por lá.
Quando saí – já devidamente vestido – vi que o Eduardo também havia tomado um banho (no corredor tem outro banheiro) e estava com cara de pouquíssimos amigos.
– Eu vou – ele disse.
Suspirei.
– Olha, Eduardo, é o meu trabalho. Eu não vou lá ficar me agarrando com eles porque quero. Você não precisa ficar com ciúmes, nem fazer uma cena.
– Eu não vou fazer uma cena – ele garantiu. – Mas vou estar lá para que eles saibam logo que você tem namorado!
– Namorado?
– Você precisa de um pedido formal, Frederico?
– É muita presunção sua achar que, só porque a gente transou, eu já sou teu namorado e...
O Eduardo atravessou o quarto, me puxou pela cintura e me deu um beijo que me deixou tão zonzo que eu nem sabia mais o meu nome.
– Então? É meu namorado ou não?
– Ah... Sim, teu namorado – respondi meio grogue.
– Se eu não fosse, eles veriam as marcas roxas que eu deixei e saberiam de qualquer forma que devem ficar longe – Eduardo sorriu.
– Marcas? – arregalei os olhos e o empurrei para correr até o espelho. – EDUARDO!
O desgraçado só fez sorrir ainda mais.
– Vamos logo senão eu vou chegar muito atrasado – resmunguei. As maquiadoras teriam um trabalho danado para cobrir aquelas marcas.
Fui emburrado o caminho inteiro. O Eduardo chega e já vai virando a minha vida de ponta cabeça. Não é nada justo!
– Espera aí – o segurei pelo braço antes de entrarmos no prédio. – Você vai querer mesmo entrar comigo?
– Eu sou seu namorado.
– Sim, Eduardo, mas a tua imagem e...
– Fred, eu nunca liguei para o que os outros pensam ou deixam de pensar de mim – Eduardo disse sério. – Eu quero estar com você e não vou me esconder.
– Mas, alguns clientes podem não gostar e deixar de contratar a Seventh Heaven.
– Eu não me preocupo com isso, Fred. Se eles são preconceituosos que procurem outra empresa. A Seventh Heaven é a melhor produtora de São Paulo e perder alguns clientes não vai nos afetar.
– Convencido... – murmurei, mas um sorriso surgiu nos meus lábios sem que eu pudesse contê-lo. – Você quer mesmo isso? O Wagner...
– Eu não sou o seu ex, Fred.
– Assim como eu não sou a tua ex também.
– Eu sei. Eu fui um idiota em te tratar daquele jeito. Eu vou continuar pedindo desculpas até que você me perdoe de verdade.
Levei a mão até a bochecha dele e o toquei de leve.
– Só não faz mais, Eduardo...
Talvez eu estivesse perdoando fácil demais, mas a verdade é que não queria mais ficar brigando com ele, nem remoendo o que ele me disse. Eu amo o Eduardo com todos os defeitos e crises de ciúme dele.
– Eu prometo – ele sussurrou enquanto se inclinava e depositou um leve beijo nos meus lábios que provavelmente se tornaria um beijo daqueles de me deixar de pernas bambas se o Pierre não tivesse aparecido. Ele pigarreou de leve e eu me afastei do Eduardo meio a contra gosto.
– Desculpa interromper, Fred, mas estão todos loucos com o seu atraso... – ele disse.
– Estou cinco minutos atrasado – resmunguei aborrecido. – Eduardo, este é o meu assistente. Pierre, Eduardo é meu namorado.
Os dois se cumprimentaram rapidamente. Seguimos Pierre até a sala onde seria realiza a sessão. Quando eu ia para a maquiagem para que as marcas roxas fossem disfarçadas, o fotógrafo apareceu e disse que era para deixar tudo no lugar. Segundo ele, eu ficaria muito sexy com aquelas marcas no meu corpo. Nem preciso dizer que o Eduardo fez uma cara de dar medo.
A sessão transcorreu normalmente. Eu falei para o Eduardo ir esperar em outra sala enquanto eu tirava as fotos, mas ele não arredou o pé e ficou lá morrendo de ciúmes enquanto eu virava sanduíche de gêmeos. Entre uma foto e outra, o Eduardo fazia questão de me puxar e dar beijos cinematográficos para que os gêmeos soubessem que eu só era deles nas fotos.
– Você é muito ciumento... – murmurei após um desses beijos.
– Você também é...
– Eu?! Que nada! – me fiz de sonso. Me lembrei da primeira vez em que nós transamos e aquela dúvida que me atormentava desde que estivemos juntos naquela noite surgiu. – Você já tinha transado com outros homens?
O Eduardo recuou um pouco.
– Você quer falar sobre isso agora? – ele olhou por cima da minha cabeça para ver o que os outros estavam fazendo, mas cada um estava muito mais interessado em suas próprias conversas.
Me afastei um pouco dele e cruzei os braços. Eu estava embrulhado em um roupão porque a sala estava super congelante e eu estava fotografando apenas de cueca.
– Sim, eu quero!
– E depois me diz que não é ciumento... – ele suspirou. – Transei sim. Eu fiquei perturbado com o que estava sentindo por você. Nunca havia me sentido atraído por homens antes, então eu quis fazer um teste e ver se eu sentiria nojo ao estar com alguém do mesmo sexo.
Bufei completamente indignado e o empurrei de leve. Fiz o movimento de que iria voltar para perto dos modelos e do fotógrafo, mas o Eduardo me puxou pela cintura e me abraçou por trás.
– Mas essas transas não significaram nada, Frederico – ele sussurrou perto da minha orelha. – Eu fiquei com eles, mas só pensava em você.
Lá fui eu virando gelatina nos braços dele.
– Já que estamos em um momento de confissão, preciso dizer outra coisa.
– O quê? – fiquei tenso.
– Não precisa ficar nervoso – ele beijou meu pescoço e eu realmente comecei a considerar a fugir do ensaio e me trancar com o Eduardo no meu quarto pelo resto do dia. – Bem... Lembra daquele desfile que produzimos para o Alexandre?
– Pensei que você quisesse esquecer esse dia.
– Impossível eu esquecer o dia em que nos beijamos pela primeira vez.
– Quê? – girei nos braços dele para poder encará-lo. – Como assim? Nós não nos beijamos naquele dia!
– Você estava bêbado e começou a dizer um monte coisas...
– Que coisas?
– Que nunca me beijaria, nem ficaria comigo e que jamais ficaria excitado com meus toques. Eu tive que provar que era tudo mentira. Eu só não esperava que você fosse esquecer tudo.
– Eu falei mesmo todas essas coisas? – Meu queixo estava um pouco despencado. Eduardo assentiu e então eu abri um sorrisinho besta.
– O que foi? – Eduardo perguntou, como se eu fosse louco por ficar com aquela expressão de contemplação sorridente.
– Nada. Só estou num daqueles momentos em que percebo porque gosto tanto de mim mesmo. – Falei. Já disse que não sou nada modesto? Pois é. Dei de ombros, enquanto Eduardo revirava os olhos. – Eu sou fraco para bebida – resmunguei. – Mas porque você não me contou tudo logo no dia seguinte?
– Você não reagiria bem – Eduardo encolheu os ombros.
– É, talvez eu surtasse um pouquinho... – Eduardo ergueu as sobrancelhas. – Certo, eu surtaria muito. Mas ainda assim eu tinha o direito de saber! E agora... Eu nem lembro como foi.
– Eu posso te prender em um carro e mostrar exatamente como foi – ele sussurrou perto da minha orelha fazendo com que eu me arrepiasse inteiro.
– Fred! Vamos continuar! – o fotógrafo chamou.
– Promete? – perguntei ansioso.
– Prometo – Eduardo sorriu.
– Eu vou cobrar! – falei antes de me afastar. Eduardo continuou sorrindo... Até eu começar a ser agarrado pelos gêmeos outra vez.
Fale com o autor