E se for amor?
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Parte I
Eu odeio o meu chefe. E não era pouco. Sabe aquele filme “Quero matar o meu chefe”? O troço cai como uma luva no meu caso! Eu assisti ao filme e me senti na pele de cada um daqueles pobres empregados injustiçados e explorados. Porque é isso que eu sou: injustiçado e explorado!
Há exatos dois anos eu sou humilhado, pisado e feito de capacho. Você deve estar se perguntando: Por que esse cara não pede demissão de uma vez e pronto? Porque eu estou mais perto de realizar o meu sonho do que jamais estive desde que enfiei na cabeça que seria estilista.
Você deve estar me achando confuso e sem sentido algum. Tudo bem, tudo bem. Começo me apresentando. Chamo-me Fred Valentin.
– Frederico, onde estão os relatórios? – saltei da cadeira e olhei apavorado para a razão de todas as minhas desgraças. Nem processei que ele me chamou pelo meu nome de batismo que eu tanto detesto.
– Deixei sobre a sua mesa – falei de forma apressada.
– Não estão lá!
Porcaria! Eu tinha certeza de que tinha deixado os benditos relatórios direitinho em cima da mesa, ao lado do sagrado capuchino com creme dele!
Tentei andar graciosamente até a sala, mas só o que consegui foi um caminhar esquisito, meio correndo meio rebolando. Olhei desolado para a mesa impecável e vi que, de fato, os relatórios não estavam lá. Agora eu tinha certeza: tinha alguém naquela empresa querendo me ferrar!
– Trago em um minuto. Vou imprimir outra vez... – murmurei enquanto voltava no andar meio corrido meio rebolado até a minha mesa. Porém, meu chefe me segurou pelo braço. Ergui a cabeça e o encarei. O desgraçado media mais de 1,90! Nem com meus saltos eu ficava perto da altura dele.
Uma coisa sobre mim: sou andrógino. Muito antes disso virar moda, aliás. Sempre gostei de deixar meus cabelos longos, de usar cores fortes nas unhas e saltos altos. Meu rosto delicado ajuda a passar por aquela de “é homem ou mulher?”. Com o cabelo preso pareço homem, mas com o cabelo solto deixo a dúvida no ar. Já fui convidado para desfilar como modelo, porém não era o que eu queria, então eu ia me submetendo aos desmandos do meu chefe na esperança de que um dia ele visse algum dos meus croquis.
– Mais uma dessas, Frederico, e você estará fora da empresa! – ele ameaçou.
Murmurei um “sim, senhor” e puxei o braço, afastando-me com uma mescla de raiva, frustração e medo.
Meus problemas têm nome e sobrenome: Eduardo Barelli. O cara é um dos executivos mais respeitados no mundo da moda. É disputado por todos os estilistas para organização de desfiles. Eu havia pensado que me tornar assistente dele me ajudaria a alcançar o meu sonho... Mas que nada! Eu dou o meu sangue todos os dias para que tudo saia perfeito em cada desfile produzido pela empresa, mas esse idiota não percebe, não agradece! Pior que isso. Me destrata e me humilha na frente de quem estiver por perto.
E eu não estou exagerando. Todos os dias antes de vir para cá, eu tenho de ir comprar o sagrado capuchino com chantilly dele. Uma vez eu estava atrasado e esqueci o chantilly. Eduardo me olhou com uma cara terrível quando viu que eu não havia cumprido direito aquela simples tarefa. Ele já estava furioso porque um dos desfiles que ele estava organizando deu problema. Juro que pensei que ele fosse me bater. Mas ele fez pior: despejou o conteúdo do copo em cima da mesa dele e arruinou todo o trabalho que eu havia levado duas semanas inteiras para fazer. O desgraçado sabia que eu geralmente não fazia backup dos arquivos, então teria de virar noites e mais noites para colocar tudo em ordem outra vez.
Isso é só pra você ter ideia do que ele é capaz de fazer.
Larguei-me na cadeira e levei as mãos ao rosto enquanto massageava suavemente a testa. Eu sentia uma leve pontada de dor de cabeça.
– Ei, eu acho melhor você levar os relatórios logo... – Murilo, um dos meus colegas de trabalho, murmurou.
Suspirei e me ajeitei na cadeira. Ainda bem que eu havia escolhido um ‘look’ menino naquele dia: calça preta, blusa azul lisa, cabelos presos e sapatos fechados. O típico ‘executivo’. Se eu estivesse de salto teria me espatifado no chão depois daquele olhar de ‘você está ferrado’ que Eduardo lançou. Ferrado para não dizer coisa pior...
– Você está bem? – Murilo colocou uma mão sobre a minha.
Forcei um sorriso e balancei levemente a cabeça para indicar que sim. Eu não era idiota. Já havia percebido que Murilo arrastava um bonde para cima de mim. Ele só faltava babar quando eu aparecia com o look andrógino. Não que ele não seja altamente pegável. Ele é loiro e eu tenho um fraco por loiros, mas a última coisa que eu preciso é que o imbecil do meu chefe me pegue de flerte com um colega de trabalho. Seria como assinar a minha sentença de morte!
Comecei a imprimir os relatórios, elaborando mentalmente uma lista de pessoas que me odiavam e que poderiam ter sumido com os relatórios, mas sinceramente não consegui pensar em ninguém. O único que me odeia é o Eduardo. Eu não sei por que ele me detesta tanto. Já haviam me dito que não era nada pessoal e que ele trata todas as pessoas dessa forma. Os assistentes anteriores dificilmente aguentavam mais de um mês. Eu aproveitei a vaga da última moça sofredora a trabalhar para ele e já estava naquele cargo há mais de seis meses.
Muitas vezes me passou pela cabeça simplesmente pedir demissão, mas eu não queria desistir sem tentar até o fim das minhas forças! Eu iria mostrar pelo menos um dos meus croquis ao Eduardo e, se ele dissesse que era péssimo, eu iria chutá-lo e encontrar alguém que valorizasse o meu talento. E, não, eu não sou prepotente. Se eu não me valorizar e acreditar em mim, quem vai acreditar? Por isso eu sou meu fã número um.
Eduardo tem olho clínico para novos talentos. Todos os estilistas são loucos por ele e fazem verdadeiras guerras para tê-lo como produtor dos desfiles. Ele é ex-modelo e tem experiência em como produzir os desfiles mais inesquecíveis.
E, infelizmente, eu preciso admitir que, o que ele tem de mau, tem de bonito. Não é todo dia que a gente topa com um moreno de olhos absurdamente verdes por aí. Sem falar que o maldito tem uma presença assustadora. Eu não cheguei a vê-lo desfilar, mas dizem que ele era tão bom, que fazia qualquer um esquecer o resto do mundo enquanto ele avançava pela passarela.
– Frederico! – quase pulei da cadeira quando Eduardo abriu a porta da sala outra vez e soltou o meu nome em um berro. – Os relatórios!
– Estão aqui! – grampeei as folhas rapidamente e corri para entregar.
– Vá buscar Marilyn no pet shop – ele mandou enquanto analisava o conteúdo do primeiro relatório.
Torci o nariz. Na última vez em que fui buscar Marilyn no pet shop, ela quase me matou esmagado. Ao contrário do dono, Marilyn me ama. Mas não é nada agradável ter um São Bernardo adulto e pesado pulando em cima de você cheio de lambidas e amor para dar. E eu já tentei ensiná-la a não pular em cima de mim, mas eu acho que o dono dela não é muito dado a manifestações de afeto, então ela desconta todo seu afeto no babaca mais próximo.
– E confira as reservas do voo para Porto Alegre...
E lá íamos nós em mais uma viagem para descobrir novos talentos. E na minha terra natal. Sou gaúcho. Mas não aparento muito. Não sei de onde meus cabelos vermelhos vieram, já que nasci em Dois irmãos e a cidade foi colonizada basicamente por alemães. Praticamente todos são loiros dos olhos claros. Cresci meio como uma aberração. E eu detesto lembrar a minha infância. Então vamos continuar falando sobre a viagem.
Uma loja importante de Porto Alegre estava organizando um concurso com alguns aspirantes a estilistas. O vencedor iria ganhar um contrato para fornecer os modelos para a loja. Eduardo foi convidado para ser um dos jurados. Aí ele já iria aproveitar e dar uma olhada em busca de alguém bom o suficiente para ser lançado no próximo São Paulo Fashion Week. Bem, ele é cego. Eu que tenho de ser o próximo estilista lançado por ele.
– Sim, senhor...
– Depois passe na casa do Alexandre e diga que, se ele não trouxer os croquis do próximo desfile, eu cancelo tudo!
– Sim...
– Ligue para Paola. Desmarque o jantar que eu tinha com ela hoje à noite e, se ela chorar, mande ela ir pastar.
– Mas...
– O que ainda está fazendo aqui, Frederico? Quero minhas ordens cumpridas para ontem!
Mordi a língua para não soltar uma resposta mal-criada. Sério. Um dia eu ainda rodo a baiana e ele vai ver por que dizem que os ruivos têm cabeça-quente.
Acabei indo fazer o que ele pediu. Primeiro fiz a ligação para a tal Paola. Eduardo troca de namorada como quem troca de roupa. Já perdi as contas de quantas garotas já dispensei para ele. E o pior... É sempre a mesma choradeira no telefone. Eu acho que o Eduardo deve ter mel, porque elas parecem querer grudar nele. Ou então o cara é um furacão na cama.
E é melhor eu não pensar em como o Eduardo é na cama...
Eu já disse que ele é lindo?
É, eu já devo ter dito.
E eu ainda fico com pena das garotas e acabo passando horas no telefone tentando consolá-las. Eu já fui chutado e dói pra caramba. Por isso eu procurava chutar antes de ser chutado. Procuro não me apegar. Mas ultimamente a coisa anda feia para o meu lado. Não ando pegando nem resfriado. Muito por falta de tempo para sair e me divertir. Qualquer dia desses eu vou desmaiar de tanto cansaço.
Depois de meia hora no telefone tentando convencer a Paola que o problema não era com ela, mas com aquele traste ambulante que eu chamava de chefe, desliguei e fui até o pet shop pegar Marilyn. Ela estava toda fofa com um laço rosa no topo da cabeça peluda. E, graças a todos os deuses, ela não pulou em cima de mim. Até a achei meio para baixo.
– Ela está doente? – perguntei à recepcionista.
– Não. É a gravidez. Ela está cansadinha. É normal – ela sorriu e meu queixo caiu. Marilyn estava grávida?
– Bebê! – exclamei enquanto me ajoelhava diante dela. – Seu pai vai ter um troço quando souber.
Ela fez um ‘grrrr’ meio aborrecido e interpretei isso como um ‘estou pouco me lixando para o que ele vai dizer’.
– É, eu também não ligaria – sorri e me levantei. Levei Marilyn até a casa de Eduardo. Foi uma complicação para encontrar um táxi. Ninguém quer um São Bernardo gigante no banco de trás.
– Olá, Jô – cumprimentei a secretária que cuidava da casa de Eduardo. Ela sorriu e segurou a coleira da Marilyn. – Estou apressado hoje.
– Depois passa aqui com calma – ela pediu. – Você tem que me contar as fofocas!
– Ah, as coisas andam paradas – respondi enquanto balançava levemente os ombros. – Mas eu dou um jeitinho de passar por aqui uma hora dessas.
Marilyn ainda conseguiu me lamber antes que eu fosse embora.
Por fim, fui cumprir a última missão dada pelo carrasco. Encontrei Alexandre, o estilista que nos contratou para realizar seu próximo desfile, surtando por falta de inspiração.
– Eu não consigo desenhar! Simplesmente não sai nada, nada, Fred! – exclamou desesperado.
– Nós precisamos de pelo menos mais três modelos, Alexandre – falei em um tom calmo para não deixá-lo ainda mais nervoso.
Imagina se eu falo para ele o que o Eduardo me mandou dizer!? Que iria cancelar tudo se ele não mandasse mais croquis. O coitado já estava uma pilha de nervos. Não precisava que eu o ajudasse a rolar ladeira abaixo. O puxei até a mesa e comecei a olhar os esboços que ele tinha começado. Fui dando algumas dicas de como melhorar os modelos e isso, aos poucos, começou a acalmá-lo. Quando ele se animou, até começamos a nos divertir com alguns modelos bem sem noção que acabaram surgindo.
– Eduardo teria um troço se visse isso. Ele odeia penas – falei sorrindo. Alexandre estremeceu quando ouviu o nome do meu chefe e eu quase me chutei por fazê-lo lembrar que o prazo estava se esgotando. – Sabe, você tem até o meio dia de amanhã para entregar os croquis. O que acha de sairmos um pouco? Aposto que você ficou todos esses dias enfurnado sozinho aqui dentro. Está precisando se divertir!
Alexandre me olhou como se eu fosse louco e tentou me convencer de que não tinha tempo para se divertir, mas eu o empurrei até o banheiro e disse que ele estava fedendo que nem um porco, aí ele acabou se resignando a tomar um banho. Depois o enrolei dizendo que não tinha nada na geladeira – bem, não era uma mentira completa já que realmente não havia nada aproveitável ali dentro – e acabamos saindo para jantar.
Além de talentoso, Alexandre é uma pessoa muito divertida. Quando não está surtando, claro. O observei jantar que nem um esfomeado. Aposto que o coitado estava sem colocar nada no estômago desde o café! Depois o arrastei até uma boate próxima do restaurante.
Eu não estava vestido para a balada, mas a minha intenção não era chamar a atenção ou me divertir. Minha prioridade era o Alexandre. Quanto mais relaxado ele estivesse, mais renderia na criação dos modelos que faltavam.
Soltei o cabelo enquanto estávamos na fila e peguei o protetor labial no meu bolso. Só isso já fez com que algumas cabeças virassem na minha direção. Não vou negar que eu gostava quando as pessoas ficavam babando por mim. Senti quando uma das mãos do Alexandre foi parar na minha cintura, e eu comecei a mover o corpo de um lado para o outro já contagiado pela música que vinha do interior da boate.
Feel the adrenaline
Moving under my skin
It's an addiction
Such an eruption
Comecei a cantarolar baixinho e arranquei uma risada baixa do Alexandre.
– Até que é afinadinho – ele brincou.
She's been a crazy dita
Disco diva... and you wonder:
Who's that chick? Who's that chick?
Too cold for you to keep her
Too hot for you to leave her
Who's that chick? Who's that chick?
Quando entramos, a música estava justamente no refrão. Alexandre sorriu ao me ver dançando todo animado. Fazia tempos que eu não saía para dançar e estava feliz com a oportunidade.
– Sabe que eu me perguntei muito isso quando Eduardo nos apresentou...
– O quê? – perguntei curioso.
– Quem é essa mina? – ele esclareceu, e eu acabei gargalhando ao entender que ele me confundira com uma garota.
Eu forcei a memória e lembrei que estava com o look ‘menina’ no dia que nos conhecemos. Estava com um short, meia ¾... Meio estilo colegial safada.
Nos dirigimos até o barzinho e ficamos por lá algum tempo, observando a movimentação e tomando alguns drinks. Algumas pessoas se aproximaram e me convidaram para dançar, mas eu recusei todos os convites.
– Eu posso fazer uma coisa? – Alexandre perguntou de repente.
– Depende – respondi depois de terminar o meu drink e colocar o copo sobre o balcão.
Esperei que o Alexandre dissesse o que queria fazer, mas ele resolveu fazer sem perguntar mesmo: se aproximou mais de mim e segurou uma mexa dos meus cabelos. Começou a brincar, sentir a textura.
– É tão macio quanto eu pensava... – ele sussurrou.
– Na... Nada! Tá todo quebrado. Não tenho tido tempo de cuidar – falei em um tom apressado. Não sei por que estava nervoso. Talvez fosse pelo fato de eu estar prensado contra o bar, e estarmos tão próximos, que eu conseguia ver com perfeição os olhos dele. Eu nunca tinha prestado atenção em como os olhos do Alexandre eram bonitos. Uma cor diferente, meio amendoados.
Ele colocou a mão no meu rosto e foi se aproximando. Em algum momento eu prendi a respiração. Eu não sei se queria beijá-lo, mas também não queria afastá-lo. Confuso? É, eu sei.
Fechei os olhos, indicando que aceitava o beijo, mas o que senti foi um puxão e, em seguida, bati em algo... Duro.
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