E se for amor?
19 Capítulo Extra
O Frederico estava estranho. Não. Espere. Isso ele sempre foi.
Começando outra vez: o Frederico estava muito mais estranho do que o normal.
Primeiro, ele andava acordando cedo. Quando isso aconteceu, no primeiro dia eu olhei para o lado meio grogue de sono e achei que estivesse sonhando quando vi aquele vulto com cabelo vermelho correr até o banheiro. Nesses três anos em que nós estamos juntos, ele nunca levantou antes das nove. E isso quando ele resolve levantar “cedo”.
O horário de trabalho dele é bem flexível e o Fred geralmente vira a noite quando está envolvido em algum projeto. Segundo o Fred, ele trabalha melhor de madrugada aí sempre acorda tarde no dia seguinte. Ontem mesmo eu vim deitar e ele ficou com a cara enfiada no trabalho.
Já falei para ele que essa rotina não é muito boa, mas você sabe como é difícil fazer o Fred mudar de ideia em relação a algo.
Conferi o relógio e vi que era um pouco mais de seis da manhã. Levantei e fui olhar o que ele estava fazendo porque das duas uma: ou ele estava passando mal, ou ia chover canivete.
– Fred? – o chamei enquanto abria a porta do banheiro devagar. Com o Fred todo cuidado é pouco. Uma vez eu fui abrindo a porta do banheiro de uma vez, ele pensou que fosse um ladrão (não sei de onde ele tira essas ideias) e atirou tudo que segurava nas mãos em minha direção.
Ele estava entretido tomando banho e cantarolando alguma coisa enquanto mexia o quadril de um lado para o outro. Gemi baixinho e a excitação matinal ficou ainda maior.
– Pode ir parando de espiar, Eduardo – ele avisou, mas nem assim fez com que eu desistisse do meu intento de agarrá-lo no chuveiro.
E aí veio o segundo comportamento estranho: ele me rejeitou. E isso foi quase tão surpreendente quanto ele acordar cedo porque o Fred era... Bem... Insaciável. Nunca vi alguém com tanta disposição na vida. Às vezes eu chegava da Seventh Heaven só no ponto de capotar na cama e dormir doze horas seguidas, mas o Fred conseguia, com aquela energia dele, me deixar ligado em três segundos.
E ai de mim se dissesse não para ele.
Viver com o Fred não é fácil. Ele é genioso, teimoso, birrento, mandão, turrão, acorda com um mau humor dos infernos, preguiçoso, bagunceiro e ainda tem um gosto meio bizarro para decoração. Ele cismou de colocar um frigobar do lado do sofá, segundo ele para evitar ter de ir até a cozinha no meio de algum filme... É melhor eu parar por aqui senão passarei horas e horas aqui elencando as qualidades dele. E eu sei que é totalmente piegas dizer que eu o amo com cada um desses defeitos, então não comentarei nada sobre o fato.
Depois disso, o Fred engoliu o café da manhã na maior pressa e saiu correndo após de me dar um beijo rápido.
Eu fiquei com a pulga atrás da orelha, claro, mas não perguntei nada na ocasião. Acreditei que ele tivesse alguma reunião com algum cliente. O Fred é atualmente um dos estilistas mais requisitados das Américas, e ele diz que o objetivo agora é ganhar o mundo. Fred desenha modelos para diversas empresas e ainda tem algumas clientes modelos, atrizes, cantoras... Não sei realmente como ele dá conta de tanto trabalho. Mas ele ama tanto o que faz que nunca reclamou.
Deixei passar o que aconteceu naquela manhã e acabei esquecendo o assunto no dia seguinte.
Só que o fato se repetiu na manhã seguinte, e na outra, e na outra...
E já fazia uma semana que o Fred saía correndo de manhã cedo sem explicar o que estava acontecendo e passava o dia todo sumido. O assessor dele, inclusive, me ligou duas vezes desesperado porque o Fred havia se esquecido do prazo de entrega de alguns croquis e estava com o celular desligado.
A pulga atrás da minha orelha começou a virar um elefante.
– E agora ainda estou com esse baita problemão. Os pais do Fábio pediram pra eu ficar no encargo de organizar a festa de aniversário dele, e ainda comprar um presente bem original! Eu sempre dei qualquer coisa pro Fábio, porque ele não ‘tá nem aí pra presentes e já tem de tudo, mas dessa vez tenho de pensar em alguma coisa original porque não dá pra dar roupa pra ele quando toda a família está esperando que eu seja criativo. – o Alexandre estava diante da minha mesa reclamando de qualquer coisa, mas eu parei de ouvir depois da segunda frase. – Eduardo! Você tá escutando alguma coisa do que eu estou dizendo? Estava com esperanças de que você me ajudasse com alguma ideia! – Exclamou exasperado.
– Compre um papagaio, ou dê uma roupa esdrúxula, de cowboy. Vai impressionar todo mundo. – respondi dando de ombros.
– Talvez eu deva dar um papagaio e uma roupa de pirata então. Que bela ideia, Eduardo, como não pensei nisso antes! – Ele disse cheio de ironia. – Quando você vem reclamar nos meus ouvidos, eu ao menos tento fingir algum interesse.
– Qua grande amigo. – Debochei. – Mas quando foi que eu fiquei derramando os meus problemas em cima de você?
Foi divertido ver o Alexandre abrir e fechar a boca várias vezes sem saber o que dizer e logo se encostar à cadeira com uma expressão frustrada. Eu já havia reclamado de alguns dos meus problemas com ele antes, geralmente problemas nos negócios, e não pessoais, mas o Alexandre era péssimo em se lembrar dessas coisas.
– Que seja. – Desconsiderou. – No que você pensava de tão importante? Para onde você vai levar o Fred na próxima viagem de aniversário de casamento, já que ele conhece quase o mundo inteiro? – Alexandre desdenhou.
– Se eu visse o Fred já seria bom... – acabei deixando escapar.
– Você não o tem visto também? – Alexandre perguntou surpreso. – Mas vocês moram juntos!
– Eu tenho o visto muito rapidamente. Ele anda acordando cedo.
– Sério? – Alexandre perguntou estupefato.
– Muito. Ele está aprontando alguma e eu tenho medo de descobrir o que é...
– Eu também teria esse medo se estivesse no seu lugar – Alexandre fez uma careta. – Você não tem a menor ideia do que pode ser?
– Nenhuma – respondi e acho que foi a minha expressão preocupada que deixou o Alexandre em alerta.
– Você não está pensando que ele...
– Não. Claro que não. Eu já aprendi minha lição naquela vez. Sei que o Fred não seria capaz de me trair.
– Eu posso falar com ele.
– Não. É melhor que ele venha falar comigo quando quiser. Não quero que ele fique se sentindo pressionado.
– Bem, se você mudar de ideia é só me ligar.
Balancei levemente a cabeça indicando que havia escutado, mas não iria mudar de ideia. Eu realmente achava que era melhor o Fred falar comigo quando resolvesse que eu deveria saber o que ele estava aprontando.
Depois a conversa com o Alexandre mudou de rumo, pois passamos a tratar de negócios e caímos em um plano bem menos pessoal. O que eu achava bem melhor já que eu não gostava de ficar falando sobre a minha vida com ninguém. Nem mesmo o Alexandre que era um amigo de longa data.
Na hora do almoço eu fui encontrar com a minha mãe em um restaurante que ficava perto da Seventh Heaven. Ela sorriu e fez um sinal para que eu me sentasse. Ela era uma boa mãe, mas não era do tipo efusiva e carinhosa como a mãe do Fred.
– E o Fred? – ela perguntou. – Vocês dois prometeram almoçar comigo hoje.
– O Fred anda meio sumido – encolhi os ombros.
– Sumido? Não me diga que você tem sido um marido tão ruim que já está fazendo o Fred correr de você. Oh, eu sabia, aquele rapaz era bom demais para você. – Ela balançou a cabeça como se fosse uma verdadeira tragédia em sua vida. A tragédia no caso sendo eu.
Eu revirei os olhos.
– Ele deve apenas ter se entupido mais de trabalho.
– Não é desculpa. Ligue para ele. – Ela exigiu, com seu jeito mandão. Minha mãe tinha o dom para a liderança. Eu havia herdado isso dela, não à toa havia acabado como chefe de minha própria empresa. – E você devia evitar que ele trabalhasse tanto, o Fred vai acabar indo a exaustão dessa maneira.
– Ele dá conta, tem mais energia do que qualquer um. – Eu não estava mentindo, mas minha mãe balançou negativamente a cabeça.
– Você deveria ser mais atencioso com seu marido. Deve ser mesmo por isso que ele anda fugindo de você.
Minha mãe era impossível. Quando colocava algo na cabeça dificilmente mudava de ideia.
– Certo. Eu vou ligar. – Suspirei, antes que eu me tornasse o pior marido do mundo. – Mas podemos ir fazendo os pedidos que eu estou azul de fome?
– Você? Com fome? Ora, isso é novidade, já que raramente encontra fome para almoçar com sua mãe. Se não é o Fred marcar esses almoços...
Olhei pra cima em busca de paciência. Desde que eu me lembro, minha mãe adora me acusar de ser um ‘filho ausente’. E isso até quando eu era adolescente e morávamos na mesma casa.
– Não peça nada dessas porcarias cheias de gordura. – Ela disse indicando uma parte do cardápio. – Vai acabar engordando, a última coisa que eu e o Fred queremos é que você acabe como um daqueles homens de meia idade barrigudos.
Nem me dignei a responder.
Nós havíamos acabado de fazer o pedido quando Fred entrou no restaurante com aquela discrição de um elefante tão única e só dele.
– Flávia! – ele cumprimentou a minha mãe com a mesma efusão e carinho que a mãe dele possuía. Minha mãe sempre ficava um pouco sem graça diante desses abraços apertados do Fred, mas fora justamente isso que a conquistara.
– Olá, Fred, pensei que você tinha se esquecido da sua promessa – ela sorriu daquela maneira controlada dela.
– E perder as suas histórias de quando o Eduardo ainda usava fraldas? Nunca! – Fred exclamou arrancando uma risadinha polida dela.
Suspirei. Não era à toa que aqueles dois se davam tão bem. E o pior foi passar o almoço inteiro ouvindo a minha mãe contar detalhes nada dignos da minha infância. E o Fred já tinha ouvido aquilo mil vezes, mas minha mãe sempre encontrasse detalhes piores pra acrescentar à história, e o Fred acabava sempre rindo e se divertindo todas as vezes. E depois ficava rindo às minhas custas quando estávamos sozinhos.
Nós voltamos para a Seventh Heaven depois de prometermos a minha mãe que iríamos almoçar com ela na semana seguinte.
– Eu pensei que você tinha esquecido o almoço – comentei enquanto entrávamos no elevador.
– Nunca! Ela me mataria se eu fizesse isso.
– Dramático... – resmunguei.
– E você me ama mesmo assim – Fred sorriu.
Ele sempre dizia isso quando eu deixava algum dos defeitos dele escapar.
Sorrindo, ele se aproximou, ficou na ponta dos pés e me beijou. Fred soltou um gemido assustado quando eu o girei e o prensei contra a parede do elevador. E logicamente ele não se fez de rogado e entreabriu os lábios permitindo que minha língua deslizasse e invadisse a boca dele. Fred soltou outro gemido despudorado e me fez esquecer de que estávamos no elevador da minha empresa.
A sorte foi que o elevador deu um solavanco e fez com que minha mente voltasse a funcionar.
Me afastei e lancei um olhar exasperado ao Fred, que deu um risadinha.
– Vamos terminar isso mais tarde – ele disse enquanto batia levemente no meu ombro.
Girei os olhos e o sorriso do Fred se alargou.
– Eu sei que você gostou da promessa, Tarzan – disse maliciosamente, e eu fiz uma careta. Ele nunca, nunca, nunca mesmo iria me deixar esquecer daquela vez em que coloquei a tanguinha para agradá-lo.
Fui direto para a minha sala, enquanto ele ficou conversando animadamente com a minha secretária.
A Seveth Heaven ia muito bem, meu casamento também... Só faltava o Fred parar de desaparecer para que eu me sentisse totalmente bem.
[...]
As semanas foram passando sem grandes novidades. O Fred continuava sumindo todo dia bem cedinho e não me contou o que estava aprontando. Eu tentava não me preocupar muito, mas era meio difícil sendo o Fred o encrenqueiro que ele é.
Era véspera de Natal e eu havia acabado de estacionar o carro na garagem quando o Fred chegou e estacionou o carro dele ao lado do meu. Eu estava chegando das compras de natal. Aquele bendita mania de brasileiro de deixar tudo para última hora. Mas no meu caso, além dessa mania, havia o trabalho que me deixava com o tempo extremamente reduzido.
– Oi – Fred ficou na ponta dos pés e me deu um beijo leve.
– Não é assim que se beija alguém – reclamei.
Fred girou os olhos, mas sorria. Ele voltou a ficar na ponta dos pés, passou a mão por trás da minha nuca e me puxou para um beijo longo que certamente teria nos levado mais longe, não fosse a Marilyn chegando por trás do Fred e pulando nas costas dele.
O peso dela fez com que nós dois caíssemos no chão.
– Outh – Fred gemeu enquanto a Marilyn lambia os braços dele. – Marilyn, eu te amo, mas não faz mais isso! – exclamou.
– Você sabe que ela nunca vai parar de fazer isso – resmunguei sem ar, afinal de contas os dois estavam em cima de mim. Só para completar a cena, Norma Jean apareceu também e começou a lamber o meu rosto.
– Não era a sua vez de amarrar ela? – Fred perguntou. Nós revezávamos na responsabilidade de prendê-la para que o Fred não fosse recebido com um “mata leão” toda vez que chegasse em casa.
– Era sua vez.
Fred resmungou dizendo que não era e nós emendamos uma pequena discussão caseira sobre o assunto.
Depois de muito esforço e malabarismo para tirar a Marilyn de cima do Fred (e consequentemente de cima de mim), nós entramos em casa e fomos direto tomar uma ducha para tirar a baba de cachorro.
Fred, obviamente, me provocou (e conseguiu) uma sessão de sexo no box, mas eu não podia negar que gostava quando ele ficava cheio de quintas intenções. Ainda mais depois de um dia tão estressante e da briguinha por causa da responsabilidade de amarrar a Marilyn.
– Vamos pedir comida chinesa? – ele perguntou enquanto procurava por uma roupa no armário. O armário dele é a ÚNICA coisa que ele realmente organiza. Só que o lado dele do guarda roupa é uma zona e ele nunca encontra nada fácil.
– Pode ser – respondi após um bocejo. – Nós temos que combinar o cardápio da ceia de amanhã. Peru, com certeza. Um arroz branco. O que mais? Temos que ver isso porque o que estiver faltando na despensa eu compro amanhã cedo no supermercado.
Fred fez que não me ouviu.
– Fred? Estou falando com você.
– Eu ouvi – ele resmungou. – Mas... Eu tenho outros planos.
– Como assim tem outros planos? – estreitei os olhos.
– Tendo, ora – ele balançou os ombros como se o fato dele sumir em pleno Natal não fosse nada demais.
– Fred, é véspera de natal. Os nossos amigos já confirmaram presença! Não podemos desmarcar.
– E eu estou dizendo para desmarcar? Só estou falando que eu tenho outros planos.
– Ótimo. Pois fique com os seus planos!
Não era muito do meu feitio sair tempestivamente nem batendo portas, mas aquela situação já havia atingido o limite. O Fred sumindo todos os dias e agora dizendo que não iria participar da ceia que nós havíamos combinado há meses.
– Eu não vejo mau nenhum em ter outros planos! – Fred veio atrás de mim, falando em um tom irritado.
– E eu já disse que você pode fazer o que quiser.
Fred suspirou e murmurou algo sobre ter perdido a fome.
Nós não nos falamos mais durante o resto da noite e no dia seguinte eu fiquei entretido com os preparativos para a ceia (na verdade, eu fiz de tudo para não pensar no que o Fred poderia estar fazendo). Eu não conseguia entendê-lo. Tudo bem que nenhum de nós dois éramos católicos praticantes, mas a data era importante porque há três anos nós estávamos reunindo nossos os amigos e celebrando mais um ano juntos.
Aos poucos a casa foi enchendo. Nós geralmente chamávamos os amigos mais próximos. Era um grupo pequeno de 12 a 15 pessoas. Minha mãe também veio e franziu a testa quando eu disse que o Fred havia tido outro compromisso, mas ela felizmente guardou qualquer observação para si, apesar do olhar de ‘péssimo marido’ que me lançou.
Alexandre e Fábio chegaram um pouco depois da meia noite. Geralmente eles passavam na casa dos pais do Alex antes de vir até aqui.
– E o Fred? – Alexandre perguntou após me cumprimentar. O Fábio apertou minha mão, desejou um feliz natal e rumou direto para a mesa. Eu realmente não sei para onde vai toda a comida que ele come. Na verdade, acho que isso é mistério pra todo mundo.
– Tinha outro compromisso – me fiz de despreocupado.
– Como assim tinha outro compromisso? É Natal! Família!
– Ele só disse que tinha outro compromisso e saiu.
– E você não perguntou nada?
– Não.
Alexandre trincou os dentes.
– Eu não vou ficar tentando remendar as brigas de vocês de novo! Pode tratar de conversar com ele e perguntar o que está acontecendo!
– E eu não estou pedindo sua ajuda.
– Mas eu conheço vocês e do jeito que as coisas vão vocês vão acabar brigando e eu vou ter que interferir. Dois teimosos, cabeças duras... Com certeza o Fred está com medo de te contar o que ele anda fazendo.
– Você está sabendo de algo? – perguntei desconfiado.
– Eu não vejo o Fred há quase um mês. Como poderia saber de alguma coisa? Mas é meio obvio que é isso que está acontecendo. O Fred nunca esconde nada de você. Ele conta até os mínimos detalhes do que está fazendo. Se você não o pressionar para que ele conte, vocês vão ficar nesse joguinho de cão e gato pelo próximo ano inteiro!
– Alex – Fábio chegou ao lado do namorado e passou o braço em torno da cintura dele. – O Eduardo já entendeu. Chega de fazer discursos pró Fred em plena noite de Natal.
– Esses dois me tiram do sério – Alex resmungou, emburrado.
– Eu sei, eu sei, mas você tem que deixá-los resolver os problemas sozinhos.
Fábio levou Alexandre para o outro lado da sala e os dois ficaram conversando aos sussurros. Mas eu percebi que o Alexandre tinha razão. Eu teria que descobrir o que raios o Fred estava escondendo senão nós ficaríamos naquela confusão pelo próximo ano inteiro.
Na manhã seguinte eu acordei esperando encontrar o Fred do meu lado na cama, mas ele não estava. Levantei e saí procurando-o até encontrá-lo brincando no sofá com a Norma Jean. Ele estava apenas com a calça do pijama o que era um sinal de que não havia levantado há muito tempo.
Ele bocejou e levantou do sofá. Rapidamente voltei para o quarto e me enfiei embaixo das cobertas fingindo que ainda estava dormindo. Ouvi a movimentação dele pelo cômodo e em seguida a porta do banheiro sendo trancada. Ele iria sair para onde quer que estivesse indo todas as manhãs, e eu já sabia o que fazer.
Meia hora depois, eu estava seguindo o Fred que ia dirigindo mais à frente. Eu tive que jogar qualquer roupa sobre o corpo e escovar os dentes rapidamente para não deixá-lo ir muito longe. Por sorte as ruas estavam desertas já que as pessoas dormiam até tarde na manhã de Natal.
Franzi a testa quando o vi parar o carro em frente a um orfanato. Porém, minha confusão começou a desvanecer. Eu logo compreendi o que estava acontecendo e o motivo pelo qual ele não queria me contar o que andava fazendo.
Esperei que ele estacionasse e entrasse no local para só então me aproximar e estacionar o meu carro atrás do dele.
Desci do carro ouvindo risadas de muitas crianças.
Dei a volta na casa e vi que o Fred estava sendo “atacado” e derrubado por crianças de várias idades. Fazia tempo que eu não via o Fred rindo tanto.
As freiras que cuidavam das crianças conseguiram fazer com que elas saíssem de cima do Fred e voltassem a jogar bola. O Fred continuou lá sentado no chão as observando. Eu percebi que um menino magrinho não havia se aproximado e observava o Fred com timidez.
Fred fez um sinal para que o menino se aproximasse, e ele foi parecendo ansioso. Ele sentou ao lado do Fred que falou alguma coisa e recebeu um aceno positivo com a cabeça. Fred sorriu e passou o braço em torno dos ombros dele e o abraçou. O menino abaixou a cabeça enquanto mordia o lábio inferior com força.
De repente o Fred levantou, virou e me viu parado a alguns metros o observando.
– O que está fazendo aqui? – ele perguntou ao se aproximar.
– Você não iria me contar o que andava fazendo. Tive que descobrir por mim mesmo.
– Me seguindo?! – Fred perguntou irritado e continuaria brigando, mas o menino moreno se aproximou de nós e abraçou Fred pela cintura. Ele estava tão magro! O que havia acontecido com esse menino? Além disso, a pele dele estava castigada pelo sol.
– Não... brigar... – o menino disse em um tom baixo, e eu tive que me esforçar muito para ouvi-lo.
– Não estou brigando, Gus – Fred disse rapidamente. – Só conversando.
O menino olhou para mim e mordeu o lábio inferior com força. Por alguma razão, eu o achei muito parecido com o Fred quando ele fez isso, já que o Fred tinha a mesma mania de morder o lábio quando estava nervoso.
Ajoelhei-me diante do menino e sorri.
– Não estamos brigando – reforcei a fala do Fred. – O meu nome é Eduardo e o seu?
O menino olhou espantado de mim para o Fred.
– É, ele é o meu marido – Fred coçou a cabeça.
– Aposto que o Fred só falou coisas ruins de mim – brinquei. O menino balançou a cabeça enfaticamente para negar.
– Gus... – ele disse baixinho.
– É um prazer conhecê-lo, Gus – falei.
– O Gustavo está bem graças ao Fred – uma das freiras se aproximou e sorriu enquanto fazia um carinho na cabeça do menino. Ela me cumprimentou desejando feliz Natal.
– Como assim está bem graças ao Fred? – perguntei.
– Eu o encontrei na rua... – Fred respondeu. – Há um mês mais ou menos. Eu estava indo para o trabalho quando o vi dormindo em uma esquina. Ele estava todo sujo e faminto. Me aproximei e perguntei o nome dele, mas ele não respondeu. Perguntei pela família dele e mais uma vez não obtive resposta. O convenci a me acompanhar até uma padaria para comer alguma coisa. Todos dias depois disso eu fui voltando lá e conquistando a confiança dele até conseguir trazê-lo para o orfanato.
– O Gustavo foi diagnosticado com déficit de atenção. Não sabemos ainda o que houve com os pais dele. Acreditamos que eles o abandonaram quando ele ainda era pequeno. Ele tem dificuldade para se comunicar e de vez em quando é bem arisco – a freira disse sem deixar de fazer carinho na cabeça dele. Gustavo estava alheio, como se não ouvisse ou entendesse que estávamos falando sobre ele.
– Quantos anos ele tem?
– Nós não temos certeza – Fred disse. – Acreditamos que por volta de 7 ou 8 anos.
– Como alguém pode abandonar uma criança assim? – murmurei.
– Infelizmente é mais comum do que nós gostaríamos – a freira disse com pesar. – Bem, Gus, vamos ver se ainda tem panetone da ceia?
Gustavo balançou a cabeça enfaticamente em um sinal afirmativo e se despediu de mim com um aceno de mão.
Fred se aproximou de mansinho e me abraçou.
– Feliz Natal – ele disse naquele tom de “vamos pular a briga e ir direto aos beijos?”.
Suspirei e devolvi o abraço.
– Feliz Natal – murmurei. Permanecemos alguns segundos quietos e abraçados. – Ele tem problema para falar?
– Nós achávamos que ele era mudo. Nós não sabemos se foi algum trauma ou se ele tem algum déficit na fala, além do déficit de atenção...
– Por que você não me contou, Fred?
– Eu tinha medo que você dissesse para não vir mais.
– Eu nunca falaria algo assim!
– Uma vez nós conversamos sobre adotar. Lembra? E você disse que não queria.
– Primeiro, uma coisa é você vir visitá-lo e outra é adotá-lo. Segundo, eu não disse que não queria. Eu disse que era muito cedo.
Fred ficou quieto e isso nunca era um bom sinal.
– Você quer adotá-lo – concluí. – Fred, é uma responsabilidade muito grande. Principalmente quando ele precisa de mais atenção do que qualquer outra criança.
– Está me chamando de irresponsável? – Fred retrucou com os olhos estreitos e se soltou do abraço.
– Por que você sempre tem que interpretar tudo que eu falo de uma forma negativa? – falei cansado. Fred continuou com os braços cruzados e me encarando com uma expressão enfadada. – Eu não estou dizendo que você é irresponsável... Desorganizado e esquecido sim, mas irresponsável eu sei que não é.
– Ei! – Fred exclamou irado.
– Mas vamos com calma, Fred. Você sabe como é o sistema de adoção no Brasil. Ainda mais para nós. Eu não quero que você se apegue a ele e depois...
– Então nós podemos adotá-lo?! – Fred pulou no pescoço com um sorriso tão lindo que foi impossível dizer “não”.
– Vamos com calma – repeti, mas para o Fred isso era um “sim” e ele começou a distribuir beijos pelo meu rosto e teria continuado se não fossem as risadinhas que nós ouvimos.
Rapidamente o Fred se recompôs e olhou desconfiado para o montinho de cabeças que se escondiam atrás de um arbusto.
– Eu acho que tem alguém nos observando – Fred disse lentamente. Ele deu a volta nos arbustos e soltou um “Ah rá! Peguei vocês!”. As crianças saíram correndo com o Fred atrás delas.
Eu acabei sorrindo ao ver a cena e realmente não sabia quem era mais criança: o Fred ou as crianças que brincavam com ele.
[...]
Aos poucos o Gustavo foi começando a frequentar a nossa casa.
Ele ia primeiro nos finais de semana. Depois foi começando a ficar na segunda também. Quando eu me dei conta o Fred já estava reformando o quarto de hóspedes e o enchendo de brinquedos. Logo o Fred contratou o melhor psiquiatra e o melhor psicólogo para o Gustavo fazer terapia.
Nós entramos com os papéis para adoção. E não demorou tanto quanto imaginávamos para o Gustavo estar morando conosco.
E agora o Fred estava sentado diante do computador, com o Gustavo no colo enquanto esperava que a mãe dele aparecesse na webcam para conhecer o neto.
O Fred já havia contado a ela que nós adotaríamos um menino, mas só quis apresentá-lo quando todos os papéis estivessem definitivamente assinados e o Gustavo de fato fizesse parte da nossa família.
– Olá, queridos! – a mãe dele cumprimentou assim que apareceu na tela. Fred se ajeitou na cadeira e sorriu.
– Oi mãe! – ele respondeu, mas eu o conhecia bem e sabia que ele estava nervoso. O jeito que ele mordia o lábio inferior o denunciava inteiro. – Esse é o Gus – ele disse e o menino, tão nervoso quanto o Fred, escondeu o rosto na curva do pescoço dele.
– Vamos, querido. Não tenha vergonha. Deixe a vovó ver esse rostinho lindo! – Laura disse amável e acredito que o tom dela deixou o Gustavo mais confortável.
Ele se afastou um pouco do Fred e olhou para tela enquanto mordia o lábio de um jeito semelhante a como o Fred fazia.
– Oh, ele é adorável, Fred! – Laura disse levando as mãos juntas ao peito. Gus sorriu, sem jeito e arrancou um suspiro da avó.
– Ele tem a mesma cara de pateta do Fred – um dos gêmeos apareceu atrás da mãe para espiar a webcam. Eu nunca conseguia diferenciá-los fisicamente já que eles eram idênticos, mas pela frase idiota só podia ser o Fernando.
– FERNANDO! – a mãe do Fred gritou e deu um tapa na nuca dele. Gustavo olhou para Fernando com uma expressão de desagrado demonstrando que não havia gostado do comentário e eu desconfiava que havia sido mais por ele ter ofendido o Fred (a quem o Gustavo venerava) do que por ter ofendido a ele.
– Não liga – Fred girou os olhos. – O Fernando é uma anta batizada.
– FREDERICO! Não fale assim do seu irmão! – Laura gritou com o Fred também. – Ele é tio do Gustavo. Não fique incitando o menino a não gostar dele!
– Quê? Mas eu nem fiz nada. Foi o idiota do Nando que começou!
E lá se foi mais uma conversa “pacífica” entre o Fred e a família dele.
– Vem, Gustavo – falei enquanto segurava a mão dele. – Já conheceu a sua avó. Agora ela e o Fred vão passar horas discutindo. Vamos tomar um chocolate na cozinha.
– Não senhor! – Fred me impediu de levá-lo. – Você não vai encher o meu filho com porcarias!
– Isso mesmo, Fred, tem que impor limites! Suco é melhor. Chocolate demais faz mal – Laura deu pitaco da webcam, já esquecida que estava discutindo com o Fred e com o Fernando.
Definitivamente essa família é de loucos.
Mas, talvez atestando alguma loucura da minha parte também, eu gosto deles assim.
– Acostume-se, Gustavo – falei ao ver que o menino tinha um sorriso divertido no rosto. – Isso é apenas o começo. – baguncei os cabelos dele, que soltou uma risada feliz.
FIM
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