Capítulo XIII

O elevador estava parando em todos os andares. Só porque eu estava super atrasado e não podia ficar esperando, aquela joça estava indo devagar! Eduardo ia me matar por não colocar o bendito capuchino com chantilly em cima da mesa dele no horário. Ele fica terrível quando não toma o capuchino.

Mas eu precisava saber o que o Alexandre queria comigo. Ele mandou uma mensagem num tom tão urgente que eu não me aguentei de curiosidade. ‘Tá, eu confesso. Tenho esse péssimo defeito. Sou extremamente curioso e precisava saber o que havia de tão urgente para que ele me mandasse uma mensagem às quatro da manhã dizendo que precisava falar comigo.

Quando o elevador parou no andar do ateliê do Alexandre, eu desci e fui rapidamente até a sala dele. O Alexandre estava começando a ficar bem conhecido no mundo da moda. As coisas melhoraram bastante para ele depois do desfile que a Seventh Heaven produziu.

– Fred! – Alexandre exclamou assim que eu entrei. Eu já me vi sendo puxado até uma cadeira e mal tive tempo de processar a zona que estava aquele ateliê. Parecia que estavam se preparando para fazer algumas fotos já que havia um pequeno estúdio improvisado perto da janela.

O ateliê do Alexandre era enorme. Ficava no último andar do prédio e pegava todo o espaço da cobertura. No centro havia uma mesa gigante com croquis espalhados, no canto direito algumas costureiras trabalhavam freneticamente e do outro lado da sala estava o estúdio improvisado.

Eu fui praticamente jogado em uma cadeira e começaram a me maquiar e escovar o meu cabelo. Eu tentei perguntar o que estava acontecendo, mas só consegui foi engolir metade do pó que a maquiadora estava passando no meu rosto.

– Eu nem acredito que você aceitou, Fred! – Alexandre exclamou todo animado enquanto me empurrava até a outra sala. – Coloca aquele vestido ali. Você vai tirar fotos com ele primeiro.

Eu ia voltar e dizer para ele explicar o que raios estava acontecendo, mas o vestido que ele me mandou vestir era bonito demais para ser ignorado. E o mais incrível, do meu tamanho! Certinho! Era preto, costas nuas, com uma fenda enorme do lado direito.

Quando eu terminava de me vestir, Alexandre voltou e me arrastou até o estúdio improvisado. Assim que eu estava em posição, o fotógrafo começou a tirar fotos de uma forma enlouquecida.

– Alexandre! – exclamei exasperado, tentando entender o que estava acontecendo. Ele apenas sorriu, me puxou e tascou um beijão na minha boca. Eu arregalei os olhos, demorando alguns segundos para processar o que estava acontecendo, e mais alguns para conseguir livrar meus braços de seu abraço para empurrá-lo. Foi depois disso que dei um soco bem dado no queixo dele. – Seu doido! – gritei.

– Fred? – ele parecia realmente surpreso com a minha reação.

– Quem te deu o direito de me agarrar desse jeito? E que ideia é essa de me usar como modelo? – gritei enfurecido. As pessoas começaram a se afastar, parecendo assustadas, mas eu não liguei muito. Só queria uma explicação para aquele circo todo.

– Eu pensei... A sua mensagem... – Alexandre disse confuso.

– Você que me mandou uma mensagem! – retruquei.

– Eu não mandei mensagem nenhuma – ele disse e pelo tom estava sendo sincero.

Fui até a outra sala onde meu celular havia ficado jogado e mostrei a mensagem para ele.

– Acho que alguém está querendo brincar com a gente – ele disse mostrando a mensagem que eu supostamente havia enviado.

“Alex,

Resolvi reconsiderar e aceitar a sua proposta. O pacote completo da proposta. Cansei de ser o capacho do Eduardo. Amanhã bem cedo vou passar por aí para conversar contigo.

Fred”.

Pacote completo da proposta? Por isso ele havia me beijado? Ele pensou que eu ia trabalhar com ele e me tornar amante dele? Ah, mas quando eu colocasse minhas mãos no idiota que havia pregado aquela peça...!

– Alexandre, eu nunca mandaria uma mensagem desse tipo – falei enquanto devolvia o celular para ele. – Se eu decidisse trabalhar com você viria te comunicar pessoalmente.

– Pensando bem agora... Eu fui idiota em acreditar – ele disse lentamente. – É só que... Eu fiquei tão feliz, Fred. Você não tem ideia do quanto eu queria que fosse verdade. Eu fechei os olhos completamente para a realidade.

Mordi o lábio inferior com força diante daquela declaração. Eu não queria magoar o Alexandre ainda mais, mas eu tinha que dar um fim definitivo naquela paixonite que ele tinha por mim.

– Alexandre, eu estou com o Eduardo... – falei. Curto e grosso. Acho que assim é menos doloroso.

Ele deu um sorriso triste.

– É, eu suspeitava que uma hora ou outra isso fosse acontecer. Você gritava com tanta veemência que odiava o Eduardo. Só podia ser amor.

– Eu não amo o Eduardo! – gritei exasperado.

Alexandre ergueu a sobrancelha e eu encolhi os ombros.

– Não amo! – teimei. – Olha, eu não queria te magoar... Eu devia ter deixado claro desde o começo que não rolaria nada entre nós. Eu gosto muito de você, mas como amigo.

– Eu sei, Fred, não precisa ficar se justificando – ele balançou levemente os ombros como quem diz “esquece isso”, e eu até estranhei por ele não parecer assim tão triste. Não que eu estivesse esperando um rio de lágrimas. – Já que está aqui... não quer mesmo tirar umas fotos? Só pra me ajudar. Eu acabei não contratando nenhum modelo.

– Tá, mas tem de ser rápido – resmunguei. Não falamos mais sobre nossos sentimentos durante o resto do tempo em que estivemos juntos.

Cheguei na Seventh Heaven praticamente colocando os bofes para fora. Eu estava simplesmente duas horas atrasado. Se o Eduardo estivesse de mau humor – em parte eu duvido porque nós tivemos uma noite daquelas, mas por outro lado ele não tomou o capuchino, aí a noite selvagem de sexo pode ter ido para o espaço na mente dele –, eu estaria ferrado.

Se eu contar o que ele fez outro dia você não vai acreditar. Nem eu consigo acreditar ainda! Ele me levou para um motel bem chique aqui de São Paulo. Eu fiquei lá dando pulinhos na cama para ver se ela quebrava enquanto ele foi tomar um banho (eu ainda cheguei a perguntar por que ele ia fazer aquilo já que eu ia sujá-lo inteiro, mas ele nem se deu ao trabalho de responder).

Quando ele saiu do banheiro, eu caí da cama. Juro. Cai durinho de lado, diretinho no chão. E comecei a rir.

O Eduardo resolveu realizar a minha fantasia sexual e apareceu vestido só de tanguinha.

Eu ri tanto que meus olhos se encheram de lágrimas e minha barriga começou a doer.

– Não tem tanta graça – ele resmungou emburrado.

– Eu não acredito que você fez isso! – exclamei ainda gargalhando.

O Eduardo ficou com um humor terrível depois disso e eu tive que usar todo o meu jeitinho para convencê-lo a tirar a tanguinha. Bem, mas acho que ele gostou do meu sexo estilo “me desculpa por ter rido de você”.

Infelizmente ele nunca mais usou a tanguinha.

Tenho que me lembrar de obrigá-lo. Talvez se eu fizer greve de sexo e...

Meus pensamentos foram interrompidos quando a porta da sala dele se abriu. Gelei completamente na cadeira. Ele não estava com uma expressão ruim. Estava com a expressão “eu te odeio, idiota, entra aqui agora para que eu te fuzile!”. Ele nem precisou abrir a boca para que eu passasse correndo pela porta.

– Está atrasado – Eduardo disse em um tom frio que há muito tempo eu não o ouvia usar. Ele fechou a porta e passou por mim sem me tocar ou tentar roubar um beijo. Percebi de imediato que havia algo de errado. Desde que começamos a... ficar... ou namorar...ou ter esse sei lá o que nós temos... O Eduardo mostrou ter um lado carinhoso que eu desconhecia.

– Tive um problema...

– Não minta, Frederico, é pior – ele cortou logo a minha fala.

– E quem disse que eu estou mentido? – retruquei enfadado. Eu odiava quando nem ao menos me deixavam falar. Mas o que eu poderia dizer? Eu conhecia o Eduardo. Ele ia fazer um escândalo ciumento se eu dissesse que havia ido ver o Alexandre. – Eu não posso ter problemas? – quando me sentia acuado, acabava fugindo pela tangente e respondendo com outras perguntas.

– Eu pensava que você era diferente, Frederico, mas você é igualzinho a todos os outros! – Eduardo avançou até mim e segurou o meu braço com força. Eu não consegui esboçar reação alguma. Eu nem sabia do que estava sendo acusado! Tá, talvez ele já soubesse que eu havia ido ver o Alexandre, mas isso era motivo para ele ficar me acusando de ser igual a sei lá quem?

– Igual a quem? – perguntei, tentando manter a calma, apesar de o Eduardo estar segurando o meu braço com mais força do que deveria.

– A todos os outros que se envolveram comigo! – ele explodiu.

– Diga exatamente do que você está me acusando, Eduardo! – gritei em resposta. Ele estava com uma expressão tão furiosa... mas eu me mantive firme. Não fiz nada de errado, ora!

– Você só queria que eu produzisse o seu desfile! – ele acusou. – E ficou de caso com o Alexandre durante todo esse tempo e eu fui cego, idiota e não percebi isso!

Meu primeiro pensamento foi de que o Eduardo merecia um chute muito bem dado no meio das pernas por aquela acusação.

Depois veio o choque. Eu simplesmente não conseguia acreditar que o Eduardo pensasse que eu poderia ser tão vil.

E o pior foi que eu não consegui dizer nada, e ele achou que podia continuar jogando “verdades” na minha cara.

– Aquela história do baile foi toda inventada, não foi? Só para ganhar a minha confiança!

– Como você pode me acusar dessa forma? – exclamei exasperado. – Eu fui ver o Alexandre sim, mas...

– Eu não quero ouvir as suas mentiras, Frederico! – Eduardo disse um tom frio e definitivo. Ele me largou e voltou a ocupar o lugar atrás da mesa. – Eu errei em acreditar que você fosse diferente.

– Por Deus! – exclamei alterado, sentindo algumas lágrimas surgirem nos cantos dos meus olhos. Meu coração estava tão apertado e aquelas acusações estavam machucando mais do que eu imaginei que pudessem machucar. – O que aconteceu para que você fique me comparando com sei lá quem?

Ele demorou um tempo para responder, focando os olhos em algum objeto sobre a mesa. Eu já estava pronto para abrir a boca de novo, quando ele se pôs a falar:

– Antes de me tornar modelo – ele começou a contar. – Eu gostava de uma garota. Ela era minha vizinha. Um dia eu me enchi de coragem e a chamei para sair. Ela recusou dizendo que eu não tinha o carro que o Rubens, o playboy da escola, tinha e por isso ela preferia sair com ele. Idiotice de menina mimada e fútil. Quando eu fui descoberto pelo olheiro que me lançou como modelo, ela veio correndo atrás de mim. Eu era novo e idiota na época, e um idiota estava apaixonado que cegamente acreditou que ela estava arrependida pelo fora que havia me dado. Nós começamos a sair. Ela me acompanhava em todos os desfiles e festas, mas um dia, após desses desfiles, eu a peguei agarrada ao Rubens dizendo a ele o quanto eu era monótono e que ela me odiava, mas que não “largaria o osso” enquanto não fosse chamada para desfilar e se tornasse mais famosa do que eu.

– E agora eu estou pagando por algo que a sua ex de sei lá quanto tempo atrás fez? – perguntei incrédulo. Lógico que eu sabia que algo havia acontecido no passado dele para que ele fosse tão desconfiado e fechado. Só não imaginava que tivesse sido essa facada pelas costas da ex. Ex, diga-se de passagem, fútil e imbecil.

– Você sempre gritou aos quatro ventos que me odiava – Eduardo disse.

– Sim, mas isso foi antes de...

– De eu organizar o seu desfile – acusou outra vez. – Você não é o primeiro depois dela que tentou se aproximar para se aproveitar do meu prestígio. Muitas outras pessoas já fizeram isso. Eu pensava que você era uma pessoa autêntica, séria e que queria vencer na vida pelos teus esforços. A paixão me cegou outra vez!

– Eduardo, se você me deixar explicar...

– Eu vi, Frederico! Aquele beijo que você e o Alexandre trocaram no ateliê dele! Aquilo não tem explicação!

Eu gelei e acho que toda a cor sumiu do meu rosto. A situação era pior do que eu imaginava.

– Eduardo, eu... – tentei mais uma vez contar o que havia acontecido, mas ele me interrompeu antes que eu tivesse a chance de continuar.

– Você está demitido – ele disse seco.

– O quê? – murmurei em um fio de voz.

– Você não é surdo. É interesseiro, falso e dissimulado, mas não é surdo – Eduardo falou friamente. – Pegue suas coisas e desapareça da minha vida.

Eu bem que tentei falar alguma coisa, mas minha voz parecia ter se perdido.

– Como você pode ser tão... – comecei a exclamar, mas uma batida na porta me interrompeu. Eduardo mandou a pessoa entrar como se nós não estivéssemos no meio de uma discussão. O pior: ele me ignorou completamente e começou a atender a estagiária que apareceu toda solícita!

Eu saí da sala batendo a porta com força ao passar e fui direto para o elevador. As pessoas me olharam com grandes pontos de interrogação, mas eu não me importei. Eu só pensava em... acertar o Eduardo no local onde ele fosse sentir mais dor! Como ele podia pensar que eu havia feito tudo aquilo? Pior, como ele podia ficar tirando aquelas conclusões precipitadas e absurdas sem nem ao menos me dar chances de explicar?

Eu nem sei como cheguei em casa. Foi uma sorte eu não ter batido o carro no caminho.

Fred + raiva + trânsito louco de São Paulo = Fred ainda mais estressado.

Quando eu cheguei, fui direto até a cozinha e peguei uma latinha de cerveja que estava largada lá na geladeira. Eu odeio o Eduardo! Odeio! Como ele pode... Argh! Eu não quero chorar e não vou!

Para me distrair e não pensar no Eduardo, eu comecei a limpar a casa. Liguei o som no máximo e passei o resto do dia esfregando o chão do apartamento. Geralmente, eu fugiria para o shopping e estouraria o cartão de crédito, mas eu fui demitido então tenho que pisar no freio e poupar o que puder poupar.

Lá no fundo eu não saí porque eu tinha esperanças de que o Eduardo fosse aparecer ainda naquele dia para pedir desculpas pelas coisas estúpidas que ele havia falado e pedir para que eu voltasse.

A ficha do que tinha acontecido ainda não havia caído completamente. Parecia um pesadelo, sabe?

Eu passei a noite em claro. Largado no sofá, procurando alguma coisa para assistir... Ainda esperando que o Eduardo aparecesse.

Quando amanheceu eu estava parecendo um zumbi descabelado. Levantei do sofá meio no tranco e estava indo para o banheiro quando a campainha foi tocada. Eu corri para atender, crente e abafando que era o Eduardo. Eu já estava planejando como iria torturá-lo, mas ao abrir a porta toda a minha esperança foi pelo ralo quando eu vi que era o Alexandre.

– O que você quer? – é, eu não estava no meu melhor humor, então não tinha como recebê-lo dando saltinhos de alegria. – O que aconteceu com o seu olho? – perguntei ao notar o roxo em volta do olho direito dele.

– O Eduardo...

– Você foi falar com ele?

– Tentei, mas ele me deu um jab de direita, chamou os seguranças e me colocou para fora a Seventh Heaven a ponta pés.

– Ele não é violento – resmunguei enquanto fazia um sinal para que ele entrasse.

– É ciumento. Muito. Ao extremo – Alexandre retrucou. – Ele ficou completamente cego. Eu tentei contar o que havia acontecido, que recebi uma mensagem e acreditei que era sua, mas ele disse que tinha visto tudo e que eu não precisava me dar ao trabalho de mentir.

Fiquei quieto. O ciúme do Eduardo não justificava a forma como ele me acusou ou como me enxotou sem nem ao menos me deixar falar.

– Alguém armou para nós e caímos como patinhos. Nós temos de descobrir quem foi e mostrar para o Eduardo que...

– Esquece, Alexandre – larguei-me no sofá.

A força da realidade começava a cair na minha cabeça. Meu coração estava tão comprimido que parecia que ia estalar a qualquer momento.

– O Eduardo acreditou no que quis. Não vou ficar implorando para que me escute.

– Mas, Fred... – Alexandre começou a falar, porém desistiu diante da minha expressão. Eu deveria estar um trapo mesmo.

– Sabe, Alex, eu menti pra você – murmurei em um tom tão baixo que nem sei se ele conseguiu me ouvir. Alexandre sentou do meu lado e eu conseguia sentir o olhar dele sobre mim, mas eu continuava encarando o chão fixamente. – Eu me apaixonei pelo Eduardo.

Senti a mão do Alexandre em minhas costas em um gesto de apoio enquanto uma lágrima rolava pela minha face, mas eu a limpei com raiva e levantei. Não ia ficar com pena de mim mesmo. Eu não era disso.

E daí se eu havia me apaixonado por ele? Era só me desapaixonar! Eu sei que é fácil falar, mas quando eu enfio uma coisa na cabeça, eu consigo!

– O que você vai fazer agora? Está sem emprego por causa de uma idiotice minha... – Alexandre disse em um tom culpado.

– Não foi sua culpa, Alex. O Eduardo que foi um idiota – o interrompi e fui até a mesinha do telefone. Revirei tudo até encontrar um cartãozinho que estava dentro da gaveta. – Me ofereceram um emprego como modelo em Paris.

– Paris?

– Sim, e eu espero que a oferta ainda esteja de pé.

Alexandre tentou de todas as formas me convencer a permanecer no Brasil e a trabalhar com ele, mas se eu fizesse isso seria só para dar mais razão ao Eduardo, sem falar que eu continuaria topando com ele em algum evento ou outro e eu não queria ficar perto dele. Era fácil quando eu o odiava, mas agora... Eu não sabia como iria reagir.

Pode chamar isso de fuga. Eu admito que é.

Eu não queria, mas fui até Dois Irmãos comunicar pessoalmente para a minha mãe que iria morar fora. Nem preciso que ela não gostou nem um pouco, né? Ela quase me amarrou no pé da mesa pra me impedir de ir! Mas eu expliquei tudo, inclusive contei a briga que eu e o Eduardo tivemos – ela quis ir até São Paulo para obrigar o Eduardo a me ouvir – aí ela acabou cedendo e disse que, se ia ser melhor para mim, então ela entendia, mas que ficaria morrendo de saudade. E ela me fez prometer que eu ligaria para ela todos os dias antes de dormir. Eu me senti voltando à infância com esse pedido, mas acabei concordando. Também encontrei a Camille e pudemos conversar por algumas horas antes da despedida chorosa.

Os dias seguintes foram bem agitados. Tive praticamente só quatro dias para empacotar tudo que eu queria levar e despachar para Paris. O Alexandre me ajudou um monte. Eu pensei que ele iria se afastar de mim e comentei isso com ele, mas ele sorriu e disse que era meu amigo e que não havia motivos para que isso mudasse.

Meu avião sairia no sábado. Eu estava desembarcando do táxi quando ouvi alguém me chamar. Franzi a testa e procurei o som da voz. Arregalei os olhos ao ver que era a Jô e ela segurava a Marilyn, que estava presa pela coleira. Só que assim que a Marilyn me viu, ela se soltou e veio correndo em minha direção.

Ela pulou em cima de mim e eu caí com tudo para trás.

Marilyn começou a me lamber, me deixando todo babado. Ótimo. A viagem é longa e eu vou ter carinho da Marilyn me cobrindo inteiro.

Jô conseguiu puxar a Marilyn e eu me levantei meio trôpego.

– Um dia esse teu amor ainda vai me deixar corcunda, Marilyn – resmunguei e ela latiu toda feliz.

– Então você vai mesmo? – Jô perguntou em um tom ansioso.

– Como você soube?

– Ouvi o Alexandre contando para o Eduardo.

– Não acredito que o Alexandre continua se metendo nisso! Eu já disse que o aconteceu não foi culpa dele! – exclamei exasperado.

– Ele foi dizer para o Eduardo te impedir de ir, mas...

– O Eduardo disse que eu posso ir para o inferno que ele não se importa.

– Mais ou menos isso – Jô deixou os ombros caírem. – Aí ele expulsou o Alexandre de novo. Eu quase não acreditei quando o Alexandre contou ao Eduardo que você está indo embora! Por que está fazendo isso?

Suspirei e me ajoelhei ao lado da Marilyn. Ela tentou me lamber, mas eu a contive e fiquei fazendo carinho no topo da cabeça dela.

– Porque eu me apaixonei pelo Eduardo e não quero ficar perto dele – respondi e acho que Jô ficou surpresa com a minha sinceridade já que não conseguiu esboçar qualquer reação rapidamente.

– Então você deveria ficar e lutar por ele...

Soltei uma risadinha irônica.

– Você conhece o Eduardo tão bem quanto eu. Ele enfiou na cabeça que eu tenho algo com o Alexandre e não tem ninguém que consiga tirar essa ideia da mente dele. E, sendo bem sincero, não sei se quero saber de uma pessoa que nem ao menos me dá a chance de tentar me explicar. As coisas que ele falou, Jô...

Não era mais eu que teria de lutar pelo Eduardo. Era ele quem precisava buscar meu perdão depois do que havia feito.

– Mas, Fred, o Eduardo é muito ciumento...

– Não justifica, Jô – falei em um tom definitivo. – Vai ser melhor para mim... Longe dele vai ser mais fácil.

Jô fungou, mas acabou entendendo a minha posição. Ela me abraçou enquanto me desejava sorte. Marilyn se encostou à minha perna e começou a choramingar.

– E você, senhorita, comporte-se. Seu pai não vai aguentar se você arrumar mais filhotes! – falei enquanto abraçava a Marilyn. É incrível como ela parecia entender o que estava acontecendo e não parava de choramingar. – Bem, tenho que ir. Assim que eu me instalar lá, mando uma carta com uma lembrança, aí você pode me escrever. O que você acha de uma lingerie francesa vermelha bem sexy?

– Fred! –Jô exclamou da cor de um pimentão, fazendo com que eu risse. – Eu queria te acompanhar, mas a Marilyn não pode entrar no aeroporto.

– Ah, melhor... Eu sou uma manteiga derretida. Eu ia começar a chorar, seria um escândalo no meio do saguão e iam nos expulsar. E eu não quero chorar – balancei a mão em um gesto de impaciência. – Adieu¹, meninas.

Agarrei a alça da mala e me virei em direção à entrada do aeroporto. Eu conseguia ouvir os choramingos da Marilyn, mas não olhei para trás. Se olhasse, Jô e Marilyn veriam que eu já estava chorando.