Capítulo XII

Eduardo e eu não nos desgrudamos nas semanas seguintes. Nem preciso dizer o quanto era estranho estar de caso com o meu chefe. Eu não sei exatamente o que nós tínhamos. Talvez um namoro. Não que eu precise de um pedido formal dele para ficar seguro disso. É só que... Ainda é confuso demais para entender.

Eu estava com a cara enfiada no computador – pra variar – olhando as fotos das modelos que haviam sido selecionadas para o desfile, mas eu ainda tinha minhas dúvidas se seriam aquelas ou não. Seria um desfile para um grupo de empreendedores de lojas de roupas femininas. Acho que poderíamos contratar modelos com cachês mais modestos.

– Frederico! – Eduardo apareceu na porta da sala com aquela expressão: “Você fez algo errado, sua peste!”.

Levantei e fui arrastando os pés até a sala, como quem segue direto para cumprir a própria sentença de morte.

Eduardo saiu do caminho para que eu entrasse e eu ainda escutei uns sussurros de ‘coitadinho do Fred’ antes que ele batesse a porta. Ouvi quando o Eduardo passou a chave na fechadura e, ao me virar para perguntar por que ele havia trancado a porta... Fui atacado!

Ele simplesmente me pegou pelo braço e me arrastou até a mesa.

– Edu... – tentei falar, mas ele colou a boca na minha, impedindo-me de perguntar qualquer coisa. Bem, na verdade eu não perguntaria. Eu ia esbravejar que ele tinha ficado louco, todos escutariam e seria um auê! Então foi melhor mesmo ele ter me beijado.

Como sempre, fiquei completamente desorientado e deixei que ele fizesse o que bem entendesse com a minha boca. Gemi – mais alto do que deveria – quando ele se inclinou sobre mim, passando as mãos pelas minhas coxas, prensando-me ainda mais na mesa. Era demais para a minha pobre sanidade.

Quando ele se afastou, com aquele sorrisinho presunçoso no rosto, eu tive que me segurar para não chutá-lo bem no meio das pernas. Mas eu lembrei que aquele era o meu playground e eu não queria danificá-lo porque ia brincar com ele mais tarde.

– Você é doido!

– A culpa é sua...

– Nem vem! Eu estava quietinho na minha mesa! – o interrompi. Agora ele dava pra jogar todas as mazelas do mundo nas minhas costas. – E me deixa sair...

Tentei me libertar, mas o Eduardo me segurou pela cintura e me fez sentar sobre a mesa dele. Dei graças aos céus por estar de calça, senão sentiria os dedos dele subindo pela minha perna, tocando diretamente a minha pele e eu surtaria com isso, pularia em cima dele e acabaríamos nus sobre a mesa.

É uma ideia tentadora, mas eu não quero que o povo fique dizendo que eu me dou bem na empresa porque durmo com o chefe. E eles iam dizer isso porque eu com certeza não sou muito silencioso quando estou transando. Então, no mínimo, o andar inteiro saberia o que estávamos fazendo.

– Eu estava louco para fazer isso desde que... – ele parou subitamente e fechou a cara. – Melhor nem lembrar.

– Desde que você me pegou desse jeito com o Alexandre? – completei a frase.

– Eu disse para não lembrar! – ele exclamou exasperado e eu não consegui conter a risada. – Não tem graça! – disse enciumado.

– É claro que tem! – falei ainda entre risadas. – Como eu não percebi que era ciúme? Você ficou louco da vida querendo cancelar o desfile!

– Você não percebeu porque é um idiota cego! Mais cego do que uma toupeira – Eduardo resmungou.

Soltei um murmúrio contrariado e saltei da mesa.

– Em minha defesa, digo que fui agarrado naquele dia! – falei aborrecido.

– Esquece, Fred. Eu não quero saber dos detalhes sórdidos – Eduardo disse, ranzinza, enquanto dava a volta e se largava na cadeira.

‘Tá pra nascer pessoa mais ciumenta que o Eduardo.

Mas ele ficava tão lindo com aquele bico de irritação! Aí eu perdôo todos os resmungos ciumentos.

– E em minha defesa... – dei a volta também e empurrei a cadeira para sentar confortavelmente no colo dele. Eduardo mordeu o lábio para conter um gemido já que eu fiz questão de me remexer todo em cima do falo dele. – Eu não vejo o Alexandre desde que ele foi lá em casa no dia seguinte ao do desfile.

– Ele foi na sua casa? – Eduardo trovejou e eu apertei os olhos percebendo que tinha falado besteira. – Como assim ele foi na sua casa? Fazer o que lá?

Melhor nem comentar que o Alexandre me flagrou sem camisa quando esteve lá.

– Eu fiquei chateado com aquele negócio de desfilar – expliquei. – Ele foi pedir desculpas.

– Hum... – Eduardo resmungou não parecendo nem um pouco satisfeito.

– Ele... Ele também me chamou para ir trabalhar com ele – confessei. Eu sei que não deveria ter contado isso! Mas era melhor ele saber logo. Vai que um dia ele fica sabendo que o Alexandre me chamou para trabalhar com ele e, do jeito que é ciumento, ia surtar sem motivo.

– O Alexandre realmente queria te tirar de mim – Eduardo disse insatisfeito. Pelo menos não teve um chilique. Senti quando ele apertou os braços em volta da minha cintura de uma forma possessiva. Ergui a cabeça e nossos lábios meio que se atraíram como se fossem imãs.

Meia hora depois, eu deixei a sala. E pior que estava mais vermelho do que um pimentão, com a roupa toda amassada e os lábios inchados. E o desgraçado do Eduardo ainda disse que não estava nem aí, que os outros pensassem o que bem quisessem.

O resto do dia se arrastou. Eu simplesmente não conseguia me concentrar no trabalho. Só pensava na prensada que levei naquela mesa. Tive que disfarçar o volume nas minhas calças diversas vezes colocando alguma revista em cima. Eduardo desgraçado que fica mexendo com os meus hormônios!

Mas eu já tinha uma vingança maligna toda esquematizada na minha mente. Assim que todos foram embora, verifiquei se estávamos realmente sozinhos no andar. Fiz uma encomenda importante e mandei que a pessoa que fosse entregar chamasse o Eduardo na recepção do prédio. Quando ele saiu da sala, meia hora depois, parecendo aborrecido e confuso, eu me esgueirei para dentro dela.

Fui tirando a roupa pelo caminho até ficar completamente nu e sentei sobre a mesa.

Quando o Eduardo voltou eu estava lá, como vim ao mundo e com um sorriso safado no rosto.

– Depois você reclama quando eu te agarro... – Eduardo disse entre os dentes enquanto largava a encomenda de qualquer jeito no chão.

Balancei as pernas de forma despreocupada.

E no segundo seguinte fui atacado!

Só posso dizer que o que aconteceu em cima daquela mesa foi uma das coisas mais pervertidas e quentes que já eu já fiz.

Fui o caminho todo até a casa dele suspirando e lançando olhares ansiosos para ele.

– Parece que alguém está viciado em mim – ele disse em um tom satisfeito.

– Convencido! – estirei a língua para ele e cruzei os braços enquanto virava o rosto para olhar a paisagem passar rapidamente pela janela. – Só por essa não vou deixar mais você encostar em mim hoje!

Eduardo riu.

– Vai ser divertido vê-lo tentar fugir... – ele disse em um tom sugestivo.

Nós discutimos o resto do caminho inteiro. Parecíamos duas crianças birrentas.

Quando nós chegamos em casa, descemos do carro ainda discutindo, mas eu parei na mesma hora quando a Marilyn não veio pra cima de mim. Franzi a testa e fui até o cercadinho dela. Me ajoelhei e fiz um carinho na cabeça dela.

– Marilyn? – a chamei em um tom preocupado. O Eduardo veio atrás de mim quando percebeu que eu não havia entrado. – Ela não está bem... – falei preocupado, observando como ela estava toda encolhida.

– Acho que está na hora... – Eduardo comentou lentamente.

– Hora de quê?

– Hora dos filhotes saírem, né, Frederico! – ele exclamou impaciente.

– Ai meu Deus! – exclamei enquanto levantava de um salto. – Temos que levá-la para o veterinário!

– Não precisa. Eles nascem sozinhos.

– Como assim?

– Nascendo!

Marilyn ergueu a cabeça, mas logo tornou a se esconder embaixo das patas. Ela parecia tranquila para quem estava em pleno trabalho de parto.

– O veterinário explicou que as cadelas não precisam de ajuda nenhuma. Só se houver alguma complicação – Eduardo explicou enquanto abria a portinha do cercadinho. – Você consegue andar, menina? – ele perguntou carinhoso. Marilyn levantou quando ele prendeu a coleira. Nós a levamos até o local que o Eduardo havia preparado com jornais e um ventilador só para a futura mamãe. – Agora vai demorar... O veterinário explicou que os primeiros sinais surgiriam com 48 horas de antecedência.

Bom, com essa nós acabamos virando babás e espectadores e nossa noite quente foi para o espaço. No dia seguinte, deixamos a Marilyn com a Jô e fomos trabalhar meio que na marra. Eu ligava de meia em meia hora para saber como a Marilyn estava.

A noite seguinte também foi de vigília. Sério. Ainda bem que nasci homem. Não teria paciência para ter um bebê. Admiro as mulheres profundamente por isso.

Quando o dia começou a amanhecer, o primeiro filhotinho nasceu. Foi a coisa mais fofa e mais nojenta que eu já vi na vida. A Marilyn nem esperou que o bichinho saísse direito e já foi lambendo-o inteiro. Eu fiquei preocupado porque demorou um pouco para que ele começasse a fazer os primeiros sons de choro, mas assim que ele ‘acordou’ de vez foi logo se esgueirando, tentando fugir das lambidas da Marilyn, para encontrar o leite.

E foi assim,um por um.

Eram cinco no total.

– Ow! – suspirei. – Eles são lindos!

– São bolas de pelo sem pelos... – Eduardo resmungou em um tom rabugento.

– Ai, Eduardo, você ainda ‘tá com ciúme? Marilyn, você arrumou um pai terrível. Não liga para ele. Seus filhotes são lindos.

Marilyn estava mais preocupada em lambê-los do que nos ouvir.

Os dias seguintes passaram voando. O veterinário foi examinar a Marilyn e os filhotes. Eram dois meninos e três meninas. Disse que estava tudo bem com eles e que a Marilyn iria amamentá-los por três meses e depois o Eduardo poderia vendê-los ou doá-los. Eu nem quero pensar no dia em que eles serão separados. É tão fofo ver a Marilyn lambendo e alimentando os pequenos.

– Você já pensou nos nomes? – Eduardo e eu estávamos no meu apartamento. Era hora do almoço e nós havíamos fugido para lá já que a empresa ficava bem mais perto da minha casa do que da dele. Estávamos estirados na minha cama depois de mais uma sessão disso que você está pensando mesmo.

– Eu não vou ficar com eles... – Eduardo girou os olhos. – Imagina! A Marilyn sozinha já falta destruir a casa.

– Mas você vai ficar com eles por alguns meses! Não pode chamá-los e ‘filhote 01, 02, 03’!

– Posso – Eduardo disse aborrecido.

– Tá, se você não quer dar nomes a eles, eu dou! – exclamei animado enquanto sentava na cama. – Nicole, Jolie e Scarlett para as meninas. Jonnhy e Robert para os meninos.

– Eu duvido muito que a Angelina Jolie ou a Nicole Kidman se sintam lisonjeadas com essa homenagem... – Eduardo comentou.

– A Marilyn Monroe já apareceu para reclamar por você ter dado o nome dela a uma São Bernardo? – perguntei despreocupado. – Se meu apertamento fosse maior eu adotaria o Jonnhy.

– Eu te daria a Jolie... – Eduardo resmungou enciumado e eu acabei rindo. Aqueles surtos psicóticos de ciúme dele eram muito sem noção para que eu levasse a sério.

– Vou tomar um banho – falei enquanto saltava da cama. – Você não quer vir? – perguntei com um sorriso safado.

– Frederico, não provoca... Já estamos atrasados – Eduardo enfiou o travesseiro no rosto para não ver o meu belo traseiro desfilando até o banheiro.

Como estávamos realmente atrasados, tomei uma ducha rápida. Saí do banheiro só com uma toalha enrolada na cintura, já que havia esquecido de pegar uma roupa antes de entrar no banho, mas eu não me importava em desfilar nu na frente dele. Não tinha nada que o Eduardo não tivesse visto, não é?

Quando eu o vi, estanquei onde estava. Mas não foi por nenhum motivo pervertido: ele estava olhando alguns dos meus desenhos.

– Por que você nunca me mostrou esses desenhos? – ele perguntou.

– Eu tentei... – respondi blasé, fingindo que não estava morto de curiosidade para saber o que ele estava pensando. – Mas você nunca parecia bem humorado o suficiente para que eu tentasse falar sobre qualquer outra coisa que não fossem os desfiles.

– São muito bons, Fred...

– É claro que são! – empinei o nariz.

Eduardo soltou um suspiro exasperado.

– Modesto! – disse com ironia.

– Se eu não achar os meus desenhos bons, quem vai achar? – balancei levemente os ombros. – E você foi até Porto Alegre atrás de um estilista, tendo um ótimo bem embaixo do teu nariz!

Eduardo acabou soltando uma risadinha. Acho que ainda era por causa da minha modéstia.

– Organize um desfile – ele disse de repente.

– Desfile? – franzi a testa. – Nenhum cliente nos procurou – nós andávamos produzindo apenas alguns books e catálogos nas últimas semanas.

– Um desfile com os seus desenhos – Eduardo explicou. Acho que meus olhos ficaram do tamanho de pires. Quando eu voltei a respirar, corri até a cama, a toalha caiu pelo caminho e eu pulei em cima do Eduardo. Ele levou um susto e fez uma careta de dor por eu ter pulado em cima dele com tanta força.

– Sério? – perguntei ansioso.

– Sim. Os desenhos são muito bons. Tenho certeza que os críticos vão concordar comigo – ele sorriu enquanto colocava as mãos na minha cintura.

Eu me inclinei, ficando com a minha boca bem perto da dele.

– Você não está dizendo isso só porque eu falei sobre você ir até Porto Alegre atrás de um estilista e não encontrar, não é?

– O que eu mais recebo são desenhos de estilistas desesperados. Você bem sabe – ele disse indiferente. – Eu gostei de você não ter jogado esses desenhos na minha cara durante esses oito meses. Poderia ter aproveitado a sua posição na empresa e feito isso, mas não fez. É um sinal de que você se valoriza e eu acho isso importante. Sua opinião antes da opinião dos outros.

– Bem assim... – resmunguei sentindo o rosto arder.

– Vamos fazer um desfile apenas para alguns críticos e alguns donos de grifes. Um passo de cada vez, ok?

Minha resposta foi terminar a distância entre as nossas bocas e beijá-lo com paixão. O Eduardo não se fez de rogado e, assim que eu entreabri os lábios, ele já foi invadindo a minha boca, iniciando uma dança sensual que me deixava completamente arrepiado, zonzo e excitado. E eu estava nu em cima dele, então nem tinha como esconder as reações que ele causava em mim.

Eu me afastei sentindo o coração na boca e o ar faltar. Nos encaramos por alguns segundos até eu saltar da cama e começar a andar de um lado para o outro.

– Eu vou ligar hoje mesmo para a Maria Aparecida. Ela é a melhor costureira que eu conheço! Tomara que a agenda dela não esteja muito lotada. Também vou ligar para a Mariane e a Juliana. Elas são perfeitas para desfilar as minhas criações.

E eu continuei tagarelando. Quando nós chegamos à Seventh Heaven eu ainda estava falando.

– Você parece estar mais feliz que o normal, Fred – Murilo comentou sorrindo.

– Você não vai acreditar! O Eduardo vai produzir um desfile com meus desenhos! – exclamei radiante.

– Puxa, que legal! – Murilo disse, mas eu nem prestei muita atenção na expressão dele. Estava mais interessado em pegar os telefones das pessoas para quem eu tinha que ligar. – Você vai realizar o seu sonho.

– Pois é! Eu nem acredito! – falei. Nós ainda conversamos por algum tempo, até eu estar ocupado demais para ouvir o que ele estava dizendo.