Capítulo X

O clima estava estranho.

Tá, estranho era pouco, mas eu não consigo pensar em outra palavra para definir o gelo que está nesse carro.

Nós já estávamos de volta a São Paulo, e o Eduardo estava me levando para casa.

Eduardo dirigia concentrado, os lábios comprimidos e a testa levemente franzida. Ele estava aborrecido e não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento para melhorar aquela carranca.

Obviamente eu comecei a pensar hoje de manhã depois que acordei. Eu abri os olhos, estranhei o quarto e me sentei, sentindo-me desorientado e dolorido. Quando as lembranças começaram a ficar claras, dei um salto da cama e derrubei metade dos brinquedos que estavam em cima do lençol que me cobria.

Eduardo estava no banheiro e ouviu a barulheira que eu fiz.

– Você está bem? – ele perguntou parecendo preocupado.

– Não. Eu não estou bem! – respondi enquanto catava as minhas roupas.

– Eu te machuquei?

– Não, Eduardo, a transa foi perfeita – falei em um tom sincero. – Mas não deveria ter acontecido! Eu admito que estava a fim. Se não estivesse eu teria te chutado e fugido. O problema é que não tem como eu acreditar que você me ama! Você sempre me tratou a patadas! A Marilyn me trata mil vezes melhor do que você... Mesmo me esmagando e tentando me sufocar daquele jeito... Acho que se você tivesse dito que era só tesão, teria sido mais fácil de aceitar. Eu não sei o que sinto por você. Em 99,9% desse tempo que eu trabalho com você, eu te odiei e agora... agora... Eu não sei! Estou muito confuso.

– Para Fred! – Eduardo exclamou ao perceber que eu continuaria falando daquela forma desenfreada. – Respire! Você está ficando roxo!

– Eu preciso de um tempo... Preciso pensar.

– Eu sei disso. Não estou pedindo que você aceite nada agora. Vou esperar até que você queira conversar a respeito...

Ele fez o movimento de que iria se aproximar, mas eu saí correndo para o banheiro. Sério. Meu coração acelerou que nem um doido só por vê-lo chegar perto, e eu não confiei no meu corpo. Eu pularia em cima dele se ele desse mais um passo. Eu não estava me entendendo! Como poderia entender o que ele sentia?

Nós voltamos para a casa dos meus pais, e o Eduardo agiu como se tudo estivesse absolutamente normal. Eu tive que aguentar o interrogatório da minha mãe sobre onde nós havíamos passado a noite, mas eu confesso que ignorei metade das perguntas. Eu só conseguia pensar em como sobreviveria a uma noite inteira dividindo o quarto com o Eduardo.

Aí o Eduardo apareceu dizendo que havia surgido um problema em São Paulo e que teríamos de voltar imediatamente.

Eu não sei como ele conseguiu as passagens tão rápido, mas em meia hora já estávamos no carro prontos para voltar para Porto Alegre e, de lá, voar para São Paulo.

Minha mãe começou um drama daqueles e me fez jurar de pés juntos que não demoraria tanto para visitá-la.

Dormi o caminho inteiro. De Dois irmãos até Porto Alegre e no voo até São Paulo. Eduardo havia deixado o carro no aeroporto e se ofereceu para me levar para casa, mesmo eu tendo dito que não precisava, e agora estávamos no tal clima estranho que eu falei.

– Chegamos! – Eduardo disse ao estacionar o carro diante do meu prédio.

Ele desceu para me ajudar com as malas. Murmurei um “obrigado” e saí em disparada antes que a minha boca traidora resolvesse convidá-lo para subir.

Os dias seguintes foram... estranhos. Tá tudo estranho na minha vida. FATO!

Eduardo chegava à empresa mudo e saía calado. E não me chamou de incompetente nenhuma vez. Nem de lento ou de idiota. Também não pediu que eu fosse ao supermercado para comprar as coisas que estavam faltando na geladeira dele e muito menos me mandou ao pet shop para buscar a Marilyn. As ordens dele foram todas relacionadas ao desfile que estávamos produzindo.

Alexandre continuava correndo atrás de mim. Todo dia tinham pelo menos umas cinco mensagens na secretária eletrônica. Eu nunca respondia. Já tinha problemas demais para conseguir me preocupar com ele agora.

O pior de tudo mesmo... Era que eu ia desfilar de novo. O cliente que estávamos atendendo era famosão... Uma exceção à regra. Eduardo não gostava de produzir desfiles para estilistas famosos porque eles eram cheios de vontades, mas o cara ofereceu mundos e fundos e o Eduardo acabou topando. Aí o cara veio com a exigência de que eu desfilasse. Eduardo tentou negar, mas não teve jeito. E eu ia desfilar... De vestido de noiva.

Não quero nem comentar isso.

E assim os dias foram se tornando semanas.

– Frederico, os relatórios! – Eduardo disse ao passar pela minha mesa. Senti os pelos da minha nuca se arrepiarem, e demorei um pouco para processar a ordem.

Eu tentava evitar pensar muito no que havia acontecido quando estava na empresa. Geralmente as lembranças me atacavam nos momentos em que eu estava deitado e pronto para dormir. A declaração do Eduardo ainda me confundia, e o que havia acontecido com o idiota do Wagner me deixava travado, assustado e incapaz de acreditar que, o Eduardo falara, fora realmente sincero.

Sem falar que o Eduardo está mais para um monstrinho em um terno Hugo Boss, do que para uma pessoa normal.

Eu sou exagerado, eu sei. E sou teimoso também. Estou louco de vontade de repetir aquela noite, mas não consigo superar esse medo.

O dia passou meio que num borrão. Eu estava atolado de coisas para fazer. O bom disso era que sobrava pouco tempo para pensar.

E, só pra variar, Eduardo acabou me prendendo no escritório até tarde. Todos já haviam ido embora, e eu estava juntando as minhas coisas para ir também quando ele saiu da sala.

– Já vai? – Eduardo perguntou.

– É bem tarde já – me limitei a responder.

Eduardo fez o movimento de que iria passar por mim sem dizer mais nada, porém ele acabou parando antes de abrir a porta.

– Frederico... – ele disse meu nome lentamente, fazendo com que eu sentisse aquele arrepio na espinha. O desgraçado devia saber que me excitava quando me chamava desse jeito, nesse tom! – Você ainda está pensando?

– Não dá para dar uma resposta sobre aquela declaração da noite para o dia.

– Já passaram algumas semanas...

– Mesmo assim! Nós mal nos conhecemos... Como você pode me amar? Eu não entendo! – exclamei exasperado.

Eduardo deu a volta e ficou parado diante da minha mesa.

– Eu também não sei como eu posso te amar. Aconteceu. Mas se você precisa tanto... Nós podemos nos conhecer fora daqui – ele propôs.

– Eu... Eu não sei – hesitei. Eduardo colocou a mão dele sobre a minha, que estava sobre a mesa.

– Por favor – ele pediu.

Não tem como negar alguma coisa ao Eduardo quando ele olha para você com essa cara de cachorro que caiu da mudança! É covardia.

– Nós podemos sair hoje... – ele disse naquele tom de quem não quer nada, mas queria tudo. Eduardo é um homem que não faz sentido algum! Ele me confunde inteiro.

– Para onde? – acabei me dando por vencido.

Eduardo sorriu e eu esqueci momentaneamente de como respirar. Se ele sorrisse com mais frequência, eu estaria ferrado. Ia acabar no pronto socorro por asfixia.

– Vai ter um show em uma casa noturna aqui perto. Eu fui convidado e não estava a fim de ir sozinho.

– Show de quem?

– Um cantor aí – Eduardo respondeu evasivamente.

– Não estou vestido para uma festa... – suspirei em minha última tentativa de escapar.

– Você está ótimo.

Olhei para ele e vi aquela expressão de “você está ótimo, mas eu preferia que você estivesse nu na minha cama”.

– Então... Então vamos logo – exclamei me erguendo de uma vez e esqueci que estava com um monte de pastas nas pernas e tudo foi parar no chão. – Ai, como eu sou estabanado...

Eduardo se abaixou para me ajudar a reunir aquele monte de papel que eu derrubei e nossas mãos foram justo no mesmo pedaço de papel. Sabe aquelas cenas bobas de filme? Nossas mãos se tocaram e a gente ficou se olhando, meu coração quase saindo pela boca... Até que eu me quebrei o contato visual e voltei a arrumar a bagunça.

– Como foi a prova do vestido? – Eduardo perguntou enquanto esperávamos o elevador.

– Ai – gemi desgosto. – Não fala desse vestido!

– Pensei que você gostasse de vestidos – ele disse bem humorado.

– Não gosto da ideia de desfilar! – exclamei estafado.

– Também fui provar o fraque...

– Que fraque? – perguntei confuso.

– Você não achou que eu ia deixar um homem qualquer desfilar ao seu lado, não é? – ele retrucou em um tom tranquilo. O elevador chegou naquele momento, mas eu estava completamente travado, olhando para ele como se eu estivesse diante do Jonnhy Deep nuzinho da silva!

– Você vai desfilar? – perguntei assombrado.

– Vou...

– Comigo?

– Qual o problema?

– É o apocalipse¹ chegando!

Eduardo deu um sorrisinho de canto de boca.

– Não sei por que tanta surpresa. Eu fui modelo, ora. Não é como se eu não soubesse desfilar.

– Sim, mas você se aposentou e agora vai desfilar COMIGO!

– Frederico – ele disse naquele tom lento e eu estremeci no mesmo instante. Ele deixou outro sorrisinho escapar. – Pare de fazer escândalo por tudo. Nós não vamos nos casar na passarela. Vamos apenas desfilar juntos.

Eu não iria conseguir absolver essa informação de que ele desfilaria comigo tão fácil assim. Fui surtando o caminho inteiro, dizendo que iam falar horrores se ele entrasse na passarela comigo, mas ele se fez de surdo e me deixou falando sozinho. A sorte dele é que a tal casa noturna ficava realmente perto da Seventh Heaven.

O lugar era um dos mais chiques de São Paulo. Eu me senti um maltrapilho quando paramos diante do prédio. Havia uma fila enorme na porta e nós simplesmente furamos. Eduardo deixou o carro com o manobrista e foi lá pra ponta da fila. Ele disse o nome dele e entramos sem qualquer dificuldade. O segurança praticamente pulou do nosso caminho para que passássemos.

– Esse lugar é daqueles bem exclusivos... – resmunguei. – E você me faz vir aqui de calça jeans e tênis!

– E lá vamos nós para outro surto – Eduardo disse em um tom despreocupado.

Ele dizia isso por que estava usando um terno Hugo Boss, ora! Quer algo mais chique do que um moreno de olhos verdes com um terno preto, sem gravata e os primeiros botões da camisa abertos?

Resmunguei o tempo inteiro. Eduardo se fez de surdo outra vez.

Sentamos, e eu peguei uma bebida quando um dos garçons passou. Sério. Eu ‘tô me sentindo um lixo aqui. Todo mundo podre de chique e eu de ruivo pobretão! Argh. Isso soou meio Draco Malfoy, do Harry Potter, xingando o Ron Weasley. Essa frase ficou estranha. O Draco não é do Harry... Ou é... Tem histórias na Internet que dizem que sim. É, continuo pensando um monte de bobagens, totalmente. Tenho que parar de pensar!

As luzes do palco se apagaram e as pessoas começaram a aplaudir, e eu fui no embalo aplaudindo sem nem saber quem era o cantor que se apresentaria.

Aí os primeiros acordes de You’be in my heart do Phil Collin começou a tocar e o PRÓPRIO Phil Collins² apareceu no palco sorrindo e acenando. Se eu estivesse de pé, teria capotado de susto!

– Você chamou o Phil Collins de ‘um cantor aí’? – exclamei exasperado.

– Queria que fosse surpresa – Eduardo balançou os ombros de leve.

Meus olhos se encheram de lágrimas quando o Phil (eu me achando íntimo do cantor só porque ele está a meio metro de distância de mim) começou a cantar.

– Ei, não é para chorar... – Eduardo disse alarmado.

– Ele pode ‘tá velho, mas eu amo esse homem! – suspirei.

Eduardo lançou um olhar atravessado para o Phil Collins. Ai, que beleza. Ele tem ciúme de tudo!

– E essa música me lembra quando eu comecei a perceber algumas coisas.

– Que coisas?

– A música é do filme do Tarzan, né... – falei sem tirar os olhos do Phil. – Bem, eu comecei a prestar atenção no Tarzan e no quanto eu gostava de ver um homem de tanguinha.

Eu não sei por que estava contando esses fatos embaraçosos da minha infância justo para o Eduardo! Talvez fosse porque ele me trouxe a um show exclusivo do Phil Collin! Porra, é demais pra o meu coração!

– Você ficava prestando atenção em um desenho? – Eduardo perguntou com uma das sobrancelhas arqueadas.

– Eu fui uma criança precoce, ora – balancei levemente os ombros. Phil começou a cantar outra música e eu fiquei de pé totalmente animado. Não estava nem aí se ninguém fez o mesmo. Eu não ia ficar parado enquanto ele cantava Easy Lover.

Aos poucos, as pessoas começaram a levantar e bater palmas. Eu dançava sem me importar com ninguém. Quer dizer, quase ninguém. Eu balançava os quadris e olhava para Eduardo. Percebi que ele tinha travado o maxilar e estava a ponto de pular em cima de mim. Sorri satisfeito e caprichei ainda mais no rebolado. A sorte do Eduardo é que o Phil não tem muitas músicas agitadas, senão eu o deixaria louco antes do final do show.

Era incrível como eu não havia percebido que o Eduardo havia praticamente me devorado com os olhos durante todo esse tempo. E eu ainda cheguei a imaginar que ele gostava da Jô! Eu sou mesmo muito cego. A pessoa tem que dizer bem dito na minha cara que está a fim de mim, porque senão eu não percebo.

A música terminou e me sentei para viajar enquanto ele cantava I can’t stop loving you. Só que o Eduardo não queria me deixar ouvir o show. Ele ainda queria falar do Tarzan.

– Mas qual a graça de admirar um desenho? – ele perguntou inconformado.

– O Tarzan é um gato – suspirei. – Todo malhado, musculoso. Sem falar que é sexy um homem que viveu isolado. Eu ia adorar ensinar as coisas boas da vida para ele.

– Ele é um desenho animado! – Eduardo exclamou emburrado. Ah, ótimo. Agora ele está com ciúme do Tarzan. Melhor nem contar para ele que tem Tarzan de carne e osso. Teve um seriado meio antiguinho que passou na TV por assinatura que tinha um Tarzan... Melhor nem lembrar senão começo a salivar! E ainda bem que o Eduardo não consegue ler pensamento.

No meio do show, eu voltei a levantar. Havia vários casais dançando abraçados. A luz estava toda no palco e a plateia na penumbra. Me assustei quando o Eduardo me abraçou por trás e começou a movimentar o corpo dele lentamente junto ao meu.

– Edu... Eduardo! – murmurei exasperado. – Vão nos ver!

– Não me importo – ele respondeu tranquilo.

Eu ia me afastar, mas o Eduardo me prendeu com força em seus braços, impedindo-me de fugir. Ele afastou os meus cabelos e começou a beijar o meu pescoço. Fechei os olhos sentindo um frio subir pela minha espinha.

Me virei e fiquei na ponta dos pés. A música romântica nos embalava suavemente e a certeza de que ninguém nos veria fez com que eu colasse os meus lábios nos dele. É, eu sou contraditório. Digo uma coisa e faço outra. Mas não tinha como resistir. Eu podia não estar apaixonado pelo Eduardo, mas aquele tesão que existia entre nós me deixava louco.

– Vamos para a minha casa... – Eduardo disse assim que nossos lábios se desencontraram. Sorri com aquela afobação, mas apenas me virei de novo e continuei assistindo o show. Ouvi um resmungo aborrecido por parte dele, mas ignorei.

Apesar de aparentar estar contrariado, Eduardo continuou agarrado em mim pelo resto do show. O bom das músicas do Phil Collins é que são 99,9% românticas e lentas. Ótimas para ficar curtindo agarradinho. Eu estava gostando daquilo. Só não estava pronto para aceitar o convite do Eduardo para ir para a casa dele. Era a primeira vez que estávamos saindo, caramba! Eu sou homem, estou cheio de tesão por ele, mas ele disse que nós iríamos primeiro nos conhecer... E eu realmente preciso conhecer o lado ‘não monstrinho’ dele antes de me aventurar na cama com ele outra vez.

Eu sei que você está louco que eu pare de pensar outra vez e me atire com tudo na cama do Eduardo. Mas não é assim. Vai que eu me apaixono por ele. É do meu coração provavelmente partido que estamos falando! Depois do que eu havia passado com o Wagner, era difícil simplesmente me jogar de cabeça novamente, sem nenhuma preocupação.

– Você quer ir tirar uma foto com ele? – Eduardo perguntou assim que o show acabou. Nós já estávamos devidamente afastados, uma vez que as luzes foram acessas e com certeza os paparazzi fariam a festa se nos flagrassem abraçados.

– Sério? – retruquei os com olhos brilhando, mas logo desanimei. – Não. Eu não ‘tô vestido bem pra conhecê-lo.

– Deixa de bobagem, Frederico – Eduardo fez um gesto de impaciência. – Duvido muito que ele se importe com o que você está vestindo. Com certeza ele ficaria escandalizado se você aparecesse nu ou saltasse no pescoço dele. Você não vai saltar no pescoço dele, não é? – perguntou enciumado.

Acabei sorrindo.

– Não posso prometer nada.

– Então eu não levo! – Eduardo parecia uma criança birrenta.

– Você não ia conseguir mesmo! – falei naquele tom de ‘você está só blefando!’. – Foi convidado para essa festa, mas duvido que tenha intimidade suficiente com o dono da festa para chegar até o camarim.

Psicologia para crianças. Diga que elas não conseguem algo e elas fazem de tudo para mostrar que conseguem, sim.

E funcionou direitinho.

O Eduardo agarrou o meu pulso e me levou para conhecer o Phil Collins. Descobri que o Eduardo conhecia muito bem a casa noturna e a dona do lugar: uma loira, peituda e ossuda que atendia por Júlia. ‘Tá, ela não é ossuda. É bem bonita, mas eu também posso sentir ciúmes, não posso?

Ela o abraçou de uma forma que deixou bem claro o quanto eles eram íntimos.

Eduardo me apresentou sem fazer qualquer menção sobre de onde nos conhecíamos e qual era a nossa relação. Bem, na verdade, não há relação, então seria confuso tentar explicar e ele deve ter optado por deixar isso para lá. Ou então ele pensou que não era da conta dela e pronto.

– Eu lembro de ter dado um fora em uma Júlia para você – resmunguei. – Era ela?

– Ciúmes? – Eduardo perguntou divertido.

– Se eu fosse ter ciúme de todas as suas ex-ficantes, eu estaria ferrado – falei com um sorriso forçado. Ciúme é algo irracional. Eu não queria ir para a cama com o Eduardo de novo por enquanto, mas não queria ele se enrolasse com outra pessoa, e pensar nele com as ex e os ex (que ele meio que admitiu que existiram) me deixava com vontade de chutá-lo!

Eu só não sei como ele chutou essa Júlia. Tipo, ela é linda, rica, tem um sorriso bonito, sabe conversar, não é surtada, nem tem sardas...

Descobri que a Júlia foi colega do Eduardo no tempo dele de modelo, então ela não era a mesma Júlia que dispensei para ele. Depois de largar as passarelas, ela abriu essa casa noturna e estava comemorando dois anos de sucesso. E ela sabe como comemorar com estilo.

Eduardo ainda estava achando que eu ia pular em cima do Phil Collins. Ele me segurou com força pelo braço quando entramos no camarim. Mas eu não surtei. Eu travei. Completamente! Fiquei lá com a boca aberta, meio sem acreditar que estava realmente perto dele. Phil foi todo simpático. Sorriu, me deu um autógrafo, perguntou se eu estava bem, qual música eu gostava mais. E eu respondendo com monossílabos. Nós tiramos uma foto e eu saí com cara de pateta. Foi lindo.

Foi quando nós saímos do camarim que eu comecei a surtar. Fiquei completamente elétrico, perguntando ao Eduardo se eu realmente havia apertado a mão do Phil Collins. Eduardo apenas girou os olhos e me deixou surtando sozinho.

Ficamos mais meia hora na festa. Eu ia bebendo de tudo um pouco, misturando os coquetéis gostosos que os garçons estavam servindo. E eu acabei semi-bêbado. Eduardo me rebocou até o carro e me ajudou a subir quando chegamos ao meu apartamento, já que eu estava meio incapaz de abrir a porta do carro, imagine abrir a porta do meu apartamento.

Eduardo praticamente me carregou até a cama. Eu só conseguia rir. Mas a risada parou quando ele começou a tirar a minha roupa.

– Eduardo? – sussurrei. Ele parou de tirar a minha calça e me encarou. Achei que ele fosse voar em cima de mim e me beijar, mas ele apenas suspirou e continuou me despindo.

– Me lembre de nunca mais te deixar beber – foi tudo o que ele disse.

O mais frustrante: se despediu com um leve aceno com a cabeça!

Tá, eu não disse nada quando ele me chamou para ir para a casa dele, mas estávamos na minha, ora! Ele podia me agarrar.

Eu tenho que parar de falar antes que você comece a pensar que eu realmente sou louco. Eu já disse que nem eu me entendo? Eduardo vai me deixar louco. E não diga “impossível que você fique mais louco do que já é!”. Se você disser isso, eu vou aí chutá-lo!

Tá, tá. O melhor é ir dormir. Amanhã é um novo (e confuso) dia...