Anja dormiu dezoito horas depois que voltou para casa. Não se lembrava de dormir tão pesado há anos, mesmo assim sentiu que ainda estava cansada quando abriu os olhos. Mas seu cansaço era de outro tipo e demoraria muito para passar. Olhou para o teto do quarto e soltou um suspiro longo. Dali em diante seu caminho ficava cada vez mais difícil. Estava andando em gelo fino há muito tempo, e sempre nas pontas dos pés, com medo de cair e morrer. Agora teria que mergulhar de livre e espontânea vontade ou as pessoas que a aguardavam do outro lado do imenso lago congelado que era sua vida, morreriam ali em seu lugar.

Quando se sentou na cama, deu de cara com Jimin dormindo quietinho no sofá. Não era madrugada ainda, mas ele já estava dormindo, provavelmente tão cansado quanto ela com a rotina maluca que ele e os outros meninos tinham antes de lançarem o álbum novo. Alguém já havia colocado uma manta sobre ele, para que dormisse mais confortavelmente. Lenta e o mais silenciosamente possível, ela saiu da cama e entrou no banheiro. Tomou um longo banho, do tipo que perderia horas chorando, mas curiosamente não derramou nenhuma lágrima.

Saiu do banheiro usando apenas um roupão felpudo, presente de Alex, e deu de cara com o sofá vazio. Olhou para a janela grande atrás do sofá e o viu ali, inclinado na sacada da varanda, observando a cidade. Virou-se para ela assim que ela deu o primeiro passo para dentro do quarto.

— Oi.

— Oi. Conseguiu descansar um pouco? – perguntou com simplicidade. Anja deu de ombros enquanto ia até ele e parava à porta. Precisaria de bem mais do que dezoito horas para se sentir leve de novo. Provavelmente precisaria de uma nova vida, mas isso era impossível nas atuais circunstâncias.

— Você conseguiu descansar? – perguntou sem saber o que dizer.

— Cheguei tem pouco tempo... tinha acabado de cochilar quando acordou. – explicou enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta que usava, desviando o olhar do dela. Uma mentira inocente, ela não precisava saber que ele havia ficado ali as dezoito horas. – Troquei de lugar com Alex-hyung. – completou. Essa parte era verdade, os dois revezaram desde o instante que haviam chegado ao apartamento.

Ela concordou com a cabeça e se recostou no batente da porta, olhando para a cidade ao invés de olhar para ele. Nenhum dos dois sabia como começar aquela conversa, mas ambos sabiam que ela deveria acontecer cedo ou tarde. Anja abraçou a si mesma, como que buscando proteção e forças. Não queria de jeito nenhum terminar o que havia começado com Jimin. Pela primeira vez na vida se sentia amada de verdade e sentia que podia retribuir esse amor com todo o seu coração. Mas o que adianta amar alguém e não poder envelhecer com essa pessoa?

Não podia ser egoísta, querendo aquele amor quando não era apenas sua vida que dependia de Jimin. Precisou de um surto para ter um choque de realidade e aceitá-lo. O BTS dependia de Jimin. Namjoon, Hoseok, Jin, Jungkook, Yoongi e Taehyung, todos membros do grupo e parte da família e do coração de Jimin. Como ela poderia querer reivindicar ele para si quando todas aquelas pessoas dependiam dele? E de que adiantava ela querer viver esse amor com todo o poder que ele tinha, se Andrey era capaz de acabar com isso com um estalar de dedos?

Era melhor uma pessoa triste do que muitas. Foi nisso que pensou quando tomou sua decisão. Andrey pagaria a rescisão do contrato, tinha ido a Coreia com isso em mente já e ela o odiou mais ainda por conseguir cumprir seus planos.

— Eu...

— Eu...

Os dois começaram a falar ao mesmo tempo e riram sem jeito, desviando o olhar.

— Você primeiro. – se adiantou Anja ao perceber que ele diria a mesma coisa.

— Não sei por onde começar... – falou ele com sinceridade, andou alguns centímetros de lado até ficar frente a frente com ela. Os olhos verdes desviaram dos seus, como sempre faziam nos últimos dias e, como sempre acontecia, doeu perceber que ele a estava perdendo. O silêncio voltou a se instalar entre eles, crescendo naquele espaço pequeno da varanda como um monstro.

O que ele diria? "O que houve entre você e o diretor? Por que chamou por ele e não por mim quando o médico saiu? Vocês reataram? Já não me ama mais? Em algum momento me amou?" – só de pensar nessas questões seu coração doía.

— O que aconteceu, Anya-ssi? – perguntou abaixando a cabeça e deixando que a franja cobrisse seus olhos momentaneamente. Agora era ele que não queria contato visual, com medo do que poderia ver naqueles olhos.

A pergunta era simples, mas ela sabia o que estava por trás dela e, sendo justa, devia uma explicação a Jimin. Sentiu a mudança sutil nele só pelo jeito como a chamou de "Anya" e não "noona". Não sabia por onde começar. Não podia contar que a vida dele estava em risco, então teria que tomar o caminho mais difícil, magoando-o.

— Acho que não aguentei o ritmo intenso que é a vida de um idol na Coreia. – começou. Essa parte era verdade. O nível deles era outro e ela nunca seria capaz de alcançá-lo, mesmo que tentasse. Para ela era só a dança, para eles era a dança, a música, os conceitos fotográficos, um jogo, brinquedos, shows no mundo todo, o ARMY, apresentações televisivas, apresentações nos Estados Unidos, eventos de premiações e mais um monte de coisa que a empresa planejava com anos de adiantamento. Pensou em si mesma tentando acompanhar o ritmo de Jimin e percebeu que foi esse o seu erro. E foi isso que permitiu que Andrey colocasse o próprio plano em ação. E agora era tarde demais para perceber isso.

— Desculpa se te assustei. – sussurrou. Essa parte também era verdade. Ela sentia muito que o tivesse deixado preocupado. Em resposta, Jimin a abraçou apertado. Não sabia ainda o que ia dizer, sabia apenas que aquele era o momento decisivo entre os dois. Sentia que ela estava prestes a terminar com ele, sem ao menos lhe dar a chance de lutar pelos dois.

— Você não precisa se desculpar, noona. – falou antes de beijá-la.

Por um segundo ela pensou em se afastar porque tinha medo de não conseguir terminar o que tinha começado a dizer. Mas os lábios dele contra os seus mostraram como ela estava com saudade dele, daquilo que eles tinham. Deixou-se levar pelo beijo, puxando-o para si pela cintura, enquanto ele a guiava de costas até a cama. Ainda entre os beijos, Jimin desfez o nó do roupão dela e o abriu, enquanto ela se esforçava para tirar a jaqueta dele. Ansioso, ele se afastou alguns centímetros e tirou junto com a camiseta, jogando longe enquanto se esforçava para abrir a calça e jogá-la na mesma direção.

Pararam para se encarar, ele completamente nu, ela com o roupão aberto. Para ele, ela estava mais linda do que nunca. Gentilmente ela traçou o desenho da tatuagem que ele tinha na costela. NEVERMIND.

— O que significa? – perguntou.

— Nevermind. – respondeu ele com um sorriso misterioso antes de voltar a beijá-la.

***

— Vou sentir falta disso. – sussurrou ele muito tempo depois. Anja ressonava baixinho em seus braços, dormindo tranquilamente. No fundo ele sabia que ela ia terminar com ele. Sentiu isso no momento em que ela pediu para fugirem, pouco antes de desmaiar. Era seu último suspiro desesperado antes do inevitável. Só não conseguia entender o motivo. Estava bem claro que ela o amava na mesma intensidade que ele.

Sentiu algo quente escorrendo pelo seu corpo e só então percebeu que ela estava acordada, chorando baixinho com a cabeça de encontro a seu peito. Sentiu os próprios olhos arderem e as lágrimas se formarem sem que ele permitisse.

— Eu sinto muito, Jimi. – sussurrou ela em resposta.

— Por quê? – perguntou, puxando-a para si e afagando seu cabelo de leve, consolando-a.

— Por tudo... por..

— Não... Por quê temos que fazer isso? – perguntou de novo, depois de perceber que ela não havia entendido sua pergunta. Ela voltou a fechar os olhos, chorando em silêncio e se agarrando mais ainda a ele.

— Porque eu te amo. – respondeu. Pensou nas consequências que teria se por acaso se arriscasse a contar das ameaças de Andrey.

E se Jimin duvidasse dela? Pior, e se ele acreditasse? Como seria se ele confrontasse Andrey? Jimin não sabia, mas Andrey era um homem muito perigoso e muito provavelmente tinha envolvimento com gente do mesmo nível. Sua companhia de dança tinha alcançado o sucesso e alcance que tinha muito rápido e só agora ela entendia as implicações por trás disso. E se ele usasse essa influência e poder contra o Jimin? Contra os outros meninos por tabela? E se ele cumprisse suas ameaças e realmente fosse capaz de deixar ele doente? E se tudo ficasse pior assim que Jimin acreditasse nela e tomasse uma atitude? Porque ela sabia que ele daria um jeito de tentar protegê-la.

Ela não podia e nem tinha coragem de arriscar a vida dele por mero capricho. Tinha sobrevivido à fome quando criança, à invernos assustadores, à morte do irmão mais velho. Ia sobreviver a um amor impossível. Mas ali, nos braços dele, com ele acariciando seu cabelo e se questionando, tudo ficava muito mais complicado. Sentiu o corpo dele estremecer e só então percebia que ele também estava chorando, soluçando, na verdade. Odiou Andrey mais ainda por fazer ele chorar.

— Você tem que me prometer que vai viver sua vida intensamente. Como a luz mais brilhante que é. – pediu depois de algum tempo. Ele concordou com a cabeça, batendo o queixo de leve no topo da cabeça dela conforme o fazia, ainda incapaz de falar qualquer coisa.

— Você também, noona. – pediu baixinho.

— Um dia vou poder te contar e te explicar tudo o que está acontecendo... – sussurrou em russo. – Você me fez a mulher mais feliz do mundo nesses meses, Jimi. – continuou em japonês. – Mas sou muito velha para você. Muito problemática.

— Nunca me importei com isso...

— Eu sei... mas... – hesitou. – Minha vida é muito cheia de problemas e arestas que eu não consigo mais corrigir. Perdi o tempo certo. Não é justo te levar para esse mundo comigo, entende? – falou séria. Já não chorava. Estava, na verdade, aliviada de poder falar assim. Não tinha percebido até então como tinha aprendido e amadurecido com a ajuda de Jimin. Julia estava certa, ele era o melhor de todos.

— E se eu disser que quero ir com você para esse mundo? Que estou disposto a me arriscar?

— Eu diria que não adianta, porque tem mais gente que precisa de você além de mim. – respondeu com calma. Ele voltou a chorar e ela se viu consolando-o carinhosamente. Sentiu os olhos arderem de novo, mas não derramou mais nenhuma lágrima. Nem isso ela deixaria para o cretino do Andrey. Não mais.

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Bjs