E se Fosse Verdade?
14 Longe Demais
Notas iniciais
Capítulo 14- Longe Demais
– Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas… Matt Morrison é, apesar de tudo, um cara legal. – falei, enquanto eu e ele andávamos em direção ao pavilhão do refeitório para o almoço.
– É tão difícil assim admitir que eu sou uma boa companhia?
– Na verdade, é.
Durante a última semana, eu havia passado cada vez mais tempo com ele. Não que ele substituísse a companhia de Percy, mas… Ele era realmente divertido depois que você passava da fase das cantadas sem graça e tudo o mais.
Mas isso não significa que eu não sentia falta de Percy, ou que eu tinha que respirar fundo muitas vezes a cada vez que ele passava por mim e me ignorava completamente, ou que tudo o que eu mais queria era que ele voltasse a falar comigo.
– Vou dar aula de Grego Antigo depois do almoço. Te vejo no jantar, Mr. M&M. – disse, me dirigindo para a mesa de Atena.
– Até mais, Sabidinha.
Eu só fui me tocar do que ele tinha me chamado depois que já estava sentada. Oh, deuses, eu tinha que voltar a falar com o Percy.
Claro que eu não consegui parar de pensar nisso enquanto ensinava vocabulário de mitologia para as crianças.
Bem, o fato de Matt ter me chamado de Sabidinha já dizia muita coisa. Quer dizer, só o Percy me chama assim. O Percy.
E, quer saber, isso realmente significa alguma coisa pra mim. Que nem eu chamá-lo de Cabeça de Alga. Porque, apesar de ter começado como provocação e tudo o mais, é especial. Digo, o fato de ser só nosso. Como se ninguém pudesse mexer.
E, claro, eu percebi que havia deixado todo esse negócio de briga e fingimento ir longe demais. Quer dizer, estava realmente afetando demais a nossa relação, e parecia ser algo muito desimportante para isso.
A questão toda de Matt Morrison tinha ido longe demais.
E eu havia demorado um tempo excessivamente longo para perceber.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
– Ah, oi, Matt. – falei, quando me esbarrei com ele no meu caminho para a captura da bandeira daquela noite.
– Boa noite, Srta. Google.
Ele me fez continuar parada colocando uma mão no meu ombro, que ele tirou rapidamente.
– Er, eu… Queria falar com você. – ele disse, em um tom mais sério.
– Ah, certo. – respondi, e nós nos afastamos um pouco dos campistas que iam se agrupando em seus times.
– Não é nada demais. – ele continuou, quando já não podiam nos ouvir – É só que... Bem, agora que eu te conheço melhor, eu acho que posso perguntar... Você quer sair-
– Matt, — eu interrompi, fechando os olhos por um momento, porque eu realmentenão podia deixar aquilo ir mais longe. Voltei a olhar para ele antes de continuar – eu não...
Respirei fundo por um momento.
– Eu não acho que seja uma boa ideia. – completei, finalmente – Olha, eu sei que talvez tenha dado oportunidades pra você pensar assim, mas, eu não gosto de você dessa forma.
– Ah. – ele disse, claramente decepcionado.
– Agora que eu te conheço sei que você é uma ótima pessoa, mas como amigo. E, além do mais, eu ainda tenho, ahn, coisas para resolver com o Percy. E, Matt, pense bem, você realmente tem certeza de que, bem, é isso que você quer? Quer dizer, você me conhece há tão pouco tempo, às vezes eu acho que foi simplesmente algo que você pôs na sua cabeça e não quer tirar. Eu... eu não sou a pessoa certa pra você. Boa sorte no jogo. – eu completei, e me afastei antes que ele pudesse responder qualquer coisa.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Bem, eu normalmente adoro as noites de Captura à Bandeira, mas essa tinha um pequeno problema: Quíron tinha decidido que, nesse verão, os times não iriam mudar durante toda a temporada.
Qual o problema nisso, você pergunta?
O problema nisso é que eu e Percy ficamos como capitães do time azul.
E, bom, eu não sei se isso conta exatamente como "problema", mas pelo visto ele simplesmente DESISTIU DE FALAR COMIGO!
Quando todos terminaram de colocar suas armaduras e pegar suas armas e escudos, se viraram para nós esperando o discurso (que por acaso não existia), e eu tentei falar com ele discretamente, tipo "Ei, Percy", mas ele simplesmente me ignorou e se virou para o time!
– Então, galera, hoje é o seguinte: — ele começou, como se nada tivesse acontecido – Hermes fica na fronteira, Hefesto na ala esquerda, Atena na direita. Eu e Travis vamos procurar a bandeira.
Com isso ele se afastou e foi conversar com os irmãos Stoll.
Ele me deixou de fora da estratégia! Quer dizer, ele simplesmente ignorou a minha existência, de forma que eu teria que fazer a mesma coisa do resto do chalé de Atena. Bem, na teoria, pelo menos.
Ele tinha planejado tudo sem mim.
Não que eu tivesse uma estratégia melhor, mas... Ele podia pelo menos ter perguntado! Porque, sabe como é, eu não tinha simplesmente esquecido do jogo de hoje à noite. Eu tinha um plano, mas não quis falar antes de conversar com ele (como ele fez). Quer dizer, isso ignorando o fato de que o meu "plano" era basicamente o mesmo.
Ouvimos a trombeta de concha e Quíron deu os aviso de sempre antes de todos começarem a correr para dentro da floresta.
Certo.
Como se o Percy realmente acreditasse que eu iria ficar só parada na ala direita esperando alguém atacar.
Claro.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Tudo bem.
Ou essa foi a melhor ideia de todos os tempos ou foi a pior.
O certo é que meu boné da invisibilidade foi realmente útil. Já que foi por causa dele que eu consegui descobrir que Percy iria por um lado e Travis pelo outro. E, obviamente, comecei a seguir o Cabeça de Alga pela floresta.
Era um trabalho muito complicado.
Isso porque eu tinha que tomar o cuidado de ficar a uma distância razoável dele e andar muito silenciosamente, para que ele não percebesse que eu o estava seguindo.
Mas a lerdeza sem fim dele deixava tudo mais fácil.
De repente, percebi que havia alguma coisa errada.
Silêncio.
Eu deveria estar ouvindo o som dos passos nada discretos de Percy. Sinceramente, eu não sei como os campistas de Ares e Apolo não nos seguiram. Porque, francamente, fazer mais barulho que isso impossível.
Olhei ao redor e percebi que Percy tinha se escondido atrás de alguns arbustos há alguns metros. Ouvi vozes vindas da direção contrária ao nosso lado da floresta, e achei melhor parar para não perder Percy de vista.
Me encostei numa árvore para esperar os "inimigos" passarem.
Quando foram chegando mais perto, percebi que eram duas vozes femininas, que depois reconheci como duas meninas de Afrodite que eu não conheço muito bem (e não faço questão de conhecer, obrigada).
– Verdade, essa briga deles... Não sei não viu? – uma delas ia dizendo.
– Pois é. Quer dizer, eles já brigaram, tipo, muito antes, mas que nem dessa vez, eu nunca vi! – mais ou menos nesse ponto elas passaram por onde nós estávamos, mas não viram nada demais e seguiram caminho. Foi também aí que eu percebi qual era o assunto da conversa.
– Anhan, isso sem contar que antes eles não eram um casal.
Ah, claro, porque isso faz toda a diferença.
– É. – a segunda concordou – Ai, imagina! PERCY JACKSON completamente livre?...
Não pude deixar de erguer as sobrancelhas enquanto as vozes iam sumindo.
Certo. Como se isso fosse acontecer.
Percy saiu do seu esconderijo e continuou o seu caminho, então eu deixei a árvore em paz e continuei a segui-lo.
Eu sei que o meu plano de seguir o Percy pode parecer completamente inútil e sem objetivo, já que não posso exatamente ajudá-lo a capturar a bandeira e tudo o mais, na minha condição de espiã-secreta-invisível-ou-algo-do-tipo.
Mas na verdade ele tem um objetivo, e não é nem um pouco inútil.
Isso porque a minha invisibilidade não implica ficar imóvel nem nada do tipo. Ou seja, eu posso muito bem ajudar o Percy a lutar e se defender caso ele precise. O que, tratando-se do Percy e de sua, ahn, inclinação para se meter em confusão, é na verdade bem provável.
Sendo assim, o plano "seguir o Percy e 'ajudá-lo' a capturar a bandeira" tem um objetivo muito mais útil do que o plano "ficar parada da ala direita com mais uma penca de campistas de Atena muito bem capacitados para defender a área se, por acaso, alguém resolvesse invadir por ali".
Bem, ou pelo menos essa é a minha opinião.
Que eu, por acaso, tenho todo o direito de defender, já que não vai contra nenhuma lei norte-americana.
Quer dizer, até onde eu sei.
Não que eu já tenha lido a Constituição nem nada do tipo.
ENFIM.
Voltando ao que interessa.
Eu realmente não sei o que eu tenho na cabeça.
Talvez porque eu queria saber o que aconteceria, talvez porque eu estivesse cansada de todo aquele silêncio, ou talvez porque eu não tivesse tanta certeza assim sobre a utilidade do meu plano.
A questão é que, por algum motivo que nem eu mesma entendi muito bem, eu simplesmente comecei a pisar forte e tirei meu boné da cabeça.
Quase ao mesmo tempo.
Bem, é claro que isso chamou a atenção do Percy (afinal, ele não é tão lerdo assim quando se trata de batalhas).
E é claro que, quando ele se virou para me encarar, eu estava com a cara mais besta do mundo e não fazia a menor ideia do que fazer.
– ANNABETH? – ele basicamente gritou.
Então percebeu que isso tinha sido uma grande besteira e começou a sussurrar:
– O que você está fazendo aqui?
– Bem, eu só... – comecei, mas não consegui encontrar as palavras certas – Ahn, não queria ser inútil? – falei, mais como uma pergunta do que uma resposta.
Ele só trincou os dentes e se virou de novo na direção que estávamos seguindo antes.
– Não, Percy, espera! – eu basicamente gritei e corri atrás dele, segurando-o pelo punho. – Por favor. – completei, mais baixo, dessa vez.
Ele não puxou o braço com força, mas se virou, relutante. Então abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo a fechou e respirou fundo por um momento, antes de, com calma, tirar a minha mão (que eu não tinha percebido que ainda estava lá) do seu punho.
– Por que, deuses, por que é tão difícil assim ficar chateado com ela? – ele perguntou, olhando para o céu, muito mais para si mesmo do que para mim.
Mas era basicamente impossível não ouvir.
– Não pareceu ser difícil. – falei, olhando para o chão e dando um passo para trás.
Ele pareceu ser pego de surpresa (o que eu pude perceber por causa da minha visão periférica, que, cá entre nós, não é das piores).
– Bem... também não pareceu ser difícil para você. – ele retrucou, me fazendo olhar de novo nos seus olhos.
– Isso não significa que não foi. – respondi, e, depois de alguns segundos me encarando, ele finalmente desviou o olhar, o que nos fez passar mais algum tempo em silêncio.
– Percy, — comecei, finalmente – eu não vou nem dizer que foi sua culpa, porque, na verdade, eu tenho uma certa responsabilidade.
Pude perceber que ele fechou a cara de novo à menção do assunto, o que me fez suspirar antes de continuar:
– Você pode pelo menos me deixar falar? É sério!
– Tudo bem. Mas talvez seja meio complicado explicar que agora você só anda com seu novo amiguinho, Matt Morrison. Depois de tudo que eu concordei em fazer para ele se afastar de você.
– Percy! Por favor, não pense isso. Pelo menos não antes de saber a história toda. Eu... eu não fui atrás do Matt nem nada do tipo. Mas, lembra que a gente estava fingindo uma briga? – eu fiz uma pausa, esperando uma resposta, e ele assentiu com a cabeça – Aquilo estava me matando. – expliquei – Mas não parecia estar fazendo tanta diferença pra você.
– Eu nunca disse que... – ele começou, mas eu interrompi.
– Deixa eu terminar. Você vai entender. – ele se calou – Então, eu não sei se você percebeu ou o quê, mas, bem, as meninas ficavam dando em cima de você, e você não parecia se importar e... Bom, a gota d'água foi quando eu vi você com aquela filha de Afrodite, eu acho que é Skyler ou algo assim, e daí... – eu parei por um momento – Matt foi atrás de mim. E durante essa semana, eu não sei, ele só parou de dar em cima de mim e, bem, ele até que é um cara legal. Mas isso não significa que ele substitua você. – terminei, ficando, provavelmente, mais vermelha que a cabine de Ares.
Ele parecia bem perplexo quando eu acabei.
– Eu... não pensei nisso. – ele admitiu – Só achei que... – ele deu uma risada sem humor – Eu acho que nós dois fomos longe demais por causa de ciúmes.
O que, eu posso afirmar, se ele estivesse dizendo o que eu achava que ele estava, era a mais pura verdade.
– Isso quer dizer que...? – comecei, mas ele me interrompeu, chegando mais perto e me abraçando pela cintura, enquanto voltava a me encarar, mas de uma forma completamente diferente.
– Me desculpa? – ele pediu.
Eu só sorri discretamente e o beijei em resposta.
Mas eu acho que ele já estava esperando, de toda forma.
" I'm thinking 'bout how
People fall in love in mysterious ways
And maybe it's all part of a plan…
Well, I'll just keep on making the same mistakes,
Hoping that you'll understand."
Thinking Out Loud- Ed Sheeran
Fale com o autor