E se...

9 Capítulo 9


Notas iniciais
Enquanto nosso amado Fênix fica surrando Cavaleiros de Prata e tendo que cuidar daquele bando, Esmeralda e os Cavaleiros Negros só se ferram. Tenham uma boa leitura :)

Cavalgou pela já devastada cidade. O alfaiate jazia morto e mutilado diante de sua loja. Que mal ele fizera a alguém? Uma das vendedoras do mercado chorava diante de sua casa em ruínas. Porque não mostrar piedade a ela?

Guerra. Era assim. Brutal e cruel. Malévola e infantil. Um nó se formou na garganta da virginiana.

Liberdade, misericórdia e amor. Essas eram as únicas coisas pelas quais valia a pena lutar e matar. Então onde aquele ataque absurdo se justificava? Onde um irmão protegendo o outro era dado como traição? Onde aquele ataque absurdo podia ser em prol da justiça e amor da Terra?

Ao cavalgar, deparou-se com cenas terrivelmente desoladoras. Devastação e caos a cercava enquanto o cavalo os levava pela cidade em ruínas.

¬ Meus filhos! Onde estão meus filhos?!— berrava uma jovem mãe no momento em que passavam, sem ter qualquer ajuda.

¬ Junte o que puder e vamos embora daqui!— gritou um homem.

¬ MERDA, MINHA PERNA!! O TIRO ME ARRANCOU A PERNA!!— urrava um cidadão.

¬ Como vamos escapar?— perguntavam muitas pessoas, correndo em pânico.

¬ Cadê minha mãe? Mamãe! Mamãe!— soou a voz de uma criança.

A mais nova teve de endurecer o coração. Não poderia resgatar cada um, não havia tempo. Porém, se ela e Dragão Negro organizassem as defesas de modo apropriado, mais pessoas poderiam ser salvas.

¬ Água! Água! Tragam água!— pedia um homem desesperado. – Tudo está queimando!

¬ Onde você está, ah, Zeus! Onde você está, Marcello?— rogou uma mulher.

Continuaram cavalgando, com a expressão séria. Mas os pedidos de socorro ainda ecoavam nos ouvidos.

¬ Como saímos daqui?

¬ Corram! Corram!— soaram vozes mais altas do que o som do bombardeio.

Haviam gritos e soluços, pedidos desesperados por socorro e por um meio de fugir da cidade destroçada, conforme os cruéis soldados do Santuário atiravam uma salva atrás da outra, deviam estar usando os mesmos canhões de cosmo.

Por favor, Atena, não permita que eles ultrapassem as muralhas antes de conseguirmos revidar, pensou a menor.

O polonês atiçou o cavalo rampa acima até as muralhas e saltou do lombo do animal consigo nos braços ao chegar onde estavam os demais Cavaleiros Negros tentando defender a cidade. Lá estava Cisne Negro mandando os homens apontarem as armas contra a torre de cerco dos invasores, altamente treinados, continuavam, lenta mas implacavelmente, a empurrar e se posicionar melhor, procurando não errar as torres e muito menos os inimigos.

¬ FOGO!!— urrou o finlandês.

Os homens atingiram as poderosas bolas de aço com seus punhos, causando um grande estrondo e um solavanco por parte do cano, mas passando longe do alvo, arrancando apenas um pouco de madeira de um dos cantos do telhado da torre de cerco.

¬ Tentem acertar a maldita torre, seus imbecis!— gritou Cisne.

¬ Senhor, precisamos de mais munição!

¬ Então desça até o deposito, e ande logo com isso! Olhe! Eles estão atacando o portão!

O outro canhão urrou e cuspiu fogo gerado por cosmo. A virginiana ficou horrorizada em ver um grupo de soldados inimigos sendo esmagados em um mar de sangue e ossos.

¬ Recarregar!— ordenou. – Disparem novamente ao meu comando.

¬ Esperem até que a torre esteja mais perto!— disse a mais nova quase que instintivamente. – Então, mirem na base. Isso fará a estrutura inteira desabar. Podemos acabar com qualquer sobrevivente depois usando alguns ataques de cosmo.

Os homens a miravam um tanto admirados, agora estavam começando a entender porque Fênix tinha um apreço tão grande por aquela mulher, mas essa admiração durou apenas o tempo que o inimigo levou para disparar de volta.

¬ Ouviram a moça!— gritou Dragão. – Andem logo!

¬ Sim, senhor!

Cisne Negro se aproximou, não só para protegê-la ao lado do companheiro, como para lhe falar também.

¬ Você aprende as táticas rapidamente.— disse o mais velho. – Sinal de uma mente estrategista e perspicaz.

¬ Foi instinto.— defendeu-se.

¬ Bons instintos valem bem mais do que cem homens no campo.— afirmou em resposta. – Dragão. Temos mais homens cobrindo o flanco esquerdo e o comandante deles morreu. Um ataque arrancou sua cabeça. Você e ela assumem o comando. Já estou ocupado demais aqui. Se achar Pegasus, mandarei que fique em seu lugar.

¬ Está bem.— respondeu já pegando-a nos braços.

¬ Mas preste muita atenção quando mirar. As tropas de Andrômeda estão lá fora lutando contra os peões do Santuário.— olhou para o lado rapidamente. – FOGO!! Não queremos que eles morram!

Foram correndo na direção indicada, onde viram os homens tentarem se organizar mesmo sem seu comandante.

¬ Vamos lá!— disse Dragão ao alcançá-los.

¬ Senhor!

A menor foi posta no chão e examinou o campo além da muralha. A pouca grama e o solo negro estavam manchados de sangue, e os mortos jaziam por entre os ramalhetes de trigo que com muito esforço conseguiam crescer. Ela podia ver o negro e o vermelho que caracterizava os Cavaleiros Negros intercalados com o amarelo, azul, branco e negro dos soldados do Santuário.

¬ Usem alguns ataques e armas menores para derrubar os soldados. Mandem mirar no amarelo, azul e branco dos inimigos.— ordenou por cima do ombro. – E vamos apontar estes canhões contra aquela torre ali. Está chegando perto demais e temos que destruí-la!

Os homens viraram o canhão e baixaram o cano para que mirasse na base da torre que se aproximava, agora a menos de 50 metros das muralhas.

Dragão estava ocupado orientando a mira e mantendo-a atrás de si quando um dos canhões foi atingido. O cano explodiu, lançando o metal negro incandescente para todos os lados. O homem que estava a centímetros da menor teve a cabeça e ombros decepados pelos estilhaços. Os braços do sujeito caíram no chão, e o resto do corpo logo os seguiram, jorrando sangue como uma fonte. O cheiro pungente de carne queimada encheu o nariz da virginiana quando arfou pelo horror da cena.

O mais velho a afastou dali e cobriu seus olhos para que não continuasse a ver aquela cena.

¬ Calma. Fique calma. — pediu ainda a afastando. – Mantenham a calma!— gritou ele para o resto da equipe. – Firmes agora... e... FOGO!!

O canhão trovejou e acertou a base em cheio da torre. A torre balançou forte, pareceu se endireitar e então desabou no solo, aparentemente em câmera lenta, jogando para o campo aberto alguns homens que carregava e esmagando outros. Logo viram Andrômeda Negro e seus homens avançarem para executar os soldados que sobreviveram à queda. O próprio Andrômeda Negro os liderava, com a couraça peitoral negra capturando a fria luz do sol, as correntes negras esmagando os corpos inimigos e o sangue formando tatuagens grotescas em sua pele.

Mas não houve tempo para se regozijar com o triunfo, ou para um merecido descanso. Os soldados do Santuário traziam imensos aríetes até o portão e outros já estavam assaltando as defesas.

¬ Temos que tirar as pessoas daqui. Agora.

¬ Muitas já conseguiram partir.— respondeu o polonês. – Mas aquelas mais necessitadas estão presas.

¬ Temos que resolver isso.— começou a puxá-lo na direção contraria e vendo Pegasus Negro chegar onde estavam. – Assuma o controle aqui, Yusuf. Veja! Ali! Uma das torres alcançou as muralhas! Os inimigos estão assaltando as defesas! Mande alguns de nossos homens até lá, antes que eles nos dominem.

¬ Sim senhora!

Pegasus logo se foi gritando ordens, comandando um pelotão que se reuniu rapidamente. Segundos depois, ele e seus soldados estavam engajados em um combate corpo a corpo contra os violentos soldados do Santuário.

A menor desceu até a cidade acompanhada de Dragão Negro, que abria caminho à força por entre os inimigos que se aproximavam. Reuniram um grupo de homens que tinham sido obrigados a bater em retirada para a cidade. Com a ajuda destes, fizeram o possível para reunir os habitantes vulneráveis remanescentes e guiá-los até estarem na segurança da cidadela. Logo que completaram a tarefa, Andrômeda Negro se reuniu a eles.

¬ Quais são as noticias, Darin?— perguntou a virginiana.

¬ Péssimas.— respondeu o turco. – Eles derrubaram o portão principal. Estão entrando na cidade.

¬ Então não temos um minuto a perder.— declarou o polonês. – Temos que recuar para cidadela.

¬ Vou reunir o restante dos homens.— Andrômeda saio em disparada logo que terminou de falar.

¬ E os outros?— questionou preocupada.

¬ Já estão na cidadela.— respondeu a arrastando consigo. – Você vai para lá e vai guiar os cidadãos por um túnel de fuga que leva para o norte, além das muralhas, para um lugar seguro.— se afastou e a orientou na direção da cidadela. – Agora corra o mais rápido que puder e não olhe para trás.

¬ Haskel...

¬ Por favor.— pediu o mais velho. – Vá.

Receou por um tempo, não achava nada certo deixar aqueles homens para trás e fugir. No entanto, acabou acenando para o mais velho e saio correndo na direção da cidadela, abraçando o próprio corpo a procura de proteger o ventre.

Quanto mais adentrava a cidade, maior era a confusão que reinava. Estava óbvio que a batalha pelo controle da cidade estava longe de acabar, pois bandos de soldados do Santuário e Cavaleiros Negros se chocavam com estrema violência, enquanto os cidadãos comuns se apressavam para se abrigar na cidadela ou simplesmente corriam de um lado para o outro em confusão. As bancas do mercado estavam reviradas, galinhas corriam cacarejando por toda parte, uma criancinha sentada na lama berrava pela mãe, que correu para apanhá-la, e por todo lado a batalha trovejava.

Finalmente, chegou a praça ampla que ficava na frente da cidadela com mais algumas pessoas. Estava deserta, e as ruas que corriam a partir dela pareciam vazias. Não havia ninguém nas ameias da cidadela e seu portão maciço estava firmemente fechado. Olhou para cima e gritou:

¬ Abram o portão! Somos nós! ABRAM!!

Agora alguns dos homens na cidadela apareceram lá no alto.

¬ O que estão esperando seus imbecis?!— gritou um dos homens. – Rápido!

Os homens desapareceram imediatamente para abrir o portão. Porém, naquele instante, uivando por sangue, dúzias das tropas do Santuário surgiram na praça vindos das ruas ao redor e bloqueavam qualquer ponto de fuga, encurralando o pequeno grupo contra a implacável muralha da cidadela.

¬ ABRAM!!— o desespero estava começando a tomar seu coração.

¬ Maldita emboscada!— berrou Pegasus Negro caindo sobre um dos grupos de soldados.

Num telhado próximo, Andrômeda Negro tencionava suas correntes com força o bastante para abater três inimigos por vez, sempre aqueles que mais apresentavam ameaça ao grupo. No chão, Cisne Negro ajudava Pegasus em suas investidas, congelando os homens e fazendo-os em pedaços logo em seguida, enquanto que Dragão Negro reunia os homens para defender o pequeno grupo.

¬ Abram o portão! Abram!— gritou Cisne.

Por fim os portões poderosos se abriram. Os Cavaleiros Negros saíram correndo para ajudá-los e, combatendo os homens do Santuário de forma brutal e bastante próxima, conseguiram voltar pelos portões, que se fecharam rapidamente atrás deles.

Logo que entraram foram guiados até o templo recém-construído, onde os feridos estavam sendo cuidados e os cidadãos sadios estavam sendo acolhidos da melhor forma possível. Mas a virginiana não conseguia simplesmente ficar escondida, nem esperou que alguém viesse ver como ela estava, pegou a coberta que lhe ofereceram e foi atrás dos Cavaleiros Negros.

Eles não estavam nada bem. Armaduras rachadas, hematomas e cortes pelo corpo todo, sangue escorrendo e até bloqueando a visão.

¬ O que faz aqui?— perguntou Cisne Negro em tom de desespero. – Volte agora para o abrigo!

A virginiana, parecendo amedrontada, estava prestes a responder quando de repente os soldados do Santuário em frente à cidadela soltaram um enorme urro. Logo Corvo Negro veio apressado até o pequeno grupo.

¬ Estão trazendo reforços.— informou ele. – Não sei por quanto tempo conseguiremos resistir.— virou-se para outro Cavaleiro Negro que passava carregando algo. – Às ameias! Para os canhões!

O outro saio correndo para organizar os homens, que estavam se apressando até suas posições quando uma chuva de balas começou a descer no pátio interno e nas ameias acima. Andrômeda Negro a puxou para um abrigo e gritou para os outros dois:

¬ Cuidem dos canhões! São nossa única esperança!— a pegou no colo. – Não deixem aqueles malditos invadirem a cidadela! Eu a levo daqui!

Dragão, Pegasus e Cisne estavam em outro abrigo, mas entenderam perfeitamente e acenaram em resposta. Enquanto que Andrômeda a levava para longe dali, seus companheiros mergulhavam de cabeça na batalha.

¬ Não!— se debatia no colo do mais velho. – Isso não tá certo, Darin! Eles não podem ir sozinhos!

¬ Nada na vida tá certo!— respondeu um tanto irritado. – Agora para! Se algo te acontecer, Fênix transforma tudo em pó! Sei que quer ajudar, fazer algo, qualquer coisa que possa salvar todos! Mas aprenda que existem horas em que devemos nos retirar!

Ficou calada e deixou que ele a levasse de volta para o templo. Aquela cidadela era uma Ágora, só que maior e mais fortificada, além de possuir rotas de fuga para a população. Assim que se encontraram nas profundezas do templo foi posta no chão ao passo que Andrômeda gritava ordens.

¬ Estejam prontos para partir a qualquer instante!— gritava alto o bastante para todos ouvirem. – Existe uma rota de fuga por baixo da estatua de Athena. Mulheres, crianças, idosos e feridos vão à frente com alguns homens para escoltá-los, pegarão os navios escondidos e partirão para a ilha mais próxima, onde devem se esconder. Os demais homens ficarão para trás e defenderão a passagem, não podemos deixar que cheguem até eles!

¬ Senhor! Sim, senhor!— urraram os homens em resposta.

Algumas senhoras lhe puxaram para junto dos demais e lhe cobriram com a manta que tinha pego antes. Agora sim estava sentindo os efeitos do estado de choque. Estavam quase abandonando a cidade. O perigo era tão grande que eles estavam abandonando o lar que tanto lutaram para construir.

¬ Signorina!— virou-se para ver Lagarto Negro se aproximar em desespero e parar arfante frente a si. – Signorina! Estão atacando a cidade e trazendo máquinas de cerco. A única forma de detê-los é disparando contra alvos dentro de nossos muros.

Um peso enorme pareceu ser posto sobre seus ombros e coração, que novamente teve de ser endurecido. Mirou o mais velho com a calma do aço.

¬ Faça o que precisa ser feito.

Notas finais
Já dizia meu amado, idolatrado, salve-salve, que os céus o tenha, Leonard Nimoy: A necessidade de muitos, supera a necessidade de poucos. Espero que tenham gostado :) Bjs. L :3