E o jogo começa.
6 Arrependimento.
Gibbs me levou para sua casa, e chegando lá ele me disse que ia trabalhar no barco, e perguntou se eu queria ajuda-lo. Eu neguei, disse que teria que arrumar aquele quarto, e ele riu. Eu subi e vi aquelas pilhas de jornais enormes, e fui colocando tudo em uma sacola, até que uma manchete me chamou a atenção: “Garota de oito anos e mãe são encontradas mortas” e na foto, uma criança linda e loira, e uma moça ruiva, as duas sorrindo, em um balanço. Então continuei guardando e as vi novamente, em outra manchete. “Caso popular”, pensei. Desci para pegar alguns sacos plásticos, e vi a foto da mesma mulher no quarto do Gibbs. Eu nunca havia entrado lá, mas ele deixou a porta aberta e eu pude ver pelo vão, a mesma foto do jornal, em um porta retrato do lado de sua cama. Subi correndo e tentei encontrar aquele recorte de jornal, e lá estava. Era definitivamente a mesma mulher e a mesma criança. Eu comecei a ler a noticia: a mulher havia presenciado o assassinato de um fuzileiro, enquanto seu marido estava no Iraque. Ela ia testemunhar, porém, enquanto estava a caminho do tribunal, em um carro com a filha, um homem atirou no motorista, e elas morreram no acidente. Eu estava calma, levemente abalada, até ver o nome delas. Shannon Gibbs e Kelly Gibbs. Não, aquilo não era uma coincidência. Kelly? Então, aquele adesivo, o motivo porque ele estava sendo protetor e ter confundido meu nome. Kelly Gibbs, sua filha, havia morrido. Ducky dizendo que ele já havia perdido muito, então era por isso ele era tão rancoroso às vezes, ele perdeu sua família! Sem me dar conta, desci correndo até o porão com o jornal na mão, e quando cheguei na escada, estava chorando. Ele me olhou confuso, e viu o recorte na minha mão, abaixou a ferramenta e sentou dentro do barco.
– Gibbs, você me chamou de Kelly, disse que era sua ex, mas não é... Era sua filha! Eu sinto muito, eu sinto muito!
– Jess, vem aqui.
Ele fez um sinal para que eu descesse, eu desci e me sentei de frente pra ele. Ele tirou o recorte da minha mão, alisou a foto, e depois olhou para mim e sorriu, e disse:
– Sabe por que eu te chamei de Kelly? Você tem o mesmo sorriso dela.
– Jura?
– Sim. Quando eu vi você pela primeira vez – ele olhou para cima, como se tentasse se lembrar – eu me lembrei dela, e como não podia me envolver pessoalmente neste caso, tentei me afastar o máximo, tentei não me apegar em você, mas – ele voltou a olhar pra mim – mas me apeguei.
– Gibbs, não precisa falar nada disso, não precisa se explicar – eu disse, parando de chorar.
– Eu quero. Eu nunca disse nada disso pra ninguém, nem mesmo para o Tony ou Kate. Jenny é a única que sabe, mas ela descobriu sozinha e acho que contou para o Ducky. Eu acho que alguém deveria saber. Eu realmente sentia falta delas, ainda sinto, mas quando você veio e me ajudou com o barco, foi como, se eu tivesse minha garotinha de volta. Eu tive vários momentos assim com ela, ajudando no barco, cozinhando, limpando a casa ou mesmo conversar antes de dormir, mas eu queria ter curtido
mais, as duas. Eu nunca iria para o Iraque se soubesse que quando eu voltasse... – ele parou de falar e uma lagrima desceu de seus olhos, ele olhou novamente para a foto e para mim.
Eu me sentei do lado dele, e passei uma mão pela sua cintura, e outra pelo seu ombro, tentando conforta-lo, eu nunca havia visto uma pessoa chorar tanto assim, nunca. Ele me abraçou também, e ficamos ali, eu tentava parar de chorar, mas quando via de relance o rosto dele, que parecia estar coberto de sofrimento, eu não conseguia me controlar. Ele olhou para mim, ainda abraçado comigo e disse:
– Foi minha culpa, eu deveria ter ficado. Kelly pediu para que eu ficasse, ela suplicou, parecia que de algum modo ela sabia que... – e mais duas lagrimas caíram de seus olhos – eu sinto falta delas Jess, demais, eu daria tudo para tê-las de volta.
– Não foi sua culpa Gibbs! Você salvou vidas no Iraque, salvou milhares de pessoas! E elas foram mortas por um motivo que não tem nada a ver com você, entende?
– Eu deveria ter ficado para protegê-las. Minha família, eu deixei minha família para proteger estranhos.
– Você nunca as deixou. Escute, você foi um ótimo pai, eu daria tudo, tudo para ter um pai assim um dia, ou que meu pai tivesse um momento se quer, igual aos que você disse que teve com Kelly. E ela teve o melhor pai do mundo, e a Shannon teve o melhor marido do mundo, e você não pode se culpar, eu não posso ver você assim! – eu disse, e foi a minha vez de chorar.
Ele parou de chorar e passou as mãos pelos olhos, e então pegou minha mão e ficou brincando com meus dedos por um minuto, depois olhou para mim e disse:
– O que você quis dizer com “Daria tudo para ter um momento assim?”.
– Não vamos falar do meu pai agora, por favor, já está ruim o bastante, e você disse que gostaria de falar sobre as duas, e eu estou aqui para ouvir.
– Eu já disse – ele levantou minha mão e a virou – então, sua vez de me contar seus problemas.
– Quem diria que você e eu estaríamos aqui em seu porão, contando essas coisas um para o outro?
– Não mude de assunto – ele soltou minha mão – pode falar, o que houve com seu pai?
– Nada, eu só queria ter um pai diferente, que se importasse comigo, eu não sei mais o que é isso.
– Então, quando disse aquilo, quis dizer que – ele fez uma pausa para olhar para mim – queria que eu fosse seu pai?
Eu fiquei quieta por alguns minutos, era verdade. Eu não falava com meu pai há anos, e nunca tive carinho nenhum por ele, pra mim, ele era apenas um desconhecido que por acaso era meu pai, mas não o meu “papai”. Eu simplesmente olhei para Gibbs, e sorri.
– Você gostaria que eu fosse sua filha? – eu perguntei.
– Porque não? – ele disse e pegou duas canecas empoeiradas que estavam perto dele e as encheu de alguma bebida que eu não consegui identificar, e me deu uma.
– A família, então – ele levantou a caneca e bateu na minha, e eu retribuí.
Nós bebemos e acabando dormindo os dois dentro do barco. Acordamos quase ao mesmo tempo. Ele me disse que eu iria para a casa do Tony, e que minhas malas estavam arrumadas. Ele estava diferente, parecia outra pessoa, diferente daquele homem que chorou nos meus braços. Eu levantei, me troquei e fomos para o NCIS, ele subiu para falar com a Jenny, e eu fiquei com a Kate. Quando Jenny passou por mim, eu a ouvi sussurrar: “Isso era parte do plano dele, eu tenho certeza” e Kate e eu nos questionamos o que aquilo significaria. Sai tarde àquela noite, porque Tony ficou trabalhando até tarde, e chegando a casa dele, ele disse que iria preparar um prato especial para mim.
– Que tal? – ele disse despejando a massa em dois pratos, e sorrindo.
– Por incrível que pareça, Tony, nos temos miojo no meu país.
– Miojo?
– É como chamamos o macarrão instantâneo por lá – eu disse e sorri.
– Espertinha você, ok eu admito, não é bem um jantar como o que você teve na casa da diretora...
– Eu amo macarrão instantâneo, não se preocupe, só queria ver se conseguiria te deixar nervoso.
Ele riu e nós ficamos conversando e assistindo filmes, e então ele me perguntou:
– Como é ser caçada por um terrorista?
– Por incrível que pareça, não é tão assustador!
– Jura? Por quê? – ele perguntou, virando um segundo sua cabeça para longe do filme.
– Porque eu tenho um homem forte como você, me protegendo – eu disse, e sorri.
Ele sorriu e ficou meio desconcertado, então ele me disse que teríamos que acordar cedo na manhã seguinte, porque havia uma padaria muito boa e os burritos se esgotavam rápido, quando disse que nunca tinha comido um, ele pareceu assustado e disse que me ajudaria com aquilo, mas que eu teria que dormir. No outro dia, eu acordei com a Kate me ligando:
– Jess? Você esta bem? Como esta indo tudo por aí?
– Estou sim Kate, alimentada e protegida, calma – eu disse, rindo.
– Ok então – ela disse, e foi interrompida por um barulho estranho ao fundo – Jess, espera um minuto – ela disse, e tapou o bocal do telefone.
– Kate?
– Oi, a Jenny acabou de tomar um tombo ali em cima da escada, ela estava descendo e se desequilibrou – ela disse com um tom de riso na voz.
– Ela esta bem? – eu disse, preocupada.
– Sim, está sim, pode ficar tranquila.
– Ok, o Tony esta me chamando, eu tenho que ir tá?
– Ok – ela disse, eliminando totalmente o som de riso na voz, deve ter percebido que eu não achei nenhuma graça – beijos, amo você.
Eu me despedi e mal guardei o celular, quando Tony entrou no meu quarto, de cueca e uma camisa de basquete, com o cabelo totalmente desarrumado e uma escova de dente na boca, ele a tirou para falar comigo por um momento:
– Jess, se troque correndo, senão vamos perder todos os burritos, ok?
– Vou ao banheiro e já desço — disse com a cabeça longe.
– Lá tem banheiros, vamos! – ele disse, jogando um vestido pra mim, e indo para o banheiro.
Eu mal coloquei o vestido e ele apareceu pronto na porta, me apressando, disse que mulheres eram todas iguais, e ficou esperando que eu escovasse os dentes na porta, batendo o pé, parecendo impaciente. Assim que fiquei pronta, ele me arrastou para o carro, prometendo que valeria a pena. Quando chegamos à padaria, ele disse que eu poderia ir ao banheiro, e que ele ficaria na fila dos burritos, esperando.
– Tony, a Kate e a Jenny sempre vão aos banheiros públicos comigo.
– Ah é, e o Gibbs? – ele disse, entrando no estabelecimento.
– Ele nem me deixa usar esses banheiros, ele diz que é perigoso.
– Mas nós dois sabemos que todos eles são super protetores, o Ari nunca entraria em um banheiro publico feminino pra te procurar, confie em mim.
– Ok — eu disse, não aguentando discutir nem por um minuto.
Eu fui ao banheiro, e Tony ficou na fila dos Burritos, a única coisa que eu conseguia pensar era que eu tinha que falar com a Jenny urgentemente, afinal, aquela queda fora por um tropeço, ou a doença já começara a mudar o organismo dela? Tão rápido assim? Enquanto pensava nisso, estava de costas para a porta, retocando a maquiagem, quando ouvi o barulho da tranca e rapidamente me virei, com a bolsa na mão. Havia uma mulher ali, ela era um pouco mais alta que eu, tinha cabelos bem armados e pretos, usava roupas masculinas e uma estrela de Davi dourada pendia em seu pescoço. E o mais importante, ela apontava uma arma para mim e indicava com o dedo indicador em frente à boca, que exigia silêncio.
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