E mais uma madrugada...
1 Capítulo Único
Notas iniciais
E mais uma madrugada Miguel estava ali, num canto da sala, com a luz branca do notebook refletindo a lente redonda do óculos enquanto esperava talvez um milagre para que as palavras se desgrudassem de seu inconsciente e preenchessem a página em branco do documento online.
Eram três da manhã. Se seu relógio biológico já normalmente oscilava entre o de um vigia noturno e o de uma idosa, o período de quarentena, que se estendia dia após dia sem gerar grandes mudanças, tinha transformado-o no próprio drácula de vez.
Drácula não; talvez um zumbi. Sim, um horrendo zumbi. Trocou o dia pela noite. O aspecto do seu rosto tinha se tornado envelhecido aqueles dias. Olheiras? Não existiam mais sob seus olhos, mas sim, dois sulcos; dois infelizes buracos talhados em seu rosto que degradavam qualquer resquício da sua juventude à flor da pele.
Mas Miguel não se importava muito com os efeitos colaterais do horário trocado; gostava daquele momento da madrugada para escrever. Dizia, para si mesmo, que era o pico da “não-existência”, porque, pelo menos nas redondezas de sua casa, a rua era mais silenciosa do que nunca. Três horas da manhã era o “meio-dia” da madrugada, que, afinal, era o seu momento favorito do dia. Favorito não só porque costumava escrever naquele momento, mas porque gostava do silêncio ambiente e como as músicas no fone-de-ouvido soavam muito mais intensas e emocionantes naquele horário; gostava também de ir para a janela observar a avenida, vazia e, também, silenciosa. Sim, o silêncio. Ninguém poderia interrompê-lo no silêncio. E se tinha algo que importunava Miguel, era ser interrompido.
Miguel decidiu se levantar e preparar um café. Mesmo que aquilo provavelmente apodrecesse seu organismo, recentemente ele tinha descoberto como a cafeína lhe dava um gás maior para escrever. Era quase instantâneo; como uma poção mágica. Placebo, talvez? Pouco importava, porque funcionava. Quer dizer, pelo menos na maioria das vezes. Pois em outras ocasiões Miguel ficava tão elétrico e agitado que as escrituras acabavam sendo rapidamente deixadas de lado por algo que satisfizesse seus impulsos mais imediatos; como acessar o Youtube e assistir um videoclip, ou postar no Twitter alguma frase dissimulada.
Mas naquela comum madrugada de quarentena, Miguel deveria se conter para não exceder o uso da sua poção mágica, ou para não acabar abrindo uma aba e fuxicar a timeline do Facebook. Deveria se manter mais concentrado do que nunca na ideia do seu texto.
E por que dessa vez deveria seguir rigorosamente diferente? Miguel tinha se desafiado: faria um conto para um concurso.
Miguel costumava escrever sobre realidades paralelas, romances, letras de música, ou constatações sobre autodesenvolvimento, mas sempre passava longe desses concursos, pois temia que seu rascunho de ideias tornasse-se só mais um documento incompleto em meio seus tantos outros projetos de escrita inacabados. Mas Eduardo tinha dado-lhe um ar de inspiração enquanto trocavam mensagens no Whatsapp sobre as vivências no mundo do RPG; o colega disse-lhe que deveria se arriscar e buscar se superar em suas escolhas. E era isso que faria. Sem medos, embarcaria num projeto menos pessoal e tentaria usar a escrita de forma mais profissional.
Aquela madrugada seria diferente!, pensava sobre isso enquanto despejava o café sobre a xícara, sorrindo abobado.
Até que seu sorriso se desfez abruptamente, quando encarou o pote de açúcar e rapidamente lembrou-se do que sua mãe tinha lhe dito no final da noite “Acabou o açúcar. Só amanhã pra comprar no mercado”. E também recordou de sua resposta mecânica e desinteressada naquele momento do passado “Não tem adoçante?”.
“Não”, o eco da voz de sua mãe sentenciava a questão. Cármico!
Foi quando tomou provavelmente a decisão mais impulsiva da sua vida: encarou o vidro de mel com própolis. Pois seria aquilo ali mesmo. O que importava era a cafeína, certo? O sacrifício pela arte.
Retornou para o canto da sala, onde estava seu notebook, e novamente se sentou mirando a tela branca vazia.
O tema do concurso: “Um conto sobre as experiências individuais durante a época de Quarentena”.
Botou o fone nos ouvidos e deu play na música mais emotiva da Lana del Rey. Constatou mentalmente, como sempre, como aquela mulher era uma gênia. Queria um dia poder ser como ela; a forma como ela o fez enxergar a música mais que um entretenimento, mas uma experiência transcendental, como se cada acorde, cada respiro e cada palavra escolhido sabiamente pudesse gerar uma atmosfera, com sensações e texturas. Era um processo bastante semelhante ao de escrever, porém, invés de retirar coisas de dentro, você agregava, acionava uma espécie de botão interior.
Miguel deu um gole no café enquanto refletia sobre tudo aquilo, sendo bruscamente jogado de volta para realidade quando aquele gosto mortalmente horrendo, patético e repugnante se instalou em sua língua. Sentiu que regurgitaria e engoliu com sua pior careta. O auto-sacrifício!
Depois do choque, voltou a encarar a frase que explicitava o tema no site do regulamento do concurso.
Coçou a têmpora.
O que exatamente tinha feito durante aquele longo período que não fosse gastar sua madrugada oscilando entre o Twitter e um documento Word em branco, ou incessantemente desejar ir num show do Blur? Irritou-se com os posicionamentos políticos de seu pai? Fumou cigarro escondido porque sua mãe obviamente sabia do seu pulmão fraco? Tentou ler Nietzsche? Mal se interessava em correr atrás das atividades da Faculdade e tentava ignorar sem culpa o que aquilo poderia ocasionar no futuro.
Teve uma ideia repentina: e se pegasse alguma de suas pequenas frases reflexivas e transformasse em conteúdo para o conto?
Com força e coragem, deu outro gole na xícara.
Ou talvez pudesse escrever sobre uma experiência de despersonalização que teve outro dia, enquanto olhava no espelho fazendo a barba pela manhã. Era uma situação pouco comum. Seria interessante explorar aquilo em uma ficção.
Refletiu sobre.
Talvez um conto sobre como pensou que enlouqueceria nos primeiros dias, porque seu espaço pessoal parecia muito limitado numa casa pequena e sem portas como a sua; ou como achou também que viraria alcólatra.
Poxa, a música estava no ápice dos instrumentais. Miguel se permitiu sentir um pouco daquelas emoções de olhos fechados, balançando a cabeça.
Mas, pensando profundamente, escrever sobre somente um daqueles acontecimentos seria tornar menos importantes os vários altos e baixos e constatações que aquela experiência tão atípica tinha propiciado. Guardar certas reflexões seria um desperdício de queima de neurônio! Talvez pudesse falar de tudo um pouco?
Outro gole. Estava se acostumando com aquele gosto… exótico.
Por onde começar?
Pensou em iniciar o texto com uma frase de impacto, como se falasse de um mundo que vivenciava o apocalipse. Ou será que colocar um trecho de música da Adriana Calcanhotto ficaria mais épico e dramático?
Riu; sua mente sempre tornava tudo muito mais dramático do que de fato era. E a quem estava tentando enganar? Sua quarentena não era nenhuma grande jornada de introspecção espiritual para que despejasse tanto sentimento glamourizado naquele conto. Miguel sabia, mais que ninguém, que embora todas as reflexões interessantes -- e, só talvez, importantes --, ainda não passava de um mero escritor amador que gostava de se dopar de café de madrugada.
Até que teve um devaneio instantâneo, como um flash.
Num impulso quase instintivo que pulou para fora de si, ele selecionou a página em branco. Tinha descoberto uma tara por usar personas em seus textos, recentemente; o que acabou por acender dentro de si uma chama -- a chama da inspiração!
Miguel escreveu a primeira frase no topo do rodapé; que começava exatamente assim:
“E mais uma madrugada Nina estava ali, num canto da sala... ”.
Notas finais
no final o Miguel descobre que leu o regulamento errado e decide jogar a história no NyahFanfiction
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