E la vamos nós
1 Capitulo Unico
Notas iniciais
Odaiba, Japão — 2025
Muitos anos se passaram desde as grandes aventuras que vivi. Hoje, no auge dos 35, vejo meus filhos ansiosos para experimentar as mesmas emoções que, sem exagero, moldaram minha vida por completo. Afinal, ser um Digiescolhido não é apenas uma fase, é algo que redefine sua história para sempre.
Quase todos os dias, me pego olhando para trás. Sinto falta da adrenalina, do desconhecido, do brilho nos olhos ao desvendar os segredos do Mundo Digital. Quantas noites em claro ao lado de Koushiro-kun, tentando decifrar códigos e enigmas? Quantas vezes me juntei aos outros Escolhidos espalhados pelo mundo, cruzando continentes em missões que nem nós entendíamos completamente? Viajei pela Ásia, América e Europa. Conheci lugares que me encantaram, outros que me desafiaram... e poucos que me fizeram temer o que vinha depois.
Ahh, mas que falta de educação a minha! Estou aqui falando e nem me apresentei. Meu nome é Miyako, ou melhor dizendo, Ichijouji Miyako, desde que eu e Ken resolvemos... como é que dizem mesmo? Juntar as escovas de dente?
Mãe de dois amores, acho que posso me classificar como uma malabarista. Não acredita? Então veja só: preciso equilibrar minha vida entre ser pesquisadora do Mundo Digital, desenvolvedora de tecnologia, gamer, esposa dedicada, mãe presente e, claro, Digiescolhida.
Ufa! Sinceramente... um dia de 24 horas é pouco. Muito pouco. Aliás, se eu tivesse um dia de 30 horas, ainda faltaria tempo. Se fossem 36? Bom, talvez, talvez desse para respirar um pouco.
Mas a verdade é que, entre festas do pijama, treinos de futebol e infinitas reuniões (que muitas vezes poderiam ser e-mails), encontrar tempo para ser aquela Miyako jovial, sempre antenada nos últimos memes e nas novidades tecnológicas, virou um desafio quase impossível.
Por Kami, não me entendam mal, eu amo ser mãe e não trocaria minha vida por nada dessas blogueirinhas glamourosas. Mas, às vezes... nossa, é muito exaustivo.
Ken é um amor comigo. Mesmo com o trabalho intenso e as investigações complexas e perigosas que envolvem ambos os mundos, ele está sempre ao meu lado. Divide as tarefas de casa, está presente nas reuniões escolares, nos campeonatos esportivos, nos passeios... em tudo que diz respeito à nossa família, sem reclamar um único segundo. Eu realmente não poderia pedir a Kami um marido e pai melhor para meus filhos.
Mesmo hiper atarefados, sempre fazemos questão de nos esforçar para manter a chama do casamento acesa. Conseguimos encontrar um tempo, mesmo que apertado, para jantares românticos à luz de velas, ou para visitar aqueles festivais que amamos, assistir ao teatro de sombras, e, recentemente, até tivemos a ousadia de viajar um fim de semana para as montanhas. Um simples período, mas que parecia uma eternidade, onde finalmente podíamos ser apenas dois amantes felizes.
Hikari-chan foi um amor, ficando com nossos filhos, e, embora Hawkmon e Wormon tivessem prometido se comportar direitinho, acho que acabaram se rendendo à bagunça dos pequenos Poromon e Minomon, que estavam se divertindo como nunca.
E Kami... só de lembrar... ahhh, aquele clima nas montanhas, com o cheiro fresco das árvores, o ar gelado e revigorante misturado com a fumaça suave da lareira. O som tranquilo das copas das árvores balançando ao vento, como uma sinfonia da natureza, quase nos embalando. Ali, no calor do chalé, não éramos mais pais, profissionais ou escolhidos a guardar a estabilidade de dois mundos que coexistem. Estávamos apenas como marido e mulher, entregues ao momento, sem preocupações, sem pressa. Tudo o que existia era a chama das madeiras crepitando, refletindo o calor do que compartilhamos, embalados pela garrafa de champanhe quase vazia, enquanto a vida adulta, as obrigações paternas e todo o resto ficavam lá fora, distantes, irrelevantes.
Mas como a realidade sempre se impõe, ela bateu em nossa porta. Entre lençóis amarrotados e roupas espalhadas pelo chão da casa de campo feita de carvalho, acho que nos empolgamos, e agora estou aqui, sentada no vaso do meu banheiro, com suas paredes de azulejos brancos e o cheiro suave de sabonete ainda pairando no ar. Minhas pernas já formigam de tanto tempo que estou aqui, aproveitando que as crianças estão na escola. O reflexo à minha frente me encara, mas não tenho coragem de olhar de verdade. Hawkmon já veio aqui me perguntar mil vezes se está tudo bem e, da última vez, respondi que sim, pedindo para ele ir ao Digimundo buscar os pequenos digimons da casa, pois logo (nome da filha) e (nome do filho) chegariam do colégio. Mas a verdade? Eu estou apavorada, com medo de olhar o resultado, que já parece me convocar. Pode parecer loucura, mas acho que nem diante de Belialvamdemon e outros digimons das trevas temi tanto e senti tanta ansiedade por um desfecho.
— Qual é, Miyako, se recomponha. Você é uma mulher adulta, casada, de sucesso e uma mãe que arrasa. Com certeza não será o fim do mundo. Digo em voz alta, levantando-me e encarando finalmente meu reflexo no grande espelho redondo pendurado acima da pia. Ele revela o que sou: uma mulher cheia de responsabilidades, com os cabelos desgrenhados e o olhar marcado por olheiras, resultado da rotina de acordar muito cedo e dormir muito tarde.
Minha tentativa de externalizar meus pensamentos não fez a coragem despertar em mim. Droga, para o Taichi-san e Daisuke-kun sempre parecia tão fácil arruma-lá, tudo com um discurso motivacional se resolvia para eles.
Mesmo sentindo minhas mãos e pernas tremerem, encaro o teste, ainda virado para baixo, sob a pia, ao lado de frascos de creme dental e sabonete líquido. Tomo-o nas mãos e…
— Kiahhh, não posso olhar — jogo o teste fora, correndo em direção à sala de casa, como se o oxigênio do lugar tivesse acabado de repente.
Sento-me no confortável sofá e levo as mãos ao rosto, frustrada por toda a situação. Ergo o olhar e vejo detalhadamente como está minha casa: virada do avesso. Brinquedos e roupas estão espalhados pelo chão, no rack e no sofá. A pia transborda de louça, e a mesa de jantar ainda está cheia dos restos do café da manhã. Na mesa de centro, o notebook está aberto, com o fio do carregador atravessando o meio da sala até a tomada, enquanto várias folhas de documentos e pesquisas estão desordenadamente espalhadas. O cheiro de comida que ficou na casa parece pesar ainda mais sobre mim, e meu estômago se revira com o cheiro do leite na tigela de cereal do caçula.
Suspiro profundamente e me pego pensando que minha mãe me estrangularia se visse essa, quase zona de guerra. Ela sempre foi tão cuidadosa com a limpeza e organização... Tudo isso é tão diferente do que ela me ensinou.
Jogo-me com as costas no estofado e respiro fundo fitando o lustre de vidro que decora o ambiente. Agora, é tarde demais para lamentar qualquer coisa. Seja qual for o resultado, está claro que está ficando cada vez mais difícil conciliar tudo. Talvez eu precise tomar uma decisão que, há alguns anos, consideraria errada e retrógrada... Mas a verdade é que, por mais que a mídia e as redes sociais tentem vender a ideia de que podemos fazer tudo, dar conta de tudo e que negar isso seria um ataque ao feminino, a realidade é outra. Para ser saudável, fazer bem as coisas, ter tempo para ser mulher, sentir-se viva e não apenas existir, mais cedo ou mais tarde, teria que abrir mão de algo.
Levo uma almofada até o rosto e grito, abafado. Ahhh, por que tudo tem que ser tão complicado?! Onde está a simplicidade de ir, destruir uns digimaus e voltar para comer os bolinhos de arroz da Izumi-san?
Estalo o pescoço e inspiro forte, soltando o ar devagar. No final, rio de mim mesma. Me sinto boba, afundada em tantas dúvidas, comparando minha vida agora com a de Miyako de 11 anos. Já passei por situações piores. E, além disso, o Ken está comigo. O que poderia dar errado?
Mas então, no meio da bagunça, meus olhos encontram um retrato esquecido sobre a estante. Eu, mais jovem, montada nas costas do Holsmon, com um sorriso tão aberto que quase posso ouvir minha própria risada saindo da foto. Meu peito aquece com uma sensação difícil de explicar.
O que estou fazendo? Desde quando deixei que o medo falasse mais alto do que eu mesma? Eu sou Miyako Inoue! Encarei batalhas contra forças que ninguém jamais imaginou, encarei até meus próprios medos… Por que isso seria diferente?
Um suspiro profundo escapa de meus lábios, e um sorriso se forma quase sem que eu perceba. Sim… O amor. O amor que me guiou até aqui. O amor que me fez construir tudo isso.
Com nova determinação, levanto-me, pronta para refazer o bendito teste e encarar o que vier de frente. Mas, no instante em que dou o primeiro passo, tudo ao meu redor começa a girar. As luzes piscam, o som parece se distanciar, e um peso estranho toma conta do meu corpo.
Rodou… rodou… e, de repente, tudo se apagou.
(...)
Acordo sentindo uma luz forte contra meu rosto. Minha testa franze em resposta e levo a mão até ela, piscando devagar para me acostumar com a claridade. Há um cheiro peculiar no ar, algo estéril e frio. Onde estou? Meu corpo parece pesado, como se tivesse afundado no colchão. Tento me mexer, mas percebo que estou conectada por fios. Mesmo tentando focar minha vista, não consigo, pela ausência dos óculos.
— Mamãe, você acordou!! — A voz animada da minha filha mais velha rompe o silêncio, e, antes que eu possa reagir, sou envolvida por seus braços quentes e animados.
— Filha, calma, deixe sua mãe respirar. — A voz de Ken soa suave, mas carregada de preocupação. Seus dedos roçam os meus com um toque hesitante. — Você está bem, amor?
Minha mente ainda está nebulosa, mas consigo distinguir os rostos familiares ao meu redor.
— Filha… Ken… — Minha voz sai fraca. — Onde estou?
— No hospital, Miyako-chan. — A resposta vem de Joe, ou melhor, Dr. Kido, enquanto ele entra no quarto com um semblante sério. — Você nos deu um belo susto. Já conversamos sobre você vir me ver regularmente, não conversamos?
Suspiro, tentando sorrir.
— Joe-kun, er, quer dizer, Dr. Kido, me sinto fraca… pode guardar a bronca para depois? — peço com voz manhosa, tentando escapar do sermão.
Ele não responde, apenas me lança um olhar de desaprovação profissional.
— Eu que te achei! — Minha primogênita se apressa em dizer, o orgulho evidente em sua voz. — E liguei para a ambulância, como você mandou!
— Hum-hum. — Hawkmon pigarreia, pousado na cabeceira da cama.
— Tá bom, tá bom… — Ela revira os olhos, cruzando os braços, emburrada por ter que dividir os créditos. — Eu e o Hawkmon encontramos você juntos. Mas fui eu quem ligou!
Sorrio, levando a mão ao rosto da minha filha e a puxo para depositar um beijo.
— Muito bem, meu amor. Obrigada. — Depois, estendo a mão para meu parceiro Digimon, acariciando suas penas. — E a você também. Agora, onde está o (nome do menor)? — pergunto, estranhando a ausência do meu outro filho.
— Está na lanchonete, com o restante da turma. — A voz doce de Wormmon se faz presente, e logo a pequena larvinha usa suas teias para subir na cama, achegando-se aos meus pés. Diante da revelação, me viro para Ken.
— Todos vieram? Kami… o que aconteceu?
Ken aperta minhas mãos, hesitante.
— Você… desmaiou. — Sua voz carrega uma cautela que me faz prender a respiração e sentir um remorso. Não deveria ter escondido isso dele. — Te encontramos caída no tapete de casa.
Seus olhos buscam os meus, e no brilho deles vejo tudo que não foi dito. A preocupação, o alívio, o carinho. Ele não precisa dizer mais nada, seu olhar já me conta tudo.
— Eu tenho notícias sobre seu diagnóstico, Miyako-chan. — Joe interrompe, chamando nossa atenção.
Tateio a cômoda ao lado, encontro meus óculos e os coloco no rosto, já prevendo o que viria.
— Certo… dois reais ou um presente misterioso?
— Presente misterioso? — Ken e eu trocamos um olhar confuso, enquanto nossa filha começa a rir, claramente entendendo a referência.
— Eles não acompanham redes sociais, tio Dr. Kido. — Ela nos expõe sem piedade, os braços cruzados e um sorriso convencido.
— Kami, quando foi que fiquei velha demais para não entender um meme? — Faço drama, levando a mão ao peito, e Ken apenas ri de mim.
— Ei, não fique do lado dela! — o censuro, beliscando seu braço de leve.
Ele ergue as mãos em rendição, ainda rindo.
— Ou melhor… — Joe pigarreia, chamando nossa atenção de volta. — Talvez eu devesse dizer… bebê misterioso?
O choque é instantâneo. A frase paira no ar exatamente quando nossos amigos entram no quarto, rindo, mas suas vozes morrem ao perceberem a tensão no ambiente.
Olho para Ken de relance. Seu rosto está pálido, os olhos arregalados, e posso jurar que ele parou de respirar por um segundo. Minha boca se abre, mas antes que eu consiga dizer qualquer coisa…
— KIYAAAAAA! EU VOU TER OUTRO IRMÃOZINHO!!! — A voz estridente da minha filha rasga o silêncio, e, de repente, tudo explode em gritos, risadas e comemorações barulhentas.
Ken continua paralisado. E eu… só consigo rir do caos.
Todos nos dão parabéns ao mesmo tempo e Hikari-chan me olha de relance, reconheço bem aquele olhar, ai vem questionamento.
— Humm, então acho que a viagem às montanhas foi… proveitosa — a castranha da luz provoca, e eu a puxo com tudo para afastá-la do foco.
— Amiga, abafa — digo em um quase sussurro, para evitar que os outros escutem.
— Ahh, mas nem adianta, Miyako-chan, já ouvimos tudo — Mimi e Sora me olham com um olhar sapeca. Encolho os ombros, sabendo que terei que me explicar em uma reunião de meninas depois. — Pelo jeito, a viagem foi… divertida.
— Mamãe, o que há nas montanhas de tão divertido? — Minha filha mais velha questiona, aproximando-se. Seus olhos brilham, transbordando curiosidade. Ai, meu Kami, onde me meti? Olho para minhas amigas, que agora disfarçam, fingindo que não perceberam. "Traíras", penso comigo.
— Olha, minha filha, as montanhas são… tipo um parque de diversões, mas apenas para adultos. Você tem que crescer primeiro para ir lá.
— Então… um dia eu vou poder ir? — Ela questiona, e me vejo completamente encurralada, enquanto minhas “amigas” se divertem às minhas custas. — OBAAA, você ouviu papai? Um dia eu vou para as montanhas me divertir igual você e a mamãe! — conta animada para Ken, que bebia uma água, ainda tentando se recuperar do choque inicial.
Diante da empolgação da nossa prole, Ken engasga e começa a tossir, sendo acudido pelos amigos, que ainda fazem troça dele.
Repentinamente, todos começam a falar ao mesmo tempo. Meu filho e os digimons curiosos querendo saber como Ken conseguiu ter 3 bebês, já que nenhum dos outros conseguiu, minha filha fazendo planos de ir com as filhas de Koushiro-kun e Yamato-kun para as montanhas, deixando-os de cabelo em pé, e Mimi-chan junto com Daisuke-kun fazendo graça sobre sermos quase “coelhos”.
A bagunça estava feita. Até os sérios Dr. Kido e Iori-kun se divertiram com as piadas. Kami, acho que ninguém realmente esperava por isso.
— Joe-kun — chamo meu médico com voz séria e todos interrompem a algazarra por alguns instantes — ainda dá tempo de escolher os dois reais? — questiono fazendo graça, aumentando o riso de todos na sala
Ken e eu trocamos um olhar, e nossos pensamentos praticamente se conectam:
“E lá vamos nós…”
FIM
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