E eu que não sabia amar.
1 O começo.
Essa história começa ao som de Men I Trust, especificamente da melodia I hope to be around. Eu pensei que nunca contaria pra ninguém o que aconteceu aquele dia, meu coração aperta de felicidade e tristeza ao lembrar daquelas noites e de como um único poema me levou do fundo do poço ao mais alto do céu, mas eu não sei voar.
Era um domingo, eu estava completamente bêbada, sorria alto em companhias estranhas em plena noite Lisboeta, não tinha amigos além dos conhecidos com quem partilhava cervejas e isso de fato era o que eu precisava, gostava da superficialidade de se encontrar apenas para beber. Você, leitor, pode estar me julgando e eu não te acho errado, pelo contrário, eu até concordaria contigo em algumas partes, mas esse não é o momento.
Saímos de uma boate e descemos do Bairro Alto até o Cais do Sodré, a noite era fresca, como pedia a primavera e a beira d'água sempre me agradou, ainda mais com cerveja e cigarros e Ana trocando gracejos com Teresa, brincando sobre estrelas e amor — Eu amo você, pretinha, até mil voltas na lua. — Soltava Ana, acariciando os cabelos encaracolados de Teresa. Demoramos a encontrar o ponto mais confortável, eu queria sentar o mais próximo da estação de metrô, as meninas queriam chegar até a praça do comércio e sentar em algum restaurante que ainda estivesse aberto, onde eu tive que ceder até certo ponto já que elas me prometeram algo para comer, o trato seria de que eu ficaria na praça, esperando.
Nesse instante, caro leitor, o passeio mudou de ritmo. Enchi o meu copo e acendi o meu cigarro enquanto observava o ambiente, minha mente cantarolava qualquer música da Billie Marten e eu percebi havia alguém caminhando em minha direção, em primeiro, achei que seria uma das meninas, mas era um traje diferente, era um caminhar diferente, parecia perdida em seus passos mas logo sua voz denunciou a confiança — Posso recitar pra você? — Ela pediu. — A gente se conhece? — Eu perguntei. — Isso importa? — Ela rebateu. — Recite — Pedi enquanto enchia os pulmões com cigarro, um trago nada delicado devido a tensão do momento.
Ela recitou um poema do Carlos Drummond de Andrade, Cantiga de Enganar, como quem declama um poema de amor, as palavras duvidosas dançavam na boca dela e eu passei da desconfiança ao contente e do contente ao encanto desse encontro. — Fica? — Pedi, quase hesitante ao fim do poema, quando vi Ana e Teresa chegando com um prato de algo e que a cerveja quase acabava. — Como é o teu nome? — Perguntei, ao perceber como ela se sentava e se servia da bebida que já estava quente. — Eu sou Maria, e você? — Ela sorriu, observando minhas amigas se apresentarem também e esperou que eu falasse. — Eu sou Eva.
Acho que se Ana e Teresa não estivessem ali, eu não saberia nem puxar assunto, apesar de querer ouvir mais, saber mais. Tinha impressão de já ter visto aquela garota, ouvido a voz, não sabia ao certo, ou não queria acreditar que havia me encantado o suficiente em alguns versos e copos de cerveja. Em todo caso, a noite seguiu tranquila, o diálogo surgiu como tinha que ser e ainda comemos todas juntas algo com carnes e batatas, até o céu começar a clarear, mas o sol ainda demoraria a aparecer.
Eu lembro de estar levemente bêbada quando Ana chamou Teresa para ir embora e me oferecerem carona, junto a Maria. Não aceitamos, descobrimos no decorrer da conversa que desceríamos no mesmo ponto do metrô e isso me deixou confortável, meu coração saltou na possibilidade de revê-la. Ela tinha os olhos castanhos e grandes e o cabelo preto curto, deixando a nuca a mostra e o detalhe da tatuagem que saltava de sua camiseta. Caminhamos até o metrô e ela me contou sobre como era a vida em Lisboa, onde ela vivia há mais tempo que eu, e eu contei do meu tempo de retorno ao Brasil.
Ah, eu estava em Lisboa a estudo, havia um tempo e estava pensando em retornar ao Brasil para descansar e rever a família, tinha saudade do sol e do modo de vida.
— Você é quase sempre quieta assim? — Ela perguntou, quando entramos em um dos vagões. — Sim, quase sempre, mesmo bêbada, eu acabo conversando mais comigo mesma do que com os outros. — Respondi desviando dos grandes olhos castanhos. — Me conta, Eva, qual teu poema favorito? — Ela perguntou, fingindo não perceber o quão eu fugia. — Bolinhas, Clarice Lispector —Eu respondi. — Então, sua alerteza te é mais preciosa, minha cara? — Ela se aproximou de mim, sentou ao meu lado e ajeitou meu cabelo para trás. Eu engoli seco e os dedos dela voltaram gélidos pela minha face, contornando o meu maxilar e parando na pontinha do meu queixo. — É sim, Maria, completamente mais preciosa. — Num súbito, encarei-a, virei meu rosto ao dela e encontrei os olhos castanhos sem pestanejar, mantive o encontro do olhar até que ela desviou. — Me dê o seu número, Eva. Vamos conversar qualquer dia desses, tome o meu, ligue na terça-feira, apareça qualquer dia.
Conversamos sobre o desejo de manter contato, mas eu não quis alarmar a outra sobre o quão difícil pra mim é isso, antes que eu pudesse falar algo, foi anunciado o ponto em que desceríamos, ela segurou minha mão e saímos do vagão, ela me olhou e deixei que conversássemos no silêncio dos passos da estação.
— Você vai me ligar, Eva?
— Não espere por mim, Maria.
— Conte-me onde mora. Deixe-me entrar.
— Minha casa? Muito bagunçada.
— Eu não desorganizo mais.
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