Notas iniciais
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Eu e meus pais dormimos no tapete da sala assistindo filmes novamente. Tem acontecido com tanta freqüência que está se tornando um ritual familiar, admito — eles estão sempre cansados demais para agüentar qualquer filme até o final e eu não preciso de mais do que uma superfície macia debaixo de mim para desabar —, mas ainda assim acreditei que Batman Vs Superman agüentaria o tranco de nos manter acordados até a última cena. Minhas expectativas estavam altas, afinal: meses de spoilers jogados na cara no tumblr, junto com os surtos descontrolados dos fãs, foram mais do que o suficiente para me fazerem entrar no hype. Não esperava ser presenteado com três horas de um nada acontece tão sonífero que nem sequer consigo me lembrar da última cena que vi antes de desistir.

Não é a primeira vez que o Tumblr mente para mim. Eu já devia ter aprendido.

Contudo, defendendo a teoria de que há um lado bom em todo tipo de situação, digo que o filme é sim muito sonífero, mas um sonífero de qualidade: sou induzido a um sono tão bom, mas tão bom que, quando acordo, entendo perfeitamente como os computadores se sentem ao serem ligados pela primeira vez após uma formatação. Sim, esta é uma bosta de comparação, mas quem liga? Como se todo o cansaço e preguiça tivessem sido limpados do meu corpo, me espreguiço com vigor e sento no chão da sala, piscando algumas vezes para me sintonizar ao mundo real: é sábado, a televisão está desligada, meus pais já acordaram, o relógio do celular marca seis e quinze da manhã.

Seis e quinze da manhã. Cacete.

Isso não é de madrugada?

— Ué, filhote, o tapete cuspiu você hoje? — pergunta minha mãe, já com o uniforme do trabalho, a me ver arrastar os pés para dentro da cozinha. — Tá passando bem?

— Estou sim — respondo. — Eu acho. Tem um tempo que não acordo tão cedo, não é?

— Realmente, você não é d-. — Ela se atrapalha com as libras, quase derrubando seu copo de café no chão, e solta um muxoxo desgostoso. — Ah, que saco. Sete anos de prática e eu ainda derrapo nessa mesma palavra!

— Eu também derrapo em muitas outras palavras, faz parte, mamãe. — Me aproximo para beijá-la na testa e sorrio, satisfeito ao vê-la sorrir de volta. — Você está sempre tão ocupada que eu me surpreendo que você se lembre de como respirar!

— Felizmente, é automático, senão eu já teria morrido sufocada alguma hora — brinca ela, esvaziando a xícara e se levantando. — Bem, já que você acordou tão cedo e não está com cara de quem vai voltar a dormir, vai no supermercado buscar açúcar e molho de pimenta para mim? Tô tomando café amargo porque o açúcar acabou anteontem e eu sempre esqueço de comprar. — Ela faz uma careta para a xícara vazia. — Não é muito gostoso, vou te contar, mas...

— Café não é gostoso com ou sem o açúcar, mamãe.

— Você vai mudar de idéia quando ficar adulto, filhote, isso eu posso garantir. — Mamãe sorri pra mim, seus olhos brilhando com uma ponta de troça. — Vai continuar sendo muito ruim, mas você vai achar gostoso. É assim que funciona. — Ela beija minha bochecha. — Vou lá trabalhar. Seu pai não quis me esperar, aquele apressado... Não se esqueça de comprar o que eu te pedi, o dinheiro está no lugar de sempre. Bom dia, filhote.

— Bom dia, mamãe.

Ela some do meu campo de visão e, um instante depois, as luzes azuis se acendem, avisando-me que estou sozinho. Não sinto muita fome — meu estômago não está acostumado a receber comida antes das dez da manhã — e decido não forçar; tomo um copo de leite, visto uma roupa decente, pego o dinheiro no lugar de sempre e saio para comprar as coisas que minha mãe pediu. Já são quase sete horas a essa altura e o supermercado está a quatro quarteirões de distância; até que eu chegue, as portas provavelmente já estarão abertas.

Moro num bairro tranqüilo, predominantemente residencial, embora um bocado pobre. As casas são feias, os prédios mais ainda e as pessoas, nem se fala, mas não tenho nada do que reclamar. Não há uma pessoa em Ventos que não tenha sido assaltada — e com isso incluo os próprios assaltantes —, mas, em sete anos morando nesse mesmo lugar, nunca tivemos nenhum problema e raramente ouvimos falar de alguém que tenha tido. A coisa mais notável a se dizer sobre a região é que é nela que se encontra a melhor balada gay da cidade, a tal da DELLIRIUM, mas, para o tédio total dos habitantes, o prédio tem um bom isolamento acústico e os seus visitantes nunca incomodaram ninguém. O que não freia as línguas venenosas, porém.

Quando chego no supermercado, a moça do caixa está comentando com a embaladora sobre o cara de collant rosa que ela passou na rua de sua casa ontem. Ao que parece, o tema da noite de sexta da DELLIRIUM foi festa à fantasia: a embaladora gargalha ao contar que viu um cara vestido de Sininho beijando outro cara vestido de enfermeiro na entrada do prédio da frente, ressaltando que afastou seus filhos da janela para que a boiolagem não os contaminasse. Não deixo de revirar os olhos, porque é só isso que eu posso fazer; pessoas antigas, mentalidades ultrapassadas, nada de novo sobre o sol. Minhas compras são passadas em meio às gargalhadas das duas e, em sua distração para falar mal dos outros viados que ela viu passando em sua rua, a moça do caixa me devolve o troco errado.

Considero avisá-la do erro assim que conto o dinheiro e noto a diferença, mas a mulher ainda está rindo, agora fazendo uma imitação porca de um dos caras da noite passada, e decido que, embora cinco reais não sejam o suficiente para salvar a minha vida, vou ficar com o dinheiro assim mesmo.

Para voltar para casa, não faço o mesmo caminho da ida; para matar tempo, vou pelo percurso mais longo, contornando o quarteirão inteiro em passos de tartaruga ao invés de pegar a avenida principal. Não passo por aqui com muita freqüência, pois os estudos em tempo integral garantem que eu esteja sempre sem tempo e essas ruas são perigosas demais para se freqüentar à noite; porém, sob a luz do primeiro sol da manhã, tudo parece bastante pacífico. Sacos de lixo no chão, esperando pelo recolhimento, pessoas com cara de sono bocejando nas calçadas, um vulto jogado em uma das centenas de becos espalhados por aí.

Paro minha caminhada. Um vulto. Sei que não é da minha conta — com uma boate nas vizinhanças, é bem possível que seja apenas uma pessoa que bebeu demais e não conseguiu pegar um táxi —, mas mesmo assim me aproximo, pé ante pé, suspendendo a respiração. É um homem, noto logo pela estrutura corporal, e há algo de familiar no jeito como ele se encolhe em si mesmo, abraçado aos próprios joelhos em posição fetal; algo na curva do pescoço, no ondular dos cabelos...

Não quero acreditar, não quero mesmo, mas a realidade pode ser bem cruel quando lhe convém; ao delicadamente desprender os braços do vulto de seu joelho e desfazer a posição, dou de cara com um Fábio completamente destruído fisicamente. Seus cabelos foram arrancados em um ponto da cabeça, onde o sangue coagulou, e seu rosto está pintado em diferentes tons de roxo, salpicados pelo vermelho dos pontos onde o sangue escorreu. O semblante se contorce em meio à inconsciência em todas as vezes em que ele respira, e deduzo que seu corpo esteja machucado também.

Você está se envolvendo demais com a vida dessas pessoas, digo a mim mesmo. Onde fica a amizade platônica? A gracinha de amigos à distância do tumblr? Suspiro ao segurar as sacolas com a boca e pegar Fábio no colo, concluindo que sua falta de estatura não se reflete em menos peso, e caminhar com ele na direção da minha casa, ignorando os olhares das mesmas pessoas sonolentas de alguns minutos atrás. Talvez pensem que não acordaram; que um menino carregando um saco de pancadas no colo e uma sacola com molho de pimenta e açúcar na boca seja apenas um sonho. Eu realmente gostaria que fosse, também.

Tenho certa dificuldade em destrancar a porta da frente e, quando consigo, abro-a com um chute, não me importando em fechá-la por enquanto. A primeira coisa que faço é colocar Fábio debaixo do chuveiro, despindo-o de suas roupas apenas para notar que o resto de seu corpo está tão destruído quanto o rosto, o tronco pintado de hematomas e inchaços para onde quer que se olhe; limpo as crostas de sangue seco com a parte macia da esponja, com o máximo de delicadeza para não perturbá-lo, mas sua inconsciência é implacável. Fábio não se move e, se não fosse por sua respiração, errática e dolorida, eu poderia acreditar que está morto.

O visto com as minhas roupas, que, muito maiores que seu corpo diminuto, têm um péssimo caimento, e me pergunto o que fazer em seguida; ele precisa de um hospital, isso é óbvio, mas não tenho a menor condição de levá-lo até lá. O whatsapp de Camilla denuncia que já faz oito horas que ela não está online para o mundo, mas isso pode ser facilmente consertado. Aperto o botão de chamada.

São necessárias várias tentativas até que meu celular vibre, anunciando que a pessoa do outro lado da linha atendeu à ligação. Obviamente, não digo nada, só desligo o telefone, rapidamente digitando uma mensagem no whatsapp e torcendo para que Camilla não seja do tipo que volta a dormir bem rápido após uma interrupção ao seu sono de beleza. Sou desses; sei como é.

Felizmente, Camilla está bem acordada; assim que explico a situação, pede meu endereço e, no tempo de algumas piscadas, irrompe pela porta da frente, esbaforida e despenteada. Seu olhar endurece quando ela vê Fábio deitado na cama do meu quarto, parecendo muito pequeno dentro das minhas roupas, mas é só isso; ela não chora nem se abala, objetivamente pedindo minha ajuda para que eu coloque Fábio no carro que ela trouxe, o que eu faço sem reclamar. Ela me pede para que eu vá junto, para que eu a ajude a carregá-lo para dentro do hospital, e seu argumento é válido o suficiente para me fazer concordar; tranco a porta da frente novamente e me jogo no banco do carona quase ao mesmo tempo em que ela dá a partida.

— Não é a primeira vez que acontece, sabe — vejo-a dizer, apertando o volante com força até que os nós dos dedos embranqueçam. — Ele aparecer fodido desse jeito. Ele era muito brigão no fundamental, vivia se envolvendo em problemas. Só que dessa vez... — Ela suspira. Sem jeito, levo a mão até seu ombro, acariciando-o de leve, e Camilla sorri, me olhando de soslaio. — Você é realmente um doce.

Ela não diz mais nada, concentrada em correr no limite da lei pela cidade, furando alguns semáforos e fazendo manobras que deixariam os motoristas do Velozes e Furiosos com inveja. O hospital está no lado da cidade diametralmente oposto ao meu bairro e Camilla consegue fazer uma viagem que levaria quarenta e cinco minutos em apenas vinte, agüentando calada todos os efeitos colaterais; quando desce do carro, é possível notar que está tremendo, um pouco mais pálida que o normal, os ombros tensos.

Fábio tem escoriações leves e um machucado na costela — nada grave e nada comprometedor, também. O mais chocante é a notícia de que sua inconsciência não se deve a uma proteção contra a dor, e sim porque ele está drogado: segundo o médico, Fábio consumiu uma variação do “boa noite cinderela” e também doses cavalares de álcool, o que o levou a um estado de coma. Tudo está bem agora, garante o médico. Ele vai sobreviver.

Camilla ainda está lívida, embora as boas notícias tenham servido de alguma coisa para acalmar seu nervosismo — ela para de andar em círculos no corredor do hospital, pelo menos —, e é com muito custo que eu a convenço a ir à lanchonete comer alguma coisa. Já passa de dez da manhã e estou com bastante fome, sustentado apenas pela gororoba que jantei ontem. Camilla não tem dinheiro e estou quase me entregando ao desespero quando me lembro do troco das compras do supermercado, ainda bem seguro no meu bolso. Nunca fiquei tão feliz pelo retardo de uma atendente antes; graças aos cinco reais a mais voltados pela moça e alguma dose de argumentação, consigo bancar duas coxinhas e uma garrafa de água mineral para mim e Camilla.

— Obrigada, Lucas. Você é realmente um amor — diz ela, sem nem tocar no salgado. Seu olhar está distante. — Eu disse pro Fábio que era uma má idéia, mas ele foi assim mesmo e olha só, ele quase me aparece morto no dia seguinte. Se não fosse por você, ele ia ficar lá até a hora que eu acordasse, porque eu sou a única que dá falta desse maldito. Honestamente...

Hã? Não estou entendendo nada. Camilla não parece estar realmente falando comigo e sim consigo mesma, suspirando enquanto rola a coxinha para lá e para cá no prato sem fazer nenhuma menção de comer. Não sei por quem eu me sinto mais mal: se por Camilla, obviamente ainda muito chocada para conseguir comer, ou se pela coxinha, quentinha, recém-frita, abandonada no prato como um pão dormido. Pego meu celular, digito uma mensagem e a exibo para que Camilla possa lê-la.

— Ah. Ele marcou um encontro com um cara do Tinder lá naquela DELLIRIUM, sabe? — responde ela, ainda brincando com a coxinha. — Eles estavam conversando já tinha alguns dias. Só que o cara tava com toda cara de fake, sabe? Fotos de perfil fake, descrição fake, conversa fake. Eu disse isso a ele, mas a criança é burra e obviamente não me escutou. Ele não é do tipo que enche a cara, mas está aí, drogado e em coma alcoólico. Ele nem deve ter visto que apanhou.

Digito outra pergunta e Camilla suspira antes de responder:

— É que o Fábio mora sozinho, sabe, e ele não tem a mais amigável das relações com a família dele. Eles não gostaram muito quando ele assumiu que era gay, família evangélica, seguidores de Malafaia e tudo. Eu sou a pessoa mais próxima que ele tem atualmente, porque a gente é amigo desde a segunda era glacial e tal. Eu diria que não tenho filho desse tamanho, mas a verdade é que ele é quase meu filho mesmo, principalmente quando ele faz essas cagadas. — Ela ri sem humor. — Já ofereci para ele morar comigo, mas a bicha é orgulhosa e não aceita nem a pau. Ainda bem que você achou ele, ainda bem mesmo.

Abro meu melhor sorriso, satisfeito quando ela sorri de volta, sem muita energia, mas com sinceridade, e digito mais uma mensagem, dessa vez enviando no whatsapp ao invés de simplesmente exibi-la para que Camilla possa ler. A vibração da notificação faz Camilla pular como quem acorda de um sonho.

Lusca: Milla, eu sei que você está brava e tal, mas não foi a coxinha que bateu no Fábio, você sabe

Lusca: pode comer sem dó

Lusca: é sério

Ela dá sua primeira risada do dia, o que é reconfortante, de certa maneira, e não discute comigo; pega o salgado e o devora em grandes dentadas.

Marcos e Amanda chegam depois do meio-dia, ambos no mesmo ônibus, mas enquanto observo Camilla explicar o que aconteceu, é bem fácil notar que eles ainda não estão conversando um com o outro. Há algo de estranho no modo como eles se comportam juntos; perto o suficiente para não causar grandes suspeitas — principalmente em Camilla, a mais bondosa das pessoas, mas muito obtusa também —, ambos ajustam suas posições a todo momento para manterem a maior distância possível. Não se olham nos olhos e se interrompem todas as vezes que começam uma frase. Seria engraçado de assistir se eu não estivesse ciente da discussão de ontem; lembro-me do carinho com o qual Marcos falou sobre Amanda para mim na lanchonete, em contraste com as palavras duras ditas para ela minutos antes, e registro uma sensação agridoce na boca do estômago.

— Tá, já entendi que ele foi burro e levou uma surra — diz Amanda após a breve explicação de Camilla. Aponta para mim. — Mas o que é que ele tá fazendo aqui? Chamou ele pra te fazer companhia ao invés da gente? Vai demorar quanto para pedir o menino em casamento?

Ouch. Quanta sutileza.

— Foi ele que achou o Fábio, Mands— explica Camilla e sua voz acaricia o apelido, muito suave de repente. — Ele mora no Alvorada, bem perto da DELLIRIUM. Foi ele que me avisou do Fábio e me ajudou a trazer ele pro hospital.

Penso em complementar que estou louco para ir embora, mas não tenho dinheiro pro ônibus e estou dependendo da boa vontade de Camilla em me dar carona, mas decido, após o olhar que Amanda manda em minha direção, que ela não vale o esforço que terei para tirar o celular do bolso e digitar a mensagem. Enfio as mãos nos bolsos e encolho os ombros.

— Ah. Acho que o Lucas é o novo salvador da pátria, não?

Sua frase transborda ironia de um jeito que até eu, baseado apenas na leitura labial, consigo reconhecer. Marcos, por trás de Amanda no ângulo que eu a encaro, ri para mim, piscando um olho como quem compartilha um segredo, e me seguro para não rir de volta. Minha presença aqui incomoda a garota, essa é uma constatação óbvia; só não consigo entender por quê.

— Sim, sim, ele é — responde Camilla, dando de ombros. — Vamos voltar pra sala de espera? Não sei se aviso os pais do Fábio...

Ela vira de costas para mim e começa a caminhar em direção ao pátio da sala de espera. Arrasto-me logo atrás, me sobressaltando um pouco quando sinto meu celular vibrar em meu bolso.

Marcos: você tá com uma cara de quem queria estar morto

Marcos: o que aconteceu?

Levanto a cabeça para encará-lo e encontro-o olhando para mim com algo que se assemelha bastante a piedade. Bem, consigo conviver com isso; estou sentindo bastante pena de mim mesmo também.

Lusca: eu queria mesmo estar morto

Lusca: acertou na mosca, miserável

Marcos: hahahaha sou um gênio

Marcos: mas é sério, que houve? tá abalado com o negócio do Fábio? Fiquei bem chocado quando a Camilla contou

Lusca: eu fico feliz por tê-lo encontrado e tal e também feliz que não seja nada grave

Lusca: mas tipo, ele me detesta

Lusca: é bem tipo a Amanda, assim, nem disfarça

Lusca: não vou dizer que é recíproco por que eu não dou uma foda

Marcos: você num é muito criança pra usar esses vocabulário não?

Lusca: hahahaha que engraçado, vovô

Lusca: assim, já fiz minha parte, não tem porque ficar aqui

Lusca: eu queria ir embora, mas gastei todo o meu dinheiro para comprar coxinhas na lanchonete do hospital, sem condição de pegar bus

Lusca: e a Camilla tá assim zero disposta a sair daqui e me dar uma carona

Lusca: tenho casa pra arrumar prova pra estudar dever pra resolver

Lusca: sonos pra dormir nadas pra fazer

Lusca: minha existência é miserável

Um segundo depois, sinto Marcos me abraçar pelos ombros, puxando-me para perto de seu corpo. Camilla está na frente, conversando com Amanda, e nenhuma das duas presta atenção no momento em que Marcos pega minha mão entre as suas, coloca uma nota de dez na palma, fecha meus dedos em torno dela e me dispensa com a seguinte ordem:

— Some.

E olha, vou confessar: só não desapareço mais depressa porque a física não permite.

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Fábio é liberado do hospital para ir para casa no domingo à noite. Apesar de bastante dolorido e um bocado arrependido de suas escolhas na vida, ele está bem humorado, me conta Camilla — sem que eu tenha perguntado. Ainda segundo ela, Fábio terá que passar uma temporada em sua casa para se recuperar, dado as certas coisas, como dirigir, que ele não conseguirá fazer sozinho até que sua lesão nas costelas cicatrize completamente. É uma sorte que ele não a tenha quebrado; é uma sorte que ele esteja vivo, na verdade.

A recuperação me deixa feliz, mas o que me deixa mais feliz ainda é a perspectiva do sossego. Camilla transformou meu whatsapp num canal fixo de notícias durante todo o final de semana, com atualizações regulares sobre o status de saúde de Fábio a cada malditos cinco minutos. Cacete. As vibrações do telefone chegaram a tal grau de freqüência que fui obrigado a desarmá-las, pelo menos temporariamente, para conseguir me concentrar em outras coisas. Meus pais decidiram fazer um churrasco para comemorar o simples fato de estarmos vivos e dedico a eles toda a minha atenção, feliz por vê-los juntos e descansados para variar. Os anos têm tornado esses momentos cada vez mais raros.

É agridoce lembrar meu final de semana agora que ele está terminando, porque não estudei para prova nenhuma nem fiz meus deveres de casa acumulados. Terei que contar com a sorte. Mas se essas são más notícias, Camilla consegue me chamar para a realidade com perspectivas ainda piores:

Milla: Fábio quer te ver, você sabe né

Lusca: sei?

Milla: sim, sabe

Lusca: se ele vai dizer obrigado, você pode perfeitamente entregar o “de nada” para mim e evitar a fadiga

Milla: simples assim?

Lusca: sim, bem simples ne

Milla: sim, mas não, ele não quer dizer obrigado

Milla: você não fez mais do que a sua obrigação de cidadão, segundo ele

Lusca: e tá certíssimo

Lusca: não tenho nada pra falar com ele

Lusca: Deus o abençoe

Milla: Lucas, não aja como um pirralho, por mais que você seja um

Milla: vou te pegar de carro amanhã assim que eu sair do IVENTEC

Milla: você pode entrar de boa vontade no carro ou posso levar o Marcos junto e aí seqüestraremos você

Lusca: ... eu deveria ter ficado com seu celular

Lusca: quebrado ele na marreta e seguido com a minha vida

Lusca: olha as merda que eu me envolvo por tentar ser boa pessoa

Milla: awww, obrigada, sei que você me ama

E, infelizmente para mim, que gostava de me gabar no tumblr sobre ser um unicórnio solitário neste mundo, teatralmente protegido da sociedade pelo meu fiel escudo da introversão — que não deixou de ser menos fiel, convenhamos; introversão não é um problema a ser superado —, é necessário admitir: essa desgraçada está certa.

A prova de matemática não está difícil; um bocado de lógica somada à minha fé em Deus devem ser o suficiente para que eu consiga os pontos necessários. Não são muitos, em todo caso. Se a prova for um desastre total, os outros trabalhos do bimestre devem ser o suficiente para que eu passe são e salvo. É o que espero.

À prova de história, dou a consideração de pelo menos lê-la por completo antes de marcar qualquer coisa e me jogar gostosamente no mundo dos sonhos. Não sei o que torna a aula de história tão sonífera; se é o jeito preguiçoso como o professor desenha as libras no ar, com todo o tempo do mundo, ou se é o fato de que estou no terceiro ano do ensino médio e este mesmo professor ainda insiste em falar sobre revolução francesa. Não agüento mais ver o nome, a cara ou as piadas horríveis sobre o cavalo branco de Napoleão Bonaparte.

Que era marrom, inclusive. Haha, que engraçado.

A Senhorita Lourdes precisa me cutucar com força no ombro para que eu acorde a tempo de assistir à sua aula e é com certa desorientação que percebo que perdi o horário de português inteiro. É bem possível que, a esta altura, haja uma ocorrência no livro de registros da escola apenas esperando pela minha assinatura, mas estou mais tentado a acreditar que não: a professora de português parece realmente gostar da minha pessoa. Graças a ela, parei de apanhar no lado de dentro da escola para apanhar no lado de fora, o que foi um grande avanço; meus pais pararam de ser chamados à diretoria todas as semanas e também parei de ser obrigado a segurar a mão dos pirralhos do segundo ano para demonstrar toda a extensão do meu perdão.

— Está tudo bem com você, Lucas? — pergunta a senhorita Lourdes, parecendo realmente preocupada. — Você não parece muito bem. A Kahi me disse para te dispensar se fosse necessário. Você dormiu o horário dela inteiro e também durante o intervalo, ela ficou um pouco preocupada.

De repente, me sinto bem culpado por ter dormido na aula da moça.

— Ah. Estou bem, só muito cansado... Um amigo próximo meu está no hospital, tem sido difícil. Espero que a senhorita Kahi não tenha ficado brava.

— Vai ficar tudo bem, menino. Fique tranqüilo, conversarei com a professora Kahi. Tenho certeza que ela vai entender.

A senhorita Lourdes sorri para mim e acaricia meu cabelo antes de virar as costas e começar a aula. A frase motivacional de hoje é “as ruínas de uma vida são construídas sobre mentiras” e eu preciso fazer um esforço sobre-humano para não começar a rir de nervoso neste exato momento. Certas coincidências são realmente assustadoras.

Alguns minutos antes que as luzes vermelhas se acendam, Lourdes passa por todas as carteiras, recolhendo as peças do trabalho bimestral. É um pouco dolorido entregar meu desenho do IVENTEC em suas mãos, porque, a despeito de toda a raiva sofrida para terminá-lo — e também do fato de que esta é uma peça que eu nunca criaria se não fossem as circunstâncias escolares —, sinto com ele certa ligação emocional. Talvez seja pelo fato de que eu me dei muito mais nesse desenho do que em qualquer outro (valendo o bimestre inteiro, quem não daria?); talvez porque, desde seu rascunho até o presente momento, esse desenho acompanhou toda a reviravolta que se deu em minha vida em apenas dois meses. É difícil precisar.

Antes que eu possa pensar mais a respeito, porém, Lourdes já sumiu com meu trabalho dentro de sua pasta e nos dispensa da sala, mesmo que as luzes ainda não tenham se acendido. Elas o fazem quando já estamos no portão principal e todos estão rindo quando somos liberados; há um sentimento coletivo de vitória pela nossa sobrevivência ao primeiro dia da semana de provas finais. Agora só faltam mais quatro e então estaremos livres do ensino médio para sempre, assim como uns dos outros, cada um por si na jornada de continuar seguindo em frente do melhor jeito possível.

Como de praxe, sou arrastado pro beco perto da escola para a sessão diária de bullying com os alunos do segundo ano e, tão logo liberado, dou de cara com o carro da Camilla estacionado em frente ao portão principal. Ela, no banco do motorista, faz cara de poucos amigos pros meninos encostados no muro, tamborilando os dedos no volante, enquanto Marcos, ao seu lado, parece cantarolar uma musiquinha de olhos fechados.

— Olha, olha — diz ele, exibindo a arcada dentária toda quando me vê chegar. — A vítima de hoje em carne e osso!

— Hey, Lusca! — cumprimenta Camilla, virando o pescoço em minha direção em um estalo. — Tava fazendo o que para aqueles lados, hein? Dando uns pega nas novinha?

Reviro os olhos antes de abrir a porta de trás e me jogar dentro do carro, passando o cinto de segurança ao mesmo tempo em que Camilla coloca o veículo para funcionar. É uma viagem relativamente longa, me avisa Marcos, virando o pescoço para me encarar, e sua olhada significativa para o próprio telefone, seguida de uma piscadinha, são o suficiente para que eu entenda o recado. Pego meu celular e abro o whatsapp.

Lusca: que que você tá fazendo aqui

Lusca: ela disse que você só ia vir junto se precisasse de ajuda com um seqüestro

Marcos: e o q você acha que a gente tá fazendo com você? Te levando pro parque?

Marcos: já era, você nunca mais verá a luz do dia

Marcos está sorrindo para mim pelo retrovisor. Sorrio de volta.

Lusca: tds os meus órgãos estão em condições de venda

Lusca: menos o estômago

Lusca: acho que corroí ele com a minha comida, desculpa

Marcos: você tá muito conformado pra uma pessoa que vai morre

Lusca: é tudo o que eu sempre quis, pra que reclamar

Marcos: sorte a sua que a gente não tá te levando pra morte certa

Marcos: só pra conversar com o Fábio mesmo

Lusca: eu preferia a morte

Marcos: o que que você tem contra o menino?

Lusca: você tem que fazer essa pergunta é pra ele, não pra mim

Marcos: e quem disse que eu já num fiz?

Lusca: e qual a resposta?

Marcos: você n vai querer saber

Lusca: amigão do peito você hein, atiça pra não contar nada

Marcos: é o meu charme

Lusca: com um charme desses, tá explicado porque a Camilla não te dá trela

Marcos visualiza e, pelos próximos cinco minutos, não diz nada. Eu e minha boca (dedos) grande, né? Temo ter pegado muito pesado e estou prestes a redigir um pedido de desculpas quando ele enfim responde:

Marcos: olha, você é um filho da puta tá

Marcos: já vou avisando que sou meio masoquista

Marcos: se bater demais eu apaixono

Lusca: já disse que você é uma pessoa maravilhosa, encantadora, linda e adorável hoje?

Marcos: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Marcos: sai pra lá, satanás

Marcos: eu sou da universal, tá, você não me tenta não

Lusca: Edir Macedo chora de orgulho

Marcos: cala a boca, pirralho

Lusca: mais do que ela já tá calada?

Ele se dá ao trabalho de virar o pescoço apenas para me enviar um olhar de esguelha.

Marcos: eu ia te falar pra morrer

Marcos: mas você ia gostar, então ó: tomara que você viva para caramba

Lusca: com sorte, eu não sobrevivo ao encontro com o Fábio

Lusca: inclusive, pra que ele quer me ver, afinal?

Marcos: você não merece essa resposta kkkkkkkkkkkk

Lusca: amigão você

Marcos: obrigado

Não falo mais nada e Marcos também não insiste. Passo o resto da viagem tentando adivinhar por qual bairro estamos passando — essas regiões da cidade onde as casas são bonitas e as ruas são limpinhas são completamente desconhecidas para mim — e já passa das seis e meia da tarde quando Camilla finalmente estaciona o carro em frente um edifício bem bonito de nome “Girassol” e anuncia que chegamos.

Tudo, desde a cor do prédio até as roseiras nos jardins, passa uma impressão de riqueza que, em poucos segundos, descubro ser só impressão, mesmo: o portão precisa de um tranco violento para abrir, a recepção cheira a mofo e os elevadores estão enguiçados, o que nos obriga a subir todos os oito andares necessários de escada. Camilla e Marcos choramingam, mas eu não me dou o direito de reclamar; quanto mais tempo eu passar subindo degraus, mais demorarei a ter que conversar com Fábio, o que é ótimo, porque eu não faço a menor idéia do que ele quer e não me sinto muito disposto a descobrir.

Minhas companhias estão arfando e tropeçando quando paramos em frente ao apartamento de Camilla e, vendo-a precisar se encostar à parede para conseguir destrancar a porta, agradeço mil vezes ao MMA pelo meu bom condicionamento físico; enquanto Camilla e Marcos se jogam no tapete da sala principal tão logo a porta é aberta, entoando agradecimentos a Deus e aos sete arcanjos, eu apenas franzo o cenho para a fina camada de suor que cobre meu corpo.

Não gosto de suar. É anti-higiênico.

— Você por acaso é humano? — me pergunta Camilla, rolando no tapete para ficar de barriga para cima, a respiração descompassada. — Tá aí olhando pra gente com essa cara de desprezo.

Dou de ombros.

— Quem vê desse ângulo até acha que é gente, né, Milla? — zomba Marcos. Com uma mão no peito, ele se senta no tapete, e, após respirar fundo repetidas vezes, sorri para Camilla. — Estou me sentindo gente de novo. Nunca mais me chama aqui se for pra subir oito andares de escada de novo, tá?

— Você tem sorte que eu te deixo entrar na minha casa, seu otário ingrato!

— Sorte? Você me traz aqui com a esperança desse prédio cair e matar todo mundo, acha que eu não sei? Não tem bondade nesse seu coraçãozinho.

Sou obrigado a concordar.

— Não sei por que sou sua amiga ainda, honestamente.

— Talvez porque você me ama...?

Camilla revira os olhos e não responde, mas há um leve rubor em suas bochechas, que pode estar ali por causa do esforço da subida ou por qualquer outra coisa. Hm. Interessante.

— Ah, vamos parar de falar besteira. Não foi pra isso que eu arrastei vocês pra cá — diz ela, alguns minutos de silêncio e várias respirações profundas depois. — Vem cá, Lucas. O Fábio tá no meu quarto. Ele não tá muito satisfeito por estar aqui, mas ele não tem condições de fugir ainda, então ocupa todo o tempo em chorar na minha cabeça. Agora ele vai chorar na sua. — Ela se levanta, me pega pela mão e me arrasta pelo apartamento até uma porta onde se lê, talhado na madeira capenga, o seu próprio nome. Antes de abri-la, me segura pelos ombros e olha bem nos meus olhos para avisar: — Não deixa ele te morder.

Quê? Que bosta de conselho é esse?

Não tenho tempo de fazer qualquer questionamento; Camilla abre a porta, me empurra quarto adentro, fecha a porta e — percebo após girar a maçaneta experimentalmente — me tranca pelo lado de fora. Qual a necessidade disso? Depois de eu ter entrado no carro e subido os oito andares de escada sem reclamar, esperava no mínimo um pouquinho mais de confiança na minha pessoa. Chega a ser ofensivo.

Fábio está deitado na cama, olhos fechados e respirações cadenciadas, seu sono imperturbado por toda a movimentação exagerada de Camilla. Tiveram a coragem de vesti-lo com uma camisola que bem pode ter sido roubada da minha avó e há tantos band-aids colados em seu corpo que chego a me perguntar se não estou diante do novo faraó do Egito; de repente, a insatisfação de Fábio parece fazer todo o sentido para mim. Preso aqui, agüentando Camilla durante o dia todo e vestido desse jeito, eu também estaria soltando os cachorros.

Literalmente.

Há uma cadeira do lado da cama, na qual me sento, e me pergunto o que devo fazer agora; acordá-lo parece uma má idéia, mas não é por que ele quer conversar comigo que fui arrastado pra cá? Termino tirando meu celular do bolso e indo reclamar no twitter, arrependendo-me por não ter pedido a senha do wifi quando, alguns minutos depois, recebo a mensagem da operadora avisando que consumi 100% da minha franquia de dados móveis. Não tenho crédito para comprar mais internet — o mundo parece um lugar muito triste, de repente.

Amo quando isso acontece.

Diante do meu leque de zero opções, largo o celular em cima da cama e arranjo-me na cadeira para assistir Fábio dormir. É engraçado: em minha observação silenciosa de dois meses atrás, Fábio era o integrante do grupinho que eu considerava mais bonito. Baixinho, largo, os cabelos sempre coloridos, sempre falando com o corpo inteiro e gesticulando para todo mundo ver, ele era uma espécie de lembrete de tudo o que eu adoraria ser, mas nunca poderia; agora, porém, que ele parece tangível, de alguma forma, com as feições serenas pintadas de roxo enquanto dorme, sinto uma espécie de desconforto. É como descobrir que o ídolo que você simplesmente adorava quando era mais novo fala alguma besteira ou faz alguma cagada; como descobrir que tudo o que você venera é humano, no fim das contas.

Há um gosto de decepção em minha boca.

Fábio pisca algumas vezes, abrindo os olhos lentamente, girando-o os pelo cômodo até chegarem em mim, onde ele pousa o olhar com um leve inclinar de cabeça.

— Não te vi entrar — diz ele, sorrindo de um jeito que (creio eu) tem a intenção de ser amigável, embora os hematomas e o inchaço da boca transformem o efeito final em algo saído diretamente de um filme de palhaços assassinos. — A Camilla precisou seqüestrar você?

Nego com a cabeça.

— Bom, bom. Tá com seu celular aí? Como você prefere? — Pego meu aparelho, digito uma mensagem no bloco de notas e exibo-a para Fábio. — Ah. Bate a senha aí: é amandarcos123. Tudo minúsculo. — Ergo as sobrancelhas. — Não me olha com essa cara, tô falando sério!

Dou de ombros; quem sou eu para julgar as escolhas de senhas de wifi dos outros? Guardo a informação, porém, para alguma chantagem ou implicância futura, bato a senha no celular, acho o contato de Fábio no IVENTELOUCOS e digito minha resposta:

Lusca: sua boca tá inchada, fica difícil de ler o que você tá dizendo

94XX2-89XX: faz sentido

Lusca: agora fala o que você tem pra falar

Lusca: e que seja algo relevante, por favor

Lusca: se você vier falar obrigado eu honestamente vou precisar mandar você enfiar o meu de nada no seu cu

Lusca: porque eu avisei que se fosse pra agradecer, a Camilla podia entregar o “de nada” pra mim

Fábio visualiza, mas não responde, e quando levanto a cabeça, percebo que é porque ele está rindo, na verdade gargalhando, seu corpo se dobrando na cama até que o riso seja interrompido por um repentino soluço de dor. Me precipito para ajudá-lo quando vejo-o cair de volta no colchão, mas Fábio me para com um gesto de mão e um fraco “estou bem”.

94XX2-89XX: estou com um machucado na costela, não posso fazer esses contorcionismos

94XX2-89XX: enfim. Você acha que eu já não me ferrei o suficiente pelos próximos cinco anos?

94XX2-89XX: fui numa balada pra ver se eu enfiava uma coisa legal no cu e terminei tomando no rabo do pior jeito

94XX2-89XX: por isso, segura seu de nada aí, porque eu te chamei aqui foi pra falar obrigado mesmo

Lusca: ... porra, é sério?

Lusca: nossa, não acredito que subi oito andares de escada pra isso

94XX2-89XX: o elevador tá estragado, né? Bem que eu ouvi a dona Anete falando

94XX2-89XX: mas te acalma. Não te chamei só pra falar o obrigado, também foi pra pedir desculpas

Ué.

Lusca: desculpas por causa de que, criatura de Jesus

94XX2-89XX: por que eu tenho sido meio injusto?

94XX2-89XX: quer dizer, eu, Amanda e Marcos meio que viramos um squad anti-você

Lusca: sim, eu notei, obrigado

94XX2-89XX: mas cada um por um motivo

94XX2-89XX: o Marcos caga de ciúme da Camilla com qualquer macho que ela interaja, sorte a dele que são poucos

94XX2-89XX: a Amanda caga de ciúme com qualquer pessoa que a Camilla interaja, aí ela já tá mais azarada, porque a Camilla é sociável pra cacete

94XX2-89XX: e eu, bem, a Camilla não gosta muito de homens

94XX2-89XX: eu fui o primeiro amigO que ela fez, o Marcos foi o segundo, ela sempre gostou mais de meninas

94XX2-89XX: aí, bem, você apareceu e ela usou com você o mesmo método que ela usou comigo lá na época de Matusalém quando a gente se conheceu e eu não tava entendendo O PORQUE DISSO TUDO

Lusca: vencer pelo cansaço?

94XX2-89XX: pela insistência, sim

Lusca: então você não gosta de mim porque caga de ciúmes pela Camilla ter se dado o trabalho de encher meu saco até a gente ficar amigo?

94XX2-89XX: ...é?

Olho para o telefone e para Fábio em seguida, sem acreditar. Isso é sério? Seriíssimo?

Lusca: você tem ciência do quanto isso é infantil?

Lusca: infantil e burro?

Lusca: vocês três são infantis, a vida é da Camilla, é escolha dela quem ela quer por perto ou não

Lusca: meu Deus, achei que adultos fossem mais inteligentes

94XX2-89XX: ó, tu respeita meus cabelos brancos

94XX2-89XX: e eu tenho muitos

Fábio usa uma das mãos para levantar a camada de cima de seus cabelos, exibindo para mim, com a outra mão, um tufo razoável de cabelos brancos que começa a nascer próximo à nuca. Depois, aponta para outro tufo, escondido entre os fios mais longos da franja, e para mais um, misturado com a raiz da parte de cima da cabeça.

94XX2-89XX: tenho uma genética ruim

94XX2-89XX: e sim, sabemos que não devemos ter ciúmes de Camilla, por isso não falamos nada pra ela

94XX2-89XX: mas não somos obrigados a gostar de você

Lusca: sim, isso é verdade, mas eu não estava reclamando

Lusca: tava bem feliz no meu canto com o ódio de vocês me fazendo zero cócegas

Lusca: se é só isso, posso ir embora?

94XX2-89XX: não, na verdade

94XX2-89XX: lá no hospital ontem, o Marcos veio me visitar e eu fiquei surpreso por você tê-lo convertido

94XX2-89XX: não que seja muito difícil, Marcos é uma pessoa bem fácil de comprar

94XX2-89XX: mas ele me contou um detalhe que eu não sabia sobre o dia em que vocês se conheceram

94XX2-89XX: pressionamos Camilla e, voilá, ela tinha mentido pra gente sobre a coisa toda do assalto lá

94XX2-89XX: bem, eu não vou agradecer você por ter ajudado ela, não foi mais que a sua obrigação

94XX2-89XX: mas sei lá, sinto que estava sendo injusto

94XX2-89XX: agora entendo porque a Camilla quis tanto ser sua amiga

Fico feliz por ele estar entendendo alguma coisa, porque me sinto tão perdido quanto um cego em tiroteio, ou, no meu caso, um surdo em tiroteio — haha, que engraçado. Minha confusão deve ter ficado muito aparente, pois Fábio não espera que eu pergunte para começar a explicar:

94XX2-89XX: a Camilla tem essa coisa de tentar recompensar as pessoas que fazem coisas boas pra ela

94XX2-89XX: como isso colocasse ela em dívida, sabe

94XX2-89XX: tem um motivo pra isso. Longa história

94XX2-89XX: isso já colocou ela em certas roubadas, mas no seu caso, se dá para levar a opinião da Milla e do Marcos em consideração, você é gente boa

94XX2-89XX: então ela saiu no lucro

94XX2-89XX: enfim. você não está aqui realmente por vontade minha

94XX2-89XX: eu tava comentando com a Camilla e ela cismou que eu tinha que conversar com você cara a cara

94XX2-89XX: acho que você já percebeu que eu estou realmente passando pelo inferno aqui

94XX2-89XX: então, se é pra ela me dar um pouco de sossego, aqui está você

94XX2-89XX: com meu pedido de desculpas por ser escroto e também o meu obrigado por ter me ajudado no sábado

94XX2-89XX: fico feliz por você ter me encontrado

94XX2-89XX: mas ainda não sei se gosto de você

Ele está sorrindo para mim de novo, e mesmo que o efeito palhaço assassino não tenha sumido de cinco minutos atrás para cá, consigo enxergar sinceridade o suficiente para sorrir de volta.

Lusca: bem, está desculpado. E de nada. E nah, eu também não sei gosto de mim até hoje

Fábio acena com a cabeça, parecendo satisfeito, e se deixa afundar no travesseiro, fechando os olhos com um suspiro. Seria a minha hora de ir embora? Vou até a porta, testo a maçaneta, ainda trancada, e arrasto meus pés de volta para a cadeira ao lado da cama. O que fiz para merecer isso, meu senhor Jesus?

Lusca: mas e aí, como você está?

94XX2-89XX: ciente de que a Camilla encheu seu saco com meu status de saúde o final de semana todo e de que você está perguntando só por educação

Lusca: acertou, miserável

94XX2-89XX: sou bom pra caralho

Sua sinceridade me desarma e, quando ele volta a fechar os olhos, o ritmo de suas respirações começando a se estabilizar, não me atrevo a incomodá-lo novamente. Ao invés, chamo Camilla no whatsapp, pedindo que ela, por favor, abra a porta, e o deboche é tão forte que a mulher tem a coragem de visualizar e responder com uma risadinha. A porta continua trancada. Já está de noite lá fora e choro ao me lembrar de todas as matérias de prova que não revisei no final de semana e, ao que parece, não vou revisar hoje também. Amanhã é dia de física; não há sorte nesse mundo que vá me salvar de me ferrar nessa matéria.

Fábio abre os olhos, mas não diz nada, apenas me fita em silêncio durante um longo tempo, e enquanto sustento seu encarar, vendo seu rosto inchado, os tufos de cabelo arrancados e a extensão de band-aids em seu corpo todo, não deixo de sentir certa empatia. Há uma memória, não tão antiga quanto eu gostaria, de mim nessa mesma situação — de cama, completamente quebrado — com o acréscimo de que meus pais estavam lá comigo. Eles sempre estiveram, na verdade.

Lusca: tá, mas como você está se sentindo? Você com tudo isso, digo

A pergunta parece surpreendê-lo e Fábio pensa por um longo tempo antes de responder:

Fábio: engraçado você ter sido a primeira pessoa a me perguntar isso até agora

Lusca: porra, Camilla

Fábio: não coloco a culpa nela, eu quase matei a mulher de susto

Fábio: e ela me avisou de que era furada

Fábio: mas enfim. como estou me sentindo?

Fábio: dolorido, humilhado, burro

Fábio: parece que eu to observando de fora, sabe

Lusca: parece que aconteceu com outra pessoa, né?

Fábio: sim! Eu só queria uma fodinha de boas no banheiro da boate

Fábio: terminei drogado, bêbado e espancado

Fábio: e o pior é que eu nem lembro o que aconteceu direito

Fábio: uns flashes, uns caras rindo, uns chutes na minha barriga

Fábio: me espancaram porque eu sou viado, cara, sabe o que é isso?

Fábio: só por isso

Fábio: e eu me sinto muito burro porque ele realmente parecia um cara legal no tinder

Lusca: sim, você realmente acredita na pessoa

Lusca: fica aquela sensação maldita de que todo mundo tava rindo da sua cara esse tempo todo

Fábio: exatamente, e quando eu penso que era só uma armadilha...

Fábio: fico pensando quantas pessoas ele já quase matou nesse esquema

Fábio: quantos ele já atraiu pra baladas, drogou e chamou os amiguinhos dele pra espancar

Fábio: me dá náuseas

Lusca: você vai prestar queixa?

Fábio: a Camilla tá enchendo minha cabeça pra eu fazer isso, mas sei lá, sabe

Fábio: eu não sei se quero passar por isso

Fábio: é difícil de explicar

Lusca: te falta energia pra brigar por uma justiça que você sabe que não vai ter

Fábio: exatamente!

Ele levanta os olhos do celular e franze as sobrancelhas, mantendo seu olhar fixo em mim ao digitar:

Fábio: vove falacomo qurm tem conhecinentp de cauda

Lusca: é porque eu tenho conhecimento de causa

Lusca: mas isso é um assunto pra outra hora

Lusca: só não fica se culpando por causa disso, você foi vítima

Lusca: bota isso na sua cabeça

Lusca: vai tornar as coisas mais fáceis

Lusca: como se vê, sou péssimo consolando as pessoas

Fábio: tudo bem, você está certo

Fábio: eu só tenho que pensar um pouco sobre isso

Fábio: não é fácil, acho que você sabe disso

Lusca: sei bem

Ele não se dá ao trabalho de continuar a conversa, voltando a se deixar afundar no travesseiro e fechando seus olhos. São quase oito horas da noite e, apesar do cochilo de duas horas tirado na cara de pau durante minhas aulas, ainda me sinto sonolento, o corpo pesado e cansado. Quero ir embora, não mais porque me sinto desconfortável com a presença de Fábio ou algo assim, mas sim porque tenho a impressão de que toda esta conversa o enfastiou de alguma maneira; não física, mas talvez emocional.

Minhas desconfianças se confirmam quando vejo Fábio desabar. É difícil observar a bagunça que ele se torna: pressionando os lábios firmemente um contra o outro, ele permite que as lágrimas escorram, engolindo os próprios soluços em meio a caretas de dor. Era nessas horas que a minha mãe me dizia que estava tudo bem; que meu pai chegava com as comidas que eu gostava e se sentava para assistir filmes ruins comigo no quarto; que minha mãe voltava às suas origens, pegava nos pincéis e pintava coisas bonitas para que eu pudesse me distrair.

Não sei nada sobre Fábio — o que ele gosta de comer, quais filmes ele gosta, o que o faz feliz — e me sinto sufocado pela minha falta de palavras. Ele continua chorando, encolhendo-se de forma a abraçar os próprios joelhos, e é quase por reflexo que levo minha mão aos seus cabelos. Não sou encorajado, mas também não há rejeição ao toque, e me forço a superar a estranheza inicial para mover meus dedos em um carinho sutil.

Fábio chora por vários minutos, soluçando e abrindo a boca no que sei serem gritos, olhos abertos focados no nada, as mãos apertando o lençol da cama entre os dedos até ficarem brancas, e mantenho meu afago em seu cabelo por todo o processo. Sinto que talvez deva abraçá-lo, mas não consigo encontrar uma maneira de fazê-lo; apenas o assisto até que seu ataque comece a enfraquecer, a quietude roubando-lhe seus soluços e lágrimas até que reste apenas um homem encolhido em si mesmo como uma criança, tendo seus cabelos acariciados por um quase completo estranho. Causa-me certa satisfação ver sua expressão de dor se desfazer ao mesmo tempo em que seu corpo gradualmente relaxa, respirações cadenciadas indicando sonolência, e quando eu realmente penso que ele dormiu, me surpreendo ao vê-lo virar o corpo para me encarar.

— Você realmente não devia ter vindo. — Fábio está meio grogue e é realmente difícil ler seus lábios, mas faço um esforço. — Eu e a Camilla tivemos uma conversa... Eu pedi que ela falasse umas coisas pra você por mim... mas ela cismou que eu tinha que conversar com você cara a cara. Obrigado por ter ficado. — Ofereço a ele um sorriso, rindo ao ver sua débil tentativa de fazer o mesmo. — Eu sei que está ficando tarde... Pode ir embora. Não te prenderei mais.

Desenterro meus conhecimentos de mímica do inferno para tentar sinalizar que a porta está trancada e me surpreendo quando funciona.

— Camilla trancou a porta? — Ele pisca várias vezes, incrédulo. — E eu achando que você indo até a porta esse monte de vezes e voltando era gracinha sua. Desculpa por não ter adivinhado, eu teria resolvido seu problema bem rápido. — Fábio sorri de verdade dessa vez. — A Camilla guarda uma cópia da chave da porta na caixinha de música que está dentro do guarda-roupa. As portas do meio estão destrancadas, você vai reconhecer a caixinha de música assim que a vir.

A caixinha de música consiste em um carrossel que gira ao ser dada a corda, cada um dos cavalos servindo como pequenos porta-joias. Meu celular vibra tão logo tenho a chave em mãos.

Fábio: deixe que eu lido com a Camilla e a sua sempre freqüente falta de noção

Fábio: ela não devia ter arrastado você para cá

Lusca: eu tinha que ter estudado pra minha prova de física, mas tudo bem

Lusca: fico feliz por ter vindo

E é verdade — sou pego de surpresa pela sinceridade presente nas palavras.

Fábio: eu também fico feliz por você ter vindo

Fábio: e, física? Camilla é ótima em física. Vou ter prazer em obrigá-la a te ajudar

Fábio: agora vai lá, já ocupei seu tempo o suficiente

Lusca: tudo bem

Lusca: Fábio?

Fábio: sim?

Lusca: antes de me trancar aqui dentro, Camilla me disse pra ter cuidado pra você não me morder

Ele dá uma risadinha.

Fábio: ela tava falando muita merda e me enchendo de bandaids, então eu perdi a paciência e a mordi

Lusca: parece justo pra mim

Fábio: para mim também

Ele me oferece sua mão e eu a aceito. O aperto dura talvez um ou dois segundos a mais do que o necessário, porque estamos distraídos sorrindo um para o outro; há um brilho nos olhos de Fábio, algo que o faz parecer muito mais com o garoto que eu admirava de longe do que com a vítima de um ataque de minutos atrás, e isso é bom. Fábio é lindo e nem seu rosto destruído, nem as picuinhas entre nós conseguem me fazer pensar o contrário.

Trocamos um sorriso.

Fábio: boa noite, Lucas

Lusca: boa noite, Fábio. Se recupera bem, hein?

Destranco a porta e procuro por Camilla, pronto para brigar com ela por ser tão sem noção, mas quando a encontro, decido engolir minhas palavras. Descabelada, bochechas coradas e lábios inchados, Camilla parece estar fora do ar — responde “sim” quando eu pergunto o que aconteceu, quase bate o carro três vezes durante a carona para minha casa, me beija na boca ao invés de na bochecha na hora de se despedir e nem sequer se sobressalta a respeito disso. Me pergunto se é seguro deixá-la arrancar com o carro e ir embora, mas Camilla faça isso antes que eu possa pensar em impedi-la, e sinto meu peito apertar por toda a hora seguinte.

Lusca: Hey

Lusca: desculpa incomodar

Fábio: problema não, o que foi?

Lusca: a Camilla chegou bem em casa? Viva, inteira?

Fábio: viva, inteira, eu posso dizer que sim

Fábio: bem ela não está

Fábio: mas ela não quer falar porque e eu to sem energia pra perguntar

Lusca: ah, isso eu tinha notado

Lusca: obrigado

Fábio: de nada

Fábio: Lucas?

Lusca: sim?

Fábio: deixa pra lá, boa noite

Lusca: ?

Lusca: boa noite

Marcos: Lucas? Você tá ocupado?

Lusca: sim, estou muito ocupado chorando em cima do meu resultado na prova de física

Lusca: acho que nem milagre me salva da recuperação

Lusca: mas vamos deixar minha desgraça pra lá, pode falar

Marcos: minha desgraça vai fazer você se sentir feliz

Marcos: eu meio que peidei na farofa ontem quando você tava trancado no quarto

Lusca: peidou na farofa...?

Marcos: eu beijei a Milla

Marcos: e ela me beijou de volta

Marcos: e a gente quase transou na sala

Marcos: agora ela não quer conversar comigo

Marcos: e, aparentemente, ela já foi correndo contar pra Amanda, porque a Amanda também não tá conversando comigo

Marcos: não quero incomodar o Fábio com isso, ele ainda tá se recuperando...

Lusca: então você veio atrás da quarta opção, no caso eu?

Marcos: na verdade a quarta opção são meus amigos da internet

Marcos: mas você ainda tá no top vinte, fica tranqüilo

Lusca: ordinário

Marcos: kkkkk é sério, eu não sei o que fazer

Marcos: não era pra ter acontecido, sabe?

Marcos: a gente tava conversando e do nada... rolou

Marcos: eu não sei o que fazer, eu sempre achei que ela fosse lésbica

Marcos: mas parando pra pensar, ela nunca afirmou isso

Marcos: apesar de ela sempre ficar com meninas

Marcos: aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Marcos: to parecendo adolescente de série americana

Lusca: está mesmo

Lusca: você sabe onde a Camilla mora

Lusca: você tá na mesma sala que ela na faculdade

Lusca: se você quiser conversar com ela, ce arranja um jeito

Marcos: por que eu vim conversar com você mesmo?

Lusca: meus traços angelicais inspiram confiança

Marcos: vá se foder

Lusca: nem

Lusca: olha, é sério

Lusca: eu não vou conseguir resolver a situação pra você

Marcos: eu sei, eu sei

Marcos: a Amanda sempre tem os melhores conselhos pra essas horas

Marcos: mas ela simplesmente não quer me responder

Lusca: vocês já não estavam brigados antes?

Marcos: sim, mas ela nunca fica mais de dois dias com raiva de mim

Marcos: estou com medo de a Camilla ter contado

Lusca: medo por quê? Vendo que vocês dois ficaram, isso talvez a acorde pra realidade de que você não está apaixonado por ela

Marcos: não quero magoá-la

Lusca: você falou coisas horríveis pra ela e diz que não quer magoá-la?

Lusca: meio tarde demais, não?

Marcos: odeio quando você está certo

Marcos: não quero que ela saiba

Marcos: isso faz eu me sentir mal

Lusca: ela é sua amiga, apaixonada por você ou não, são doze anos de amizade, não doze dias

Lusca: ela vai querer saber

Marcos: MAS ELA NÃO ME RESPONDE

Lusca: olha tu não grita comigo que deixei de chorar por causa da prova de física pra te ler chorando por causa das suas burrices

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Marcos: você não me ajudou de nada

Lusca: claro que ajudei, quem ia jogar verdades na sua cara tão bem quanto eu faço?

Marcos: te odeio

Lusca: ah, que nada, são seus olhos

Lusca: Milla

Lusca: Milla Milla Milla Milla

Milla: que que tu quer capeta

Lusca: pra que essa ignorância

Milla: ah

Milla: desculpa

Milla: não to legal esses dias

Milla: que que você quer, coração????

Lusca: queria perguntar se você tem alguma coisa pra me contar

Lusca: você tem alguma coisa pra me contar, Milla?

Milla: por que teria?

Milla: você tá doido?

Lusca: Milla, quando você me trancou no quarto com o Fábio anteontem, você tava rindo

Lusca: quando eu saí, parecia que tinha dado de cara com a Samara

Lusca: você quase bateu o carro

Lusca: e me beijou na boca na hora da despedida

Lusca: você tem alguma coisa pra me contar?

Milla: porra, é sério que eu fiz isso?

Milla: caralho, desculpa

Milla: felizmente eu escovo bem os dentes

Milla: não vou te passar sapinho

Lusca: hahaha, que bonita

Lusca: não muda de assunto

Milla: por que esse interesse súbito logo agora?

Lusca: ontem eu fui nocauteado pela prova de física, estava sensível demais para discutir

Lusca: hoje a prova foi geografia e eu estou 100% seguro de que arrasei

Lusca: então me sinto forte o suficiente para chegar de voadora

Lusca: desembucha logo o que aconteceu

Milla: você quando quer, também, hein? Vai ser aborrecido

Milla: bem, resumo da ópera: eu era uma criança hétera, aí eu fui uma adolescente lésbica, agora sou uma adulta bissexual que não se cansa de levar no cu

Milla: também conhecido como: sou afim da Amanda desde que botei os olhos nela pela primeira vez e tava bem feliz levando no cu com uma paixão platônica, mas naaaaaaao, não tava ruim o suficiente

Milla: aí eu descubro que a Amanda é apaixonada pelo Marcos

Milla: e que o Marcos é apaixonado por mim

Milla: e para concluir essa ciranda ridícula, eu posso estar me apaixonando pelo Marcos de volta

Milla: ele me beijou na segunda

Milla: minha cabeça tá uma bagunça

Milla: aproveita enquanto você é um bebê que essas coisas não te acontecem

Lusca: eu tenho dezoito anos

Milla: um bebê, uma criança de verão, o inferno ainda não chegou pra você, querido

Milla: inverno*

Lusca: e assim, você me chama de bebê, mas você que tá no meio de uma bagunça amorosa bem menina de quinze anos

Milla: OLHA EU SEI TÁ

Lusca: NÃO GRITA COMIGO

Milla: DESCULPA

Milla: ai, me ajuda

Lusca: quer contar tudo detalhadinho, desde o começo?

Lusca: amanhã é química, já entreguei pra Jeová

Lusca: to fazendo altos nada, posso ler sua chorumela

Milla: olha, foi você que veio querendo me fazer falar

Milla: mas beleza, vou aceitar o aluguel grátis dos seus olhos

Milla: bem, pra você entender a dimensão do meu problema, vamos ter que voltar lá no meu ensino fundamental...

Fábio: hey

Lusca: hey

Fábio: como está você

Lusca: morto

Fábio: não sabia que mortos usavam o telefone

Lusca: não estou morto, morto

Lusca: a prova de química ainda deixou alguma coisa viva dentro de mim

Lusca: mas estou na corda bamba

Lusca: se tem algo pra dizer, diga rápido

Fábio: nah, só queria jogar conversa fora

Fábio: estou entediado

Fábio: e só tem você online

Lusca: quanta solidão

Fábio: a Camilla tá online no whatsapp mas ela tá off pra vida esses dias

Fábio: ela colocou sal no meu café

Fábio: desde então tenho evitado contato

Lusca: kkkkkkkkkkkkkkkkkkk porra

Fábio: não ria, demonho

Fábio: ela não quer me contar o que aconteceu, temo que terei que apelar pra chantagem emocional

Fábio: a Amanda ligou o lado gótico floquinho de neve dela, não quer conversar com ninguém

Fábio: acontece uma vez no mês

Fábio: o Marcos não para de atualizar o stories com umas frases de corno

Fábio: sei lá, acho seguro manter distancia

Lusca: vocês da turminha dos meninos bonitos adoram me usar de psicólogo quando não têm outra opção, né

Fábio: bem, você não cobra

Fábio: sou um universitário, não recuso nada gratuito

Fábio: e awwww, obrigado pela parte que me toca, sei que sou bonito

Lusca: meh

Lusca: acho que com essa, meu resto de vida se foi, adeus

Fábio: Lucas, Lucas, Lucas

Fábio: Luscaaaaaaaaaa

Lusca: que

Fábio: eu tava pensando aqui, sabe

Lusca: é um evento raro?

Fábio: haha, que engraçado você hein

Fábio: tenho ficado muito à toa

Fábio: enfim, no dia em que você ajudou a Camilla com os caras lá

Fábio: como você descobriu onde ela estudava para ir lá devolver o celular?

Lusca: caralho, é sério que você interrompeu meus momentos finais de vida pra perguntar isso?

Lusca: vai refletir sobre a origem do ovo e da galinha e me deixa morrer em paz

Fábio: anda, responde

Lusca: me deixa morrer

Fábio: tá fugindo do assunto? Vou começar a achar que você é algum tipo de stalker punheteiro

Lusca: eu já sabia quem ela era antes de esbarrar nela, feliz?

Fábio: seria você o surdo da serra elétrica?

Lusca: meu Deus kkkkkkkkkkk

Lusca: não se precipite, vou te contar o caso todo desde o início, tudo bem?

Fábio: Lusca

Fábio: ...posso te chamar assim?

Lusca: adorável da sua parte ter perguntado

Lusca: n ligo

Lusca: que foi?

Fábio: bem, tô a toa de molho na cama

Fábio: fui reler as Crônicas do Matador do Rei

Fábio: a Milla tinha dito que você gostava

Lusca: resumo: vc ta entediado e veio me chamar

Fábio: truco

Lusca: você não tem nada melhor pra fazer?

Fábio: não, e você?

Fábio: Lusca, qual é a coisa dos copos de leite no seu pinterest

Lusca: como você DESCOBRIU o meu pinterest

Fábio: Milla?

Lusca: claro, devia ter desconfiado

Lusca: olha, honestamente eu não sei? Gosto da flor, acho

Fábio: vc é cheio de rascunhos de copos de leite no seu caderno lá

Lusca: como você sabe disso?

Fábio: eu presto atenção, sabia?

Marcos: cara, socorro

Marcos: pega sua sinceridade filha da puta aí e bota pra funcionar

Marcos: porque eu preciso de uma luz

Lusca: sim?

Marcos: a Camilla continua a fugir de mim como o diabo da cruz

Marcos: mas eu consegui conversar com a Amanda

Marcos: eu contei o que aconteceu pra ela

Marcos: achei que ela fosse ficar magoada e tal

Marcos: mas a menina SURTOU

Lusca: em que sentido? Arrancou os cabelos? Arrancou os SEUS cabelos?

Marcos: quem me dera

Marcos: a gente tava na minha casa bebendo

Marcos: é um hábito antigo, a gente comprar alguma coisa e ir lá pra casa beber e jogar conversa fora

Marcos: quando eu contei o que tinha acontecido ela me beijou (????)

Marcos: e a gente acabou transando!???????

Lusca: o que é Gossip Girl perto da vida amorosa de vocês né

Marcos: essa série é horrível, pelo amor de Deus

Marcos: enfim

Marcos: eu não sei o que pensar

Marcos: eu queria dizer que foi tudo efeito da bebida mas eu tava alegrinho só

Marcos: lembro de tudo, foi tudo bem consciente

Marcos: agora eu to tipo assim sem saber o que sentir

Marcos: e agora a Amanda voltou a me ignorar

Marcos: ela me bloqueou em todas as redes sociais e porra eu não sei o que eu faço agora

Lusca: admitir que está apaixonado por ela de volta é um bom começo, você sabe

Lusca: depois, bem, não sei

Lusca: vocês saem beijando uns aos outros assim e transam tão tranquilamente

Lusca: usaram camisinha, crianças?

Marcos: LUCAS

Lusca: ué, é minha obrigação perguntar

Marcos: não, não

Marcos: você falou e você tem razão eu to apaixonado por ela né

Lusca: cara, eu não acredito que eu tive que te dizer o óbvio

Lusca: o céu é azul também, tá?

Lusca: e a água é molhada

Lusca: só para o caso de você não ter percebido ainda

Marcos: vai se foder

Lusca: você diz tanto isso que eu vou começar a achar que é um elogio

Fábio: Lucas

Fábio: você disse que já tinha reparado na gente antes de tudo e tal porque achava a gente bonito?

Lusca: por que você está voltando com esse assunto agora

Lusca: eu já disse que sim, ué

Fábio: isso quer dizer que você me acha bonito?

Lusca: ...sim?

Fábio: obrigado, sei que sou

Lusca: de nada, mas se você já sabia, porque se deu ao trabalho de vir aqui perguntar

Fábio: sei lá, cara

Fábio: eu te acho bonito também

Fábio: achei desde o começo, na verdade

Lusca: que que deu em vc hoje Fábio

Fábio: tô te prestando um elogio seu ingrato do caralho

Lusca: obrigado?

Fábio: humpf, de nada

Fábio: Lusca

Lusca: hoje vc tá que tá hein

Lusca: oi

Fábio: lá na casa da Milla, tu disse que tinha conhecimento de causa da minha situação

Fábio: vc também gosta de rapazes?

Fábio: Milla diz que sim

Lusca: Milla está certa

Lusca: mas eu não vou contar essa história agora, nem adianta insistir

Fábio: e vc já teve alguma experiência com rapazes?

Lusca: acho que a essa altura do campeonato

Lusca: é meio óbvio que a resposta seja sim, Fábio

Lusca: o que deu em você?

Fábio: é que a Camilla anda colocando ideias na minha cabeça

Fábio: e eu tenho começado a achar que ela pode ter razão

Lusca: você vai prestar atenção no que a Camilla diz? Sério?

Lusca: esperava mais de você

Lusca: o que ela disse?

Fábio: hmm... te conto uma outra hora

Lusca: qual o sentido de me deixar na curiosidade

Fábio: só vc pode guardar segredos agora, por acaso?

Fábio: certas conversas a gente precisa ter pessoalmente

Fábio: vou indo dormir. Boa noite, Lusca

No domingo à noite, meu MotoG finalmente desiste de sua luta e parte para um lugar melhor. Apesar de dolorida, sua morte não me pega de surpresa, e consigo esconder minha tristeza por trás de um sorriso enquanto faço todos os ritos funerários: desmonto o telefone, tiro o cartão de memória, xingo o fato de a bateria dessa bosta ser parafusada no aparelho uma última vez e entrego-o para meus pais, que não escondem o quanto o acontecimento é digno de luto:

— Poxa, Lucas, a gente tá sem condições de te comprar outro agora! — lamenta mamãe. Ela pega a carcaça da minha mão e gira-a entre seus dedos uma vez, tentando ligar o aparelho e suspirando quando ele não reage. — Vamos tentar te comprar outro no seu aniversário, mas final de ano é sempre uma época tão complicada...

— Ele bem que podia ter esperado mais um mês para estragar, não é? — Papai dá uma risadinha. — Ele já vinha te fazendo raiva desde o começo do ano, um mês a mais, um mês a menos...

— Não tem problema — respondo. — Dá para me virar sem. Agora que as provas acabaram, não preciso de internet para mais nada importante.

Ele arregala os olhos como quem acaba de se lembrar de algo importante.

— Ah, sim, suas provas. Como você foi?

Algo importante, sim. Suspiro de desgosto.

— Acho que fui bem em tudo, menos em física e química. Não consigo colocar a matéria na cabeça.

— É bem filho seu filho mesmo, hein, bem? — zomba meu pai, interrompendo as libras para dar uma cotovelada de leve na barriga de minha mãe. Ela sorri. — Vai dar para passar de ano tranqüilo?

— Química não tem o risco, eu acho, os trabalhos paralelos foram fáceis, mas acho que nada vai me salvar da recuperação em física. — Abaixo a cabeça, encarando meus pés. — Desculpem, é sério, eu realmente não entendi a matéria...

Mamãe estica a mão para bagunçar meus cabelos, mantendo o carinho por alguns segundos antes de descer os dedos por meu rosto até o queixo, forçando-me a olhar pra frente.

— Não vamos ficar bravos por você ter ficado de recuperação por você não ter entendido a matéria, Lucas. Além disso, você está contando com uma desgraça que ainda não aconteceu. Sempre podemos esperar por um milagre. — Nós três sorrimos. — Você realmente tá precisando cortar esse cabelo, a franja já está caindo nos seus olhos...

Por incrível que pareça — ou não, há certa magia nas palavras de uma mãe que não deve ser subestimada — os resultados que saem na terça-fera da semana seguinte são bastante positivos. Boas notas em geografia, história, português, filosofia e sociologia garantem resultados bonitos no meu boletim, com somas finais que se estacionam na casa dos oitenta pontos; notas ruins em matemática, química e biologia são o suficiente para que eu passe raspando pelos sessenta pontos necessários para a aprovação; minha nota sofrível em física me coloca com inacreditáveis 58 pontos na soma final e a professora, num ato de bondade que com certeza lhe garantirá um lugarzinho no céu, força no arredondamento para completar a média. Sinto vontade de beijá-la e sua piscadinha para mim mostra que ela sabe disso.

Convencida, linda, maravilhosa, rainha. Meu espírito animal, essa mulher.

Com esses resultados, posso me considerar aprovado e livre do ensino médio para sempre. Outras matérias, como educação física e artes, já estavam garantidas desde o terceiro bimestre, mas ainda é gratificante receber, dos lábios de uma Lourdes sorridente, a nota total pelo trabalho de naturalismo, com a justificativa de que eu consegui “reproduzir o momento com toda a emoção vinda dos olhos do observador, usando da paleta de tons de cinza com inteligência para conseguir profundidade e verossimilhança.”. É tudo balela, mas não importa, meu sorriso está arreganhado para quem quiser ver e não faço questão nenhuma de escondê-lo. Quem é Monet perto de mim? Van Gogh, quem é Van Gogh? Salvador Dalí morreria de inveja.

Sim, nenhum desses pintores é naturalista, mas ninguém liga.

Quando saio pelo portão, pela última vez, me sinto invencível; nada pode ser capaz de melar minha alegria. Nem mesmo a turminha do bullying me arrastando pro beco de sempre consegue foder com meu humor; eles estão em número maior hoje, dez meninos ao invés dos cinco de sempre, e o jeito como me cercam chega a ser preocupante, mas a lembrança de que nunca mais precisarei pisar nesta escola novamente tira toda a força da cena. É a última vez, cantarolo mentalmente. A última vez, a última vez, a última vez...

— Hoje é a surra que você não vai esquecer, seu viado de merda — avisa o chefe da turminha, o peito estufado como o de um pombo. Sinto vontade de rir. — Nosso presente de despedida pra você.

Eles vêm todos de uma vez, conforme o hábito, e como sempre, eu me abstraio da dor, esperando que se cansem para que eu possa ir embora, sabendo que nunca mais precisarei passar por isso novamente. Meus olhos estão bem abertos e é com um lampejo de desespero que vejo a figura de alguém aparecer na entrada do beco, a silhueta familiar demais para o meu gosto apesar do rosto estar encoberto pelas sombras. Teria sido a surra tão forte a ponto de eu começar a ter alucinações?

As pancadas em mim param gradualmente, até que todos os meninos estejam encarando a silhueta na entrada do beco, e faz-se um minuto de calmaria antes que a turma de garotos se divida, uma boa parte partindo para cima da figura enquanto o resto se volta para continuar a me bater do mesmo jeito de antes. Ignoro-os do jeito que posso, totalmente concentrado na briga que acontece a poucos passos de mim, tentando me convencer que é só um estranho burro que se intrometeu onde não deveria, mas no fim, após uma das nuvens no céu mover-se o suficiente para que sua sombra não mais cubra a região, meus temores se mostram verdadeiros.

É alguém burro, sim, mas definitivamente não um estranho que está prestes a apanhar por ser intrometido.

Ajo movido por instinto e adrenalina. Só ele pode tornar alguém burro o suficiente para se jogar, de mãos vazias, contra uma turma de dez meninos muito maiores que ele mesmo e só ela pode fazer com que essa burrice consiga, no final das contas, algum êxito pelo qual se vangloriar. Sendo justo, muito do meu sucesso vem do elemento surpresa, o choque pela minha explosão atrasando as reações por tempo o suficiente para que eu possa reencontrar minha voz e torcer para que, depois de cinco anos abandonada, ela não me deixe na mão.

— Fábio, corre! — grito, a sufocante sensação da voz raspando minha garganta se unindo à estranheza de não poder me ouvir. Fábio não se mexe. Pelo amor de Deus... — Some daqui!

Ele finalmente me obedece, mas do jeito errado; ao invés de vazar sozinho, como era a intenção, Fábio me prova que sua burrice não tem limites ao me arrastar junto, sua mão bem firme em torno do meu pulso.

Bem... Quem tá na chuva é pra se molhar, né?

Corremos — como retardados, vencemos a avenida, de mãos dadas enquanto a ventania arrasta nossos cabelos para trás, numa cena que seria poética se não estivéssemos fugindo de uma turma de doentes agressores. Na altura em que viramos a esquina, nossos perseguidores finalmente desistindo da brincadeira para irem atormentar outra pessoa, Fábio está gargalhando, e me vejo na dúvida sobre o que sentir; se bato nele por me matar de susto desse jeito ou se gargalho junto, a adrenalina fazendo o bom trabalho de manter meu corpo quente, alerta e ligeiramente desconectado da realidade.

Termino rindo junto.

— Eu... não acredito... nisso... — Ele apóia a mão nos joelhos entre suas respirações curtas. — Você... você...

Sinto falta de meu celular, com seu whatsapp salvador de vidas, e percebo que também não tenho mais minha mochila, esquecida no beco pela eternidade com meus cadernos, lápis, o dinheiro do ônibus e também o desenho do IVENTEC. Meus olhos ardem com lágrimas que me recuso a derramar — é só um desenho, afinal, cuja nota eu até já recebi, lembro a mim mesmo — e me deixo escorregar pelo muro de chapisco do meu colégio até me sentar no chão, minhas pernas pesadas e tomadas por tal queimação que se torna impossível sustentar meu próprio peso.

— Você consegue falar! — exclama Fábio, se ajoelhando na minha frente, sorrindo incrédulo. Os hematomas de semana passada já começaram a se desbotar e o inchaço do rosto praticamente se foi. Duvido, porém, que o machucado da coluna tenha sarado em apenas uma semana, e me pergunto o que afinal ele está fazendo aqui. — Eu não sabia que você podia falar.

— Eu posso — respondo, franzindo o cenho. — Mas não gosto. Ah... Meu celular estragou. Não tenho papel.

— Então é só você falar, ué! Você sabe!

— Não... Embora. Perdi o dinheiro do ônibus. Vou andando.

— Não, não. Eu to de carro. Vem. — Com uma última respiração profunda, ele se levanta, e estende a mão em minha direção. Aceito que ele me ice para cima e não protesto quando ele continua a segurar a minha mão, me conduzindo pela rua até o carro de Camilla, estacionado debaixo de uma árvore. — Você... Não gosta de falar?

Nego com a cabeça.

— Por quê?

Ergo as sobrancelhas pra ele.

— Tá, tá, tá. Vou te levar lá pra casa. Meu antigo celular ainda funciona, embora ele mais trave do que qualquer outra coisa. Posso te emprestar. Para você me explicar o que aconteceu. — Seu olhar é afiado. — Tudo o que aconteceu, hein?

Concordo com a cabeça e me sento no banco do carona, esperando-o dar a partida. São menos de dez minutos de viagem que parecem se estender por muito mais tempo — há uma atmosfera pesada no carro, que se torna mais e mais sufocante a cada minuto. Sinto que estou prestes a ser condenado por algum crime, embora não tenha cometido nenhum, e o jeito como Fábio agarra o volante, com força suficiente para embranquecer as juntas, não colabora para desfazer a minha impressão. Ele está bravo, consigo ver, mas por causa de quê?

Apesar de sua expressão e postura corporal, Fábio é gentil ao estacionar o carro, me pegar pela mão — de novo — e me conduzir para dentro do prédio onde mora, um bloquinho de cimento de quatro andares feio de doer. É gentil ao me fazer sentar sobre uma cadeira e também é gentil ao embeber algodão em alguma solução de cheiro ácido e passá-lo sobre meu rosto e costas. Onde o algodão toca, arde e queima, mas não me dou ao direito de reclamar. Agora que a adrenalina abaixou, me estranho, alheio ao meu próprio corpo, como se todos os estímulos viessem de muito longe.

Os olhos de Fábio ainda queimam quando ele estende um celular antigo em minha direção, um desses primeiros nokias a ter touchscreen, e aguarda pacientemente até que eu cadastre o whatsapp com o meu número de telefone. Há mais de setenta mensagens de Camilla e mais umas cinqüenta de Marcos, conversas para as quais não dou atenção no momento. Minha atenção é desviada para a primeira conversa, onde apenas uma mensagem aparece, curta e grossa:

Fábio: desembucha

Lusca: sobre o que

Fábio: quem eram aqueles caras? Por que você não estava reagindo? Como assim você sabe falar?

Lusca: o que você tava fazendo lá? Quem te deu o direito de se intrometer?

Lusca: você ainda tá com a costela machucada

Lusca: é por acaso algum tipo de suicida?

Fábio: eu perguntei primeiro

Lusca: não sou obrigado a responder nada pra você

Lusca: eu que salvei sua pele, não o contrário

Fábio: Lusca...

Lusca: você não tem o direito de me intimidar, é a minha vida, você que se intrometeu

Lusca: você responde primeiro

Nos encaramos por alguns minutos, imóveis, competindo para ver quem faz a pior careta, até que, com um suspiro, Fábio finalmente desiste.

— Você sumiu das redes sociais, Camilla tava entrando em desespero já. Ela encheu tanto o meu saco, mas tanto, que eu acabei perdendo a paciência. — Ele passa a mão pelos cabelos, pregados na testa por uma camada de suor, e respira fundo. — Aí eu peguei meu carro e fui lá na sua escola pra ver se você tava vivo. Eu não deveria estar dirigindo, minha costela ainda tá bem machucada, mas foda-se. Quando eu cheguei, aqueles caras estavam te arrastando pro beco, eu só... Agi por instinto.

Lusca: justo

Fábio: sua vez

Lusca: bem, quando eu tava no primeiro ano do ensino médio, eu conheci um cara no twitter

Lusca: descobri que ele era da minha escola depois de umas conversas, que ele também era surdo

Lusca: resumindo a história: a gente se beijou no pátio de trás da escola, um beijo não muito puritano, preciso dizer

Lusca: e uns meninos

Lusca: eles surraram nós dois, eu e ele, depois da escola, surraram mesmo. Nós dois quase morremos

Lusca: ele foi transferido de escola pouco depois, sumiu do twitter, nunca mais o vi

Lusca: mas os meninos me perseguem desde então

Lusca: eles me batiam muito, dentro da escola, aí uma professora viu tudo e denunciou para a diretoria

Lusca: a turma quase toda foi expulsa, deu polícia, B.O, muito choro dos meus pais

Lusca: os sucessores espirituais da turminha que fodeu minha vida são os caras de hoje

Lusca: só que eles não querem ser expulsos, então têm todo o cuidado de me bater um pouquinho todos os dias

Lusca: para não ficar marcas e tal

Fábio: e por que você não denuncia, criatura?

Lusca: preguiça

Lusca: eles não vão ser punidos, a escola não se responsabiliza por nada que ocorra fora dos perímetro dela

Lusca: e eles nunca deixam marcas visíveis, daria trabalho demais para provar

Lusca: então eu deixo. Se sou meio banana? Sou. Foda-se.

Lusca: sobre eu falar: eu não nasci surdo

Lusca: escutei normalmente até os dez anos de idade, aprendi a ler, escrever e falar

Lusca: quando eu tinha onze, eu fui diagnosticado com uma doença

Lusca: eu nem lembro o nome

Lusca: é uma doença não muito rara, mas que normalmente demora décadas para atingir um estado realmente grave

Lusca: no meu caso, por um motivo que ninguém entende, um estado de degeneração que eu atingiria em cinqüenta anos foi atingido em apenas dois

Lusca: aos onze anos eu ouvia perfeitamente, aos treze eu estava surdo

Lusca: alguma dessas universidades aí está estudando meu caso

Lusca: para entender porque a doença progrediu desse jeito

Lusca: e assim, é horrível falar e não se ouvir

Lusca: é uma sensação horrorosa, muito horrorosa

Lusca: então eu meio que não falo????? Não é necessário

Lusca: meus pais e eu aprendemos libras juntos, eu me comunico por libras com eles quando estou em casa

Lusca: eu aprendi leitura de lábios, também, sou muito bom nisso

Lusca: e eu não tinha amigos antes, não precisava de me comunicar com ninguém

Lusca: agora brotou você, Camilla e Marcos e eu sou obrigado a me socializar, mas eu tava muito bem só com meus amigos imaginários do twitter

Fábio: ah. Desculpa?

Lusca: não peça desculpa por isso. Peça desculpa por se arriscar desse jeito e quase me matar do coração

Lusca: ele nunca me bateram para me matar

Lusca: mas poderiam perfeitamente ter pegado pesado com você

Ele sorri e, sem o inchaço, o efeito que o ato tem em seu rosto é muito agradável de ver: uma covinha aparece em seu queixo e seus olhos se contraem em meias-luas, dando-lhe um aspecto arteiro. Ele está machucado também, vejo, cheio de arranhados nas bochechas e ombros, e não resiste quando puxo-o pela mão para se ajoelhar na minha frente, tomando o algodão e o líquido ardido de sua mão para passá-los em seu rosto.

— Me desculpe — diz ele, olhando direto nos meus olhos enquanto deslizo o algodão úmido por sua face. Lembro das várias conversas que tivemos no domingo à noite, pouco antes do meu celular pedir arrego, e começo a me sentir nervoso. Subitamente, estou consciente demais sobre todo o meu corpo, desde os meus braços curtos demais até meus pés, quentes dentro dos sapatos, sem saber muito bem o que fazer com ele. — É que... Bem. Não sei muito bem o que dizer.

— Já falou o suficiente — digo, novamente em voz alta, ignorando a estranheza do ato para lhe oferecer um sorriso, e quanto ele sorri de volta, o rosto bem perto do meu, sinto minha respiração falhar um compasso.

E dessa distância, ele é ainda mais bonito do que conseguia ser quando eu o observava de longe, eu e meus sonhos de uma amizade que parecia completamente impossível — como modelos, me lembro de pensar sobre ele e seus amigos. Agora, porém, depois de tê-lo visto chorar, de tê-lo consolado e de estar com ele aqui, Fábio não apenas parece humano, mas também algo tangível o suficiente para que eu possa esticar a mão e simplesmente alcançar, e essa perspectiva é tão vasta e assustadora que, no fim, diante de todas as possibilidades, termino decidindo não fazer nada.

— Eles chegaram a acertar você em algum ponto? — pergunto, deslizando a mão por seu rosto, hiperconsciente dos pontos onde as pontas de meus dedos deslizam na pele. — Ou só te arranharam?

— Só me arranharam.

Balanço a cabeça e me livro do algodão e do anti-séptico, enxugando as mãos nervosamente, mas Fábio não se move. Ainda ajoelhado na minha frente, rosto alinhado com o meu — o único jeito de isto acontecer, porque a vida não foi gentil comigo na questão da estatura — ele observa todos os meus atos, parecendo ciente do meu nervosismo, e divertindo-se com ele.

— Ah... O que eu perdi nesses dias que fiquei... ah... fora do ar?

— Muita coisa. — Ele ri soprado. — Marcos, Camilla e Amanda, depois de dois anos inteiros de novela, parece que finalmente se resolveram, de um jeito que é bom pros três... Eu acho.

Arregalo os olhos.

— Você sabia?

— Que Marcos gostava de Amanda e de Camilla, que gostava de Amanda e de Marcos? Sim, sabia. Eu não sabia que a Camilla e o Marcos tinham se pegado naquele dia lá na casa da Milla, porém. Ela foi me contar depois.

— E como eles se resolveram?

— Você tava tentando bancar o cupido, que eu sei, e eu também. Convenci os três a se encontrarem no domingo à noite para finalmente botarem os pingos nos is cara a cara. — Fábio sorri maldosamente. — Eles terminaram transando. Os três. Não me olha com essa cara, fiquei tão surpreso quanto você. Numa virada de roteiro extraordinária, descobrimos que Amanda gostava de Marcos, mas também se apaixonou por Camilla, e agora os três começaram uma relação?

Sinto vontade de sair pulando e bater palmas, mas me contento com um arfar e um tombar de cabeça, algo mais socialmente aceitável.

— O quê?

— É sério! Eles estão namorando! Finalmente!

Nos entreolhamos por um segundo antes de cairmos na risada, que morre tão logo percebo Fábio se aproveitando da oportunidade para inclinar seu rosto mais para a frente, agora tão próximo que sinto o ar quente de seus expirares bater direto no meu rosto.

— Fábio...

— Sim?

Sei a resposta, embora não saiba se estou ou não preparado para ela, e termino por perguntar assim mesmo, ciente de que minha voz, essa que aprendi a detestar com os anos, não é nada mais do que um sussurro nos poucos centímetros que nos separam:

— O que você tá fazendo?

— Beijando você.

E é com toda essa simplicidade que ele se inclina em minha direção, vencendo a distância mínima que nos separa para me beijar nos lábios, e é também com toda a simplicidade do mundo que eu retribuo. Me pergunto se isto tem a ver com as coisas que Camilla andou conversando com Fábio, as quais ele pensa que podem ser verdade, e me pergunto se todas as tentativas de Camilla de me aproximar de sua turma não eram, na verdade, a mulher bancando a cupida. A verdade é que eu não sei.

O que sei é que nos beijamos com toda a calma do mundo por um tempo muito longo, apenas lábios e línguas se tocando, antes que eu embrenhe a mão por seus cabelos e ele leve as mãos até minha cintura, num aperto suave. Nos beijamos por outro tempo muito longo depois disso, sem desespero, nada muito sexual, Fábio movendo seus polegares numa carícia suave como uma pluma.

Não sei se quero parar de beijá-lo; quando o fizer, terei que pensar sobre o que estou fazendo, terei que revisitar as últimas semanas, todos os momentos onde estive no mesmo ambiente com o Fábio, onde o vi rir, zombar, chorar, para examiná-los sobre a ótica dos meus novos sentimentos, e não sei se quero isso. Novas perguntas surgem e eu talvez eu não goste das respostas que eu encontrar; talvez não haja respostas, também.

Mas quando ele enfim dá o beijo como terminado, movendo os lábios para plantar um selinho na minha bochecha antes de afastar e sorrir para mim, essas coisas não têm tanta importância. Não agora. Não por enquanto.

— Você é fofo — ri ele, sentando-se no meu colo para me envolver seus braços em torno de mim em um abraço de urso. E quando o abraço de volta, enterrando meu rosto na curva de seu pescoço, sentindo meu corpo aceso de um jeito que não tem nada a ver com a adrenalina, vejo piscar por minhas pálpebras uma cena familiar: um rosto, envolvido por copos de leite, mil cores aquareladas explodindo no fundo. Uma nova pintura.

O rosto de Fábio ficaria lindo no centro dessa pintura, percebo.

Vou pintá-la, prometo. Quando eu sair desse abraço. Se eu sair.

Por enquanto, estar aqui está bom o suficiente.

Notas finais
E chegamos ao fim. Não ao fim que eu queria, mas enfim, espero que ele te agrade assim mesmo, AnaBea ♥ Foi uma fic muito divertidinha de escrever. Futuramente, vou voltar nela para fazer alguns ajustes e uma betagem decente. Até a próxima, gente
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!