— Por aqui — a mulher os conduziu por um longo corredor até a sala refrigerada onde os corpos eram mantidos.

Haviam conseguido entrar e ganhar permissão para ver o corpo graças à identidade falsa de Ryuzaki.

— Já apareceram corpos com a cabeça esmagada, sem cabeça, com uma cabeça a mais até, mas é a primeira vez que aparece um sem o cérebro — a mulher, alta, com os cabelos escuros presos cuidadosamente em um coque, e óculos de armação quadrada falava conforme abria uma das gavetas.

Na gaveta estava um homem baixo, careca, e com uma nítida marca na testa, onde o corte havia sido feito.

— Pode nos dar um tempo? — Ryuzaki pediu para a mulher.

— Claro — e se retirou.

"Estou me sentindo um Winchester aqui" pensou Raito meio divertido.

— Hum... — Ryuzaki observava o corte com atenção.

Raito não sabia o que ele estava procurando, então ficou em silêncio até que ele achasse e resolvesse lhe dizer.

Ryuzaki afastou-se do corpo para pegar um par de luvas e quando se reaproximou, retirou o tampo da cabeça do homem com cuidado, analisando de perto a seção de corte.

— Raito, olhe isso — Ryuzaki chamou, indicando o pedaço de crânio em sua mão.

Raito fez uma careta ao se aproximar. O corpo ainda não tinha entrado em processo de decomposição por causa do frio, mas ele fez uma careta por puro instinto, como se pudesse sentir o cheiro que desprenderia se não estivessem naquele ambiente. Afinal, o homem estava morto há três semanas já!

O corpo tinha sido mantido lá por esse tempo todo apenas porque a família insistia que queria enterrá-lo inteiro, e por mais que os agentes envolvidos insistissem e tentassem convencê-los de que não havia como recuperar o cérebro dele a essa altura, eles não mudavam de idéia.

Raito achava esse comportamento um pouco irracional, mas a forma como o homem morreu deve ter sido chocante demais para a família. Devia ser por isso que o corpo continuava no necrotério sem problemas. Se quisessem, os responsáveis pelo lugar poderiam obrigar a devolução do corpo, mas talvez eles estivessem com muita pena dos familiares para fazerem isso.

— Quem fez isso podia ter o equipamento, mas não a experiência — Ryuzaki falou, e ao olhar bem para aquilo, Raito entendeu o por quê.

— Há falhas — constatou surpreso.

O frio constante podia ter danificado o tecido, mas as falhas estavam visíveis.

Mas isso não os deixava mais perto de encontrar os culpados. Pelo contrário, aumentava ainda mais o raio de procura.

— Pedirei para Watari verificar se há denúncias de roubo médico nos últimos dois meses, no mínimo — Ryuzaki falou ao deixarem o lugar.

— E se o material tiver sido comprado ilegalmente?

— Iremos pegá-los de qualquer jeito.

Raito olhou para ele por um momento e sorriu, tirando seu casaco e colocando-o por sobre os ombros do mais velho, que o olhou surpreso.

O inverno estava próximo e o frio já estava fazendo presença.

Raito estava usando um grosso suéter de lã por baixo do casaco, mas Ryuzaki estava apenas com sua camisa de sempre. Era mais do que esperado que ele tremesse, por mais que tentasse disfarçar.

Ryuzaki entrelaçou seus dedos nos de Raito, fazendo devagar o caminho até o hotel.

Notas finais
Gente, apenas uma dica pra vocês: a idéia surgiu de algo meio random que eu achei na internet. Eu "lancei" esse desafio porque eu fiquei tão boba que eu consegui escrever por cima disso, que eu queria ver se alguém descobria o que era xD