E caio-lhe
1 O Caminho de Ida
Notas iniciais

Saiu do túnel e andou pelos trilhos, no fio externo direito. Com a ponta dos dedos dos pés ia enterrando-os, apanhando e jogando no abismo da ponte a neve. Caminhava firme sobre a linha suave de ferro entre os caules finos e secos do inverno rigoroso que se erguiam do chão a acima do trilho e emaranhavam seus galhos tortuosos no céu.
Era um espectro leve e branco. Etéreo como algo sem nenhuma culpa; algo feito, criado apenas para existir.
Não tinha a intenção de olhar para trás.
Esticou a mão direita e tocou um caule seco esguio, passando e sentindo a aspereza e as irregularidades. Puxou ao andar, o galho entortou e escapou-lhe dos dedos batendo a copa na outra árvore. Puxou o seguinte fazendo o mesmo, e soltou. Seguiu puxando outro e outro e soltando até que os galhos no alto chacoalhassem e caísse a neve por cima de si. Levantou a cabeça e deixou-se cobrir pelos flocos brancos como um véu desfiado.
Deixou cair o braço em seu lado e com um passo à frente do outro caminhou de cabeça baixa até seu fim na linha curva.
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