E agora?
3 Só curiosidade
Alexia
Acordei com o som insistente do meu telefone tocando, não tinha o mínimo animo para atender, permaneci de olhos fechados, deitada na cama, mas cogitei que pudesse ser Maurício, por isso, levantei-me, meio zonza, a cabeça latejando, limpei as lágrimas secas acumuladas nos cantos dos meus olhos, fui em busca de minha bolsa. Para minha decepção, o nome na tela era de Laura, embora não quisesse falar com ela, nem com ninguém, atendi.
— Alexia, desculpe-me se eu a acordei tão cedo, mas precisava muito conversar com você – minha irmã disse, aflita, eu não conseguia racionar direito, naquele momento
— O que é tão urgente assim, Laura? – Não disfarcei o meu desânimo.
— Eu passei a noite procurando alguma pista sobre aquele homem, o pai de uma de nós, e...
— Espera aí! Você passou a noite acordada, remexendo nos pertences da nossa mãe? – Interrompi, sem poder acreditar que ela estivesse tão obcecada com essa história.
— Não foi a noite inteira, só parte dela, eu dormir um pouco no sofá da sala.
— E o que descobriu, afinal?
— Não descobri nada de importante. Talvez, uma pista do lugar onde foram tiradas aquelas fotos de mamãe e Tim que achei. Acho que é o mesmo lugar dos cartões postais que encontrei, mas não é sobre isso que quero falar.
— Então, o que é? – Estava um tanto impaciente, contudo, acho que Laura não percebeu.
— Eu pensei em perguntar a uma das nossas tias, talvez, ela saiba de algo a respeito dessa história.
— E se não souberem? Você vai anunciar para todo mundo que nossa mãe era uma adultera, manchar a imagem dela diante da família? – Não escondia minha irritação.
— Não! Posso inventar uma história qualquer para disfarçar. Direi que achamos algumas fotografias de pessoas desconhecidas e gostaríamos de saber quem eram, ou algo parecido, não falarei a ela sobre o que descobrimos.
— Olha, Laura, eu não tenho tempo para toda essa tramoia, no entanto, se você quiser tentar, fique à vontade. Mas, por favor, cuidado para não comprometer as memórias dos nossos pais.
— Eu terei muito cuidado. Prometo que não farei nenhuma besteira, confia em mim, Alexia.
— Está bem, Laura. Eu estou ocupada agora, nos falamos depois. Até mais.
Desliguei e fiquei com o telefone na mão, indecisa se deveria ou não ligar para Maurício. Travei essa luta por alguns segundos, até que respirei fundo e apertei a discagem direta, caiu direto na caixa postal. Provavelmente, ele não quer falar comigo, apesar disso, tentei de novo.
— Maurício, precisamos conversar, por favor, quando puder me liga. – Deixei um recado, não iria mais procurá-lo, ele sabia onde me achar.
Laura
Às vezes, esse jeito presunçoso de Alexia me irritava bastante, a maneira como ela me subestimava, me dava muita raiva. Ela acha que sou alguma desmiolada? Que vou contar para todo mundo o passado obscuro da nossa mãe? Contudo, preciso me acalmar, deixar para lá.
Ainda bem que era sábado, não trabalho e nem tenho aula hoje, por isso poderia me ocupar com as pesquisas sobre o suposto amante da minha mãe e pai de uma de nós duas.
Verifiquei as horas, ainda era muito cedo para telefonar para alguém, então fui até a cozinha e vasculhei os armários, em busca de alguma coisa para o meu café da manhã. Não havia quase nada ali, pois minha mãe ficou doente por muito tempo e, seus últimos dias, ela passou internada em um hospital e já fazia quase dois meses que havia morrido. Os poucos mantimentos que encontrei ou já passaram da validade ou estavam estragados. Então, decidi tomar café na rua no bar da esquina, a poucos metros do prédio.
Quando retornei para o apartamento, resolvi que já é uma boa hora para ligar para tia Júlia, irmã mais velha da minha mãe, embora as duas nunca tivessem sido melhores amigas, tinham personalidades bem opostas, eram quase uma versão mais velha de mim e Alexia, pois, enquanto minha tia era rígida e autoritária, minha mãe era leve e alegre.
— Tia, é Laura – Comecei em um tom falsamente casual.
— Como vai, Laura. Algum problema sério para me telefonar assim, tão cedo? – ela quis saber, de um jeito levemente ácido.
— Não, nenhum, está tudo bem. Mas, ontem, eu e Alexia começamos a limpar o apartamento de nossa mãe...
— Vocês vão ter muito trabalho, pois Natalia adorava guardar muitos objetos inúteis e bugigangas.
— Sim, tem muita coisa aqui, inclusive, encontramos algumas fotos de pessoas que não sabemos quem são. Talvez, a senhora possa nos ajudar.
— Posso tentar.
— Há algumas fotos antigas de um lugar campestre, tipo uma fazenda.
— Uma fazenda? Não me lembro de nenhuma fazenda... Ah! Sim, quando jovem, sua mãe costumava ir para uma cidadezinha no interior ou uma fazenda, um lugar bem rústico ou sei lá o que, com aqueles amigos esquisitos dela.
— Por acaso, você se lembra do nome do lugar? – Meu coração quase pula do peito de ansiedade.
— Não.
— E quando minha mãe foi para lá, pela última vez, e quem eram esses amigos?
— Não me lembro de nada disso. Eu já era casada nessa época, não conversávamos muito, nossas vidas eram bem diferentes. Mas, o que isso interessa agora?
— Só curiosidade. Como disse, encontramos algumas fotos. Por acaso você se lembra de um homem chamado Tim?
— Não, nunca ouvi falar. Por quê?
— Por nada.
— Espero que eu tenha ajudado. Sei como deve estar sendo difícil para vocês, se desfazerem dos pertences da sua mãe.
— Sim, é verdade. Até mais, tia.
— Até mais, Laura.
Não sabia mais o que fazer, não devia ligar mais para ninguém, senão poderia despertar suspeita. Peguei um dos cartões postais, olhei com atenção, tentando encontrar alguma pista e acabei descobrindo o nome do lugar impresso, bem pequenininho, em um dos cantos. Não tinha a mínima ideia onde ficava, pensei em pesquisar na internet, se esse lugar ainda existia. Mas, para a minha decepção, meu telefone estava quase sem bateria, mesmo assim eu tentei. Ansiosa, eu procurei entre tantos resultados, não encontrei nada do que desejava, já estava quase desistido, quando uma esperança se fez nas palavras que lia: Um local para encontrar a sua paz e a natureza. Meu coração pulou de alegria, pois achava que encontrara o que procurava. Então, de repente, tela ficou escura, minha bateria acabou e havia esquecido o meu carregador em casa.
Enfiei os tais cartões na minha bolsa e retornei correndo, para o apartamento em que morava. No metrô quase vazio, encostei a cabeça no vidro frio da janela e fechei os olhos, pensando nessa história de amor clandestino da minha mãe. E eu que julgava o casamento dos meus pais perfeito. Era o que sempre quis para mim, aquela cumplicidade entre os dois, se entediam só pelo olhar, sempre tive a certeza que eles se amavam. Acho que adormeci, acordei com a voz mecânica do alto-falante anunciando minha estação, assim levantei, em um pulo e corri para a porta.
Ao entrar no meu apartamento, estranhei o silêncio, pois, normalmente, não era assim, já que dividia o lugar com duas colegas, também, universitárias. Foi quando eu me lembrei do feriado que se aproximava, por isso, Ingrid, estudante de medicina, deveria estar em um dos seus inúmeros plantões. Enquanto, Mia, que estudava arquitetura, havia viajado com o namorado para uma dessas românticas cidades histórica a pretexto de pesquisa. Assim sendo, eu estava fadada a ficar sozinha nos próximos dias, daí, havia decidido que cuidaria dos pertences da minha mãe. No entanto, os planos mudaram e eu estava procurando por um lugar do passado dela, onde viveu um amor secreto, gerando uma filha bastarda, que poderia ser eu ou a minha irmã, aquilo era uma loucura.
Coloquei meu telefone para recarregar e procurei meu computador, iniciei a pesquisa de onde havia parado. E lá estava, o lugar que ainda existia e era uma espécie de hotel rural, a só algumas horas daqui. E nesse instante, em um impulso, peguei meu telefone para fazer uma ligação.
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