E agora?
2 Deve haver algo errado nessa história!
Alexia
— Deve haver algo errado nessa história! – Laura rebateu, assustada, vendo o mundo que sempre acreditou, desmoronando a sua volta, então voltou a respirar. – Por isso aí, nossa mãe seria uma adultera, que enganou nosso pai todo esses anos!
— Ou eu sou a filha ilegítima, fui concebida antes do casamento e nosso pai casou com nossa mãe grávida de outro homem – cogitei, mesmo sabendo que essa hipótese era pouco provável, mas, só queria acalmar minha irmã, que me fitava com os olhos arregalados de pavor.
— Será que nosso pai sabia disso?
— Suponho que não. Nunca ouvi nenhum comentário sobre esse assunto.
— Nem eu. Sendo assim, nossa mãe era uma adultera mentirosa! Pobre papai! A data?! Quando esse tal de Tim escreveu essas cartas? – Laura indagou, aflita.
— Entre 1994 e 1995 – respondi, depois de verificar.
— Em 94! É ano que eu nasci! Então, eu sou a filha ilegítima do nosso pai – Laura admitiu, com uma expressão de tristeza, pois, ela o adorava, sempre se gabando de ser a mais parecida com ele, já que gostava das mesmas coisas, andar de bicicleta, longas caminhadas e conversas sem fim.
— Não necessariamente, ele poderia estar falando de mim. Eu tinha apenas dois anos, quando você nasceu, também, era um bebê.
— Isso é terrível, Alexia! O que vamos fazer?
— Laura, por que simplesmente não nos esquecemos dessa história e continuamos a vida, como e não soubéssemos de nada? O que adiantaria conhecer a verdade? É só destruir essas cartas e tudo acaba aqui e agora, entre nós duas, sem traumas. – ponderei, com toda franqueza, pois, tinha a intuição de que se nós nos aprofundarmos nesse enredo, não chegaríamos a lugar nenhum ou, somente, a um monte de mentira e desilusão, e eu já tinha minha cota disso na minha vida atual, sem precisar chafurdar na história pérfida da minha mãe. Fiz a menção de rasgar os papéis nas minhas mãos.
— Não! – Laura gritou e os tirou de mim, em um movimento rápido. – Você não sabe o que está aqui? É o pai de uma de nós duas, podemos ter outra família, irmãos que nem sabíamos que existiam. Você não fica curiosa em conhecê-lo, saber como ele é?
— Não, eu não o conheci até agora, por isso, nunca sentirei sua falta, pois eu tive um bom pai – respondi, direta e com sinceridade.
— Eu também amava o nosso pai, não quero macular a memória dele. Só estou curiosa, para saber quem é esse homem que amou nossa mãe e gerou uma de nós duas. – Laura deu de ombros, com fingida indiferença.
— Realmente, você é muito romântica, Laura. Ter um caso não significa que houvesse uma história de amor por trás disso. Simplesmente, aconteceu por um monte de motivos não tão louváveis, como tédio ou apenas sexo.
— E você é pragmática demais, Alexia. Não viu o que ele escreveu para ela, parecia tão apaixonado.
— Se ele estava apaixonado, por que não ficaram juntos?
— Nunca saberemos o que houve se não tentarmos descobrir.
— Pois bem, pense o que quiser, eu tenho que ir, agora. Maurício deve estar me esperando, em casa – disse, já me levantando, esfreguei as mãos em uma toalha para tirar a poeira, peguei minha bolsa, meu blazer e um saco cheio de lixo. – Podemos continuar em outro dia, ainda temos muito serviço pela frente. Vou jogar esse saco na lixeira. Não se esqueça de fechar as janelas, porque pode chover – recomendei, curvando-me para beijar o rosto da minha irmã e vou embora, deixando toda aquela história para trás, pois, realmente, não preciso de mais drama na minha vida.
Sai do prédio, entrei no meu carro estacionado, logo ali em frente, liguei o som bem alto, em uma música qualquer, não queria pensar, mas, incontroláveis, meus pensamentos divagam só em imaginar que minha mãe era uma adultera e gerou uma criança com outro homem, que eu poderia não ser filha daquele que sempre chamei de pai. Aquela era uma ideia tão absurda para mim, não combinava com nossa mãe sonhadora e romântica, algumas características que não herdei dela, apesar de sermos fisicamente bem parecidas. Nunca soube de quem havia herdado esse meu lado tão prático e até um tanto frio, talvez, do meu verdadeiro pai, caso eu seja a filha ilegítima. Sei que estava pensando nisso, para não me lembrar do real problema que me aguardava em casa.
Estacionei o carro na garage do meu prédio, percebi que o carro de Maurício não estava na vaga dele, senti um aperto no peito, pressenti o pior, reconhecia que estava com medo, porém, precisava enfrentar o que estava por vir, como sempre fazia.
Entrei no nosso apartamento silencioso e escuro, procurei o interruptor e acendi a luz, notei que tudo estava em seu lugar, segurei o ar no peito, enquanto caminhava até o nosso quarto, ainda me restava uma pequena esperança. Acendi a luz, revelando a cama vazia, soltei o ar com força, fui até os armários e os abri, as roupas dele ainda estavam lá, pelo menos, quase todas, senti falta de algumas peças e de uma pequena mala. Olhei sobre o gaveteiro e vi um bilhete. Fui até lá e li: Quando estiver pronto para conversar, eu ligarei. E só, simples e direto. Não queria chorar, mas não consegui, sentia as lágrimas quentes descerem pelo meu rosto, deitei na nossa cama, abracei o travesseiro que ainda tinha o cheiro dele e fiquei ali até adormecer.
Laura
No momento em que Alexia saiu, falando para não esquecer de fechar as janelas porque poderia chover, senti um arrepio percorrera a minha espinha, pois era como ouvir nossa mãe falando aquelas palavras. Ainda estava atordoada com a nossa descoberta, sem compreender como minha irmã podia encarar aquilo de maneira tão natural, me pedido para esquecer. Como conseguiria esquecer que posso não ser filha do meu pai? Que, talvez, haja outro homem desconhecido por aí, que pode ser meu verdadeiro genitor. E se tiver mais algum indício de quem era ele, guardado ali, já que minha mãe adorava preservar os pequenos pertences, que significavam algo ou relembravam algum momento importante na sua vida. Sendo assim, era óbvio que deveria haver alguma lembrança do pai de uma das suas filhas, escondida em uma daquelas caixas, quem sabe, até mesmo uma foto ou algo que me ajude a localizá-lo.
Comecei a vasculhar a caixa onde encontrei as cartas, com bastante atenção. Lá dentro descobri mais alguns cartões postais de belas paisagens, sem nada escrito neles, papéis de bombons, flores secas e, como eu esperava, algumas fotos. Meu coração quase parou quando as segurei diante dos meus olhos. Eram fotos de um lugar campestre, muito mato, árvores e algumas pessoas que não consigo reconhecer. Em outras fotos, minha mãe sorria feliz, no auge da sua beleza e juventude, quase o reflexo da minha irmã Alexia. Na maioria delas, ela parece sozinha, mas, em algumas poucas, estava ao lado de um homem jovem e alto, percebo que eles não se tocavam, mantinham uma distância cerimoniosa, os dois parecendo bastante felizes, naquele momento congelado no retrato. Seria esse o meu possível pai? Olhei para o verso da foto, desejando que houve algo escrito ali. Reconheci a letra de minha mãe, que dizia eu e Tim, porém, sem datas.
Por um bom tempo, observo aquele desconhecido que poderia ser meu pai, procurando a mim ou a minha irmã nele. Reparo na sua boca, nos seus olhos e seus cabelos, que são escuros como o meu, mas não me vejo nele. Ao mesmo tempo, relembro do homem que sempre conheci como meu pai, que me carregava no colo, brincava comigo e me ensinou a andar de bicicleta e a nadar e tantas outras coisas importantes na minha vida. Outra vez, sinto as lágrimas descerem pelo meu rosto. Nesse momento, não sei o que fazer. Quem sabe, Alexia não esteja certa, se não seria melhor jogar tudo fora e esquecer essa história. Entretanto, não sou como ela, tão prática e determinada, sou uma pessoa emotiva e nostálgica. Quero conhecer quem eu sou de verdade, a minha origem, jamais deixaria isso passar por mim, como se nada tivesse acontecido, nunca poderia esquecer, sempre restaria a dúvida a me atormentar. Então tenho uma ideia, uma forma de tentar descobrir a verdade, mas, antes, preciso falar com minha irmã, porque já está muito tarde para incomodá-la, amanhã ligaria para ela.
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