E agora?
6 Bem depressa
Alexia
Eu não posso acreditar que Laura me colocou nessa roubada, vim parar em um lugar desses, ainda por cima sem telefone, internet ou nenhuma outra possibilidade de me comunicar com Maurício, ele não pode me encontrar! Embora, talvez, seja melhor assim, pois, pelo menos terei uma desculpa para ele não me procurar, mesmo nunca sabendo se tentou.
Aquele quarto mais parece uma cela de monastério, tamanho sua simplicidade, não estou acostumada com isso, não que eu seja muito fresca ou muito exigente, mas aquilo já era demais. Imagino se Maurício estivesse aqui, como reagiria, talvez, apenas achasse tudo engraçado e se divertiria com a situação. Respiro fundo, querendo me acalmar, lembrando que serão apenas alguns dias das nossas vidas, poderei sobreviver a isso tudo pela loucura da minha irmã.
Nathan colocou as nossas malas no chão, ao lado da mesa rústica em um dos cantos.
— Se vocês quiserem, posso levá-las para conhecer a fazenda, já que chegaram depois de todos – ele se oferece, gentilmente.
Estou pronta para dizer que não estava a fim de andar por aí, mas Laura me pediu com os olhos, sendo assim concordei, só para agradá-la, pois percebo que ela está interessada nesse cara. Espero que não seja outro cafajeste, dos quais minha irmã está acostumada a se meter, já que, sempre se interessa pelo cara errado, do tipo fracassado ou imaturo, cai de cabeça em relações complicadas e destrutivas, por fim, acabada sofrendo, desiludida. Mesmo que esse Nathan não pareça ser uma má pessoa, espero que seja melhor que o último namorado dela.
Saímos do quarto, descemos em direção a casa grande, pelo mesmo caminho de terra e cascalho no qual viemos, ao longe, ouço os sons dos animais, cantar de um galo, mugidos de vacas, não acredito que estou em um lugar desse, logo eu que sempre preferi a agitada vida urbana.
— Esse lugar é do século XVIII, era uma antiga fazenda de café. Tim sempre gostou muito daqui, onde costumava passar as férias, quando era mais jovem e, assim que pode, comprou, reformou e melhorou tudo isso, que estava em ruínas, principalmente a casa – Nathan explicava, podia sentir o entusiasmo na voz do cara.
— A casa ficou muito bonita, foi um belo trabalho de restauração – Laura elogiou e ele lhe deu um sorriso cheio de orgulho.
— Sim, fico mesmo, tiveram que refazer quase tudo, achar peças de demolição para repor as que faltavam, mandar fazer outras. Os móveis foram adquiridos em outras fazendas da região. Querem conhecer lá dentro? – ele propôs, Laura assentiu com a cabeça, enquanto eu não estava com a mínima vontade de ficar de coadjuvante para aqueles dois.
— Olha! Não me levem a mal, mas mudei de ideia. Eu estou bem cansada, por isso, vou voltar para... o quarto e descansar um pouco – avisei e tomei o caminho de volta, sem esperar resposta.
Laura
— Acho que Alexia está chateada porque o marido não pode vir. Ele é muito ocupado. Os dois são executivos de grandes empresas e trabalham demais, muita responsabilidade, muito comprometimento – expliquei para Nathan, mesmo não entendendo aquela atitude tão estranha da minha irmã, quando a observamos se afastar.
— E você?
— Eu trabalho em uma pequena empresa como secretária e estudo à noite, estou fazendo minha segunda faculdade. Acho que ainda estou procurando o meu caminho.
— Às vezes, pode se levar a vida toda para se encontrar. Veja o Tim, ganhou muito dinheiro no mercado de ações, mas não era feliz, até vir para aqui.
— Você gosta muito desse Tim.
— Ele é um cara bacana, nós nos damos muito bem. Espere só até conhecê-lo.
— Estou, realmente, ansiosa por isso.
Ele ficou sério, sua expressão mudou, surpreendendo-me.
— Laura, eu sei que é estranho, nós nos conhecemos, há apenas poucas horas, mas não temos muito tempo a perder, pois o feriado passa muito rápido, então, se não for muito atrevimento da minha parte, você quer sair comigo hoje?
Pisco duas vezes, abismada, ao perceber que ele estava interessado em mim, assim como eu por ele, mas não esperava algo tão direto. Demorei algum tempo, ele esperou, um tantinho ansioso, finjo que penso, querendo bancar a difícil.
— Sim, eu aceito sair com você, Nathan.
— Bom, aqui perto não tem nenhum lugar de luxo, mas podemos nos divertir bastante.
— Tudo bem.
— Então, depois do jantar? Está bom para você?
— Sim, para mim, está ótimo.
Espero que a ideia de diversão dele, seja parecida com a minha, logo, depois, ele se despediu, sem me mostrar nada, dizendo que tinha trabalho a fazer, dei de ombros e voltei para o nosso bangalô, rindo comigo mesmo. Esse foi o convite para sair mais rápido que tive, sem imaginar a que tipo de lugar poderíamos ir por ali.
Quando entrei na nossa acomodação, encontrei minha irmã deitada na cama, o que é bem estranho, pressinto que há algo errado, mas não tenho coragem de perguntar.
— Já voltou do passeio? – ela perguntou, sem desviar os olhos do teto.
— Nathan lembrou que tinha algo para resolver, mas antes me convidou para sair, hoje à noite, se você não se importar?
— Claro que não me importo, ele parece ser um cara legal.
— Para variar – completei, com sarcasmo.
— Eu não disse isso – Alexia rebateu.
— Confesse que pensou.
— Tudo bem, eu pensei mesmo, mas, nem sempre os caras bonzinhos são legais.
— Por que está falando isso? – Fiquei desconfiada.
— Por nada – ela respondeu e eu não acreditei, havia algo errado que não queria me contar, porém, não tinha direito de me meter na vida dela, mesmo assim...
Minha irmã Alexia nunca foi uma pessoa expansiva, jamais revelava seus medos, escondia suas fraquezas, sobre camadas de autoconfiança, querendo sempre parecer forte, mesmo que tivesse se remoendo por dentro, enquanto eu desabava por qualquer bobagem, chorava e sofria.
Depois de algum tempo, não aguentei ficar muito mais tempo presa, naquele lugar minúsculo, precisava de um pouco de ar e luz do sol, sai e andei por ali, pensando se um dia, poderia me adaptar com uma vida assim, achei que sim.
Alexia
Fiquei feliz por estar sozinha outra vez, mesmo naquele quarto claustrofóbico, pois, desde crianças, eu e Laura não ficávamos tanto tempo assim juntas, percebi como não tínhamos nada para conversar uma com a outra, como estávamos distantes. Nossas vidas tomaram rumos bem diferentes, sendo assim, nunca poderia me abrir com ela, contar-lhe o que estava acontecendo entre mim e Maurício, como estávamos tão próximos da separação, que até algum pouco tempo, achava inconcebível. Talvez, Maurício pudesse até me perdoar, mas nunca seria a mesma coisa, como se o nosso perfeito mundo de cristal brilhante fosse estilhaçado em milhares de pedaços, nunca conseguiríamos remendá-lo outra vez.
O pior de tudo, que eu ainda o amava muito, então, como pude traí-lo assim daquela maneira, mesmo com a desculpa que estava entediada, um tanto bêbada e Carlos era muito sedutor, entretanto, eu deveria ter sido forte, mesmo sendo apenas uma única vez, e logo me arrependi, a ponto de confessar para o meu marido o que fiz. Mas, ele não me perdoou, jamais me esquecerei daquele seu olhar de decepção, do seu silêncio amargo, sua expressão de desprezo, doeu mais do que um tapa na cara. Ele só ficou parado ali, me fitando com o olhar tão afiado que machucou minha alma, enquanto, eu confessava o meu pecado. Vi todo aquele amor e orgulho que tinha por mim, escorrer feito água indo direto para o esgoto, para a podridão, eu caí aos seus pés, implorando por perdão, mas ele só se virou e foi embora. Agora, não sabia o que fazer para tê-lo de volta. Como poderei viver sem ele? Sei que posso, só não quero.
Nosso casamento nunca foi perfeito, mas, sempre nos entendíamos, tínhamos objetivos parecidos, éramos dois lobos solitários em uma terra de predadores, no entanto, estava ficando cansada de provar para todo mundo como eu era boa, então, eu sucumbi, uma única vez, e estou pagando muito caro por isso.
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