E Você? aonde Vai?
2 Capítulo 2 – Liberdade!
Mesmo de noite, a cidade não perdeu a sua beleza. Kino, em cima de Hermes, e aproveitando a escuridão, resolve passear um pouco. Amanhã, segundo sua promessa de “ficar apenas três dias em cada País”, ela teria que ir embora.
Sua mente viajava longe, será que nessa cidade todos achavam tudo perigoso, ou, talvez fosse a desculpa que aquele homem encontrou. Sua linha de raciocino é interrompida quando, de longe Kino observa um ser pequeno, coberto por uma capa, estranho, pois já era de noite e todos os habitantes já haviam entrado em suas casas e fechado as lojas.
– O que você acha, Kino? – Sussurra Hermes, curioso.
– Não sei...
Kino desliga a moto e vai andando devagar até o vulto, mas este parece perceber sua presença e vira para olhar.
Debaixo daquele pano, um lindo rosto se mostra. Uma menina! Seus cabelos estão cobertos, mas Kino pode perceber a quão bela aquela garota é. Seus olhos gentis fixam nos de Kino, assustada, e eles ficam se olhando por um tempo, até que Kino resolve quebrar o silêncio.
– Uma... Menina? O que você...
Ela dá alguns passos para trás e acaba caindo sentada, extremamente assustada, até que uma lágrima desliza em uma de suas bochechas rosadas.
– N-não... Não conte para ninguém! Por favor! Eu não queria! Eu só... Só estava querendo passear e...
Ela para de falar assim que ouve passos vindos de trás. Três homens vinham correndo até eles, para o desespero da jovem garota.
A menina levanta-se e fica olhando os homens e Kino, sem saber o que fazer, seria pega, e então?! O que aconteceria com ela? A cidade era um lugar perigoso para meninas! Ela não deveria ter saído!
Em um rápido movimento, Kino a pega pela capa e coloca-a em Hermes, subindo logo em seguida e ligando-o imediatamente. Mesmo depois dos homens pararem de segui-las, Kino ainda anda um pouco mais, parando numa rua escura.
– Kino! Podíams ter sido pegos! – Reclama Hermes, sentindo-se usado.
– Mas não conseguiram – Responde, calmamente.
– Ah! Mas poderiam...
– Obrigada...
Os dois param de discutir e prestam atenção na menina, sua capa havia voado com a velocidade que Hermes correu, mostrando seus longos cabelos pretos, aumentando sua beleza. Era raro, muito raro conseguir encontrar uma menina com tal beleza, que Kino definiu como “indescritível”.
– De nada – agradece Hermes – Mas, por que fugia?
– Hermes! – Repreende Kino, segurando novamente sua moto e indo embora, mas antes, olhando para a menina – Cuide-se...
– Espere! – Pede a menina, segurando no casaco de Kino.
Ela então desce da moto e a encosta na rua, sentando do lado, acompanhado da garota. Ela não era muito alta e aparentava ter aproximadamente 10 anos.
– Meu nome é Jooji – apresenta-se sorrindo, agora mais calma – Obrigada por me salvar, você é o viajante que chegou ontem, né?!
– Sou – Concorda Kino – Meu nome é Kino, e esse... – Ela olha para sua moto – ...É o meu companheiro Hermes.
– Prazer em conhecê-la – cumprimenta Hermes – Mas por que estava fugindo?
– A cidade é muito perigosa para meninas... Eu não deveria ter saído de casa, é isso o que acontece, eu deveria saber! Mas queria ver como é aqui fora – Ela fica olhando triste para baixo.
– Mas, aqueles homens pareciam ser guardas, não?! Se for pensar que eles estavam lá para proteger, eles não seriam o perigo...
A menina fica olhando-o, sem saber o que dizer, mas logo encontra palavras.
– Não! Não são eles!
– Então quem são? O que é o perigo?
Mais uma vez, ela fica olhando-o, dessa vez, porém, nenhuma idéia surge para resposta e ela apenas abaixa a cabeça e fala baixo.
– O mundo é perigoso, sempre me disseram isso. Não é seguro para as meninas andar pelas ruas. E por isso, tudo o que precisamos está aqui, não precisamos passar pelas muralhas que nos protegem...
– Então é por isso que tem tanta coisa aqui... Mas... – Insiste Kino – Por que as meninas precisam ficar dentro das casas?
A menina parece assustar-se com a pergunta e logo em seguida responde de modo confiante.
– Ué... Por que sim! Meninas não podem se defender sozinhas! Você é um menino, deve entender...
Dessa vez Kino não consegue segurar o riso, deixando a menina um pouco confusa.
– Já é a segunda pessoa nessa cidade que te confunde com um menino... Né?! Kino? – Comenta Hermes.
– Aham – diz Kino, ainda entre risos e, olhando para a menina, ela completa a explicação – Eu sou uma menina...
A garota fica olhando-a sem reação. Uma menina? Viajando? Passando por vários lugares e sozinha. Protegendo a si mesma. Isso não entrava em sua cabeça, não tinha como entender tal coisa, esperou ouvir que era uma brincadeira, mas ambos, a moto e Kino pareciam estar falando a verdade.
Na realidade. Ela sempre sonhou em viver aventuras, fugir da cidade, mas tinha medo, todos diziam ser muito perigoso. Ela então aceitou e continuou vivendo sua vida, mas sempre com a imaginação em um outro lugar, pensando como seria o mundo lá fora.
Uma luz ilumina-se dentro dela. Então era possível! Uma simples menina poderia sobreviver fora dos muros do País?! A esperança crescia cada vez mais, e ela não pode evitar de sorrir. Aquela garota á sua frente, Kino, acabara de virar uma pessoa idolatrada para ela, alguém que ela gostaria de ser. E talvez pudesse se roubasse uma moto de alguma loja e fugisse durante a noite, talvez conseguisse sair.
Não...
Melhor não... Talvez a Kino só conseguisse por ser forte, mas ela, nunca seria... Deixou para lá a idéia, sem falar que mesmo que conseguisse sair, nunca passaria pela floresta.
A floresta!
– Kino! Como você atravessou a floresta?
Kino olhou para Hermes e depois de volta para a pequena Jooji.
– Passando... Fomos andando e chegamos até aqui, não teve segredo...
– É... E foi muito agradável... – Completou Hermes.
A menina olhou-os desconfiada.
– Mas, todos sempre disseram que era assombrada...
– Assombrada? – Indagou Kino, curiosa, será que estavam falando do mesmo lugar? – Ela era tão bela, as árvores pareciam falar comigo...
– Mesmo? – Perguntou Jooji, ela parecia estar empolgada.
Assim, as duas continuaram conversando, Kino contando-lhe suas aventuras e vendo o sorriso da garota aumentando cada vez mais, o que lhe dava ainda mais vontade de contar-lhe mais e mais, até que o sol começou a nascer e o primeiro canto dos pássaros chegou aos seus ouvidos.
– Nossa! Já amanheceu! – Diz Kino, olhando para o céu, sorrindo, diferente de Jooji que levanta num pulo.
– Essa não! Eu preciso voltar! Logo as pessoas vão acordar! – Ela parecia muito aflita e Kino levanta-se junto, acordando Hermes – Não! Eu não vou chegar a tempo.
– Quer uma carona? – Pergunta kino, estendendo-lhe a mão.
Ela concorda sorridente com a cabeça, ainda aflita, e ambas sobem na moto, começando a andar pela cidade. Grandíssimo erro, pois as pessoas que já saíam de suas casas e lojas, ao verem Kino, carregando uma menina ficavam espantadas, ou melhor, bravas.
Mas as duas só perceberam isso quanto já era tarde demais. Kino viu que as pessoas começaram a cercá-la, bravas, desde adultos até crianças, nenhum com uma boa expresão.
– Ei! O que você pensa que está fazendo? – Pergunta o padeiro, com um facão em uma das mãos.
Kino é forçado a parar de andar, pois várias pessoas já estão cercando-o. As pessoas então começam a falar paralelamente.
– Ele está carregando uma menina!
– Ele a raptou!
– Sabia que era perigoso!
– Não deveríamos tê-lo deixado entrar!
– Peguem-no!
A jovem Kino fica apenas observando-os, passando a mão perto de uma de suas armas, se fosse preciso, não pensaria duas vezes antes de usá-la, não queria morrer, não podia, prometera isso á sua mestra.
– Espera!
A jovem que estava sentada atrás desce de Hermes, tentando acalmar a população.
– Ela não me capturou! Fui eu! Não a ataquem!
O padeiro mais uma vez adianta-se a falar, mas dessa vez apontando a faca para a menina.
– Então você garotinha, resolveu desonrar nossas leis?
A situação havia mudado, e agora, quem estava com problemas era Jooji. Ela tremia, e agora? Seria morta?
Mas Kino não podia deixar acontecer. Em sua mente, lembrou-se de algo que há muito tentava esquecer. Lembrou-se de quando sua própria cidade revoltou-se contra ela e ameaçou mata-la. Mas daquela vez era diferente, não deixaria que nenhuma gota de sangue fosse derrubada, nem por primeiros, segundos ou terceiros.
Em um rápido movimento ela pegou sua arma e apontou para o céu atirando e assustando a todos que estavam em volta. Fazendo o padeiro parar e cair sentado.
Todos ficaram olhando assustados para Kino, que os olha brava.
– Não se aproximem!
Todos obedecem.
– Jooji! Suba!
– Que?
Kino tinha um olhar confiante e Jooji entendeu, assim que a menina subiu na moto, Kino ligou Hermes e apontou para um lado da rua, cheio de pessoas, que não eram bobas e, obviamente, saíram correndo, abrindo espaço para Hermes passar.
Acelerando, eles passaram por todos e assim continuaram até chegarem à muralha, a grande muralha, mas Kino, que havia notado como funcionava ao entrar, atirou numa corda, localizada no canto, fazendo os portões abrirem-se e conseguir uma passagem ampla e segura.
Jooji apenas segurava forte a cintura de Kino, com os olhos fechados, seu coração batendo, ameaçando sair pela boca, apertando Kino o máximo que podia, podendo sentir também o coração dela. Estava agitado assim como o seu. Então, heróis também sentiam medo?
Herói não! Heroína! Jooji estava com medo, mas também feliz, dentro de seu coração, sentiu uma sensação tão boa, será que era aquilo o que chamavam de... Liberdade? Se fosse, acabara de se tornar seu sentimento favorito.
Só percebeu que estavam longe quando entraram na floresta. Aquela mesma que Kino passara há dois dias. Assim como antes, ela estava magnífica, brilhante e mágica.
Eles pararam e Kino desceu de Hermes, ajudando Jooji a descer também, suas pernas tremiam, e Kino teve que ajuda-la a ficar de pé.
– Você está bem? – Perguntou Kino, assustado com o estado da garota, mas esta lhe respondeu com um sorriso, abraçando-lhe depois.
– Sim! Obrigada! Obrigada!
Ela parou de abraçar Kino e olhou para as árvores.
– Bem que você disse... Esse lugar... É lindo... – Seus olhos brilhavam, mas será que Kino fizera o certo? O que faria com a menina agora?
Enquanto a garota ainda estava encantada, vendo as árvores, Kino subiu em Hermes e ligou o motor, assustando um pouco Jooji., mas essa logo se recupera.
– ah! Aonde vamos agora? Kino?
Kino coloca o capacete e os óculos de proteção, olhando-a sério.
– Se você quiser, pode voltar...
– Que? – Perguntou a menina, incrédula com a situação.
– Como assim kino? – Pergunta Hermes, até agora calado. – Salvou a menina para depois a fazer voltar?
Kino sorri e respira fundo
– Não, Hermes... – Ela olha para jooji, que já estava quase chorando. – Você pode voltar se quiser, vir comigo se quiser, ou ir andando para lá, onde há uma linda cidade, a qual visitei antes dessa, se quiser...
Jooji ficou olhando-a, nunca alguém lhe dera tantas escolhas, e agora, não sabia o que fazer com elas.
Voltando a olhar para frente, mas ainda sorrindo, Kino completa seu raciocino.
– Por que agora, você é livre...
Ao ouvir isso, o rosto de jooji se ilumina e ela acena.
– Obrigada! Kino! Espero te ver outra vez algum dia!
– Adeus! – Se despede Kino, indo embora, e continuando a sua viagem.
Para onde iria? Isso nem Kino e nem Hermes sabiam, apenas que iriam.
Fim
– Ah! E no final eu nem provei as sobremesas! – Lembra Kino, depois de quase duas horas de viagem.
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