E Se fosse verdade?
42 Tomo uma Decisão
Notas iniciais
Depois daquela noite, os dias no acampamento começaram a se passar rapidamente.
Como sempre, eu treinava as minhas habilidades de esgrima todos os dias, juntamente com Matheus, Marcos e Stefferson. Depois, Silena Beauregard me dava aulas de equitação, sobre como montar nos pégasos, como entendê-los e tal. Para mim, essa era a melhor aula do dia. E só avisando, não era por causa da beleza dela... Eu acho.
Depois, tentava praticar arco e flecha, junto com os campistas de Apolo. Dandara me ensinava como manejar o arco. Eu seguia todos os passos que ela me dizia, mas é claro, eu não conseguia uma boa proeza com o instrumento.
— É só uma questão de prática. — disse ela para mim. — Quando você pegar o jeito, você vai saber atirar.
— Quem sabe né? — murmurei.
Após isso, Igor e eu praticamos canoagem. Apostamos corrida para ver quem ganhava, mas justamente quando eu estava ganhando, uma onda veio do nada e me derrubou.
— Ops! Foi sem querer! — riu Igor.
— Ei! — gritou um campista mais velho ao longe. — É para vocês treinarem, não ficarem brincando na água.
— Ok! — gritei, tentando subir de volta para a minha canoa.
***
O mês de julho chegou muito rápido.
Mesmo que eu estivesse morrendo de vontade de ir para casa, estava feliz, por que finalmente havia encontrado um lugar onde as pessoas se importavam comigo.
Grover e eu estávamos sentados no píer do lago. Ele me contava dos planos que ele tinha em mente. Alguns muito estranhos, como procurar um deus chamado Pã.
— Quem é esse Pã? — perguntei a ele.
— É o senhor dos lugares selvagens. — contou ele. — Estou à procura dele há anos.
— E ele está perdido?
— Não. Na verdade está desaparecido.
— Ah, dá no mesmo. — resmunguei.
— Ele pode restaurar a natureza ao estado em que ela era antes... Dos humanos começarem a destruí-la. — ele bateu os pés, digo, os cascos, em sinal de aborrecimento.
— Ei. — falei. — O que vai acontecer amanhã? Annabeth me disse que vai haver uma festa com fogos ou coisa assim.
— É mais ou menos isso. — explicou ele. — É o maior programa de verão daqui. Costuma ser bem legal.
— Ah. — disse eu, meio distraído.
Estava pensando em convidar Ashley para esse evento. Bem... Não éramos namorados nem nada, mas eu até que gostei dela.
Nesse momento, uma vontade enorme de fazer uma coisa veio a minha mente.
— Hã... Eu vou ali falar com uma pessoa está bem?
— Tudo bem. — disse Grover. — Eu também preciso falar com alguém. Vou contar a Júniper que estou pretendendo viajar novamente a procura de Pã.
Sorri para ele e fui em direção a Casa Grande.
***
— Quíron, pode me emprestar um celular?
Ele me olhou como se eu tivesse batido nas costas dele e saído correndo dando gargalhada.
— Para que?
— É que quero falar com minha mãe.
— Ah. — ele sorriu. — Bem, você sabe que tentamos evitar usar aparelhos eletrônicos por aqui.
— Sei.
— Bem, eu posso lhe emprestar... — ele franziu a testa. — Não é mais seguro você enviar uma mensagem de Íris?
Olhei para ele.
— Hã... É verdade. Nem tinha pensado nisso.
Quíron me jogou uma dracma.
— Fale com ela. Ah, e Raphael... Só para você saber, Jonathan e Lauan estão bem. Eles estão acordados.
— Sério?
Quíron assentiu.
— O sr. D os curou.
— Nossa! Então... Mais tarde eu vou falar com eles. — ergui a dracma. — Agora vou falar com minha mãe.
Corri para o meu chalé. Lá havia uma fonte de água salgada que servia exatamente para isso.
Chegando lá, fiquei em pé diante da fonte, que fazia um pequeno arco-íris na luz da tarde, e disse:
— Ó deusa do arco-íris...
Nunca pensei que existisse uma deusa do arco-íris, Pensei. Afinal, o que ela faz mesmo? Só envia mensagens? Será que é verdade mesmo aquele negócio de que existe um pote de ouro no fim do arco-íris? Mas a onde é o fim do arco-íris? Hã... O que estou fazendo?
Balancei a cabeça.
— Concentre-se. — murmurei para mim. — Hã... Ó deusa do arco-íris, aceite a minha oferenda.
Joguei a moeda, que desapareceu em um tremeluzir dourado.
— Mostre-me Katryn Miller.
Esperei alguns segundos, e uma imagem começou a aparecer. Minha mãe, sentada, com as mãos na cabeça. Meu coração se apertou. Eu queria abraça-la, mas não podia.
— Mãe! — chamei.
— aahhh! — ela deu um grito. Olhou para os lados, até conseguir me ver. — Raphael! Ah, Graças a Deus! Você está bem?
Ela parecia estar aliviada. Seus olhos estavam vermelhos e inchados.
— Estou bem. — disse eu. — E a senhora, como está?
— Agora estou muito melhor.
Eu suspirei.
— Mãe... Sabe, aquilo tudo que aconteceu...
— Tudo bem, meu filho. Estou tentando esquecer aquilo.
— É... Bem...
— Você vem para casa no fim do verão?
Sim! Pensei, imediatamente. É claro que iria.
Mas eu hesitei.
Eu iria ficar longe de todos os meus amigos daqui do acampamento. Sentiria falta desse lugar, apesar de no inicio ter sentido vontade de sair correndo daqui. E se algum monstro nos atacasse? Eu estando fora do acampamento estaria em constante perigo. E ainda havia a escola. Será que eu ainda voltaria para lá?
Uma luta de emoções estava acontecendo dentro de mim. Queria passar o ano inteiro aqui no acampamento, mas lembrei de que a maioria iria passar o resto do ano fora.
Olhei para ela, e dei minha resposta.
— Sim. Eu vou para casa no fim do verão.
Ela sorriu.
— Bom, então... Vejo você depois.
— Tchau, mãe!
Ela passou a mão pela mensagem de íris.
***
No dia 4 de julho, todos se reuniram na praia para assistir a fantástica queima de fogos.
Meus amigos e eu estávamos sentados na areia em um círculo, igual aos os outros, enquanto os filhos de Hefesto colocavam os fogos, que pareciam grandes foguetes, em um barco, e o empurravam para longe da costa.
— Vai ser muito lindo. — contou Annabeth, segurando a mão de Percy. — Vocês vão ver. Parecem até quadros no céu.
— Uau! — disse Beatriz.
— Esses fogos são do tamanho de foguetes. — observou Stefferson. — Devem fazer um barulho e tanto.
— Pena que não temos celulares. — murmurou Israel, que estava de mãos dadas com Barbara. — Queria tirar algumas fotos.
Eu estava começando a construir um castelinho de areia, quando todos começaram a se preparar para o espetáculo.
— Hora do show! — Annabeth derrubou meu lindo castelinho de areia, que já estava com uma ponte formada por baixo. Tanto trabalho para nada.
— Ei! — protestei. — Não faça isso! Se alguém derrubasse sua casa, ficaria feliz?
— Se a minha casa fosse um castelo, sim. — ela riu.
De repente, Jonathan e Lauan chegaram perto de nós.
— Ei. — sorriu Annabeth. — Que bom que vocês estão bem.
— Pois é. — concordou Lauan.
— Sentem-se conosco. — convidei.
Abrimos espaço para eles se sentarem.
— E então... Como vocês estão?
— Bem confuso. — murmurou Jonathan. — Eu ainda nem sei como vim parar aqui no acampamento outra vez.
— Hã... Depois explicamos tudo a vocês. — prometeu Percy. — Mas do que vocês se lembram?
— Que... fomos procurar algo para comer — disse Lauan. —, e achamos um buraco fechado com correntes. Daí nós as cortamos e entramos.
Eu lembrava. Aquilo parecia ter acontecido há milhares de anos.
Nesse momento, Grover chegou. Ele estava usando calças jeans, uma camiseta verde, e o seu boné rastafári. Levava uma pequena bagagem por sobre as costas.
— Ei, galera. — disse ele. — Vim dizer adeus.
— O quê? — perguntou Israel. — Por quê? Pra onde vai?
— Viajar, procurando o deus Pã.
— Pã? Que Pã?
— Depois eu lhe explico. — disse ele.
— Grover, por que não me contou? — Percy segurou os ombros dele. — Tem certeza disso? Não vai parar em uma caverna de um ciclope novamente, né?
Grover riu.
— Tenho certeza que não.
— E você vai agora? — perguntei.
— Agora. — respondeu.
— Agora, agora?
— Agora.
— Agora, agorinha?
— Sim.
— Agora nesse momento?
— Ah, Chega! — exclamou Igor.
— Ok. — falei. — Só estava querendo saber.
Annabeth deu-lhe um abraço, trocou um aperto de mãos com Percy e o restante de nós.
— Bem, desejem-me sorte. — disse ele.
— Boa sorte. — acenou Matheus.
Ele foi andando, quando eu o chamei.
— Grover?
Ele se virou.
— Você vai agora?
Ele fez uma careta.
— Engraçadinho.
— Boa sorte, parceiro. — Acenei para ele.
Nesse momento, os fogos começaram a explodir no céu, iluminando todo o ambiente.
Annabeth estava certa. As explosões eram tão bem sequenciadas que pareciam quadros animados. Vi Hércules derrotando a Hidra. Depois, uma garota com um arco e flecha caminhando por entre as estrelas. Perseu decapitando a Medusa (Percy pigarreou bem alto nesse momento, com uma expressão de orgulho na cara.). Zeus derrotando o pai, Cronos, e várias outras animações dos deuses.
Fiquei impressionado, de queixo caído.
— Deviam ter trazido pipoca. — sussurrou Igor do meu lado.
— E refrigerante. — completei.
— E óculos em 3D. — disse Marcos.
Olhei para ele. Ele deu de ombros.
— Seria mais emocionante se funcionasse.
Annabeth suspirou. Os olhos fitos no céu.
— Nunca me canso de ver isso.
Concordei com ela em pensamento, apesar de estar presenciando isso pela primeira vez.
***
O ultimo dia de verão chegou muito rápido.
Os campistas estavam agitados, correndo por todos os lados para fazer as suas ultimas tarefas no acampamento. Os filhos de Hermes limpavam o seu chalé. Os de Afrodite corriam de um lado para o outro com espanadores e esfregões.
Percy, Igor e eu arrumávamos o nosso chalé. Percy varria, Igor tirava a poeira das coisas, e eu bebia suco com um canudinho, sentado, fiscalizando o trabalho dos dois escravos.
— Mais rápido! — exclamei. — Quero esse chalé limpo até o fim do dia!
Eles me olharam com uma expressão assassina.
— Brincadeira. — sorri. — Por onde eu começo?
Á noite, fizemos um ultimo jantar juntos e queimamos parte da nossa comida para os deuses. E bem no ultimo dia, Marcos e Matheus foram reclamados como filhos de Apolo, o que deixou os outros filhos de Apolo bem surpresos. Agora eu entendia por que às vezes eles conseguiam atirar com tanta precisão.
Após isso, Quíron e os conselheiros mais velhos se reuniram junto à fogueira para entregar as contas de fim de verão (Que era uma espécie de prêmio por sobreviver mais um ano.). Ganhei um colar de couro, assim como o restante dos meus amigos. E quando vi a minha conta pelo o meu primeiro verão no acampamento, fiquei meio sem jeito. A conta era uma bolinha preta, do tamanho de uma moeda, com um desenho cintilando no centro. Olhei, e percebi que o desenho era o território brasileiro, com destaque na parte nordeste do país.
— Isso é representando a missão que vocês assumiram. — explicou Quíron. — Estou muito orgulhoso de vocês.
Após isso, fomos ao Anfiteatro para uma ultima cantoria. No fim, o sr. D levantou-se e murmurou baixinho:
— Até que enfim acabou. — ele sorriu, e anunciou. — Bem, como todos sabem, hoje foi o ultimo dia. Amanhã, quem quiser, poderá partir para as suas casas para passar o restante do ano. Assim eu não terei de aguentá-los. — ele bocejou. — Quem quiser ficar o ano inteiro, terá que avisar na Casa Grande antes do meio-dia, caso contrário, será devorado pelas Harpias. Enfim... É só. Boa noite para vocês.
Ele acenou com a mão e a fogueira se apagou. Fomos em filas, no escuro, cada um para o seu chalé.
***
No meu sonho, eu via varias cenas que já tinha acontecido. Eu estava novamente na batalha do acampamento, sendo jogado de um lado para o outro por gigantes, que riam sem parar. Eu me sentia como uma bolinha de tênis sendo arremessada de cada lado.
— Parem! — gritei.
— Não, garoto. — a voz de Cronos ecoou pelo o vale. — Não vou parar tão cedo.
Um cão infernal me mordeu na cintura e me jogou com toda a força contra uma arvore. Senti uma dor terrível. Meus músculos pareciam estar sendo triturados.
Nesse momento, o sonho mudou.
Vi um vulto percorrer a cidade de Nova Yorque. Ele se movia velozmente e destruía tudo o que via. O ambiente mudou, e eu me vi no acampamento novamente, agora, com esse estranho vulto dentro dele. Eu me senti extremamente confuso, quando o vulto chegou perto de mim e deu uma risada sinistra. Antes de ele me golpear com um machado, pude ver de relance a cor do rosto dele. Era verde, com uma cabeça grande.
Acordei, suando frio.
— Ei, cara. — disse Igor. — Acorde. Já é de manhã.
— O quê?
— Alguns campistas já estão indo embora.
— Hã? — franzi a testa.
— Vamos arrumar nossas malas.
Levantei-me, totalmente tonto. Aquele sonho foi horrível. Mas a lembrança de que eu veria minha mãe hoje espantou o medo.
Eu sorri.
— Vou arrumar minhas coisas.
Decidi passar pelo menos a metade da manhã no acampamento, só para me despedir dos outros. Treinei um pouco, discuti um pouco com uns filhos de Ares, e só. Alguns campistas já estavam indo embora carregando suas malas para o topo da colina, onde Argos os esperava para ir deixá-los. Decidi ir para a quadra de vôlei brincar um pouco.
Annabeth, Barbara e Beatriz quiseram jogar comigo. Fizemos duplas e começamos a partida. Tenho que admitir, Annabeth sabia jogar vôlei muito bem. Mas mesmo assim, eu e Beatriz vencemos.
As onze horas, arrumei minha minhas coisas para ir embora. Stefferson, Matheus e Marcos me contaram que decidiram ficar no acampamento o ano todo. Eu compreendi. Eles não tinham a onde morar. Se saíssem daqui, para onde iriam?
— Tudo bem. — disse eu. Estendi a mão para cada um deles. — Foi um prazer conhecer vocês.
— Igualmente. — respondeu Matheus.
— Se quiserem, podem me visitar em casa, ficar alguns dias lá. — sugeri.
Eles assentiram.
Barbara e Beatriz vieram até mim. Elas também iriam ficar aqui o ano todo.
— Só queria dizer tchau! — murmurou Barbara. — E... Obrigado, também. Não estaríamos aqui se não fosse por vocês.
— Ora, que é isso. — falei, meio sem jeito. — Não foi nada. Foi muito legal conhecer vocês.
— Idem. — disse Beatriz.
Eu suspirei.
— Bem... Acho que já vou indo. — fui andando, mas me virei para eles. — Tchau. — acenei.
Eu estava com muita pena deles. Não queria deixa-los aqui, mas não tinha outra opção.
Subi a colina, onde estava o pinheiro de Thalia. Argos, o cara com olhos por todo o corpo, estava me esperando para levar Israel e eu para casa. Juntamente com ele estava Quíron, Annabeth, Percy, Igor, Israel e Dandara.
— Então... Essa é a hora de dar tchau. — disse Annabeth.
— Não venham com sentimentalismos. — resmungou Israel. — Eu não gosto disso.
— Bem... — Igor estendeu a mão para Israel. — Adeus cara.
Israel apertou a mão dele.
— Foi legal conhecer vocês. — admitiu ele.
— Igualmente. — disse Percy.
Annabeth abraçou Israel, que parecia totalmente envergonhado.
— Tenha cuidado.
— Vou ter.
— Tchau, Israel. — acenou Dandara.
Ele sorriu.
— Tchau, Quíron.
— Até o próximo verão — sorriu ele.
Argos foi ligar o carro enquanto Israel ia atrás dele. Meu coração estava apertado. Eu não queria deixar meus amigos. Passamos por tanta coisa juntos. Sentia como se eles fossem parte de mim.
Estendi a mão para Percy.
— Tchau, Cabeça de Alga.
— Ei! — resmungou. — Só Annabeth pode me chamar assim.
Nós rimos. Virei-me para Dandara.
— Adeus, filha de Apolo.
Ela me abraçou.
— Tchau, garoto dos oceanos.
Troquei um aperto de mãos com Igor.
— Adeus, cara. Para onde você vai?
— Para New Jersey. Meus tios vivem lá. Vou fazer uma visitinha.
Assenti.
— Ok, então.
Annabeth me olhava, querendo parecer durona.
— Não chore, Wikipédia. — falei. — Estarei de volta no próximo verão.
— Infelizmente. — murmurou ela.
Estendi a mão para ela, mas ela deu-me um abraço de urso.
— Adeus, Sr. Herói.
— Adeus. — tentei impedir minha voz de falhar.
Argos buzinou ao longe.
— Tenho que ir. Quem sabe no próximo verão a gente não viva outra aventura?
— Pra mim, chega de aventuras perigosas. — murmurou Dandara.
Olhei para Quíron.
— Obrigado, Quíron. Só quero lhe agradecer por tudo.
— Não tem de que. Tenha cuidado Raphael.
Acenei para eles, e virei-me, observando o mundo mortal. Eu estava mesmo deixando o acampamento. Estava indo viver em um mundo onde a qualquer momento eu poderia ser morto, atacado por monstros. Mas minha mãe estava naquele mundo, e isso era o bastante para eu querer correr o risco.
Entrei no carro. Próxima parada... Minha casa.
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