E Se fosse verdade?
16 Pegamos uma carona em um Cruzeiro
Notas iniciais
Assim que contamos a Annabeth sobre o navio de Luke estar próximo da gente, ela ficou em silêncio. O olhar dela estava distante e melancólico.
– Bem, é o nosso destino. – murmurou ela.
– Ele está por aqui em algum lugar, eu o senti. – disse Percy.
– E o que você está esperando cabeça de alga? – disse ela. – Peça ajuda a Poseidon.
– Cabeça de quê? – eu ri.
– Eu já pedi. – retrucou Percy.
– E por que não...
Um barulho veio do mar. Nós cinco estávamos olhando para o horizonte escuro, quando a nossa frente, apareceram cinco cavalos marinhos grandes. Bem... eles não eram cavalos marinhos comuns. Eram parte cavalo e parte peixe, e eram muito bonitos. Havia um com as cores do arco-íris. Dandara ficou de boca aberta.
– Ah... Meu... Deus. – ela olhava perplexa para os cavalos – marinhos.
– Esses são os maiores cavalos marinhos que eu já vi. – falei, impressionado também.
– Não são cavalos-marinhos. – corrigiu Annabeth. – São Hipocampos. Eles foram criados por Poseidon. Servem como um meio de transporte para ele.
Um deles relinchou.
– Bem, o que estamos esperando? – disse Percy. – Vamos lá! – ele montou em cima de um.
– Hã... é que, eu tenho um medo particular de cavalos. – falou Dandara sem jeito.
– Vamos Dandara. – encorajei-a. – Eles não fazem nada. E temos de ir rápido, para não ficarmos mais longe do navio.
Eu me aproximei de um hipocampo. Ele encostou a cabeça na minha barriga. A cabeça dele era quase do meu tamanho.
– Até que eles não são tão ruins assim. – falei.
– Então, vamos indo. – ordenou Annabeth.
Andar com um hipocampo foi muito legal. Eles eram rápidos, e faziam cada pirueta que eu tinha medo de cair na água, embora eu conseguisse sobreviver dentro dela.
Dandara se segurava em seu hipocampo. A cara dela mostrava que não estava muito feliz com isso.
Percy ia nos dizendo se o navio estava perto ou não. Eu tentava me lembrar das coordenadas que eu soube no meu sonho. Mas não consegui. Esse é um dos muitos problemas do Déficit de Atenção. Não consigo memorizar as coisas por muito tempo.
Não sabia quanto tempo estávamos viajando pelas águas a procura do navio de Luke. Grover estava dormindo sobre a sua carona. Embora eu não soubesse como ele podia dormir em cima de um cavalo em movimento.
– Ei. – disse Annabeth do meu lado. Seu hipocampo estava tentando manter nós dois na mesma linha. – Tudo bem?
Estranhei aquela pergunta, mas assenti.
– Tudo. Por quê?
– Nada. É que... queria saber como você está se sentindo. Sabe... com essa vida de meio-sangue.
– Quer mesmo saber como me sinto? – perguntei dando um sorriso fraco. Ela assentiu.
– Péssimo. – desabafei. – Horrível!
Ela deu um riso.
– Sei como se sente. Geralmente eu me sinto assim na maioria das vezes.
Não deu para ver direito sua expressão por causa da escuridão. Eu olhei em volta. Estávamos cercados de água. Não havia terra seca em nenhum lugar.
Depois de alguns minutos navegando com os hipocampos, avistamos um barco ao longe, parecendo um barquinho de brinquedo. Imediatamente falei:
– Aquele é o navio?
Percy e Annabeth olharam. Eles ficaram um pouco tensos.
– Sim. – disse Annabeth com um tom soturno.
– Como vamos subir nele? – perguntou Dandara. Assenti, achando uma boa pergunta.
– Ele tem uma escada do lado dele. – disse Percy. – E vamos ter que fazer o mínimo barulho possível. Não queremos atrair nenhum monstro, como Luke, por exemplo.
– Esse tal de Luke... quem ele é mesmo? – murmurei.
– Ele era um campista do acampamento. – contou Annabeth. – Filho de Hermes. Era do chalé 11.
– Ah.
– Ele ficou com raiva dos deuses. Ficou ressentido com o pai dele, então foi tentar destruí-los. Ele se aliou a Cronos, o pai dos deuses, que também quer vingança.
– Cara legal. – disse eu.
– Sim, muito legal ele. – murmurou Percy. – Tão legal que sinto vontade de reduzi-lo a pó.
Chegamos perto do navio. Eu não sabia como ele era enorme. Todo branco. E pintado na frente dele, uma princesa acorrentada, com os olhos em pleno terror.
– Quem pinta uma princesa acorrentada em seu navio? – falei achando estranho.
– Ora quem... – retrucou Percy. – Luke óbvio.
– Ah.
Percy pediu para que os hipocampos nos deixassem do lado do navio. De fato, havia uma escada de madeira grudada no casco do navio.
– Damas primeiro. – disse Percy sorrindo.
– Então, você vai primeiro. – riu Dandara.
Annabeth se juntou a ela.
– Essa foi boa.
– Engraçadinha. – resmungou Percy. Agradecemos aos hipocampos e começamos a subir na escada. Annabeth subiu primeiro. Depois Dandara, Percy, eu e Grover (que havia acordado.).
Senti um arrepio naquele lugar assim que chegamos acima. O navio era do mesmo jeito que nos meus sonhos. Não pude acreditar que eu estava ali.
– Bem. – sussurrou Percy. – Agora é a hora de não fazer barulho nenhum. A não ser que queira ser almoço de algum monstro.
– Você é tão animador. – resmungou Dandara.
Andamos pelo o navio. Parecia assombrado, com as luzes fracas e o barulho do vento. Varias lanchonetes estavam fechadas. As piscinas davam um clima ainda mais soturno. Tudo estava em silêncio. Nada fazia o menor barulho.
– Será que estamos no navio certo? – sussurrei.
– Por quê? – Dandara me olhou franzindo a testa.
– Aqui está muito quieto. Em meus sonhos, havia sempre movimentação.
– Temos que achar um lugar para dormir. – murmurou Annabeth.
– Ótima ideia. – disse Percy. – Estou muito cansado.
Achamos um quarto, que por sorte, estava com a porta aberta. Era muito chique. Havia duas camas de casal, e um banheiro. Era todo branco, decorado com flores artificiais.
– Ah! – disse Grover saudoso. – Uma cama.
Ele se atirou sobre ela.
– Ei, você vai acabar sujando ela. – ralhou Annabeth. – Vá primeiro tomar banho.
– Mas... Ah, ta bom. – ele foi relutante.
– Você parece minha mãe. – falei para ela.
– Cale a boca.
– Não posso calar as orelhas. – eu ri.
Ela me olhou, e um sorriso passou pelo seu rosto.
– Cabeça de peixe. – murmurou ela.
– Hã? Cabeça de peixe? Por quê? – disse eu sem entender nada.
Ela revirou os olhos e se foi.
Assim que todos nós estávamos banhados e limpos, decidimos que para não haver problemas, os meninos dormiriam em uma cama, e as meninas em outra. Grover, Percy e eu, deitamos na cama. Ficamos meio que... Desconfortáveis quanto a isso.
Depois de algumas horas, todos estavam dormindo. Menos eu. Eu não estava conseguindo dormir. Em algum lugar deste navio, Israel estava a bordo. Estava sendo mantido preso. Eu tinha que encontra-lo. Olhei para os lados, verificando se alguém ainda estava acordado. Levantei-me da cama e fui para fora do quarto.
Bem, isso pode ter sido um pouco perigoso. Sair andando por um navio que eu nem mesmo conhecia. Mas eu estava ansioso para resgatar Israel. Além do mais, não queria ter outro sonho. Eu já estava sobrecarregado de tantos sonhos que já tive.
Andei de fininho observando tudo ao meu redor. Enquanto eu andava, parecia que alguém também estava me observando. Senti um formigamento na pele. Olhei, e vi uma daquelas cadeiras de balanço perto da piscina. Sentei nela, e fiquei observando o céu estrelado. Estava deslumbrante.
Ali sozinho, minha mente ficava relembrando tudo o que aconteceu. A luta contra a Fúria. O encontro com a deusa do amor, Afrodite. Aquilo me incomodava. Quando de repente, eu escutei passos atrás de mim. Meu coração ficou acelerado. Instintivamente, puxei a antena do meu mini celular, que virou uma reluzente espada, e dei um golpe para trás.
– Ah meus deuses! – gritou Annabeth.
Por um triz, eu quase a despedaçava.
– Eita! – gritei surpreso. – Annabeth, me desculpe... eu... não queria...
– Tudo bem. – disse ela ainda tremendo.
– Ah... é... – eu estava começando a ficar nervoso.
Annabeth sorriu.
– Tudo bem Raphael. Eu desculpo. – ela se sentou ao meu lado. – Mas, o que você está fazendo acordado? E ainda mais nesse navio?
– Não sei. Não consegui dormir. Eu... estou ansioso para resgatar Israel.
– Ah. – disse ela baixinho.
Ficamos ali em um silêncio constrangedor. O vento frio soprava em nossos cabelos. Por fim Annabeth disse:
– Eu tenho impressão de que vamos conseguir resgatá-lo. Sempre conseguimos.
– Ah. – sem querer, meu celular caiu no chão. Ambos tentamos pegá-lo, e nossas mãos se encontraram. Eu corei.
– Obrigado. – falei. Quando eu vi uma aranha pequena, e preta, andando por entre nós. – Olha uma aranha.
Annabeth saltou em mim.
– Onde? Onde? – ela gritava. Apontei para baixo. Ela gritou ainda mais. – Aranha! Aranha! – parecia que ela era um alarme detector de aranhas.
– Calma! – eu tentava me equilibrar. Com ela em cima de mim esperneando e tremendo, ficou difícil matar a pobre da aranha. Assim que ela se foi, Annabeth me olhou agradecida, e fez uma coisa inimaginável: Ela me beijou. Meu corpo inteiro pareceu que ia se desmanchar. Meu coração estava tão acelerado quanto um motor de uma locomotiva.
– Obrigada. – disse ela baixinho. Quando a nossa cadeira virou-se para trás. Nós caímos um por cima do outro. Ela começou a rir, e eu, falava algo genial tipo: Hã... Hum... Ah.
Nesse momento, escutamos passos apressados no chão do navio. Alguém estava correndo. Levantamo-nos rapidamente e sacamos nossas armas. Os passos se aproximavam. Preparamo-nos para atacar. Quando alguém apareceu do nada, abrindo uma porta a nossa frente. Era um garoto. Ele parecia estar em pânico.
Eu fiquei um pouco aliviado, e estupidamente, disse:
– Olá!
O garoto nos olhou com os olhos puro de medo e sacou duas espadas realmente afiadas. Não fiquei tão aliviado assim.
– Quem são vocês? – perguntou ele ameaçadoramente.
– Calma. – disse Annabeth. – Não somos inimigos. Estamos aqui...
O cara realmente não estava a fim de conversar. Ele atacou. Se eu não tivesse sido treinando no acampamento, teria virado dois pedaços de Raphael. Ele tentou arranhar meu braço, mas eu desviei a sua espada. Annabeth tentou argumentar com ele, mas o garoto psicótico avançou em cima dela.
– Pare! – disse ela.
Eu fui em cima dele e lhe dei um chute nas costas. Ele rosnou, e deu um golpe com sua espada para trás. Quase que me cortava a cabeça. O cara era um bom combatente. Annabeth se agachou e lhe deu uma rasteira. Ele caiu de costas. Antes que ele pensasse em se levantar, eu coloquei a ponta de minha espada na garganta dele.
– Não queremos lutar. – disse eu ofegante. – Não somos seus inimigos. Estamos aqui à procura de um amigo que foi raptado.
Ele permaneceu deitado no chão, até que a raiva murchou em seus olhos. Dei a mão para ele e o ajudei a se levantar. Ele tinha a minha idade eu acho. Cabelos pretos caído no rosto. A pele branca. Os olhos eram da mesma cor que os cabelos, mas havia medo neles. Usava uma calça jeans e uma blusa preta em farrapos.
– Aqui não é um lugar em que vocês queiram estar. – sussurrou ele.
– Eu acredito. – falei. – Mas meu amigo está sendo mantido preso aqui, por um cara chamado Luke, filho de Hermes.
– Luke! – disse ele. Os olhos dele se encheram de raiva outra vez. – Esse maldito Luke está matando todo mundo que não se alia a ele. Ele nos captura, e força a gente escolher entre servir a Cronos ou não.
– Espera... Você sabe quem é Cronos? – perguntou Annabeth.
Ele revirou os olhos.
– Claro. Eu sou um meio-sangue também.
– Qual o seu nome? – perguntei. Ele olhou em volta, e disse:
– Igor... Igor Carvalho. Sou filho de Poseidon.
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