E Se fosse verdade? 2

3 Um Ciclope visita a minha casa


Notas iniciais
Iai galera! Mais um novo capitulo! Boa leitura! o/

Depois de sairmos do ônibus, a sra. Valdívia deixou a gente ir para a cantina para lanchar. Comprei meu lanche e me sentei em uma cadeira. Fiquei pensando no que Igor havia dito, que ele havia achado uma máscara.

Fala sério! Ele faz aquele suspense todo de: “achei um objeto estranho, um objeto assustador”. Para no fim falar que o que ele achou foi só uma máscara?

Eu ainda estava pensando nisso, quando alguém veio por trás e me bateu na cabeça.

— Você se acha muito valente não, é?

Olhei para trás, e vi o animal que havia me batido.

— Wilson. — rosnei.

— Eu mesmo seu trouxa. Pensa que aquilo que você me fez vai ficar assim?

— Não. Eu acho que vai inchar e ficar roxo.

Ele tentou me empurrar, mas eu me levantei da cadeira.

— Ah, por favor, volte para o seu hospício. — resmunguei. — Não são permitidos loucos aqui.

— Agora que não está junto daquele seu amiguinho perdeu a coragem? — riu ele.

Erre es korakas! — gritei. Logo depois fiquei perplexo. Eu acabara de falar em grego antigo. Tinha ouvido alguns campistas falarem isso quando estavam zangados, e significava: Vá para os corvos!

— Vá você para os corvos. — rosnou Wilson, mas depois ele arregalou os olhos. — O que você disse?

Eu franzi a testa. Ele soube traduzir o que eu havia dito em grego antigo? Mas como?

— Você falou em outra língua. — disse ele apontando pra mim. — E eu... Eu traduzi.

Meu coração começou a ficar acelerado. Aquilo era absolutamente estranho. Será que ele poderia ser...

Não. Não pode ser. Isso é impossível.

— Eu tenho que ir. — falei. E fui correndo para a sala de aula.

***

Quando as aulas acabaram, voltei para casa.

Igor estava lá. Sentado á mesa de jantar, comendo. Minha mãe estava na pia lavando a louça.

— Já chegou? — perguntou Igor.

— Não. — respondi.

Ele riu.

— E então, como foi hoje no passeio? — perguntou minha mãe.

— Hã... Bem. — menti. — Muito bem. Eu escolhi fazer uma pesquisa sobre a sucuri.

Mamãe fez uma careta.

— Odeio cobras! — ela olhou para mim. — Raphael, por que você não me disse antes que ele — ela apontou para Igor. — era seu amigo?

— Por quê?

— Ora, por quê? Eu quase expulso ele debaixo de vassouradas, pensando que se tratava de algum monstro que estava armando algum truque para lhe matar.

Eu sorri.

— Queria ter visto isso.

— Pois é. — murmurou Igor. — Pensava que eu havia errado a casa. Já ia sair correndo, quando falei que eu era só um amigo, e que você havia me mandado.

Nós rimos.

— Ah, mãe... Ele pode ficar aqui durante alguns dias? — perguntei. — Por que ele não tem para onde ir agora.

Mamãe assentiu.

— Claro. Pode ficar. Aliás, onde você mora Igor?

— Em New Jersey.

Ela franziu a testa.

— Seus pais sabem que você está aqui?

— Hã... Acho que...

— Ele mora com os tios. — falei.

— Seus tios sabem que você está aqui?

— Bem...

— Mãe, chega de entrevistas. — murmurei. — Ele veio pra cá só para...

Eu não sabia o motivo de Igor ter ido para Nova Yorque, já que estava morando com os tios em New Jersey, mas achei melhor falar disso com ele depois.

Igor se levantou.

— Eu vim pra cá só para visitar o meu amigo Raphael. Meus tios não sabem que estou aqui. Vou avisá-los ainda.

Mamãe pareceu relaxar um pouco. Ela olhou para mim.

— Bem... Já que vocês estão aqui, acho que hoje podemos passear. Quem sabe ir ao cinema, ou a algum outro lugar.

— Ótimo. — disse eu.

— Hã... Eu não tenho roupa para ir. — disse Igor.

— Não tem problema, eu lhe empresto as minhas.

Ele sorriu.

— Ok, então.

***

À noite, após ter voltado do cinema, mamãe disse que se precisássemos de alguma coisa era só chama-la. Eu duvidava que isso fosse funcionar. Ela tinha um sono profundo e pesado. Quando pegava no sono, para acorda-la era muito difícil. Acho que se a casa pegasse fogo ela ainda não acordaria.

Igor e eu tomamos banho (separados!) e fomos ao meu quarto. Bem, meu quarto não é bagunçado, embora minha mãe diga o contrário. Consigo achar as minhas coisas sem nenhum problema — às vezes.

Igor olhou para a minha cama que estava cheio de roupas e de livros.

— Tão organizado. — murmurou.

— Ei, não venha você também com isso. — resmunguei.

— Então, onde eu vou dormir? — perguntou ele.

— Hã... Acho que você poderia dormir no chão.

— É, boa ideia. — disse ele. — Assim, quando você estiver dormindo profundamente, eu posso lhe empurrar para o chão e ficar com a cama.

Sorri, e tirei minhas coisas de cima da cama.

— Pronto. Você pode dormir na cama. Só hoje.

— Obrigado. — ele se deitou com vontade. — E você vai dormir a onde?

Peguei um outro colchão e o coloquei no chão do quarto, perto da cama.

— Aqui.

Enquanto arrumava a minha cama no chão, olhei para fora do quarto. A casa inteira estava escura. Só a luz do meu quarto que estava acesa. Quando olhei para a escuridão, lembrei-me de algo que eu gostaria de esquecer.

O Labirinto.

Imediatamente veio a minha mente as lembranças do lugar. O cheiro de terra misturado com água e lodo. As coisas horríveis e perigosas que havia lá. As armadilhas. A escuridão ameaçadora.

Balancei a cabeça, tentando tirar aquilo da minha mente.

— O que foi? — perguntou Igor. — Você estava com uma cara estranha.

— Não, não é nada. Só estava pensando. — Deitei-me no colchão. Só então me lembrei de que tinha de fazer algumas perguntas ao hóspede. — Igor, me diga logo, o que você estava fazendo lá na minha escola? Como chegou lá? E porque você disse que havia encontrado um objeto estranho, quando na verdade se trata de uma simples máscara?

Novamente, ele ficou meio tenso quando falei a palavra “máscara”. Igor se sentou na cama.

— Cara, não posso falar tudo para você.

— Por que não?

— Por que não posso. — ele não me olhava nos olhos. — E... Eu nem sei como cheguei a sua escola. Simplesmente eu me vi lá.

Franzi a testa.

— Como assim?

— Olhe, depois conto tudo a você está bem. Agora vamos dormir. Estou cansado.

Ele se deitou de volta e fechou os olhos.

Quis fazer mais perguntas a ele, mas desisti. Ele não ia me responder. Apaguei a luz, ajeitei-me em minha cama e fechei os olhos.

***

Não sei muito bem quanto tempo se passou, mas ainda devia ser madrugada, por que acordei no meio da noite com um barulho vindo da cozinha. Aguardei mais um pouco para ver se eu ouvia de novo.

Bank!

Alguma coisa havia caído.

Sentei-me na cama, começando a ficar assustado. Podem ir me chamando de medroso, mas desafio alguém a não ficar com medo quando se está dormindo e, no meio da noite, você acordar ouvindo algum barulho vindo de algum lugar da sua casa.

O quarto estava totalmente escuro. Eu não conseguia ver nada. Virei-me na direção onde Igor dormia.

— Igor? — chamei. — Está me ouvindo?

Outro barulho.

— Ei, cara.

Fui apalpando a cama até achar a perna dele. Comecei a sacudir.

— Huummmm....

— Igor, acorda!

— É horrível. — murmurou ele dormindo. — Sangue em minhas mãos. Não fui eu.

Franzi a testa. O que ele estava dizendo?

Peguei meu travesseiro e lhe dei uma travesseirada.

— Não, não fui eu, foi a máscara! — exclamou ele.

— Ei, ei, calma! Sou eu! — eu não estava conseguindo vê-lo por causa da escuridão.

— Hã... Onde estou?

— Ora, onde. Em minha casa.

De repente um grunhido veio da cozinha. Meu coração quase pula para fora. Meu estômago pareceu entrar em um balde cheio de gelo.

— O... O que foi isso? — perguntou Igor.

— Não sei. — respondi, tentando impedir a minha voz de tremer. — É o que eu quero descobrir.

Levantei-me com as pernas bambas e acendi a luz.

— Ai, meu olhos. — resmungou Igor. — Quer me deixar cego?

Espiei para fora do quarto. Não havia nada.

— Ah, cara. Você está com medo de que? — Igor andou em minha direção. — Pode ser só algum...

Outro grunhido, dessa vez estridente. Nós dois gritamos e corremos para a cama. Ficamos lá parados alguns minutos, quando Igor disse:

— Raphael...

— Sim?

— Pode me fazer um favor?

— O quê?

— Solte minha mão.

Percebi que eu segurava a mão dele firmemente. Me senti bastante ridículo.

— Hã... Bem, é porque eu queria checar sua temperatura. — soltei a mão dele e respirei fundo. — Calma. Não vamos conseguir dormir se nós não formos ver o que é esse barulho.

— Está certo. — afirmou Igor.

Ninguém se moveu.

— Pensei que você iria lá. — murmurei.

— Eu?

— É, você.

— Ok. Vamos ser justos. Pedra, papel e tesoura. Quem perder vai.

Concordei.

Erguermos as mãos, e falamos:

— Pedra, papel e tesoura.

Olhei, e vi que Igor havia colocado pedra. Eu havia colocado tesoura.

— Ah, droga! — resmunguei.

Igor riu.

— Tem que ir.

Peguei meu mini celular e puxei a antena. Logo ele se transformou em uma reluzente espada de bronze. Saí de dentro do quarto e fui em direção à cozinha. As mãos tremendo e as pernas bambas. Eu andava com a mão na parede procurando o botão para ligar a luz. A escuridão aumentava à medida que eu andava.

— Hã... Olá? — falei. — Quem está ai?

— Raphael? É você? — era a voz de minha mãe. Senti um alívio tremendo.

— Mãe, é a senhora que está ai? — andei até a cozinha como um cego, apalpando tudo. Quando de repente, senti algo grande surgir as minhas costas. Um arrepio absoluto percorreu meu corpo. Fiquei paralisado no lugar, sem me atrever a olhar para trás. Minhas mãos suavam. Meu coração estava tão acelerado que dava para eu o ouvir batendo.

— Olá, meu filho. — falou a voz da minha mãe atrás de mim.

Eu me virei, e a leve luz da espada me deu uma breve visão do rosto da criatura que estava a minha frente.

Se eu estivesse com vontade de ir ao banheiro, não precisaria ir mais, por que eu já teria me molhado ali mesmo.

A criatura tinha somente um único olho, grande e preto, com cílios grossos, e olhava para mim. O nariz era grande, e a boca estava aberta, me dando uma visão dos dentes tortos e amarelados.

No mesmo instante, eu dei um grito de desespero total. Larguei a espada e saí correndo aos berros, mas como estava escuro, esbarrei em alguma coisa e caí. O ciclope invasor me pegou com a sua mão. Sentir aquela mão áspera e monstruosa me pegar, me apavorou ainda mais.

— He-he! Seu tolo! — ria o ciclope. — É tão fácil atrair vocês, meio-sangues.

Eu gritava com toda a minha força. Queria chamar pelo o Igor, mas eu não conseguia.

— Não adianta gritar. — ria ele.

— Como você entrou aqui? — consegui perguntar.

— Ah, foi fácil. Seu amigo me atraiu para cá.

— Que amigo? — gemi.

— Seu amigo Igor. Mas não se preocupe. Primeiro devoro você, depois o seu amigo.

Ele riu estrondosamente. Mas nesse momento, um barulho de um forte trovão veio de dentro do meu quarto. Uma luz, como o de alguém batendo uma foto com flash, piscou e brilhou.

— O que foi isso? — rugiu o ciclope.

— Não sei. — gemi. — Por que não me larga e vai ver?

Um barulho como o de um tornado se aproximou de nós.

— Minha nossa, que escuridão. — falou alguém. Foi quando uma luz de vela apareceu, iluminando por um momento o rosto de quem a estava segurando. E foi ai que eu soube que ia desmaiar de medo.

O sujeito tinha um cabeção verde, com uma cara assustadora. O sorriso dele era enorme, com os dentes grandes, como se ele estivesse usando uma dentadura grande de mais para a boca dele.

— Mas olha só. — disse o sujeito da cabeçona. — Olha quem veio dar o ar de sua graça. Bem, bem... Pode soltar o rapaz agora?

O ciclope parecia ainda mais atordoado que eu. Ele olhou o sujeito da cabeçona e perguntou:

— Quem é você?

— Eu sou... — o sujeito da cabeçona rodopiou, e em um segundo ele estava vestido de noiva, com um véu na cabeça, um buquê, e batom nos lábios. — Sou a sua noiva.

O ciclope rosnou e me jogou contra a parede. Por sorte, ou por azar, eu bati minhas costas em cima do interruptor de luz, que finalmente iluminou o local. Sinceramente, eu preferia como estava antes, tudo escuro. O ciclope estava um pouco curvado por que o teto era muito baixo para ele.

— Venha cá. — rosnou o ciclope. — Me deixe lhe matar.

— Ah! Seu grosso! — exclamou o sujeito da cabeçona vestido de noiva. — Você é tão indelicado com uma dama.

O ciclope tentou esmagar a suposta noiva da cabeçona com um murro, mas ela se desviou. O chão da cozinha ficou com uma cratera como resultado do murro do monstro.

— Isso é um pesadelo. — choraminguei, caído no chão. — Eu estou sonhando.

O ciclope tentou agarrar o cabeção, mas ele saiu em um piscar de olhos e foi parar atrás do monstro. Tirou um machado enorme com lâmina dupla de dentro do seu vestido de noiva e disse:

— Nosso casamento não dará certo! Morra, meu bem! — E cravou o machado, que devia ser feito de bronze celestial, nas costas do monstro. Ele se desintegrou com um rugido.

Silêncio.

O cabeção olhou para mim, agora usando uma jaqueta preta e calça vermelha, e eu soube que seria a próxima vítima.

— Quem... Quem é você? — perguntei, trêmulo. — Como veio parar aqui?

Ele chegou perto de mim e pôs o seu dedo nos meus lábios.

— Psiu! Suas perguntas já estão me dando dor de cabeça. — O olhar daquele maníaco era pior que o do ciclope. — Então... Que tal você CALAR A BOCA, e não me fazer mais perguntas!

Ele apagou a luz, e algo duro me atingiu na cabeça, então apaguei.

Notas finais
Se tiver algum erro, podem falar. Até o próximo capitulo!