Certo. Só podia ser uma brincadeira. Uma simples brincadeira besta. Aquilo não devia estar mesmo acontecendo. Devia ser só um sonho ruim ou um pesadelo. Minha mãe não podia estar falando sério, podia? Quer dizer... isso seria a pior coisa da minha vida. Seria a mesma coisa de eu ficar sem ter onde morar. Mamãe com o... vírus? Só podia ser uma piada. E a ligação de Annabeth dizendo que Percy havia desaparecido... Não conseguia acreditar naquilo. Como ele simplesmente desapareceu? Será que foi raptado por algum monstro ou deus?

Mas antes de resolver esse negócio, olhei para minha mãe.

— Certo. — eu cutuquei meu ouvido e fiz uma careta, dando a entender que não havia escutado direito. — Me diga que a senhora não disse isso. Eu escutei errado, certo? Estou com problemas de audição. Preciso ir para um médico...

— Foi o que você ouviu. — confirmou minha mãe. — Olha, querido, eu não sei o que está acontecendo. Acho que devo explicar tudo para você.

— Seria uma ótima ideia. — murmurei.

Ela me fez sentar em uma cadeira e ficou olhando para mim. Pude perceber que seu olhar não estava normal. Estavam cheios de confusão e de outra coisa. Algo que eu já havia visto no olhar da tia Rachel quando estávamos em sua casa. Um pouco de insanidade.

Um arrepio desceu por minhas costas.

— Querido — mamãe ficou em pé mesmo, andando de um lado para o outro. —, eu comecei a sentir isso há um mês. Depois de ter visto várias noticias como essa nos jornais, depois de ter pesquisado na internet varias vezes e após alguns homens terem vindo aqui... hã... descobri que eu estou mesmo com o vírus.

— Não, mãe! — exclamei. — Você não está!

— Pare de dizer que não estou! — ela gritou. — Isso só piora as coisas!

Eu sentia como se meu corpo inteiro fosse se desmanchar em óleo fervente. Meu coração tremia de desespero e tristeza. Mas o pior não era isso. O jeito que minha mãe agia me fazia lembrar a tia Rachel. Ela também agia assim.

Coloquei as mãos no rosto, sem acreditar no que estava ouvindo. Mamãe começou a chorar novamente. Sentou do meu lado e disse:

— Meu filho, você precisa saber de uma coisa.

Não respondi. Estava respirando fundo constantemente, me segurando para não sair correndo para o quarto e chorar.

— Quando você estava no acampamento... — continuou ela. — Dois homens vieram aqui em casa. Não sei quem eram eles. Usavam roupas pretas, parecendo uniformes, com coletes, luvas pretas, botas, uma arma nas mãos e umas mascaras de gás no rosto.

Olhei para minha mãe como se ela tivesse arrotado alto.

— Por favor, me diga que eles não vieram aqui para ver se a senhora estava infectada.

Ela assentiu.

— Sim. Mas não foi apenas isso. Eles queriam saber de você. Queriam saber onde você estava.

Um calafrio me acometeu.

— Queriam saber de mim?

— Eles disseram que vieram acompanhando você e mais quatro adolescentes enquanto atravessavam o país. Disseram que vocês mataram dois dos companheiros deles quando estavam em Las Vegas.

Cara, não sei como descrever o que sentia. Era uma confusão. Uma mistura louca de medo, curiosidade, tristeza e raiva. Lembrei desses caras com armas e máscaras de gás quando estávamos em Las Vegas a procura de um carro, e então dois homens apareceram para verificar se éramos infectados. No entanto, Annabeth os matou, quando estava usando a Máscara. Agora, mamãe estava dizendo que eles nos acompanharam durante todo o nosso percurso. Mas como sabiam onde eu morava? Quem eram esses dois caras? Por que queria saber de mim? Será que era para me prender?

— Eu não matei ninguém. — admiti. — Estávamos em uma missão. Percy, Annabeth e mais outra garota estavam comigo. Queríamos uma carona quando esses dois caras chegaram e fizeram alguns testes em nós para ver se éramos infectados.

Mamãe pegou em minha mão, os olhos cheios de preocupação.

— Você é? Você é? Me diga que não, por favor. Já não basta eu estar assim. Não quero que você enlouqueça aos poucos.

— Não. Não sou. Eles disseram que éramos imunes.

De repente, mamãe arquejou.

— Imunes!

Eu tomei um susto.

— O quê?

— Foi isso que eles disseram. Que você e seus amigos eram imunes, e que precisavam de vocês para realizar alguns testes. Disseram que essa catástrofe que tem atingido o planeta iria se agravar ainda mais. O calor iria se expandir. E que eles sabiam uma forma de encontrar a cura para esse vírus.

— Como é? — perguntei, abobalhado com o que ouvia.

Mamãe agarrou os cabelos e gritou:

— Eu não sei! Não quero mais falar sobre isso!

— Calma. — disse eu.

De repente, alguém bateu na nossa porta. Nos viramos, assustados.

— Quem é? — perguntei.

Mamãe olhou para a porta como se um monstro estivesse lá fora.

— São eles. — sussurrou ela.

Eu fiquei de pé, trêmulo e atônito.

— Eles quem?

Mamãe tapou minha boca com as mãos e levou o dedo aos lábios, indicando que era para fazer silencio.

Mais batidas na porta. E depois uma voz gritando:

— Sra. Miller, sei que está ai. Por favor, abra a porta, senão arrombamos.

Nossa respiração estava agitada. As mãos de minha mãe estavam tremendo. Olhei para ela e apontei para o quarto. Ela balançou a cabeça.

— Sra. Miller, abra a porta. Não adianta ficar em silêncio. Sei que seu filho está ai. Por favor, não faça com que procedamos do modo mais difícil.

Ficamos em silêncio.

Nesse momento, um barulho de tiro veio do lado de fora, e a porta abriu-se. Fiquei com as pernas bambas. Estava me sentindo bastante vulnerável. E estava disposto a lutar se fosse preciso.

Dois homens com trajes pretos, parecendo soldados, e com máscaras de gás, entraram em nossa casa, com uma arma nas mãos. Não conseguia ver os olhos deles através das máscaras, mas senti quando olharam para nós.

— Sra. Miller — disse o que estava à frente. — É bom que coopere conosco.

Não consegui mais aguentar aquilo, e então falei:

— Quem são vocês? O que querem aqui?

Os dois olharam para mim.

— Este é seu filho? — perguntou o outro que estava atrás.

Mamãe assentiu.

— Sim. Por favor, não o levem.

— Senhora, já explicamos. Ele vai ser útil. Seu filho pode ser a chave para salvar a raça humana. Com o tempo, uma nova geração surgiu capaz de resistir ao vírus. Os chamamos de privilegiados, ou imunes

— Imunes? — perguntei. — O que...?

— Sei que você está confuso, garoto. Mas, se pensar melhor, e vir conosco, verá que vai estar ajudando gerações futuras a sobreviver ao vírus. Sobreviver ao Fulgor.

— Fulgor?

— Foi assim que chamamos o vírus.

O que falava olhou pela janela, para fora, e ficou pensativo.

— Esse calor é resultado de uma grande calamidade que atingiu nosso planeta. As explosões solares. Foram as mais fortes já registradas na historia humana. Milhões de vidas foram mortas por causa do calor. Cidades foram destruídas e arruinadas. Tentamos de todos os modos achar uma cura, mas sem sucesso. — ele se virou para mim. — Creio que tenha visto, ou sentido o calor quando você e seus amigos viajaram para o outro lado do país.

Eu estremeci. Ouvir aquela historia novamente era bastante ruim. Eu não sabia se ria, gritava, desdenhava deles ou pegava a vassoura e golpeava-os.

— Não sei do que está falando. — murmurei. — Mas é melhor saírem daqui.

— Entenda, garoto. — o homem andou pela a casa como se fosse dele. — Não podemos sair daqui sem levar você. E seria bom se você fosse em bom comportamento.

— Para onde querem me levar? — quis saber. Tudo o que eu queria era que esses dois homens fossem embora. Não aguentava mais tanta coisa em minha cabeça.

— Vamos descobrir o que torna vocês, imunes, diferente do resto das pessoas. Fique tranquilo. Sua mãe já consentiu em deixar você ir.

— O quê? — Olhei para ela, pasmado. — Mãe?

Ela me abraçou enquanto chorava.

— Querido, não quero você perto de mim mais. Não quero que me veja ficando louca, e não quero que um dia eu venha machucar você.

— Eu não vou lhe abandonar! — exclamei.

— Desculpe — disse o homem. — Mas não temos muito tempo. Temos que ir.

Uma raiva encheu meu peito.

— Vão para o Tártaro! — gritei. — Saiam daqui! Juro por todos os deuses que se não saírem...

— Do que está falando? — resmungou o outro homem.

Peguei um cabo de vassoura da cozinha.

— Saiam daqui!

Eles riram.

— Foi por isso que trouxemos essas armas. — disseram eles. — Para o caso de você resistir.

Não aguentei mais, e ataquei-os. Nem mesmo me dava conta de que podiam atirar em mim a qualquer hora. Atingi um no peito, que cambaleou para trás, e atingi o outro nas pernas.

— Ahhh! — gritaram eles.

Não conseguia me controlar, e comecei a bater neles com o cabo da vassoura.

— Saiam daqui! — gritava. — Deixem a gente em paz!

Um deles me chutou na barriga. Cambaleei para trás, gemendo, mas não por muito tempo. O outro apontou a arma para mim e atirou. Mas no exato momento eu saltei para o lado, e o tiro atingiu a prateleira de livros, fazendo-os voarem.

— Parem! — mamãe gritava.

— Você vai vir conosco, garoto! — berrou o homem tentando me agarrar.

Agachei-me e o golpeei nas pernas, depois pulei e o atingi no pescoço. Mas o seu companheiro me atingiu na cabeça com a arma, e eu caí no chão, tonto.

— Não vou com vocês. — gemi. — Vou lutar até o fim.

Os dois apareceram acima de mim, massageando os locais atingidos.

— Você vai ser bem útil. Gostamos de pessoas assim.

Eu aproveitei e dei um chute na canela do que falava. Ele se curvou, gritando.

— Eu também gosto de pessoas assim... que gritam quando eu bato nelas.

— Se você tivesse cooperado, isso não estaria acontecendo. — disse o outro homem. — Vamos leva-lo.

Os dois agarraram minhas mãos e pernas para me levantar, mas me debati feito um louco.

— Não! Me deixem! Mãe!

— Filho — disse mamãe ao meu lado. — Eu te amo. Me perdoe! Não quero que você veja minha ruína.

Eles me ergueram a força e me levaram para fora. No entanto eu me debatia mais e mais e gritava. Olhei para minha mãe, para a nossa casa, e tive a sensação de que nunca mais voltaria a vê-los.

Eles me afastavam dela e me levavam para fora. Mas de tanto eu resistir, fui atingido novamente na cabeça com a arma, e uma onda de dor explodiu em minha face. Fui perdendo a consciência aos poucos, mas antes, olhei novamente para minha mãe. Ela chorava e acenava para mim. Tentei falar algo, só que não consegui. Senti uma picada em meu pescoço e um liquido entrando em meu corpo. Saí de casa e pude ver uma vã do lado de fora. Eles abriram a porta e me colocaram dentro. Após isso, fecharam.

Meus olhos foram se fechando aos poucos, e me lembro que a ultima coisa que eu vi foi o sol brilhando pela a janela do veículo. Após isso, apaguei completamente.