E Se fosse verdade? 2
9 Percy recebe uma missão
No dia seguinte acordei sem saber onde estava. Minha cabeça estava girando e meu corpo dolorido.
— O que aconteceu? — balbuciei.
Olhei á minha volta. Só o que eu conseguia ver era arvores grandes e largas. O ambiente estava um pouco úmido e escuro. Eu estava deitado em uma parte fofa de grama.
Depois de alguns minutos, notei que eu estava dentro dos bosques do acampamento. Eu me levantei completamente confuso.
— Hã... O que estou fazendo aqui? — me perguntei se eu havia passado a noite inteira dormindo aqui. Mas... Se eu tivesse passado a noite ali, por que ainda estava vivo? Havia monstros soltos dentro dos bosques. Eles eram mantidos ali como um desafio para os campistas. Será que nenhum deles se interessou por um semideus fresco e suculento deitado sozinho dentro do bosque?
— Meus deuses, o que aconteceu? — eu me perguntava toda hora. Começava a suspeitar de que eu fora vítima de alguma brincadeira, quando de repente me veio à mente algumas lembranças.
Eu estava em minha cama no chalé 03 ontem à noite. Não havia motivo para eu ter saído de minha cama e ido para cá. No entanto, ontem eu estava com a máscara em minhas mãos e, sem querer eu a soltei. Então...
— Não. Não, não pode ser. — eu choramingava. — Não acredito. Aquela coisa caiu em cima do meu rosto.
Eu caí de joelhos me sentindo péssimo. O que será que eu fiz? Espera, eu não. Não é “O que será que eu fiz?” é “O que será que ele fez?”. Eu não sou culpado pelos atos dele. Eu não sou assim.
Mas a máscara estava no rosto de quem? Replicou minha consciência. Quem será que estava por detrás da máscara?
Isso, continue me confortando. Resmunguei.
Levantei-me, respirando fundo, e saí dos bosques.
***
Se eu soubesse o que eu veria quando saísse dos bosques, teria permanecido lá.
O acampamento inteiro estava num estado de desespero misturado com catástrofe. Na área dos chalés, os campistas estavam agitados, correndo de um lado para o outro em pânico. As dríades, que eram espíritos femininos que moravam nas arvores, também estavam desesperadas.
Andei alguns metros com um aperto no coração. Olhei para o chão, para a grama, e vi imensas cicatrizes marcadas por fogo. Andei mais alguns metros e vi sangue. Uma boa parte da grama estava tingida de vermelho e com algumas partes de corpos. Eu quase tive um ataque cardíaco. Minhas mãos começaram a tremer.
— Raphael? — gritou alguém incrédulo. Olhei e vi Barbara correndo em minha direção.
— Ah, meus deuses! Onde você esteve? — ela estava chorando, com o rosto molhado de lágrimas. Os olhos estavam vermelhos e inchados. — Estávamos pensando que você estivesse morto!
A voz dela estava embargada. Vê-la naquele estado deixou meus olhos cheios d’água. Eu não estava acreditando que aquilo tudo podia estar acontecendo. Só podia ser um pesadelo.
— Morto? — perguntei. — Por quê? O que aconteceu?
— Eu não sei muito bem. — ela soluçava, enxugando as lágrimas. — Um louco de cabeça verde entrou aqui e começou a atacar todo mundo. Pôs fogo no acampamento e matou vários campistas.
— M-m-matou? — gaguejei, incapaz de acreditar no que estava ouvindo. — E-ele matou...
Eu tentei, mas não consegui segurar, e as lágrimas começaram a descer pelo o meu rosto. Minhas pernas estavam tremendo muito.
— P-Percy. — disse eu. — Annabeth, Matheus...
Barbara fungou e enxugou as lágrimas.
— Não, não. Eles estão bem. Annabeth está sendo cuidada porque foi atingida por um tiro no ombro. Venha! Quíron vai querer falar com você.
Enquanto andávamos, eu via o terror estampado nos rostos de todo o mundo.
Fomos ao Pavilhão, e quando chegamos lá, vi Clarisse com uma faixa branca ao redor da perna. Beckendorf estava cuidando de Silena e alguns de seus irmãos. Quíron estava fazendo o máximo que podia para ajudar. Olhei para a Casa Grande, e vi muita agitação no quarto de doentes. A situação devia estar horrível. Dentro de mim não estava muito melhor. A culpa me fazia querer morrer. Eu devia ser expulso do acampamento. Eu era um perigo para os meus amigos.
Quando Quíron me viu, ele suspirou aliviado.
— Ah, Raphael. Você está vivo! Graças aos deuses!
— Oi, Quíron. — murmurei.
— Raphael! — Dandara veio e me deu um abraço. — Pensei que estivesse morto.
— É... Bem...
— Fique aqui Raphael. — ordenou Quíron. — Vamos falar sobre o que aconteceu ontem. Teremos muito que discutir. Vou buscar Percy e Annabeth na Casa Grande.
***
Quando todos estavam reunidos, os campistas começaram a relatar o que tinha acontecido.
— Foi Horrível! — começou Connor Stoll. — Eu não peguei toda a luta, mas vi quando Lee Fletcher e seus irmãos atingiram ele com uma saraivada de flechas, e o cabeção ainda ficou de pé. Ele estava transbordando sangue, mas mesmo assim não morreu.
— Ele fez aparecer uma espingarda do nada! — exclamou Lee Fletcher. — Eu nunca vi uma coisa assim. Se aquilo for um monstro, é o mais poderoso de todos.
Clarisse se levantou.
— Isso só pode ter vindo do mundo inferior. Uma coisa tão poderosa assim... — ela respirou fundo. — Eu ia avançar com a minha lança para mata-lo, mas quando o vi tirar uma metralhadora de dentro da camisa e matar um de meus irmãos, eu...
— E ele parecia não sentir nenhuma dor! — exclamou Will Solace.
— E aquele sorriso horrível de um louco. — estremeceu Barbara. — Com os dentes grandes e...
— Calma! — disse Quíron erguendo as mãos. — Por favor, mantenham a calma.
Eu podia ver que Quíron estava tentando parecer calmo, mas ele mesmo parecia estar segurando o desespero. Percebi que o sr. D não estava lá. Claro, ele nunca acordava antes das dez horas.
— Eu sei que vocês estão aterrorizados. — continuou. — Eu compreendo. Nunca vi nada igual. Isso só pode ser algo fora de nosso entendimento. Mas ele foi embora.
— Não, não foi. — Israel se levantou. Fiquei curioso para saber onde ele estava todo esse tempo. — Eu o vi indo para os bosques. Ele deve ter se escondido lá.
— Ótimo! — Stefferson levantou-se. — Vamos caçá-lo.
— Você está louco? — retrucou Annabeth. Ela estava sentada junto de mim e Percy, que ficou louco de preocupação com ela quando soube de tudo isso. — Ele não pode morrer. O vimos sangrar constantemente. Vimos ele fazer aparecer do nada armamentos fatais e inclusive um lança-chamas. Ele até deu em cima de mim.
— Como é? — disse Percy.
— Ela tem razão. — falei. Todos olharam para mim. — Hã... Quer dizer, isso seria suicídio.
— E onde você esteve? — perguntou ele.
— Hã... Eu me escondi. — menti. — Eu vi o quanto era perigoso, e fiquei escondido.
Quíron estava fitando o chão.
— Bem, este ser estranho não causou estragos somente aqui. — ele pegou um copo cheio e lançou nas brasas da fogueira no centro do pavilhão. O vapor criou um leve arco-íris, como resultado da luz da manhã. — Ó Íris, deusa do arco-íris, nos mostre as noticias.
Alguns segundos depois, umas imagens começaram a aparecer. Vi uma repórter que falava para as câmeras.
— O corpo de um jovem estudante foi achado em uma rua pouco movimentada. Segundo os policiais, ele foi baleado com vários tiros por uma metralhadora. Não se sabe ainda quem fez isso, mas testemunhas alegam terem visto o rosto do bandido, e dizem que este tem a cor do rosto esverdeada. Os policiais vão procurar este estranho...
Quíron agitou a mão, e outra cena apareceu. Agora um repórter falava para as câmeras.
— Uma professora foi agredida dentro da escola por um rapaz misterioso. Os alunos da sala testemunharam o acontecimento, e disseram que este rapaz misterioso usa uma máscara verde para dificultar o seu reconhecimento. Felizmente a professora foi socorrida e levada para o hospital mais próximo.
Quíron passou a mão pelo o arco-íris.
Outro repórter falava:
— No centro de Nova Yorque, uma escola pegou fogo devido a um vazamento de gás. Os professores estavam acudindo os alunos que escapavam das chamas quando, um homem vestido de bombeiro e usando uma máscara verde, entrou na escola para resgatar os alunos, mas não sem antes deixar mais uma vítima com o rosto queimado. O que será que este estranho homem é? Um herói? Um bandido? Voltaremos em instantes com mais noticias deste estranho ser.
Quíron passou a mão pelo o arco-íris, que se dissolveu. Todos nós estávamos em silêncio. Ninguém dava um pio.
— Bem, isso é um assunto bastante complicado para tratar. — disse Quíron. — Não sei como ele conseguiu passar pelas barreiras mágicas, mas uma coisa é certa: Este ser misterioso é mais perigoso do que parece.
Eu estava com a minha garganta seca. Eu havia feito aquilo tudo? Matado gente inocente? Uma raiva cresceu em meu peito. Eu não iria mais ficar com aquela máscara maldita. Nunca mais. Jogaria ela no lixo ou em qualquer outro lugar.
— Agora, temos outro problema com o que tratar. — disse Quíron com um tom cansado. — Percy, pode contar.
— Contar o quê? — perguntei.
Percy se levantou.
— Eu tive um sonho ontem à noite. Nele, eu vi Grover sendo mantido preso em algum lugar juntamente com... — ele olhou para mim. — Com Igor.
— O quê? — exclamei.
— Deixa ele contar. — murmurou alguém.
— No sonho, eles estavam presos com algemas, quando alguém falou a eles que só seriam soltos se os amiguinhos do acampamento fossem em uma missão para resgatá-los, e trouxessem... — Percy olhou novamente para mim. — A máscara.
Meu coração se despedaçou, regenerou-se, e explodiu. Quem estava querendo a máscara? E como sabiam sobre ela? Igor e Grover estavam sendo mantidos presos? Mas como?
Havia tantas perguntas. Os campistas começaram a falar e a murmurar. Percy olhava para mim fixamente. Eu não o encarei.
— Ordem! — gritou Quíron. — Silêncio! Eu sei que hoje não foi um dia feliz. Temo que seja necessário ter que dar uma missão.
— Espera! — gritei. — Mas quem será o escolhido?
— Bem, se o sonho veio para Percy...
— Mas eu tive um sonho também.
Todos me encararam.
— Hã... É que Percy disse que eles estavam presos em algum lugar, ou seja — olhei para ele. — você não sabe onde eles estão, não é?
— Bem... Não. — admitiu.
— Mas eu sei.
— Pois conte. — pediu Travis.
Contei-lhes o meu sonho. Todos arregalaram os olhos quando acabei de falar.
— O monte Tamalpais? — perguntou Percy.
— O monte o quê? — disse eu.
— É aonde ficava o palácio dos Titãs, na Califórnia.
— E onde fica Atlas também. — disse Annabeth sombria.
— Atlas? — falei. — O titã que segura o céu?
Annabeth assentiu.
— Então... Quer dizer que estão lá?
— É provável. — afirmou Quíron.
— Mas que máscara é essa? — perguntou Clarisse. — E quem é a pessoa que está mantendo eles presos?
— Isso só será resolvido indo consultar o Oráculo. — disse Quíron. Ele olhou para Percy e eu. — Os dois tiveram sonhos importantes. Um completa o outro. Quem de vocês vai visitar o Oráculo?
— Percy. — falei. — Ele vai.
— Por quê?
— Por que eu já tive minha missão no verão passado, e também... Não quero ver aquela múmia de novo.
— Tudo bem. — Ele deu de ombros.
— Então, Percy, vá consultar o Oráculo. — concluiu Quíron. — Quando voltar, vamos ver se a profecia nos dá alguma dica do que vão enfrentar.
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