E Se fosse verdade? 2
43 Nico diz adeus
Viajar nas sombras. Acho que vocês devem estar curiosos a respeito de como deve ser isso. Bem, deixe-me explicar.
É horrível! Simplesmente aterrorizador. Você quase morrer de medo e de ataque do coração.
É não, estou brincando. Falando sério, se você não gostar de frio na espinha, barulhos estranhos, ter a sensação de que sua pele vai se soltar do rosto e de sentir vertigens, aconselho a não viajar nas sombras. Em outras palavras, até que foi legal.
No segundo seguinte, saímos de dentro de uma parede e caímos no chão um por cima do outro.
— Ai! — gritou Percy. — Minha coxa!
— Ai! — gemeu Annabeth. — Meu ombro!
— Ai, ai! — gemi. — Minha mão!
— Ai! — murmurou Kayro. — Como vocês são moles.
Saímos de cima um do outro e nos sentamos. Quando olhamos para cima, vimos um casal de idosos nos olhando com os olhos arregalados. Por um momento ninguém deu um pio. Só ouvíamos os grilos cantando. Depois, Kayro, que estava com a Máscara ainda, olhou para o casal e perguntou:
— O que é que estão olhando seus velhotes?
— Hã...? — disse o senhor.
Ele pegou duas metralhadoras e gritou:
— Se não saírem agora, vão perder os anos de vida que lhes restam!
O casal cambaleou para trás e saiu gritando por socorro.
— Kayro! — disse Percy. — Por que fez isso?
Ele olhou para Percy e mirou a arma nele.
— O quê? Quer morrer também?
De repente Nico saiu da parede ao nosso lado e caiu por cima de Kayro.
— Saí de cima de mim, seu filho do capeta!
Annabeth aproveitou a chance e puxou a Máscara do rosto dele.
— Ah! — arquejou Kayro. — Meus deuses. Eu não estava conseguindo mais me controlar.
Nico resmungou, bateu a poeira de suas roupas e se levantou.
— Da próxima vez vou ver melhor para onde estou indo.
Entendi por que ele havia dito aquilo. O lugar em que a gente estava era o quintal de uma casa. Por isso a razão do casal de idosos estar nos olhando assustados.
Kayro tentou se levantar, mas deu um gemido.
— Ah, não. Minha barriga.
Eu me aproximei e vi que o ferimento de bala havia voltado. Mas resolvemos isso com rapidez. Annabeth entrou na casa do casal de idosos e pediu lenços limpos e uma jarra de água para estancar o sangramento, não só de Kayro, como também de todos nós, feridos. Ela jogava um pouco de água em cima e depois colocava o pano sob o machucado fatal. Além disso, ainda sobrou água para a gente beber, pois estávamos morrendo de sede.
Envolvi minha mão machucada no lenço. Dava para ver que eu não ia poder praticar esgrima tão cedo. Annabeth jogou o resto da água nos rostos de Igor e Grover, que arquejaram e tossiram, abrindo os olhos.
— Minha nossa... — disse Igor, a voz parecendo a de um pato com inflamação na garganta. — O que... onde estou?
— Bééé. — baliu Grover, coçando os olhos. — Ai, minha cabeça. O que aconteceu? — ele então nos viu. — Pelas flautas de Pã! Vocês estão vivos!
O momento seguinte foram o dos abraços. Grover abraçava todo mundo, inclusive Kayro, que nem conhecia, enquanto contava os terríveis dias que passou com Fobos e Deimos. Igor parecia envergonhado, mas o abraçamos mesmo assim. Apenas Nico não estava no clima de abraços, pois ficava no canto mais escuro olhando para o céu. Me perguntei se ele era antissocial.
Vendo aqueles dois com vida, uma pequena alegria tomou conta de mim, mas não o bastante para fazer com que um sorriso brotasse em meu rosto. Por que a dor da perda ainda não havia diminuído, tampouco havia acabado.
— Bem vindo de volta, cara. — disse eu, pondo minha mão no ombro de Igor.
— É, ainda bem que deu tudo certo. — disse ele. — Mas... como vocês conseguiram nos resgatar? Como lidaram com Fobos e Deimos?
Percy tomou à dianteira e contou tudo. Quando chegou à parte em que Ashley havia morrido, ele parou de falar.
— Sinto muito, cara. — disse Igor. — Eu não devia... a culpa disso tudo é minha.
— Ah, por favor, Igor. — resmungou Annabeth. — Como pode ser culpa sua?
— Se eu não tivesse achado aquela Máscara, nada disso teria acontecido. Se eu não tivesse aberto aquela caixa, talvez nunca soubéssemos dela.
— A culpa não foi sua. — interveio Percy. — Ninguém teve culpa de nada. Isso é bastante comum nas nossas vidas. Confusão, morte, perigo, pânico...
— Okay, sr. Animador. — interrompeu Kayro. — Você é ótimo para aumentar nosso ânimo.
Eu peguei a Máscara, e quando Igor a viu, recuou assustado.
— Venham — disse eu, pondo a Máscara no meu bolso de trás. — Vamos sair daqui.
Nos levantamos e saímos dali.
Meu corpo estava clamando por descanso. Estava muito cansado e sobrecarregado, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Ainda estava tentando acreditar no que acontecera no Monte Tam. Que Ashley havia morrido. A imagem dela morrendo em meus braços fazia-me querer gritar e chorar. Mas eu me contive. Poderia fazer isso quando estivesse no acampamento. Ficaria sozinho no chalé 03 e deixaria as lágrimas rolarem. Por enquanto tinha que aguentar tudo.
Andávamos por entre ruas desconhecidas e escuras. A lua estava acima de nossas cabeças, lançando um leve brilho sobre a terra. Pude ver alguns homens com aparências sujas e esfarrapadas andando por entre becos e avenidas.
— Onde estamos, Nico? — perguntou Percy.
Ele andava atrás de nós, o que era meio incômodo. Suas roupas pretas o faziam parecer um garoto sombrio e perverso.
Ele é filho de Hades, pensei. Tem que parecer um pouquinho mesmo com o pai, apesar de nunca ter visto o deus do Mundo Inferior em pessoa.
— Acho que em Colorado. — respondeu ele. Sua voz estava cansada. — Eu tentei ir o mais longe possível... — ele inspirou. — Mas só consegui até aqui.
— Você está bem? — perguntei.
Ele assentiu.
— A viagem nas sombras me deixa cansado e fraco. Não posso ficar fazendo isso constantemente.
— Você quer ajuda? — eu me aproximei dele para ajudar, mas ele recusou.
— Estou bem. Não se preocupe comigo.
— Okay, desculpe.
Prosseguimos viagem. Igor chegou perto de mim e sussurrou:
— Quem é esse garoto estranho?
— Nico de Angelo, filho de Hades.
Ele se empertigou.
— Filho de... Hades? O deus satânico? Do mundo dos mortos?
— Ei! — eu o cutuquei. — Se eu fosse você não teria coragem de mexer com deuses, e muito menos esse deus.
— Uuhh! — Igor fingiu surpresa. — Tudo bem.
Chegamos a uma rua aberta com vários becos do nosso lado direito. Percy então arquejou:
— Tive uma ideia.
E correu para dentro do beco. Quando chegou lá, deu um assovio alto e agudo seis vezes.
Kayro virou-se para Annabeth.
— Ele ficou louco assim em quantos meses?
Ela o empurrou com o ombro.
— Você irá ver uma coisa.
Nesse momento, formas escuras começaram a descer do céu em nossa direção. Consegui distinguir asas enormes e patas de cavalo. Pégasos.
— Uau! — riu Grover. — Eles são bem rápidos, não são?
Seis Pégasos ao todo tocaram o chão a nossa frente. Um todo negro, BlackJack, falou em minha mente:
E ai, cara. Quanto tempo? Como você está?
Eu olhei para os meus amigos, achando aquilo estranho.
— Eu? Hã... bem. Mais ou menos.
Percy passou a mão no cavalo alado e disse:
— Eles poderão nos levar rapidamente para o acampamento.
— Cara, isso é demais! — sorriu Kayro.
Montamos nos pégasos, que relinchavam alegremente. Apenas um estava sem ninguém montado em cima.
— Nico? — chamou Kayro. — Você não vem?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Mas por quê?
— Não quero voltar ao acampamento. Prefiro ficar fora, passeando por entre as cidades.
Eu suspirei.
— Vamos, cara. Você merece vir conosco. Você nos ajudou e foi incrível!
— Obrigado, mas não. Tenho coisas importantes para fazer.
Eu me senti mal por ele. Nico agia como se ninguém o quisesse por perto, como se ele fosse rejeitado, e soubesse disso. Fiquei com tanta pena dele que, em um gesto de amigo, desci do Pégaso e disse:
— Obrigado por nos ajuda, cara. — e dei um abraço nele.
Nico fez um som de repulsa, como se ele tivesse pisado em um monte de cocô.
— Okay, okay. — ele me empurrou, não com violência. — Obrigado. Mas, por favor, não faça isso de novo. Não sou muito fã de abraços.
Eu sorri.
— Tudo bem.
Montei novamente em meu Pégaso. Todos começaram a bater as asas, enquanto subiam prontos para partir.
— Adeus, cara. — Kayro acenava. — Muito obrigado por me ajudar.
Nico acenou, virou-se, e seguiu seu sombrio e misterioso caminho.
Em alguns minutos, já estávamos em pleno ar, voando rápido em direção ao nosso único abrigo seguro:
O Acampamento Meio-Sangue.
Fale com o autor