E Se fosse verdade? 2
29 A vingança dos deuses menores
Nos sentamos embaixo do grande guarda-sol, que tinha sombra de sobra. Arrastamos Ashley para perto da gente, enquanto a deusa, Hera, fazia aparecer bandejas cheias de pratos com churrascos, sanduiches, batatas fritas, fatias de pizza e... uma jarra cheia de água geladinha. Quando eu vi aquilo bem diante dos meus olhos, tive que me segurar com toda a força para não avançar na jarra.
— Uau! — sorriu Kayro. — Cara, isso é que é um banquete.
Hera sorriu.
— Um banquete para vocês.
— Obrigado, hã... Hera. — falei, ainda achando impossível que aquela mulher fosse a verdadeira deusa.
Annabeth olhou para Hera.
— Certo, o que você quer?
— O quê? — disse Hera.
— Você deve estar querendo alguma coisa de nós. Sempre que aparece, é para pedir algo.
— Annabeth — interveio Percy com a boca cheia. — Vamos brincar de Acusar Os Deuses depois. Não acha melhor comer?
Ela deu de ombros, relutante.
Peguei um sanduiche e o devorei em um piscar de olhos. Depois bebi três copos cheios d’água, e após isso me fartei de batatas fritas e fatias de pizza. Igor e Grover comiam desesperadamente ao meu lado. Senti pena deles. Será que haviam tido uma refeição descente quando estavam presos?
Ashley, de repente, começou a se mexer. Ela abriu os olhos e nos olhou de forma confusa.
— Hã... onde estou? — sussurrou ela.
— No banquete da Rainha das Vacas. — murmurou Annabeth.
Uma raiva cruzou os olhos de Hera.
— Annabeth Chase, estou me segurando para não transformá-la em pó. Não abuse da minha paciência.
— E você tem paciência?
— Hã... Hera. — intervi, ansioso para acabar com aquela conversa. — Por que você apareceu mesmo?
— Eu vim conversar com vocês. — admitiu ela. — Dar algumas noticias.
— Que tipo de noticias? — perguntou Percy.
Hera respirou fundo.
— Podem ser um tanto desagradáveis, mas acreditem, só quero alertá-los.
— Pode dizer.
Ela se virou para mim. Seus olhos eram penetrantes e me davam um frio na barriga. Seu longo vestido branco cintilava e ficava mudando de cor.
— Primeiro, quero dizer que, o que o eidolon disse não é a verdade completa.
— O que quer dizer? — perguntou Igor. Ele parecia assustado. — Que eidolon?
— Estou falando isso para este meio-sangue. — ela apontou pra mim, e depois me olhou. — Na casa de fazenda em que vocês ficaram. Lembra? Um tipo de zumbi, desses que seu amigo Percy acabou de matar...
— Não precisa mencionar isso. — resmungou Percy.
— Ele estava possuído por um eidolon naquela hora.
Assenti lentamente.
— Eu me lembro. Na casa do sr. Richard.
— Exatamente. — concordou Hera. — Creio que o eidolon lhe falara que os deuses estavam com raiva de você só por haver matado alguns semideuses.
— Estes semideuses eram nossos amigos. — disse Annabeth.
— De fato. Mas não são mais. Continuando...
— Espera. — Percy olhou para mim. — Quando foi que você matou alguns semideuses?
Eu fiquei calado, sem responder nada. Os outros me olhavam confusos. Odiava ter de falar do que acontecera naquele dia.
— Responda. — insistiu Percy.
— Ah, deixe-o em paz. — disse Hera. — Não foi culpa dele, apesar disso. Estava sendo usado pela a Máscara.
— Sendo usado?
Annabeth me agarrou pelos ombros.
— Raphael, por favor, conte a verdade.
Meu rosto estava vermelho de vergonha, mas eu contei. Quando acabei de falar, todos ficaram perplexos.
— Então... — Percy estava de queixo caído. — você era quem estava matando nossos amigos naquele dia?
— Não! — disse eu. — Quer dizer, estava, mas...
— Você era o cabeção.
— Me deixa explicar...
— Por isso que aquele zumbi lhe acusava de ser um assassino.
— Foi um acidente! — exclamei. Me sentia bastante envergonhado e um pouco zangado, mas revelei a verdade. — Foi um acidente.
— Aquela matança foi um acidente? — perguntou Percy em tom irônico.
— Sim, seu estúpido. Eu havia escondido a Máscara embaixo do meu travesseiro, e fui dormir. No meio da noite, depois de acordar de um pesadelo, senti algo duro atrás da minha cabeça. Sem saber que era essa coisa, eu a peguei e fiquei olhando para ela, mas não estava reconhecendo. Foi ai que o acidente aconteceu. A Máscara caiu em cima do meu rosto. Eu ainda tentei tirar, mas... foi tarde demais.
Um silêncio constrangedor.
— Bem, não queria que essa discussão acontecesse. — disse Hera. — Eu só queria dizer que não são todos os deuses que estão com raiva de você Raphael. São apenas alguns.
Eu dei uma risada de má vontade.
— Apenas alguns.
— Sim. Apenas Hefesto, Apolo, Ares e Afrodite. Bem, Afrodite ficou abismada, mas quando soube que a filha que tinha morrido estava namorando há alguns meses, então se recuperou rapidamente. Ela adora historias de amor com um final trágico.
— Quatro deuses estão com raiva de mim, então?
— Seu pai, Poseidon, ficou um pouco zangado por você ter atravessado seu meio-irmão, Percy, com uma espada.
— O quê? — exclamou Percy. Ele me fuzilou com o olhar. — Foi você?
— Cara — Igor sorriu. — Você se divertiu a beça com a Máscara, não foi?
Olhei para Hera.
— Isso, continue me dedurando deusa da discórdia.
— Tome cuidado com o que fala. — ameaçou a deusa.
— Okay, okay. — Igor agitou os braços. — Dá para pararem?
— Realmente queria saber que Máscara é essa. — murmurou Grover, ajeitando seus sapatos.
Hera bufou.
— Vamos deixar isso de lado, sim?
— Sim, vamos. — Percy me olhava. — Só por alguns minutos.
— Ainda tenho mais coisas a falar.
Annabeth fez uma careta.
— Não precisamos saber de mais nada.
— A filha de Atena recusando um conselho? — provocou Hera. — Em que mundo estamos?
— Okay, Rainha Hera. — disse Kayro. — Por favor, nos fale o seu conselho.
Hera olhou para Annabeth.
— O que eu tenho para falar vai servir pra você, filha de Atena.
— Está bem, Rainha dos céus. — sorriu Annabeth falsamente.
A deusa olhou para nós.
— Lembram da profecia?
— Sim. — disse Kayro.
— Que profecia? — perguntou Grover, totalmente perdido.
— Lembram-se da parte que diz: “Sem sabedoria, a Máscara irá causar a ruína”?
Nós assentimos. Eu temia o que aquilo pudesse significar.
— Essa parte se refere a você, filha de Atena. Você é a sabedoria.
— Ah, certo. — resmungou Ashley fracamente. — E eu não sou nada.
Hera sorriu, e num gesto carinhoso, tocou as costas de Ashley bem onde estava a ferida.
— Você também tem sabedoria. Aliás, gosto mais de você do que dessa garota.
— Parabéns pra você. — murmurou Annabeth.
Hera tirou sua mão das costas de Ashley, e pude ver que a ferida não estava mais lá.
— Annabeth é a escolha mais sensata quanto a usar essa tal Máscara. — continuou Hera. — Embora eu não ache. Mas ela é quem deve usá-la a partir de agora. Afinal, sem sabedoria, a Máscara irá causar a ruína. E creio que já temos visto muita ruína por parte dos que a usaram.
Faz sentido, pensei. Quando um trovão ecoou no céu claro.
— Esse é o meu sinal. Tenho que ir.
— Obrigado pelo o lanche. — agradeceu Grover.
— De nada querido. — Ela virou-se, como se fosse sair correndo, mas antes olhou novamente para nós. — Ah, só mais uma ultima coisa antes de eu ir embora. Se eu fosse vocês, ficaria de olhos abertos a partir de agora. E protegeria seus dois amigos.
— Por quê? — perguntei.
Ela começou a brilhar.
— A vingança está vindo até vocês.
Assim que ela disse isso, duas pessoas apareceram de repente no nosso meio.
— Olá, perdedores. — riu Fobos.
— Viemos buscar umas coisas deixadas para trás. — disse Deimos.
E em questão de segundos, eles se viraram para Igor e Grover, os pegaram e... Desapareceram.
Nossos amigos foram novamente capturados.
Fale com o autor