E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
12 Cometo suicídio
Notas iniciais
Mais tarde, Newt me pôs para trabalhar como Desbastador. Nem me perguntem o porquê desse nome, já que tudo o que faziam era podar arvores no jardim, arrancar matos, plantar e tal.
Fiquei trabalhando com o Encarregado, que se chamava Zart, um cara alto, branco, com os cabelos pretos. Ele não falava muito, mas me explicou direitinho como se fazia o trabalho. Depois de mais algumas explicações, pude executar a tarefa por mim mesmo. Capinar, plantar sementes de abóboras e feijões, colher hortaliças e tal. É, pelo menos aquilo era muito mais agradável do que matar porcos sangrentos.
Os outros garotos que trabalhavam ao meu lado ficavam cochichando a meu respeito. Acho que eles não sabiam que eu podia ouvir, mas decidi ignorar. Não iria dar atenção a coisas tão fúteis.
Quando chegou uma hora em que fiquei ao lado de Zart, decidi fazer perguntas. Pelo menos ele parecia mais acessível quanto ao restante. Decidi agir normalmente.
— E aí, Zart? Tudo bem?
Ele estava arrancado matos do chão. Olhou para mim com o canto do olho, mas não deu atenção. Apenas perguntou:
— O que quer, Fedelho?
Arranquei um mato com um gemido, usando toda a minha força.
— Hã... quantos Encarregados existem aqui? — não queria deixar transparecer a minha verdadeira intenção, saber dos Corredores.
— Bem, temos os Construtores, Embaladeiros, Aguadeiros, os Cozinheiros, os Cartógrafos, os Socorristas, os Desbastadores e os Açougueiros. Ah, e os Corredores, claro.
Alguns nomes davam para se imaginar o que era, mas outros não.
— O que é um Aguadeiro?
— É o que os trolhos que não são capazes de fazer outra coisa, fazem. Limpam privada, limpam banheiros, faxinam cozinhas, limpam o Sangradouro depois de um abate, tudo. — ele deu uma risada. — Passar os dias com aqueles babacas é osso.
— Nossa. — murmurei. — E quem faz essas coisas todas?
— Posso citar apenas um, que é o Chuck.
Na mesma hora me senti triste. O pobre garoto fazia aquelas atividades desagradáveis? Por que faziam isso com ele?
— Hã... e quanto aos Embaladores? O que significa? Eles embalam coisas?
Tentei ser descontraído, mas Zart apenas me olhou entediado.
— Os Embaladores cuidam dos mortos. É de dar arrepios. Eles atuam como guardas e polícia também. Mas a maioria o chamam de Embaladores.
— Ah.
Pensei nas minhas próximas perguntas, mas de repente perdi a vontade de falar. Aquilo tudo era tão estranho que chegava a ser assustador. O Labirinto, os Verdugos, os Corredores que nunca acharam uma saída por dois anos, os monstros horríveis que apareciam só para me perseguir.
Minha vida era mesmo uma droga.
O que posso fazer? Perguntei a mim mesmo. Ainda sou um mértila de novato.
Mértila. Aquelas palavras da Clareira já impregnavam meu falar?
Apenas trabalhe. Falei para mim.
***
Duas horas mais tarde, desabei de cansaço no lugar onde dormia. Aquela tarefa de ficar curvado arrancando matos, arrastando-se no chão enquanto o sol fazia arder suas costas foi demais para mim. O suor descia por meu rosto até o pescoço.
Corredor, pensava constantemente. Quero ser um Corredor. Não importa quantas atividades eu faça... vou ser um Corredor.
Fiquei imaginando por que eu queria tanto aquilo. Era um absurdo. Os Corredores passavam o dia correndo (jura?) pelo o Labirinto, precisavam ser resistentes. Eu, por outro lado, já estava cansado só por ter passado a manhã inteira arrancando matos e cuidando de plantações. Que resistência.
Fui a cozinha beber um pouco de água e comer alguma coisa. Após isso, peguei uma laranja e sentei perto de Chuck, que estava na cozinha. Newt estava lá também, sentado, com o rosto preocupado. Os músculos do pescoço estavam rígidos de tensão.
— O que há com ele? — sussurrei para Chuck.
— Não sei. Pergunte a ele.
— Estou ouvindo o que estão dizendo aí, paspalhos. — disse Newt.
Fiquei um pouco acanhado, mas não pude deixar de me sentir preocupado em relação a ele. Na verdade, Newt era bem legal, e eu começava a sentir simpatia pelo cara.
— O que aconteceu com você? — indagou Chuck. — Me desculpe, mas você está parecendo um plong.
Olhei para Chuck achando estranho. O que tem a ver uma pessoa estar parecendo um cocô?
— Tudo aconteceu. — disse ele. — Toda esta maldita situação. Dois fedelhos novos em dois dias. Um homem entrando na Clareira para matar aquele Fedelho esquisito — ele me olhou. — E você.
Eu me sentia como se fosse um ladrão sendo pego por estar roubando. Aquelas situações eram mesmo para lá de estranhas. Mas um homem entrando na Clareira? Ele só podia estar falando do gigante. Claro, eles não viam as coisas como eram de verdade. Mas por que?
— Mas não é só isso que me preocupa. — continuou.
— E o que é? — quis saber Chuck.
Ele encostou a cabeça na parede, e olhou para uma das aberturas dos muros.
— Alby e Minho. Eles já deviam ter voltado horas atrás.
Não me dava conta disso. Sabia que eles dois tinham ido encontrar o Verdugo morto, mas não sabia que eles já deviam estar aqui.
— Os Verdugos saem somente a noite, certo? — perguntei.
Newt me olhou.
— Por que mértila está falando disso?
— Por que... quem sabe eles ainda estejam verificando o que está morto? Não tem motivos para se preocupar. Quando estiver anoitecendo, eles voltam.
— Como se isso fosse fácil, cabeção. — murmurou ele. — Você falando que não há motivos para se preocupar me dá vontade de vomitar. Não importa qual o momento ou que hora for... lá fora é horrível.
Olhei para as portas.
— O que tem lá fora que é tão horrível assim? Sem contar os Verdugos.
Newt suspirou.
— Pressão. Tensão. Os muros do Labirinto mudando todos os dias, a gente tentando guardar as coisas na memória, tentando escapar daqui. Preocupando-se com os malditos Mapas. Se um labirinto normal já seria difícil, imagine com os muros se movendo e mudando todos os dias. Basta você cometer um errinho mental idiota, e então você passa a noite inteira com aquelas aberrações.
Uma pausa.
— ...Uau! — eu estava sem saber o que dizer diante daquelas informações. No entanto, a coisa mais estranha era que, quando eu pensava em labirinto, sempre me vinha a mente imagens de túneis subterrâneos escuros, cheios de armadilhas.
— Por isso precisamos dos Corredores, não é? — disse Chuck.
— Sim. — respondeu Newt.
Era essa a hora. Queria saber sobre os Corredores.
— O que esses Corredores são, afinal?
Nenhuma resposta.
Pensei que a conversa havia cessado, quando Newt disse:
— Os melhores dentre os melhores. É o que eles são. Precisam ser.
— O que fazem para saber quem é bom para ser um Corredor? Hã... apostam corridas para ver quem é o mais rápido?
Chuck deu uma risada atrás de mim. Newt me olhou com aborrecimento.
— Não seja idiota, fedelho. Ser rápido é apenas uma pequena parte desse plong todo. Não basta ser rápido. Para sobreviver ao Labirinto, você precisa ser esperto, ágil, forte. Ser capaz de tomar decisões rapidamente, saber o grau certo de riscos que deve correr. Enfim, tudo.
— Puxa. Como sabe disso tudo? — indaguei.
Ele encolheu as pernas junto ao corpo.
— Por que eu já fui um Corredor.
— Sério? E o que aconteceu? Por que não é mais?
— Por que machuquei a perna, a qual nunca mais foi a mesma. — ele esticou a mão e massageou o tornozelo. — Estava tentando escapar de um maldito Verdugo. Só de me lembrar, fico com arrepios.
— Ah.
Chuck me cutucou nas costas.
— Pra que esse interesse todo? Não estava falando sério em querer se tornar um Corredor, estava?
Me segurei para não me virar e estrangular Chuck.
Newt franziu as sobrancelhas e deu um sorriso sarcástico.
— Ah, então é por isso que o nosso trolho está fazendo tantas perguntas?
— Mas é sério. — tentei ser firme. — Quero ser um Corredor.
— Não está aqui nem uma semana. Está muito cedo para ficar tendo vontades.
— Não posso ficar aqui arrancando mato o dia inteiro. — resmunguei. — Preciso fazer algo. Quero ajudar. Sei que posso fazer isso.
Ele deu um sorriso torto.
— Escuta, Fedelho...
— Meu nome é Raphael.
— Estou pouco me lixando. — ele suspirou. — Ninguém quer ser um Corredor. Okay? Ninguém. Agora pare de ficar se achando o bonzão, senão vai se encher de inimigos aqui.
Parte de mim concordava.
Newt se levantou.
— Vamos fazer o seguinte: Se ficar quieto, e não ficar me enchendo o saco com isso, posso lhe colocar na lista de próximos aprendizes para Corredores.
Um ânimo me encheu, como se tivesse tomado um galão cheio de energético. Mas durou pouco.
— Hã... vai demorar?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Se me perturbar diariamente, sim, vai demorar, e muito.
— Então vou falar com o Minho sobre isso.
— Há! Essa é boa, seu pedaço de plong. É o Conclave que elege os Corredores. Não fique achando que poderá fazer o que quer aqui. — ele inclinou-se para mim. — Ordem. Ordem. Enfie essa palavra nessa sua maldita cabeça de mértila mil vezes. — cutucou minha cabeça com o dedo. — O motivo de continuarmos pensando direito por aqui é por que trabalhamos em ordem. Nunca se esqueça disso. Ouvi bem, Fedelho?
Por incrível que pareça, não me senti intimidado nem nada. Revirei os olhos e dei um sorriso de má vontade.
— Feche a matraca por enquanto. — com isso ele virou-se e saiu.
Uma pausa.
— Mas que trolho insistente você é. — observou Chuck. — Tem certeza do que está fazendo?
Assenti.
— Absoluta.
***
Não demorou muito para que eu estivesse de volta ao trabalho, arrancando ervas daninhas. Eu contava os minutos, pensando no fim daquela atividade irritante. Aquilo não era para mim. Precisava me mexer, agir. Havia alguma coisa em mim que não me deixava ficar quieto, sempre querendo se movimentar, querendo ação, aventura... Adrenalina. Uma sensação de inquietude.
Quando enfrentei o gigante, essa sensação parecia ter se acalmado um pouco. Mas agora voltava com mais força.
Olhei para a Porta Oeste da Clareira, pensando em Alby e Minho. Será mesmo que eles estavam bem? De acordo com Newt, eram para eles já estarem de volta.
Deixei de pensar nisso e me concentrei em terminar meu agradável trabalho. Minhas mãos já estavam ardendo de tanto arrancar coisas do chão.
Á noite, no jantar, não havia tanta animação assim por parte dos Clareanos. Pareciam que estavam todos mortos ou desanimados. Caçarola preparou nossa refeição — picanha, purê de batata, arroz e suco de laranja. Estava uma delícia. No entanto, Newt não estava relaxado. Os Corredores haviam voltado no horário normal. Ainda assim Alby e Minho não voltaram.
Newt corria, verificando as quatro Portas da Clareira para ver se havia algum sinal de gente chegando. Mas não houve nenhum.
Percy, que estava sentado junto comigo na mesa, mais Chuck e Royce, apontou para Newt e murmurou:
— O que há com ele?
— Está vendo se Alby e Minho chegam, antes de as Portas se fecharem. — respondeu Royce, a voz soturna.
Eu havia comido apenas metade da comida. Ficava olhando para Newt, que parecia a beira do pânico.
— Precisamos fazer algo. — disse eu, a impaciência tomando meu ser. — Não podemos ficar aqui sentados na boa, enquanto os dois estão lá fora, provavelmente perdidos.
— Minho nunca se perderia. — interveio Chuck. Ele mastigou a comida, depois continuou. — Ele é o melhor Corredor que temos.
— As portas vão se fechar daqui a pouco. — anunciou Royce, a cabeça baixa enquanto comia.
Um frio corroía meu estômago. Não gostava muito de Alby, nem era tão chegado a Minho, mas mesmo assim não conseguia deixar de me importar.
Decidi tomar a iniciativa.
— Vou ajudar Newt olhando as Portas. — levantei-me e andei apressadamente. Como previsto, os três me seguiram.
Cheguei perto de Newt. Ele passava as mãos pelos cabelos, parecendo que ia explodir de ansiedade.
— Onde eles estão? — a voz estava aguda de tensão.
— Calma. — falei, dando tapinhas nas suas costas. — Que tal mandarmos um grupo de busca ou algo parecido?
O olhar que Newt me deu foi tão duro que tive medo de sofrer combustão espontânea.
— Seu maldito... — ele inspirou, acalmando-se. — Não podemos, está bem? É proibido. É contra as regras. Além do mais, essas mértilas de Portas estão quase se fechando.
Percy interviu na conversa.
— Não podemos mandar nem uma pessoa para verificar? Aqueles Verdugos podem pegá-los. Devemos fazer alguma coisa, e não ficar aqui parados como Guardiões das Portas.
Newt virou-se para ele subitamente, o rosto vermelho e contraído de tensão, os olhos quase em chamas.
— Cale essa maldita boca, Fedelho! — gritou ele. — Você não sabe de nada! Mal chegou aqui! Acha que eu não arriscaria minha vida para salvar aqueles dois trolhos?
Eu recuei um passo. Percy ficou mudo.
— Certo. — disse ele por fim, erguendo as mãos. — Desculpas. Não sabia que era tão heroico.
Fiquei impressionado por Percy ainda fazer um comentário daqueles ante a reação de Newt.
— Estava só tentando ajudar. — disse eu.
— Você não está entendendo, Raphael. — murmurou (ele disse meu nome? Sério?). — Seria suicídio ir lá durante a noite. É pedir para morrer de uma forma realmente dolorosa. Se aqueles dois não voltarem... — a voz falhou. — Eles dois fizeram um juramento, assim como eu. Todos nós fizemos. Vocês também irão fazer, quando forem para o primeiro Conclave. O juramento é de nunca sair à noite. Nunca. Não importa o que aconteça.
— Se eles dois não voltaram... — disse Chuck as minhas costas. — significa que estão mortos. Minho nunca que iria se perder.
Ouvi Chuck afastar-se de mim, indo embora lentamente. Eu remexia minha perna toda hora, ansioso para fazer algo.
Um estrondo abrupto me fez dar um salto de susto e um grito. Olhei para as Portas, e vi que o muro da esquerda se movia, saindo do seu lugar e indo ao encontro do seu parceiro da direita. Newt baixou a cabeça e saiu, andando lentamente e mancando, como se estivesse voltando de um enterro de um ente querido.
— Ah, cara. — Percy murmurou ao meu lado. — Se eu pudesse fazer alguma coisa.
Olhei para o muro, avançando e arrastando-se ao chão, fazendo cada segundo ser pior que anterior. Minha barriga parecia estar cheia de gelo.
— Olha! — gritou Royce, o que me fez ter um mini infarto. — Lá no final!
Ele estava apontando para o fim do corredor afora. Duas formas humanas apareceram de repente, andando e cambaleando para os lados, como se estivessem bêbados.
Arregalei os olhos.
— Newt! — berrei, virando-me para trás. — Newt! Eles estão vindo!
Newt olhou para trás e voltou correndo energicamente.
Observei, e pude distinguir Minho curvado, arrastando alguém, com o braço em volta de seu pescoço.
Era Alby. Ele estava desacordado, enquanto Minho o arrastava, grunhindo por causa do esforço e do peso.
— Vamos, Minho! — gritava Royce, acenando. — Vem, vem!
O muro estava no meio da sua trajetória, parecendo curtir cada momento do nosso desespero. O som do seu atrito com a terra era perturbador.
— Vem logo! — gritei, o coração acelerado e transbordando de medo. Mas sabia que não iam conseguir. Estavam longe demais.
— Eles não vão conseguir. — sussurrou Percy, o olhar assustado e cravado nos dois garotos.
O muro se fechava. Noventa centímetros. Sessenta.
A pressão em meu peito foi tão grande que fiquei com falta de ar. Parecia que uma bola de metal estava obstruindo minha garganta.
Minho desabou no chão, os braços estirados em direção a Clareira. E foi nesse momento que um impulso percorreu meu corpo.
Me movi para frente. Dei dois passos no inicio, mas depois me lancei para a estreita abertura que ainda havia no muro, antes de se fechar.
— Não! — ouvi o grito de Royce.
— Raphael! — Percy berrou.
Meu corpo entrou no pouco espaço que havia, roçando a parede, que a cada segundo me esmagava contra a outra. Um pânico indescritível me encheu. Iria ser esmagado? Iria morrer assim?
Em meio aquela tensão e desespero, a parte lúcida do meu cérebro que não estava tomada pelo o horror detectou mais alguém junto comigo, dentro do minúsculo espaço, arrastando-se e entrando no Labirinto.
Dei um salto para o lado e cai no chão sujo e poeirento, para dentro do Labirinto. Um segundo depois o muro se fechou, emitindo outro estrondo, que ecoou pelo ambiente como uma risada diabólica, satisfeita por ter tragado mais um.
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