E Ainda Assim, Amor
17 capitulo 17 - Luz e reflexão
O sol de Março brilhava com força sobre Hogwarts, aquecendo suavemente os telhados e fazendo a neve derreter, formando pequenos riachos que serpenteavam pelos caminhos do castelo. Lucy sentiu o ar fresco no rosto enquanto caminhava até a beira do lago, onde costumava ir quando precisava de pensar. As árvores começavam a perder o branco da neve, revelando tons suaves de verde e castanho. Sentou-se à sombra de uma árvore, apoiando os cotovelos nos joelhos, e deixou o silêncio envolvê-la.
Era raro ter momentos assim, de paz completa. O último inverno tinha sido longo, cheio de sombras, mas agora, com o céu azul refletido nas águas do lago, sentiu uma sensação de leveza que quase não lembrava existir.
— Olá, Lucy. — A voz suave a tirou dos seus pensamentos.
Ergueu os olhos e viu Hermione aproximar-se, um livro aberto nas mãos, os cabelos levemente despenteados pelo vento.
— Hermione! Que bom ver-te. — Lucy sorriu, levantando-se para cumprimentá-la.
— Também gosto de te ver, mas parece que escolheste o lugar mais frio do castelo para descansar. — Hermione riu, sentando-se ao lado dela.
Lucy olhou para o lago, contemplando a água que se movia devagar. — Estava a precisar de um momento para mim. Depois de tanto… — pausou, buscando as palavras certas — tanta confusão, este lugar parece… ser só meu por alguns minutos.
Hermione assentiu, compreendendo mais do que Lucy dizia. — Eu sei exatamente como te sentes. Hogwarts é linda, mas às vezes toda esta rotina, este silêncio… pode ser esmagador.
Lucy fechou os olhos, respirando fundo. — Sinto que finalmente consigo começar a respirar de verdade, Hermione. Mas ainda há tantas memórias, tanto que eu não consigo esquecer. — A voz dela falhou um pouco, e Hermione colocou a mão sobre a dela em gesto de conforto.
— É normal, Lucy. E sabes… — Hermione sorriu suavemente — Tu tens feito progressos enormes. Estás a reconstruir a tua vida aqui, passo a passo. Nem toda a gente consegue enfrentar o que tu enfrentaste e ainda sorrir como fazes.
Um vento leve percorreu o lago, mexendo nas folhas secas que começavam a aparecer. Lucy sentiu uma onda de gratidão pelo apoio da amiga. — Obrigada, Hermione. De verdade. Às vezes parece que ninguém entende… mas tu… tu fazes.
— E vais ver, — continuou Hermione, inclinando-se para falar mais baixo, quase como um segredo entre as duas — com o final do ano a aproximar-se, vais conseguir ver os frutos de todo o teu esforço. Vais sentir-te mais confiante, mais preparada. Hogwarts pode ser um desafio, mas também é o teu refúgio.
Lucy sorriu, mas a mente não parava de percorrer lembranças dolorosas. — Às vezes penso que Hogwarts sempre vai ter ecos do passado para mim… lembranças da guerra, do que perdi, das pessoas que… nunca mais voltarei a ver. — A voz tremeu, e Hermione segurou-lhe firmemente a mão.
— Eu sei, Lucy… e é por isso que cada pequena vitória tua importa tanto. Olha para ti agora: estás viva, estás a aprender, a sorrir, a recuperar. Isso não é pouco. — Hermione sorriu encorajadora.
Lucy respirou fundo, sentindo uma coragem silenciosa crescer dentro dela. — Prometo que vou continuar a tentar, Hermione. — Sorriu levemente. — Mas às vezes sinto medo de falhar… de não conseguir lidar com tudo.
Hermione inclinou-se para trás, olhando para o céu azul que começava a tomar tons de laranja com o sol a descer. — Lucy, o medo faz parte do processo. Cada um de nós tem os seus medos, mas a diferença está em como lidamos com eles. E tu tens lidado. Muito melhor do que imaginas.
Enquanto conversavam, McGonagall apareceu a surgir do lado oposto do lago, observando as duas com o habitual olhar firme mas curioso.
— Boa tarde, senhoras. — Disse, aproximando-se com passos precisos. — Não queria interromper, mas achei prudente verificar se a jovem Lucy está a cuidar de si própria.
Lucy corou levemente, levantando-se. — Olá, professora. Estou bem, só precisava de um momento… de tranquilidade.
McGonagall assentiu, os olhos a suavizarem-se um pouco. — E eu compreendo. Um momento de reflexão é essencial, especialmente para alguém que passou por tanto. Lembro-me quando eu tinha a tua idade… Às vezes o silêncio é a melhor forma de compreender os próprios pensamentos.
— É verdade, professora. Lucy tem lidado com tudo de forma admirável — disse Hermione, com um sorriso caloroso.
Lucy respirou fundo, sentindo o orgulho e a ternura misturados. — Obrigada, professora. Tento realmente… aprender a lidar com tudo. Não é fácil, mas quero acreditar que posso encontrar a minha própria força.
McGonagall olhou para o lago, os olhos a refletirem a luz do sol. — E encontrarás, Lucy. O passado molda-nos, mas não nos define. Cada decisão tua, cada passo que dás, mostra o quanto és resiliente.
— Obrigada… prometo que vou continuar a tentar. — Lucy sorriu, sentindo-se mais leve.
A professora assentiu, dando um leve aceno de cabeça, antes de se afastar com passos firmes.
Hermione voltou a olhar para Lucy, encorajadora: — Vês? Até a McGonagall acha que estás a ir bem.
Lucy riu baixinho. — Acho que estou a perceber… que às vezes a força vem mesmo de onde menos esperamos. E que não estou sozinha, apesar de tudo.
O sol aquecia-lhe as costas, o vento leve mexia nos cabelos, e Lucy sentiu-se de repente cheia de possibilidades.
— E sabes — continuou Hermione, sentando-se mais perto — até os feitiços que aprendemos aqui têm algo a ensinar-nos sobre a vida. Cada erro, cada acerto… faz-nos crescer.
Lucy sorriu, pensando nas incontáveis horas na Sala Precisa, nos treinos com Harry, e em como cada momento a tinha moldado. — Tens razão. E acho que finalmente estou a conseguir perceber que posso confiar em mim mesma… que posso realmente escolher a minha própria história.
Hermione apertou-lhe a mão. — Isso mesmo. E lembra-te, não tens de enfrentar nada sozinha. Nunca.
Lucy suspirou, sentindo uma mistura de calma e determinação. — Obrigada, Hermione. Hoje sinto que finalmente consigo ver a luz, mesmo depois de tudo.
O resto da tarde passou com elas a conversar sobre feitiços que estavam a estudar, teorias de poções e pequenas curiosidades sobre Hogwarts. Mas, no fundo, Lucy sentia que tinha encontrado algo mais importante: uma sensação de estabilidade, de pertencimento. Sentia-se capaz de enfrentar os desafios que viriam, sem pressa, aprendendo que cada passo, por menor que fosse, era uma vitória.
Enquanto o sol começava a descer, refletindo-se nas águas do lago, Lucy olhou para a sua própria sombra estendida sobre a relva. Sorriu levemente, sentindo que, finalmente, estava pronta para crescer, aprender e, acima de tudo, acreditar que a vida podia ser gentil consigo.
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